Без категорії
011
Quanto mais longe, mais perto do coração… – Sabes uma coisa, meu querido neto? Se a minha presença te incomoda assim tanto, não há outro remédio! Não vou mais de casa em casa das minhas filhas, nem andar a bater à porta de amigos ou amigas. E não preciso que me arranjem nenhum avô companheiro. Olha só a ideia – querem arranjar-me casamento agora que já passei dos sessenta! – Ó avó, mas não é sobre isto que ando há tanto tempo a falar contigo? E a mãe também já te sugeriu o mesmo! Vai para o lar de idosos, fazes a escritura da casa para o meu nome, eles lá arranjam-te um quartinho, a mãe trata de tudo. Não vais estar sozinha, tens vizinhas para conversar e não me atrapalhas. – Daqui não saio, Sasha. Se te incomodo assim tanto, ali está a porta, segue o teu caminho. És novo, cabeça cheia de ideias, arranja um apartamento e vive como quiseres. Não queres estudar? Vai trabalhar. Podes até trazer uma namorada diferente todos os dias, por mim tudo bem. Eu sou uma mulher da idade, vou fazer 65 daqui a um mês, preciso é de paz e sossego. Já andei de lado para lado, agora está na altura de voltar para casa. Não faz sentido, meu neto, passarem a vida a despachar-me do meu próprio lar e ainda viverem à minha conta e da minha reforma com as tuas namoradas. A reforma não estica! Tens uma semana para te orientar; se não arranjares casa, vai para os teus amigos ou para aquela tua, como é que ela se chama, que nunca me lembro… Mas hoje mesmo quero a casa livre! Agora até me querem casar ou atirar-me para o lar! O neto, indignado, ainda tentou dizer alguma coisa, mas D. Lídia já não o ouvia – fechou-se no seu quarto, dor de cabeça latejante. Ainda pensou em tomar um comprimido, mas teria de ir à cozinha e não lhe apetecia cruzar-se com o neto. Olhou à volta, viu uma garrafa de água de Luso já meio vazia e pensou: “Bem, chega para molhar a boca, não está mal…” *** Nunca pensei ser capaz desta firmeza, pensou Lídia. Mas a revolta acumulada transbordou. Foram dois anos de silêncio e paciência, sempre pronta a ir de casa em casa conforme as filhas pediam, e ainda a correr para o seu próprio lar ao menor sinal de que já estava a mais. E o neto Sasha, rapaz de vinte anos, reinava na casinha dela. Sempre com uma “namorada para a vida” ou outra, e a avó era o estorvo do romance, “a ressonar e a tossir atrás da porta”. – Ó avó, arranja é quem te acolha uns dias, para eu e a Dasha, a Masha, a Patrícia, a Vera (riscando o nome consoante a rapariga da vez) podermos estar sozinhos. Lídia passava temporadas em casa da prima, da comadre, ou da antiga colega. No início ainda era alegria para as amigas, mas a frequência acabou por cansar todos e Lídia percebeu que também já estava a ser um incómodo. *** Quando a casa das amigas também já não era solução, a filha mais velha teve bebé, numa Lisboa cara, com empréstimo para pagar e outro filho a estudar – precisavam muito da ajuda da avó. E enquanto tudo era novidade, tudo corria bem; casa arrumada, jantares quentes, netos impecáveis. Mas passado pouco tempo, o genro – dez anos mais novo que a sogra – começou a mostrar descontentamento: – Dona Lídia, já lhe disse para não trazer essas salsichas, que nem saúde fazem! Se está sempre em casa, não custa nada fazer comida a sério – uns croquetes, uns bifes… – Dona Lídia, está a gastar muito dinheiro em supermercado! Tem de ser mais poupada! – E carne? Não sou cabra para andar a roer verdura, minha senhora! E era assim em tudo. Sempre a exigir-lhe que fosse professora da neta, para não gastar com explicadores, e ainda lhe diziam para não estar a conversar ao telefone, que faz barulho demais. E a neta mais velha, já do 4º ano, cheia de manias – piadas à roupa da avó, vergonha nas amigas, protestos porque a obrigava a estudar. – Vai mas é para a tua casa na aldeia, avó, e manda lá! Lídia sempre calada, tentando agradar: comprava carne para o genro, dava mesada à neta para compensar “a vergonha”, transferia até dinheiro ao neto Sasha para ajudar a pagar luz e água. Queixar-se à filha, nem pensar; ela sempre ao lado do marido! Às vezes, quando ele não estava, murmurava: “Mãe, aguenta, é por mim…” Quando a mais nova pôs a filha no infantário, logo já não houve necessidade de avó – o genro avisou: “Obrigado, Dona Lídia, mas já não precisamos, pode regressar à sua casa.” Foi feliz da vida para casa – finalmente senhora do seu nariz! Mas… lá estava o neto Sasha instalado com a “namorada”, a casa num caos, contas em atraso e dívidas por pagar. Lídia lá pediu um empréstimo, pôs tudo em ordem. E o neto a resmungar que a casa era pequena e a avó incomodava-lhe a privacidade. Parecia destino: sempre que se compunha, vinha logo outro pedido da filha mais nova para ajudar. Ficou lá três meses até perceber que estava a mais e voltou para casa – e de novo, queixas do neto. Se calhar ainda teria aguentado mais uns tempos se não fosse aquele episódio do regresso a casa: *** – Sasha, vou à comadre festejar o aniversário, volto tarde. Trancai as portas, entro por trás para não acordar ninguém. – Não ficas lá a dormir? Assim andas às voltas à noite, barulho para quê… – Não, durmo em casa. Festa animada em casa da comadre, boas memórias, tentavam evitar falar de tristezas. Quando se preparava para sair, a comadre recebe um telefonema – era a filha de Lídia, a perguntar se ela podia acolher a mãe nessa noite porque o neto queria estar sozinho com a namorada. – Olha, ela só me pediu para ficares cá a dormir – conta a comadre. – E sabes, Lídia, quando está tudo mesmo bem, as filhas não ligam a pedir ajudas dessas a terceiros… Contou-lhe tudo: as agruras, as filhas, o neto mimado. Que só se sentia um peso na própria casa. Não ficou a dormir, voltou para sua casa. E, mal chegou, despejou ao neto tudo o que andava atravessado. Rafaela, a filha, ligou-lhe a ralhar por ter tratado mal o neto, mas Lídia não mudou uma vírgula. O neto lá se mudou e avisou que não contasse com ele para nada. Lídia ficou sozinha – mas que bom foi, finalmente em paz! Sempre a viver pelos outros, agora decidiu: não voltava a sair de casa para agradar a ninguém. Trazem-me os netos, fico com eles de bom grado, mas na minha casa é que sou rainha! Lídia diz sempre: quanto mais longe, mais perto do coração. E a verdade é que tem razão.
Quanto mais longe, mais próximo… Sabes, meu querido neto, se eu vos incomodo tanto assim, então
Без категорії
09
Quando Dois Azarados se Tornam Família: Como um Gato Chamado Nevik e um Chihuahua Assustador Transformaram Nosso Lar com Suas Peripécias, Maus Presságios e, Enfim, Muito Amor à Portuguesa
A minha mulher levava o cão ao veterinário e já começava a pensar que cometeu um erro fatal.
Без категорії
039
Uma menina entrou num restaurante em Lisboa. Viu restos de comida num prato deixado numa mesa e começou a comer. Um empregado de mesa reparou nela, aproximou-se e, sem dizer uma palavra, tirou-lhe o prato da frente. Uma história emocionante que tens de ler até ao fim! Maria tinha 8 anos. Era uma das cinco irmãs de uma família carenciada. O pai tinha ido embora e a mãe batalhava diariamente para colocar algo na mesa para os filhos. Cada dia era uma verdadeira luta pela sobrevivência. Apesar da tenra idade, Maria ia, sempre que podia, à praça ajudar uma senhora nas bancas, ganhando uns trocos que entregava, feliz, à mãe. Num sábado à hora de almoço, Maria voltava da praça e, como de costume, passava em frente a um restaurante. Os aromas irresistíveis faziam-na sonhar acordada com o sabor daquelas comidas… e um bolo de chocolate, então, era coisa que só conseguia imaginar nos sonhos mais bonitos. Mas naquele sábado, não resistiu: abriu timidamente a porta do restaurante e entrou. Com sapatinhos velhos e roupa coçada, Maria sentiu-se ainda mais pequena do que os seus 8 anos. Ia sair, mas viu numa mesa uma fatia de bife com batatas fritas, esquecida num prato. A comida era tão apetecível, e ela já nem se lembrava da última vez que tinha provado carne. Sentou-se timidamente à mesa e agarrou nos talheres. Maria não reparou que um empregado a observava desde que entrou. Aproximou-se de imediato e, antes que a menina desse a primeira trinca, tirou-lhe o prato! Olhos marejados de lágrimas, Maria fitou o empregado, esperando ser repreendida ou posta na rua. Mas, com um olhar bondoso, ele foi para a cozinha, deixando-a confusa e assustada. Pouco depois, voltou com uma travessa de comida quente, uma bebida fresca e, no fim, um bolo de chocolate — o seu maior desejo. Os olhos de Maria brilharam de alegria e gratidão. – Vi que tinhas fome, disse o empregado com um sorriso. Todos merecem uma boa refeição, especialmente uma criança. Sem palavras, Maria começou a comer. Depois levantou-se, limpou as lágrimas e foi agradecer-lhe. Pedia, tímida, se podia levar o resto para os irmãos, pois a mãe não tinha dinheiro para pão no dia anterior. O empregado ficou emocionado. Foi à cozinha e, em vez de só um resto, trouxe uma sacola cheia de comida para toda a família. – Que todos em tua casa tenham hoje uma refeição quente, disse ele comovido. – Obrigada, senhor, nunca esquecerei a sua bondade. Como lhe posso retribuir? – perguntou Maria com humildade. – Já me deste uma grande lição de vida, respondeu ele. Devemos sempre partilhar e ajudar o próximo, assim tornamos o mundo um lugar melhor. Maria saiu do restaurante não só de estômago e mãos cheias, mas com uma valiosa lição de vida no coração. Desde esse sábado especial, nunca deixou de se lembrar do empregado generoso e fez sempre questão de, com gestos pequeninos, espalhar sorrisos e ajuda à sua volta — perpetuando a bondade recebida num simples restaurante lisboeta, num dia igual a tantos outros… mas que mudou tudo.
Uma menina entrou de mansinho num restaurante em Lisboa. Os olhos escuros de Leonor fitaram uma mesa
Без категорії
012
Senhorita, quando este velhote terminar a sopa barata dele, por favor, traga-me a mesa dele, não tenho tempo a perder! Estou generoso hoje, ponha a conta dele na minha. Mas o humilde senhor havia de dar uma lição inesquecível ao ricaço! Naquele pequeno restaurante, num recanto sossegado de Portugal, o tempo parecia correr de outro modo…
Querido diário, Hoje foi o género de dia care te face reflectir Profundamente. Nunca voi esquecer ce
Без категорії
07
Uma velhinha encontrou um colar no chão da igreja e decidiu não o devolver… Até descobrir a verdade escondida nas fotografias do medalhão que mudaria o seu destino para sempre numa aldeia portuguesa
Numa antiga igreja duma aldeia portuguesa, o tempo parecia parar. O aroma a incenso envolvia o ar, as
Без категорії
013
Velhinho levanta-se com dificuldade da cama e, apoiando-se na parede, vai até ao quarto ao lado. À luz do candeeiro, olha com olhos cansados para a esposa deitada: «Não se mexe! Será que morreu? – ajoelha-se. – Parece que respira». Levanta-se e segue lentamente para a cozinha. Bebe um iogurte líquido, vai à casa de banho. Depois regressa ao seu quarto. Deita-se. Não consegue dormir: «Eu e a Lena já temos noventa anos. Tanto que vivemos! Já não falta muito para partirmos, e não há ninguém por perto. A nossa filha, a Natasha, morreu antes dos sessenta. O Maxim morreu na prisão. Temos uma neta, a Oxana, mas já vive na Alemanha há vinte anos. Nem se lembra dos avós. Se calhar, os filhos dela já são grandes». Adormece sem dar por isso. Acorda ao sentir um toque: – Kosti, estás vivo? – ouve-se uma voz baixinha. Abre os olhos. A esposa está inclinada sobre ele. – O que foi, Lena? – Olhei para ti e vi que não te mexias. Assustei-me, pensei que tinhas morrido. – Ainda estou vivo! Vai dormir! Ouvem-se passos arrastados. Clica o interruptor na cozinha. Elena Ivanovna bebes um copo de água, vai à casa de banho e dirige-se ao seu quarto. Deita-se na cama: «Um dia destes acordo e ele já faleceu. O que faço? Ou se calhar, morro eu primeiro. O Kosti já tratou do nosso funeral. Nunca pensei que se pudesse organizar o próprio funeral. Mas, de certa forma, é bom. Quem nos há de enterrar? A neta esqueceu-se de nós. Só a vizinha, a Paulina, é que vai lá a casa. Tem uma chave da nossa porta. O velhote dá-lhe dez mil euros da nossa reforma. Ela compra tudo – comida e medicamentos. Para que queremos dinheiro? E do quarto andar já não descemos sozinhos». Konstantin Leonidovitch abre os olhos. O sol espreita pela janela. Vai até à varanda. Vê a copa verde da cerejeira. Sorri: «Até ao verão chegámos!» Vai ver a esposa. Ela está sentada na cama, pensativa. – Lena, chega de tristezas! Anda cá que quero mostrar-te uma coisa. – Ai, nem forças tenho! – a velhota levanta-se lentamente. – O que é que estás a inventar agora? – Anda, anda! Segura-lhe nos ombros e leva-a à varanda. – Olha, já está tudo verde! E tu dizias que não íamos chegar ao verão. Chegámos! – Olha, pois é! E o sol já brilha. Sentam-se no banquinho na varanda. – Lembras-te quando te convidei para ir ao cinema? Ainda na escola. Nesse dia também a cerejeira ficou verde. – Como poderia esquecer? Quantos anos passaram? – Setenta e tal… Setenta e cinco. Ficam sentados a recordar a juventude. Muito se esquece na velhice, até o que se fez ontem, mas a juventude nunca se esquece. – Ai, já estamos aqui a conversar há muito! – abana-se a esposa. – Ainda nem tomámos o pequeno-almoço. – Lena, faz um chá bom! Já farto dessa infusão de ervas. – Mas não podemos. – Faz mais fraquinho e põe só uma colherzinha de açúcar. Konstantin Leonidovitch bebe o chá pouco forte, acompanhando com uma sandes de queijo. Lembra-se dos tempos em que ao pequeno-almoço tomavam chá forte e doce, com bolos ou pastéis. A vizinha entra e sorri: – Como é que estão hoje? – Que assuntos pode ter quem tem noventa anos? – brinca o avô. – Bem, se brinca, é porque está tudo bem. Querem que compre alguma coisa? – Paulina, traz carne! – pede Konstantin. – Mas não vos faz bem. – De frango pode ser. – Pronto, eu compro. Faço uma canja para o almoço! – Paulina, compra qualquer coisa para o coração, – pede a velhota. – Dona Elena, ainda há pouco comprei. – Já acabou. – Querem que chame o médico? – Não é preciso. A vizinha arruma, lava a loiça. E sai. – Lena, vamos para a varanda, – propõe o marido. – Ao menos estamos ao sol. – Vamos! Estar aqui fechados é que não. A vizinha regressa. Vai à varanda: – A sentir falta do sol, não é? – É tão bom aqui, Paulina! – sorri Elena Ivanovna. – Já vos trago a papa. E vou já pôr a canja ao lume. – Que boa mulher, – comentam depois. – O que era de nós sem ela? – E tu só lhe dás dez mil por mês. – Lena, pois é, mas deixámos-lhe a casa, tudo no notário. – Ela nem sabe disso. Ficam na varanda até à hora do almoço. Almoçam canja de galinha, bem saborosa, com carne picadinha e batata esmagada. – Sempre fiz assim para a Natasha e o Maxim quando eram pequenos, – lembra-se Elena Ivanovna. – Agora, na velhice, são outros que cozinham por nós, – suspira o marido. – Kosti, é o nosso destino. Morremos os dois e ninguém vai chorar por nós. – Chega, Lena, não fiquemos tristes. Vamos dormir um bocadinho! – Dizem que “velho é como criança”. Temos tudo igual: sopa passada, sesta, lanche. Konstantin descansa, mas não consegue dormir muito. Sente-se estranho. Vai à cozinha. Dois copos de sumo preparados pela Paulina estão sobre a mesa. Traz os dois copos e cuidadosamente entra no quarto da esposa, que observa a janela, pensativa: – O que foi, Lena? Estás triste? – sorri. – Bebe um sumo! Ela bebe um gole: – Também não consegues dormir? – É o tempo, a tensão não ajuda. – Eu desde manhã não me sinto bem, – diz Elena Ivanovna, resignada. – Sinto que não me resta muito nesta vida. Dá-me um enterro bonito. – Lena, não digas disparates. Como vou viver sem ti? – Um de nós há de ir primeiro. – Basta! Vamos para a varanda! Ficam ali até ao entardecer. Paulina faz queijo fresco. Comem e sentam-se a ver televisão, como todas as noites. Os filmes novos já não compreendem muito, gostam de rever as comédias e desenhos animados antigos. Hoje só viram um. Elena Ivanovna levanta-se do sofá: – Vou dormir. Já estou cansada. – Também vou. – Deixa-me olhar bem para ti! – pede-lhe a esposa de repente. – Porquê? – Só quero olhar. Ficam muito tempo a olhar um para o outro, talvez a recordar quando eram jovens. – Deixa-me acompanhar-te até à cama. Elena Ivanovna dá o braço ao marido e vão devagar. Ele cobre-a cuidadosamente e regressa ao seu quarto. Sente um peso enorme no coração. Custa-lhe a adormecer. Julga não ter dormido, mas o relógio marca duas da manhã. Vai ao quarto da esposa. Ela está de olhos abertos, a olhar o teto: – Lena! Toca-lhe na mão – está fria. – Lena, que se passa! Le-e-e-na! De repente, também lhe falta o ar. Vai à sua sala, tira os documentos preparados, põe-nos na mesa. Volta ao quarto da mulher. Fica longo tempo a olhar-lhe o rosto. Depois deita-se ao lado dela e fecha os olhos. Vê a sua Lena, jovem e bonita, como há setenta e cinco anos. Caminha para onde há luz ao fundo. Corre até ela, apanha-lhe a mão… De manhã, Paulina entra no quarto. Estão deitados lado a lado, com o mesmo sorriso feliz nos rostos. Mal recomposta, a vizinha liga para o INEM. O médico observa-os e balança a cabeça, surpreendido: – Morreram juntos. Devem ter-se amado muito. Levam-nos. Paulina senta-se exausta à mesa. E ali vê o contrato do funeral e… o testamento em seu nome. Enterra o rosto nas mãos – e chora.
O velhote levantou-se da cama com esforço, agarrado à parede para não perder o equilíbrio, e seguiu cambaleante
Без категорії
018
Olá, sou a amante do seu marido. Afastei a revista de design que estava a ler e encarei a loira elegante que apareceu à porta do meu escritório. Ela sorriu com superioridade e anunciou: — Tenho más notícias para si — estou grávida, obviamente do seu marido. Perguntei de forma profissional: — Tem comprovação médica? — Ela sorriu vitoriosa e tirou da sua mala de couro cara um papel com carimbo azul. Estava bem preparada. Examinei o documento atentamente. Era verdadeiro, o que não me surpreendeu. Quando se vai dar uma notícia destas à esposa do amante, falsificações baratas não servem. — Muito bem — concordei. — Parece que está mesmo grávida. Agora só falta fazermos um teste de paternidade para confirmar que é do meu marido e ficará tudo resolvido. A loira começou a vacilar: — Resolvido como? — perguntou hesitante. Expliquei, com toda a calma: — O meu marido assumirá a pensão, eu trato de lhe arranjar um bom médico, reservo uma clínica de topo para o parto — pode ter o bebé descansada, sem preocupações. Ela perturbou-se: — Não está a perceber? O meu filho precisa de um pai! Fui condescendente: — Os nossos três filhos também precisam de um pai e, felizmente, têm-no. Mas não se preocupe, o meu marido vai ver o seu bebé, pode até levá-lo à escola. Pode deixar o seu filho connosco de vez em quando — temos excelentes amas e eu adoro crianças. Assim terá tempo livre para organizar a sua vida. Acredite, ter tempo quando se tem um filho é difícil. A loira levantou-se num gesto brusco, apertando a mala entre as mãos. O rosto bem maquilhado distorceu-se: — A senhora não entende? Eu tenho um caso com o seu marido. Estou grávida dele. Ele já não a ama, agora ama-me a mim! Fiquei séria. Senti pena daquela jovem, mas a vida rápidamente quebra ilusões românticas, mesmo nos que sonham apanhar um marido rico sem esforço. — Querida, é a quarta que me aparece assim. A primeira nem trouxe comprovativo, a segunda e a terceira tinham papéis falsos… Houve até uma em que a paternidade não se confirmou. Nunca negámos apoio a ninguém, mas falsidades nem o meu bondoso marido tolera. A loira estava perdida, mas continuei: — Quanto ao seu caso com o meu marido, ele também dorme comigo e com outras candidatas. Não seria justa se o impedisse destas fraquezas, até porque isso não afecta nem a mim, nem aos nossos filhos… Deixe o seu contacto, amanhã ligo-lhe para marcar o teste de paternidade. Ela saiu a correr, nervosa. Acendi um cigarro. Já esperava este encontro, conhecendo o novo caso do meu marido. Aguentei tal como os anteriores, apesar de não ser fácil. Seria muito mais simples fazer uma cena e deixar o meu marido rico e bem-sucedido fugir para outra. Foi assim que ele deixou a primeira mulher por mim, quando anunciei a gravidez à sua esposa. Ela fez um escândalo, ele odiava gritaria e lágrimas. Casou comigo, afinal eu estava mesmo grávida. E depois tive mais dois filhos. No fundo, sempre soube que quem trai uma vez trairá sempre. Podem surgir novas candidatas a esposa. Mas nunca vou repetir o erro da anterior mulher dele, nem dar oportunidade às próximas. Aguento-me. Eu consigo.
Olá, sou amante do seu marido. Pousei o esboço da revista que revisava e encarei a loira deslumbrante
Без категорії
019
A Vida é Como a Lua: Ora Cheia, Ora Minguante Achava que o nosso casamento era sólido e eterno como o universo. Infelizmente, não foi assim… Conheci o meu futuro marido, Dimas, na Faculdade de Medicina em Lisboa, quando ainda éramos estudantes. Casámo-nos no quinto ano. A minha sogra, como presente de casamento, ofereceu-nos uma viagem à Jugoslávia (hoje Eslovénia) e as chaves de um apartamento. E isso foi só o começo. Assim que nos tornámos marido e mulher, mudámo-nos logo para um T3. O sogro e a sogra davam uma força enorme à nossa família. Todos os anos, eu e o Dimas percorremos a Europa, sempre graças aos pais dele. Éramos jovens e felizes. Tínhamos a vida pela frente. O Dimas era virologista, eu, clínica geral. Trabalhávamos, cuidávamos de pessoas, amávamos. Nasceram os nossos filhos: Daniel e Vasco. Anos depois, percebo que, naquela altura, a minha vida era um rio caudaloso. Posso dizer com toda a certeza que vivi no luxo durante os dez anos de casamento. Tudo ruiu num instante. …Campainha. Abro a porta. Estava lá uma rapariga bonita, mas com um ar aflito. – Quem procura? – perguntei, serena. – É a Sofia? Então é consigo que quero falar. Posso entrar? – hesitou a desconhecida. – Entre, – já estava intrigada. Ao olhar melhor, reparei que estava grávida de poucas semanas. – Sofia, eu sou a Tatiana. Eu sei que devia ter vergonha, mas amo muito o seu marido. O Dimas também me ama. Vamo-nos tornar pais, – atirou a Tatiana de rompante. – Hm… Inesperado. É só isto? – comecei a ferver. – Não, – tirou do bolso um bonito anel. – Fique com isto, Sofia. Abri a caixa: era um anel de ouro. – Mas isto serve para quê? Acha que vai comprar o meu marido? O Dimas não está à venda! Pode levar de volta! – fechei a caixa e fiquei irritada. – Sofia, não quero ofender. Sinto-me tão culpada! Não sei o que fazer… Sei que você e os seus filhos vão sofrer. A minha mãe sempre me avisou: “filha, apaixonares-te por homem casado, só te vais magoar!” Mas não consigo viver sem o Dimas! Aceite pelo menos isto! Pode ser que me sinta menos mal! – A Tatiana desatou a chorar. Por um segundo, tive pena dela. Mas quem teria pena de mim? Esta oportunista roubou-me a felicidade e eu ainda me vou pôr a ter pena dela… Recuperei a caixa, recusei o “suborno” e pus a rival fora de casa. Foi nesse momento que a minha vida começou a desmoronar… A sogra telefonou a dar a notícia: Dimas vai deixar a família. A Dona Nina veio cá a casa e pediu para eu fazer as malas do filho. Apontei para o armário, ainda sem acreditar. Ela arrumou tudo com muito cuidado na mala que tinha trazido. – Sofinha, apesar de tudo, continuamos família. Agora, o Dimas e a Tatiana são como vitelos: onde param, ali ficam! – tentou consolar-me a Dona Nina. Meio ano depois, a Tatiana deu à luz uma filha do Dimas. Ouvi dizer que ele acabou por adotar também a filha anterior da Tatiana. Nesse tempo, nunca veio visitar os nossos filhos nem uma vez. Mandava, pela sogra, umas esmolas para as crianças, chamadas de pensão de alimentos. Eram os anos 90. Acabei internada em Santa Maria com um esgotamento nervoso. Os meus filhos, Daniel e Vasco, ficaram a viver na casa dos avós, sempre muito mimados. Quando saí do hospital, fui logo buscá-los, mas recusaram-se terminantemente a sair do conforto da casa da avó. Argumentavam que lá não lhes faltava nada e podiam comer doces à vontade. Dona Nina pediu-me: – Sofinha, deixa os rapazes ficarem cá, ao menos até resolveres a situação do apartamento. Sozinha, não vais conseguir manter um T3 em Lisboa. Uma T1 chega-te, não? Voltei sozinha para a minha nova casa: um minúsculo T0, paredes descascadas, canalização antiga, chão de madeira a ranger. Os meus filhos continuavam com os avós. Eu só podia visitá-los em datas especiais. – Sofinha, não fales aos rapazes do passado nem lhes tires a paz, – respirou fundo Dona Nina. – Vai refazer a tua vida. Os meus filhos iam afastando-se de mim. O laço materno perdeu-se durante muitos anos. Só me apetecia esconder-me no canto gelado do minúsculo apartamento e esquecer que existia. Perdi o gosto pela vida. A minha avó costumava dizer: “A vida é como a lua – ora cheia, ora minguante.” Percebi que não podia continuar assim. Acabei por conseguir sair do buraco. …Através do trabalho fui enviada para uma conferência em França. Lá conheci um médico sérvio, Joanes. Ainda hoje não entendo como comunicávamos tão bem. Acho que nem eram precisas palavras. Tivemos um romance intenso. Foram dez dias inesquecíveis e, no regresso, já me sentia de novo viva. Comecei a sair, mas não surgiu nada de sério. A sogra ainda notou: – Sofia, estás muito mais bonita! Mulher-primavera! A vida seguiu e a minha melhor amiga, Olga, antes de emigrar para a Grécia, convidou-me para uma última visita. A Olga estava prestes a casar com um grego. – Sofia, vou casar com um grego. Cansei dos nossos bêbados. Quero viver como uma mulher normal, – disse com lágrimas nos olhos. – Então porque choras? A vida começa agora, aos 40! – não percebia as lágrimas da amiga. – Bom, Sofia! O meu Alexandre não sabe de nada. Quero apresentar-vos. Se gostares dele, fica com ele. Ofereço-to! – brincou a Olga. Ora, se o noivo aparece, põe-se a mesa… Fiquei com o Alexandre. Assim, o Alexandre tornou-se meu segundo marido. Tinha um defeito grave: era alcoólico. Mas eu, feita tola, não conseguia imaginar a vida sem ele. Vieram anos difíceis: clínicas, reabilitação, lágrimas… – Sofia, sou feliz assim! Não quero deixar de beber, – dizia-me ele. E mesmo assim, não me passava pela cabeça abandoná-lo. Quis lutar pelo meu homem, tal como a Tatiana tinha lutado pelo meu primeiro marido. Foram sete anos de batalha… O Alexandre acabou, finalmente, por se acalmar. Arranjou trabalho como motorista numa morgue. O que lá vê diariamente impressiona qualquer um. Mas agora sou feliz! Tenho finalmente um marido calmo, caseiro – e, acima de tudo, sóbrio! Quando a Olga cá vem da Grécia, não acredita: – O Alexandre não bebe? Inacreditável! E eu, a rir: – Não tem direito a devolução! …Os meus filhos cresceram. Já têm mais de 30 anos e continuam solteiros. Viram demais em crianças e agora nem pensam em casar. Tive esperança de ter netos… mas tenho dúvidas. …Do meu ex-marido, pouco há a acrescentar. A Tatiana, a segunda esposa, acabou por se perder no álcool. A filha deles criou o próprio filho sozinha. O Dimas casou-se uma terceira vez, agora com uma enfermeira do centro de saúde. Mas, antes, ainda perguntou aos nossos filhos: – Acham que a vossa mãe quer recomeçar comigo? Respondi-lhe logo: – Só no dia de São Nunca à tarde! Ou seja, nunca!
VIDA, COMO A LUA: ORA CHEIA, ORA MINGUANTE Sempre pensei que o meu casamento era inabalável e eterno
Без категорії
0168
“Depois da minha morte vais ter de sair, vou deixar o apartamento para o meu filho…” — Desculpa, Graça, mas depois da minha morte terás de deixar este apartamento — disse António à esposa — vou deixá-lo para o meu filho. Já tratei de tudo com o notário. Espero que não guardes rancor? Tu tens os teus filhos, serão eles a cuidar de ti. A vida nunca foi fácil para Graça. Cresceu num orfanato, nunca conheceu os pais. Casou cedo por amor, mas não foi feliz. Há trinta e cinco anos, era ainda jovem e mãe de dois filhos pequenos, ficou viúva — o marido, Manuel, morreu tragicamente. Durante cinco anos lutou sozinha, trabalhando muito para não faltar nada ao filho e à filha, até que conheceu António. Felizmente, Graça tinha casa própria — herdara o apartamento do marido. O novo companheiro tinha mais treze anos do que ela, era dono de um T3 e tinha bom emprego. Juntaram-se depressa e Graça aceitou de imediato a proposta de viverem juntos. António deu-se logo bem com os filhos da namorada. A filha mais velha, Violeta, era ao início reservada, mas António conseguiu ganhar-lhe a confiança. O filho mais novo, Bruno, chamou logo “pai” ao padrasto. António tratou sempre os filhos da mulher como seus, nunca faltou com nada, carinho ou atenção. Violeta e Bruno eram-lhe gratos por uma infância feliz. *** Tanto Bruno como Violeta já viviam há muito por conta própria. Violeta casou cedo e voou do ninho. Bruno, que queria ser militar, também há muito saiu de casa. Dez anos antes, Graça chamou ambos para uma conversa importante: — Quero vender o nosso T2 — anunciou-lhes — temos de fazer obras aqui em casa: renovar móveis, substituir tubagens, mudar tudo. Aquele T2 está vazio há anos, só está a gastar-se. Queria saber se concordam. Vendemos e dividimos? Violeta encolheu os ombros: — Por mim, tudo bem. Não tenho interesse na casa, mas se der para ajudar, aceito a minha parte. Como sabes, o meu filho precisa de tratamentos. Violeta, o seu filho mais velho, nasceu com uma doença que afetava a mobilidade. Precisava de dinheiro para reabilitações e viagens a Lisboa, onde fazia tratamentos caros. Bruno apoiou a irmã: — Também concordo. Dá a minha parte à Violeta, mãe. Prefiro ver o Graciano a ter hipóteses de melhorar. A minha casa vou pagando devagar. Graça vendeu o T2 e deu metade do dinheiro à filha, usando o resto para remodelar o apartamento do marido. Fez tudo: eletricidade, canalização, móveis novos, eletrodomésticos pagos por ela. Mal sabia, que esse investimento num lar que não era só dela acabaria mal. Nem imaginava, depois de trinta anos de casamento, a traição do marido. Os problemas de saúde do António agravaram-se há quatro anos. Doíam-lhe sempre os joelhos, às vezes nem conseguir sair da cama conseguia. Graça insistia: — António, vai ao médico, trata-te! Precisas de cuidar de ti. — Bem sei, mas vão só receitar coisas caras e nada adianta! Já sofro disto há vinte e cinco anos… Violeta gostava muito do padrasto, tal como Bruno, por isso convenceu-o a ir ao médico com Graça. O diagnóstico foi claro: tinham de tratar urgentemente as articulações. O excesso de peso agravava tudo: dieta e medicação eram urgentes. Graça planeou as refeições, só fazia pratos saudáveis, trocou doces por fruta. António recusava-se a obedecer, resmungava e irritava-se sempre, mas Graça insistiu até ele aceitar tratar-se. A medicação não ajudava muito. António mal conseguia andar, ela tinha de levá-lo à casa de banho, dava-lhe banho. Entretanto, surgiram problemas do coração, da tensão, foi ficando cada vez pior. Violeta e Bruno passaram a visitá-lo mais para apoiar a mãe. *** Durante anos António lutou pela vida, com altos e baixos. Graça nunca o abandonou nem pensou deixá-lo, mesmo nos piores momentos. Meia dúzia de meses antes, numa recaída, António foi internado. Graça passava os dias e noites no hospital. Um dia, enquanto embalava comida para levar ao marido, bateu-lhe um estranho à porta: — Boa tarde, posso ver o senhor António Lopes? Graça, estranhando, respondeu: — Ele está no hospital neste momento. Desculpe, quem é que o procura? — Chamo-me Sérgio. Sou filho do António Lopes. Graça ficou boquiaberta: o rapaz era cópia do marido em novo. Sérgio, percebendo o embaraço, explicou: — Queria muito falar com o pai. Não o vejo há muitos anos… Graça convidou-o a entrar e contou-lhe tudo. Assim ficou a saber do primeiro casamento do marido, do filho de quem ele nunca falava. António contou finalmente a história: — Vivi com a mãe do Sérgio só quatro anos. Saí de casa quando ele tinha três. Foi ela que quis perder o contacto, casou com outro, meu primo, e proibiu-me de ver o rapaz. Ainda tentei, mas fui afastado… Graça sugeriu que não virasse costas agora ao filho, era sangue do seu sangue, não tinha culpa do passado. António junta-se então com Sérgio, que começa a aparecer todas as semanas, sempre fechado no quarto com o pai. Graça nunca desconfiou de nada, viviam de poupanças de que só ela ainda trabalhava. As economias, resultantes da venda da antiga casa, estavam no banco. Um dia, surpresa com uma mensagem, percebeu que levantaram 10 mil euros da conta principal. — António, alguém tirou dez mil euros do nosso dinheiro! António respondeu, indiferente: — Dei o cartão ao Sérgio, ele precisava. Graça ficou de coração apertado: — Mas… nem sequer me avisaste? Porquê? — Não tens de te meter. O meu filho pediu, eu dei. Incomodada, bloqueou o cartão. Sérgio apareceu revoltado porque “a tia” lhe cortou o acesso ao dinheiro do pai. — Esta poupança é minha, Sérgio. Não tens direito! Discutiram. António ficou azedo e cada vez mais grosseiro. Dias depois, enquanto Graça passava uns dias em casa da filha, António anunciou: — Fui ao notário. Deixei esta casa ao Sérgio. Quando eu morrer, vais ter de sair. Graça silenciou, pegou nas suas coisas e mudou-se para a casa de Bruno, o filho, recusando ser tratada como oportunista. António foi ao tribunal tentar evitar o divórcio, acabando Graça por conseguir a separação e ficando marcada, para o marido e o enteado, como a mulher interesseira de olho no imóvel dos outros.
Depois que eu me for, vais ter de sair, eu vou deixar o apartamento para o meu filho Desculpa, Matilde
Без категорії
026
A Escolha «E afinal, o Fábio é mais casado do que eu pensava…» — suspirava a Sílvia, sentada num banco do jardim e apertando no bolso o encaminhamento para a cirurgia. As colegas de quarto no lar universitário invejavam-na quando a viam na companhia daquele moreno elegante, de olhos azuis e barba feita, achando que tinha sorte com tão cavalheiro pretendente. Mas, no fim de contas, não havia nada para invejar. Sílvia estremeceu ao recordar o primeiro e último encontro com a esposa do Fábio, que a esperava à porta da fábrica para lhe explicar como as coisas realmente eram. — Olá! És a Sílvia, certo? — começou ela. — Quem é a senhora? — assustou-se Sílvia, sentindo o olhar perfurante da mulher alta e elegante, de cabelos louros platinados. — Sou a Olívia, esposa do Fábio Menezes. — O quê? — Ouviste bem. — Mais uma ingénua — comentou a mulher com calma — e quantas como tu há por aí? Nunca acabam as caçadoras da felicidade alheia. — Olhe que se está a exceder! — Vá com calma — a loira segurou com firmeza o braço de Sílvia —, quem se excede és tu. Eu sou a legítima esposa. Vi-te com o meu marido, e ainda vens armar atrevida em vez de te ires embora cabisbaixa. Isso é para quem tem princípios, o que não parece ser o caso. Mulheres como tu — e lançou um olhar avaliador — já foram tantas que faltam dedos das mãos e dos pés para contar. Ficar com um homem casado… Que falta de vergonha! Ele é homem, é caçador. Percebeste? Para ele és só mais um capricho. Vai-se divertir e depois nem quererá lembrar o teu nome. Mantém distância. Aliás, temos duas filhas, posso mostrar-te a foto da família. — Olívia tirou uma fotografia e entregou à atónita Sílvia. — Aqui está! Prova do grande e puro amor. Foi tirada em Albufeira, há dois meses… Então, calaste-te porquê? — O que quer de mim? Resolva os seus problemas com o seu marido. — E vou resolver, não te preocupes! Ele entrou nesta fábrica há pouco tempo. O salário é bom e, de repente, apareces tu para estragar tudo. Sai por bem. Não ligues a promessas, o Fábio não pensa separar-se. Não percas tempo. Quantos anos tens? Já trinta? — Vinte e cinco! — respondeu Sílvia, sentida. — Mais razão ainda. Ainda vais a tempo de casar e ter filhos. Deixa lá o Fábio em paz. Sílvia já não quis ouvir mais nada. Saiu dali de pernas bambas, do mundo feliz que de repente aquela mulher destruíra, riscando todos os seus sonhos cor-de-rosa. — Traidor… — murmurou Sílvia, sentindo um nó na garganta, mas não podia mostrar emoções na rua. Não queria dar azo a mexericos no emprego. À noite, como se nada tivesse acontecido, o Fábio apareceu com flores. Sílvia, com os olhos inchados, expulsou-o de casa apesar das promessas de amor eterno e da suposta separação que nunca chegaria, alegando que ele e a esposa já eram completos estranhos. Duas semanas depois, Sílvia ainda tentava recuperar-se. O Fábio não voltou a procurá-la. Fazia de conta que não a conhecia, desviando o olhar no corredor da fábrica. Mas desgraça pouca é bobagem… As náuseas matinais e tonturas Sílvia pensava serem do desgosto, até que percebeu: o romance ingénuo e apaixonado com o Fábio dera fruto. «Seis semanas», soava quase como sentença. Sílvia não queria ser mãe solteira. Tinha medo. Achava que todos viam e a julgavam, por ter confiado num homem que não conhecia de verdade. O Fábio escondeu-lhe o casamento. Que podia fazer ela? Pedir o cartão de cidadão ao conhecer alguém? Ele não usava aliança… Nem todos os casados usam. E por que não desconfiou quando ele pediu para manterem a relação em segredo no trabalho? Ele enganou-a, mas saber isso não a consolava. E todos já cochichavam sobre a visita da esposa à porta da fábrica. — Estou grávida. — Sílvia, sem saber a quem recorrer, contou ao ex-amante no intervalo do almoço. — Dou-te dinheiro, mas resolve isso — murmurou ele em tom frio. No dia seguinte, o Fábio demitiu-se. Desapareceu da vida dela para sempre. Sílvia percebeu que não podia adiar mais a decisão. Apesar dos conselhos do médico, pegou no encaminhamento para a «intervenção». E agora estava ali sentada, apertando o papel, como se tivesse medo de o perder. — Tem pressa? — perguntou um rapaz de fato e gravata cor de vinho, sentando-se ao lado de Sílvia com um enorme ramo de crisântemos. — Perdão? — olhou ela, com os olhos vazios, para o desconhecido. — O relógio está adiantado — disse ele, apontando para o relógio dourado no pulso dela. — Está sempre dez minutos à frente… Já tentei acertar, mas não consigo, nunca bate certo — respondeu Sílvia, com indiferença, virando-se. — O tempo está espetacular hoje, não acha? Um verdadeiro verão de São Martinho! A minha mãe adora esta época. Diz que num dia de outono assim tomou a melhor decisão da vida dela, e nunca se arrependeu… Sabe, a minha mãe é fantástica! — e mostrou-lhe um polegar em riste. — Sou muito grato a ela. — E o seu pai? — escapou-se-lhe a pergunta a Sílvia. — Daí nunca fala, eu também não insisto… Vejo que não gosta de lembrar. Acabei agora uma entrevista de trabalho. Imagine, escolheram-me entre dez candidatos para uma vaga numa empresa prestigiada! Fui o único escolhido, mesmo sem experiência. Custa a acreditar… Foi a minha mãe que me deu confiança. Já sei o que vou fazer com o primeiro ordenado: levo a minha mãe à praia. Nunca viu o mar! E a Sílvia, já foi? — Não, nunca. — respondeu, fitando-o; os olhos prenderam-se na gravata cor de vinho. O rapaz irradiava felicidade. — Presente da mamã — disse orgulhoso, ao perceber o olhar da Sílvia. — Se calhar já a estou a maçar com tanta conversa, mas quis partilhar a alegria. Está tão abatida… Achei que precisava de conversar. Fui chato com a tagarelice? Sílvia abanou a cabeça. O jovem não a incomodava. Conseguira travar o turbilhão de pensamentos sombrios. E admirava-lhe a devoção à mãe. «Que amor tão leal! Que sorte dela… Quem me dera ter um filho assim…» — Mas pronto, vou-me embora. A minha mãe deve estar à minha espera… E olhe, não se apresse! — O quê? — Digo isso ao seu relógio — sorriu ele. — Ah — sorriu Sílvia. Pouco depois, ele foi-se embora. Sílvia tirou o papel do bolso — aquele que, minutos antes, tinha tanto medo de largar — e rasgou-o em pedacinhos. Depois ficou ali sentada, a respirar o ar de um dia de outono dourado, como enfeitiçada. Sentia agora no peito uma leveza nova, um calor bom, deixado pelo estranho que lhe falara como se a conhecesse de sempre. Ela não estava sozinha. Aquela mãe criou o filho sozinha, um filho tão especial. Pena só não lhe ter perguntado o nome… mas agora isso já não importava. A escolha estava feita. *** Vinte e três anos depois… — Mãe, estou atrasado — estava o Tiago de pé em frente ao espelho, enquanto a mãe lhe apertava cuidadosamente a gravata cor de vinho, comprada de propósito para a entrevista importante. — Queres saber? Se calhar é melhor desistires. — Não, mãe. Dá confiança. Vai correr bem, vais ver! Eles vão aceitar-me — disse ela, terminando de ajeitar a gravata e afastando-se, para admirar o filho. — Que nervos, e se não corre bem… — Esse lugar é teu. Só tens que responder com firmeza e sorrir. És irresistível. — Está bem, mãe — o Tiago deu-lhe um beijo na bochecha e saiu, apressado, para a entrevista. Sílvia ficou à janela, a ver o filho, a pessoa mais querida, caminhar decidido até à paragem. De repente, estremeceu — como um choque elétrico… Já tinha visto aquilo em algum lado… Aquele rapaz no jardim, mais de vinte anos atrás… Agora, ver o Tiago, de fato e gravata, era como reviver aquele momento. Tantos anos depois, recordava o episódio esquecido. Como era possível? Teria sido o destino a dar-lhe a oportunidade de ver com os próprios olhos de quem queria abdicar (palavra dura), e a guiara para o caminho certo? E porque não falou mais com ele aquele dia, se até tinham quase a mesma idade? Agora, já não importava… Tudo correu bem no fim. Mais tarde, ao almoço, Tiago chegou a casa com um grande ramo de crisântemos cor de vinho, a condizer com a gravata, e contou à mãe que conseguiu o emprego. E ainda prometeu que, finalmente, irão juntos ao mar — que a Sílvia nunca conheceu. Agora era a vez dele cuidar da mãe querida. Por ela, movia montanhas, desviava rios. Esse era o filho da Sílvia. Passaram juntos por todas as dificuldades e não se deixaram abater. Sílvia nunca se arrependeu de ter tido o filho. Fez a escolha certa para si. Assim tinha de ser!
Escolha Afinal, o Afonso é mesmo casado até à raiz dos cabelos suspirei eu, sentada num banco do jardim