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0112
O MARIDO VOLTA DA “OBRA” SEM ESTAR SOZINHO: NOS BRAÇOS, TRAZIA UM MENINO… O DRAMA DE LENA ENTRE O CHEIRO DO PASTEL DE PEIXE, SACRIFÍCIOS NO INTERIOR, TRAIÇÃO, ACIDENTE, REAPARECIMENTO E A LUTA POR UM FILHO QUE NÃO ERA SEU…
O MEU MARIDO VOLTOU DA OBRA, MAS NÃO VEIO SOZINHO: NOS BRAÇOS, TROUXE UM MENINO PEQUENO…
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080
Tenho 47 anos. Fui durante 15 anos motorista particular de um alto executivo numa grande empresa tecnológica. Sempre foi correto comigo, pagava-me bem, recebia todos os bónus e benefícios, e até gratificações extra. Transportava-o para todo o lado – reuniões, aeroporto, jantares de negócios e eventos familiares. Graças a este emprego, dei uma vida tranquila à família: consegui dar educação aos meus três filhos, comprar uma casinha com crédito e nunca faltou nada em casa. Na última terça-feira, tinha de levá-lo a uma reunião muito importante num hotel. Como sempre – fato impecável, carro limpo, tudo a horas. No caminho disse-me que a reunião era essencial e que viriam convidados estrangeiros, pedindo-me para o esperar no parque porque podia demorar. Fiquei na viatura. Passou a manhã, depois o almoço, chegou a tarde e nada. Mandei mensagem, respondeu que estava tudo ótimo e pediu mais uma hora. Já era noite, estava faminto, mas não saí do carro para não falhar caso precisasse de mim. Por volta das oito e meia vi-o sair com os convidados, todos bem-dispostos. Corri para abrir a porta. Pediu que os levasse a jantar. Fui, como sempre, educadamente. Durante a viagem falavam inglês. Aos ser autodidata, fui aprendendo inglês à noite e percebi tudo. Um dos convidados perguntou se tinha estado à espera o dia todo e elogiou a dedicação. O meu chefe riu-se e respondeu algo que me cortou: “É para isso que lhe pago. É só motorista. Não tem nada melhor para fazer.” Riram-se. Engoli em seco. Quando chegaram ao restaurante, pediu-me para ir jantar e regressar dali a duas horas. Fui a um café e não tirei as palavras da cabeça: “Só motorista”. Quinze anos de lealdade, madrugadas, horas à espera… era só isso que eu era? Voltei, fui buscar todos e levei-os ao hotel. Estava satisfeito – a reunião correu bem. No dia seguinte, ao encontrá-lo, deixei uma carta de rescisão no banco do carro. Espantado, perguntou porquê. Disse-lhe que era uma decisão ponderada – tinha chegado a hora de procurar outro rumo. Insistiu, pensou que era por dinheiro, e quando lhe expliquei que era pelo que ouvira na noite anterior – que eu era “só motorista” –, ficou sem palavras. Disse-lhe que mereço trabalhar para quem valoriza o meu esforço. No escritório, tentou fazer-me mudar de ideias, ofereceu aumento, mas mantive a decisão. Trabalhei até ao fim do aviso prévio e saí. Hoje tenho novo emprego. Fui contactado para ser coordenador, com melhor salário, um escritório próprio e horário fixo. Quem me contratou disse que aprecia pessoas leais e trabalhadoras. Aceitei sem hesitar. Recebi entretanto mensagem do antigo chefe, a pedir desculpa: “Foste mais do que um motorista. Foste alguém de confiança, perdoa-me.” Ainda não respondi. Sinto-me valorizado, mas às vezes pergunto-me – fiz bem? Deveria ter dado uma segunda oportunidade? Às vezes uma frase dita em cinco segundos muda uma relação construída durante 15 anos. E vocês? Que fariam no meu lugar – agi corretamente, ou fui longe demais?
Tenho 47 anos. Foram já quinze anos a trabalhar como motorista particular de um alto diretor numa grande
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013
Estive nesta relação durante cinco anos. Dois anos fomos casados e três anos vivemos juntos. Durante o noivado, a maior parte do tempo tivemos um namoro à distância — víamo-nos apenas de três em três meses e, num ano, só estivemos juntos duas vezes por causa do trabalho dele. Na altura, não via isso como um problema. Pelo contrário — sentia a nossa relação como perfeita. Tínhamos saudades, chorávamos ao telefone, trocávamos mensagens apaixonadas e fazíamos videochamadas cheias de amor. Nunca discutíamos. Ele não era ciumento, nem eu. Respeitávamos o espaço um do outro. Ele podia sair para jantar com amigos, eu ia a festas, e nada disso tinha importância. Até me ajudava a escolher roupa. E não falamos de roupas provocantes — muitas vezes dizia-me que um vestido estava demasiado justo e que era melhor algo que me ficasse melhor. Nunca foi controlador. Pelo contrário — parecia orgulhoso de mim e do meu corpo. Tudo era saudável, tranquilo, quase perfeito. Houve um dezembro particularmente difícil, porque sabíamos que não nos iríamos ver nem no Natal nem na Passagem de Ano. Estávamos tristes e desiludidos. Foi então que ele me convidou a ir viver com ele, na cidade dele. Pensei, falei com a família e disseram-me para seguir o meu coração. Despedi-me e fui viver para junto dele. Os primeiros meses correram bem. O primeiro ano foi de adaptação — conhecermo-nos a fundo, os nossos hábitos, como reagimos quando estamos cansados ou irritados, o que nos incomoda, o que nos faz rir. Como estava desempregada, eu tratava da casa. Tudo fluía facilmente. O segundo ano foi ainda melhor. Já éramos uma verdadeira equipa e entrámos numa fase intensa de paixão. Queríamos estar sempre juntos. Quando ele não estava a trabalhar, não nos separávamos. Parecíamos recém-casados. Sentia que tinha tomado a decisão certa. Mas, no terceiro ano, tudo começou a mudar. Ele passou a chegar tarde a casa. Sempre partilhámos a nossa localização, até que um dia ele desligou essa opção sem dizer nada. Começou a aparecer às cinco ou seis da manhã, embora tivesse de estar a trabalhar às oito. Limitava-se a tomar banho, tomar o pequeno-almoço e sair outra vez. Deixou de me dar explicações. As discussões passaram a ser constantes. Um dia aconteceu algo que me marcou para sempre. Encontrei maquilhagem numa camisa branca dele. Base e batom — na gola e numa manga. Não era uma mancha pequena. Era óbvio. Exigi uma explicação. E então ouvi algo que nunca esquecerei: disse-me que teve de procurar fora aquilo que eu já não lhe dava, pois estava sempre preocupada com a casa, só pensava em arrumar e limpar, tinha-me tornado desinteressante. Isso bastou. Não disse “sim, traí-te”, mas também não negou. Confirmou, sem o dizer. Fiquei de rastos. Chorava sem parar. Sentia uma dor física no peito. Não sabia o que fazer nem como sair daquela situação. Por isso decidi fazer algo por mim. Voltei ao ginásio. Antes de ir viver com ele, treinava, mas parei. Lá conheci um homem. Começámos a conversar. Era agradável. Um dia convidou-me para um copo e fui eu que sugeri irmos a casa dele. Ele aceitou. Marcámos para a tarde. Ambos sabíamos ao que íamos. Nesse dia, já em casa, depois de o ter visto no ginásio de manhã, a ideia atormentava-me: “Isto não pode ser. Vou traí-lo. Ele merece.” Mas logo depois pensei: “Não. Não vou ser como ele.” Decidi acabar tudo antes. Esperei que o meu marido chegasse para o almoço. Nem o deixei entrar no quarto. Sentámo-nos na sala de jantar e disse-lhe que a relação já não funcionava, que ele me traiu e que não queria saber com quem nem desde quando. Que tudo acabava ali, naquele momento. Ele pediu-me para não fazer dramas, disse que aquela mulher não importava, que não era como eu, e que podíamos resolver. Disse-lhe que não queria continuar. Não lhe contei que tinha conhecido alguém ou que sentia desejo por outro homem. Apenas disse que ia embora. As malas já estavam feitas. Perguntou-me para onde ia, se tinha alguém. Disse-lhe que não importava, que depois via o que fazia. Saí daquela casa com as malas e fui ter com o outro homem. Quando me viu com bagagem, ficou assustado. Expliquei que acabara de deixar o meu marido e que no dia seguinte voltava à minha terra, mas que só queria aquela noite com ele. Ele aceitou. Essa noite foi a experiência mais intensa da minha vida. Não sei se foi a raiva, a dor ou simplesmente tudo o que tinha acumulado, mas foi algo totalmente diferente de tudo o que tinha vivido antes, nem com o meu ex-marido. No dia seguinte comprei um bilhete e regressei à minha terra. Não tinha para onde ir, por isso voltei à casa dos meus pais. Não quis saber mais nada do meu ex-marido. Isto foi há dois anos. Hoje estou sozinha, voltei a trabalhar, vivo numa casa alugada e não me arrependo da decisão que tomei. Estive prestes a trair, mas soube parar, acabar primeiro e não me tornar naquilo que ele foi para mim.
Estive nesta relação durante cinco anos. Dois anos fomos casados e três anos vivemos juntos.
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07
Quando a Tesoura Encontra a Pedra: A História de Polina, os Casamentos Forçados, e os Desafios de uma Família Portuguesa Entre o Destino e a Tradição
TRANÇAS E PEDRAS Olha, vou-te contar sobre a minha tia de sangue, a Madalena. Aquilo foi do mais típico
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018
Quando a chave rodou na fechadura, o coração dele quase saltou do peito e a alma correu-lhe ao encontro… 🤔 — Quantas vezes vais errar?! São erros tão básicos! Olha para isto! — Dona Alice Eduarda cravou o manicuredela no relatório mensal, quase estragando a unha de gel. — Vai! Refaz tudo! E, olha, se não dás conta do recado — pede a demissão! — a chefe, apesar de sempre bem cuidada e até atraente, tornava-se um autêntico demónio quando se irritava. A Lisete saiu do gabinete em silêncio. Faltava pouco mais de uma hora para terminar o expediente. Era preciso despachar-se. O prémio de produtividade já nem valia a pena pensar… Parecia uma daquelas fases negras que nunca tem fim — e logo cheia de obstáculos. Uma semana atrás, telefonou à mãe. Como tantas outras vezes, apanhou-na maldisposta, fez um escândalo do nada e ainda culpou a filha de todos os males do mundo, terminando a chamada abruptamente. Lisete nunca se habituou a isto e sofria com o afastamento. Agora já tinha receio até de telefonar de novo. Dois dias depois, perdeu o cartão multibanco e teve de bloqueá-lo e pedir outro. No dia anterior, o único ser vivo lá de casa — a Fofinha, uma gata tricolor com um ano — saiu para a varanda atrás de um pardal e caiu do terceiro andar. Lisete viu-a levantar-se logo do canteiro desfeito, sacudir-se e ir à sua vida… Mas quando desceu à rua, a gata já não estava lá. Quase um dia se passou e Fofinha não aparecia. Lá entregou o malfadado relatório e foi para casa sem vontade de fazer compras. Deitou-se no sofá e chorou, com uma amargura imensa. Depois de meia hora, já não havia lágrimas, mas não se sentia melhor. Pensamentos negros começaram a surgir, rastejando como cobras. Para quem viver? Não é importante para a mãe, família não tem, e até a gata desapareceu. Estranhamente, sentiu um alívio quando decidiu por fim a tudo. “Que se esfolem depois para alguém me substituir”, pensou amargamente. “Vai ser tarde.” Levantou-se-lhe o ânimo só por saber que no dia seguinte já não iria trabalhar. Nem precisava telefonar à mãe a pedir desculpas por nada. Uma alegria quase louca apoderou-se dela. Quando só faltava um pequeno passo, o telemóvel tocou. Número desconhecido. Quis ignorar, mas pensou — e se este fosse o último telefonema que atendesse na vida? — Estou?… — ninguém respondia. — Então ligam e não dizem nada?! — irritou-se. — Boa noite… — a voz masculina, grave, surgiu do outro lado. — Por favor, não desligue. — Quem é? O que deseja? — Lisete tinha pressa, sentia-se interrompida em algo crucial… — Só queria ouvir uma voz humana… Há uma semana que não falo com ninguém. Pensei: se hoje ninguém me atender, é o fim… — parecia esforçar-se por respirar. — Como assim? Não pode sair e conversar? Vá dar uma volta ao jardim, é só ir à rua. — Lisete subiu os pés ao parapeito da janela. — Não posso. Moro no quinto andar. Há uma semana a minha mulher foi-se embora… — a voz foi ficando mais triste. — Eu também fugia, homem! Não quem não tenha problemas… — ela não entendia o drama dele. — Sou cadeirante. Ainda não faz um ano. E cinco andares sem elevador, não consigo vencer. — a voz pareceu-lhe mais firme agora. — Não tens pernas?! — Lisete ficou horrorizada e logo se arrependeu, mas as palavras já tinham saído. — Não, é uma lesão na coluna. Não posso andar — e pareceu-lhe que ele suspirava e sorria ao mesmo tempo. Continuaram à conversa meia hora. Lisete até anotou a morada dele. E uma hora depois já estava à porta, com dois enormes sacos das compras. Abriu-lhe um homem jovem, simpático, numa cadeira de rodas. — Sou a Lisete! — só naquele momento percebeu que nem sabia o nome dele. — Eu sou o Arsénio! — ele sorriu de felicidade, como se a esperasse há muito. Descobriram que moravam até relativamente perto. Desde então, Lisete foi vê-lo todos os dias. Depressa percebeu que os seus problemas, ao pé dos dele, eram pequenas coisas. Pequenas coisas que quase lhe custaram a vida. O carácter dela foi mudando. Começou a cuidar dele e, ao cuidar, tornou-se mais forte, determinada e destemida. Como que por magia, a Fofinha reapareceu. Estava sentada no capacho, à porta de casa, à espera que Lisete chegasse do trabalho. A chefe, Dona Alice Eduarda, tentou mais uma vez descarregar a ira nela logo pela manhã. Lisete não ouviu todo o discurso: — Dona Alice Eduarda, que direito tem para me gritar e humilhar? Não consigo trabalhar num ambiente tão tóxico. Se me der enxaqueca, vou de baixa. Onde vai arranjar substituta? — as colegas riram-se. A chefe virou costas e foi-se embora, calada. A mãe ligou-lhe, sem aguentar o silêncio: — Então, filha, nem te dás ao trabalho de ligar?… Achas bem? És uma ingrata! Ouves-me, Lisete?! — berrou a mãe. — Olá, mãe. Já não falo contigo neste tom. — ela respondeu calma e tranquila. — Como te atreves? Eu vou desligar! — a mãe em pânico. — Faz favor… — a filha respondeu friamente. Dois dias depois, a mãe voltou a ligar. Não pediu desculpa — não era do feitio. Mas portou-se de forma mais civilizada. Um mês mais tarde, Lisete foi viver com o Arsénio e pôs a casa a arrendar. A amizade deu lugar a algo maior: ternura, confiança, gratidão. Era assim que nascia o amor. Lisete usou o dinheiro da renda para contratar um massagista, inscreveu o Arsénio para fisioterapia na piscina aos fins-de-semana. E, para seu espanto e alegria, ele começou pouco a pouco a recuperar sensibilidade e já conseguia mexer os dedos dos pés. A mãe de Lisete ficou doente, e Lisete, pedindo licença do trabalho, foi visitá-la por um par de dias. Arsénio ficou em casa, ansioso, a sentir saudades. Esperou por ela como um cão fiel, os dias todos colado ao sofá. Era Fevereiro. Naquele dia, caiu uma tempestade de neve. Ele sabia a hora do autocarro, calculou quanto tempo ela demorava a chegar, subir os cinco andares… Tudo passou e Lisete não aparecia. Arsénio aproximou-se da janela com a cadeira de rodas. Não se via nada, só branco e vento. O telemóvel dela estava desligado há horas. Assim passou uma, duas, três horas… Quando finalmente a chave rodou na fechadura, o coração dele quase saltou do peito e a alma correu-lhe ao encontro. — Arseninho, o autocarro ficou retido pela neve, tivemos de esperar pelos limpa-neves… O telemóvel ficou-se logo sem bateria! — gritava ela, mal entrou no hall — Arsenio!… — correu para a sala e parou. Ele estava em pé, a dois passos da cadeira, a sorrir.
Quando a chave rodou na fechadura, o coração dele quase saltou-lhe do peito e a alma correu-lhe ao encontro
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09
NOIVA DE ALUGUER – O Casamento Está Cancelado! – anunciou Polina surpresa aos pais durante o jantar. A mãe quase se engasgou com a notícia inesperada da filha. — Polinha! Estás louca? O vestido já está comprado, as alianças também, o restaurante está reservado… O teu Dinis está a contar os dias para o casamento, como quem espera por chuva no verão… Diz que é brincadeira, filha — suplicava a mãe, ansiosa. — Não, mamã, não estou a brincar. Eu e o Floyd vamos para Londres em breve. É sério — esclareceu Polina, decidida. — Mas que Londres, filha? Lá tudo é estranho, diferente. Novas pessoas, outro país. Vais perder-te e ninguém te vai ajudar! Não sejas tola! Esse Floyd deve ter-te virado a cabeça! Aposto que já é casado! E filhos? E ele já vai para velho! O Dinis ama-te tanto! Para nós, ele é como da família! Não rejeites o amor. Por tudo se paga na vida… — chorava a mãe, aflita. — Não faz mal, mãe. Pago o que tiver de pagar. Não tenho medo. — Polina manteve-se firme. …Algumas semanas depois, Polina e Floyd mudaram-se para Inglaterra. Desde pequena, Polina sonhava em conhecer o mundo além-fronteiras. Sabia francês, era fluente em inglês e já estudava espanhol… Nunca se sabe o que o destino traz. Depois de se licenciar, começou a trabalhar como tradutora numa agência de viagens. Foi lá que conheceu Floyd, um cliente estrangeiro que logo se apaixonou pela jovem portuguesa. Polina, simpática, sorridente, inteligente e cheia de vida, tinha apenas vinte e três anos, enquanto Floyd já contava quarenta e seis. Ao início, Polina achou a corte do estrangeiro curiosa e até inofensiva. Nem imaginava que, após uma semana de encontros profissionais e casuais, Floyd lhe pediria em casamento. Polina não contou ao novo pretendente que já tinha casamento marcado com Dinis… A dúvida invadiu-a: aceitar ou não o convite para uma nova vida fora de portas? Poucas são as que têm a oportunidade de se casar com um estrangeiro! Pode não haver amor, mas haverá aventura, novidade e gratidão suficiente para compensar… Dinis acabaria por superar. Ainda era jovem — encontraria outro amor. Assim pensava Polina, preparando-se para aquele salto para o desconhecido. Por telefone, avisou o ex-noivo. Dinis, confuso e despedaçado, desejou-lhe felicidades e afogou a mágoa em álcool durante meses. …Em Londres, Floyd levou Polina a uma mansão. Lá vivia ainda toda a família: dois filhos adultos, Henrique e Afonso (com quem, mais tarde, Polina encontraria a verdadeira felicidade), e Lenora, a ex-mulher de Floyd. Lenora não escondeu a indignação: — Perdeste o juízo, Floyd? Quem é esta rapariga? Onde a foste buscar? Achas que vai viver connosco? — gritava. — Sim, vai morar aqui. Quero lembrar-te, Lenora, que esta casa é minha. A Polina vai ser minha esposa. Não a trates mal — pediu Floyd, tentando apaziguar os ânimos. O ambiente era estranho, quase surreal para Polina: uma família divorciada, mas ainda a viver sob o mesmo teto, controlada por Lenora. Aos poucos, foi-se aproximando de Afonso, o filho mais novo de Floyd, bonito e inteligente. Entre eles, nasceu um sentimento avassalador e proibido… O casamento de Polina e Floyd foi adiado sem explicação, e Polina aceitou pacificamente. …Passaram-se três meses. Afonso revelou-lhe então o verdadeiro motivo de Polina ter sido levada para ali: Floyd ainda amava Lenora e quis provocá-la, fingindo que se casaria com outra. Polina fora uma noiva de aluguer, peça de um plano para reacender um velho amor. Riram-se da ironia do destino. Polina, por fim, declarou-se a Afonso e juntos decidiram ficar. Floyd e Lenora reconciliaram-se, e Polina encontrou no coração de Afonso o verdadeiro lar. Logo se casaram. Vieram filhos: um menino e, dois anos depois, uma menina. A família cresceu, feliz, rodeada de amor e compreensão. Até Floyd e Lenora se tornaram avós carinhosos. Um dia, Polina recebeu uma carta aflita da mãe: Dinis tinha morrido num acidente e deixara uma filha órfã, também chamada Polina. A dor tocou-lhe fundo, mas a resposta foi imediata: — Eu e o Afonso vamos adotar a Polininha. É assim que pagamos as dívidas do passado, mãe… E, de coração cheio, Polina voltou a casa. Agora, já grávida novamente, pronta para cuidar de todos os seus, num mundo onde a felicidade estava, afinal, ao alcance de todos.
NOIVA DE ALUGUER O casamento está cancelado! largou a bomba a Matilde ao jantar, deixando os pais em choque.
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011
Cresci tentando não desiludir a minha mãe — e assim, sem perceber, comecei a perder o meu casamento.
Cresci tentando sempre não dececionar a minha mãe e, sem reparar, comecei a perder o meu casamento.
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08
O Último Amor: A História de Ana e Pedro – Entre Filhos Ingratos, Recordações e Uma Nova Chance Para Ser Feliz Mesmo Aos Setenta Anos
O ÚLTIMO AMOR Iracema, não tenho dinheiro nenhum! Ontem dei os últimos euros à Joaninha! Bem sabes, ela
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018
Olga passou o dia inteiro a preparar-se para o Ano Novo: limpou a casa, cozinhou e pôs a mesa. Ia ser o seu primeiro Ano Novo longe dos pais, mas ao lado do homem que amava. Há três meses que vivia com o Tó Zé, 15 anos mais velho, divorciado, pagava pensão aos filhos e gostava de beber de vez em quando… Mas isto tudo era irrelevante quando se ama alguém. Ninguém percebia o que ela via nele: feio, rabugento, forreta ao extremo e sem dinheiro nenhum – e quando tinha, era só para ele. Mas foi com este “Príncipe” que a Olguinha se apaixonou. Durante três meses, a Olga fez tudo para mostrar ao Tó Zé que era uma mulher pacata e excelente dona de casa, à espera que ele lhe pedisse em casamento. Ele sempre dizia: “Temos de viver juntos primeiro, para ver se sabes ser dona de casa. Não quero outra igual à minha ex-mulher.” Como era a ex, a Olga nunca soube – ele nunca explicava nada de jeito. Por isso, ela esforçava-se ao máximo: não reclamava quando ele chegava bêbado, cozinhava, limpava, lavava roupa, comprava tudo do próprio bolso (não fosse ele pensar que ela era interesseira). Até na passagem de ano tudo foi pago por ela, incluindo um telemóvel novo de prenda. Enquanto a Olga se preparava para a festa, o seu “milagre” Tó Zé também se preparava à sua maneira: foi beber com os amigos. Chegou animado a casa e anunciou que viriam amigos (todos seus, que ela nem conhecia) para a festa. A mesa posta, faltava uma hora para a meia-noite. O ambiente estragou-se, mas ela aguentou-se, porque não queria dar parte fraca – não queria que ele a comparasse à ex-mulher. Meia hora antes do ano novo, apareceu um grupo de amigos bêbados, homens e mulheres. O Tó Zé animou logo, pôs toda a gente à mesa e a festa prosseguiu – menos para a Olga, que nem foi apresentada aos convidados. Ninguém lhe ligava, só falavam entre eles e até troçaram quando ela sugeriu que faltavam dois minutos para a meia-noite e era altura de encher os copos de champanhe. “Então mas quem é esta?”, perguntou uma das convidadas. “É a vizinha da cama”, respondeu o Tó Zé a rir-se, seguido das gargalhadas dos outros. Comeram a comida preparada pela Olga e fizeram dela chacota. Na passagem de ano gozaram com a sua inocência e elogiaram o Tó Zé pela “boa jogada” de arranjar uma cozinheira e empregada grátis. Ele não a defendeu, riu-se com todos, comeu a comida dela e continuou a humilhá-la. A Olga saiu em silêncio, agarrou nas suas coisas e foi para casa dos pais. Nunca teve uma passagem de ano tão horrível. A mãe disse, como sempre, “eu avisei-te”, o pai suspirou de alívio, e a Olga, depois de chorar tudo o que tinha a chorar, tirou finalmente os óculos cor-de-rosa. Uma semana depois, quando o dinheiro acabou, o Tó Zé apareceu-lhe à porta a perguntar, como se nada fosse: “Então, foste embora? Ficaste amuada?” – e, ao perceber que ela não o queria de volta, ainda disse: “Muito bonito, sim senhora – tu em casa da mamã e do papá, e o meu frigorífico vazio! Já te estás a portar como a minha ex!” A Olga ficou sem palavras com tamanha lata. Tantas vezes ensaiou o que lhe ia dizer, mas só conseguiu mandá-lo àquela parte e fechar-lhe a porta na cara. E assim, a Olga começou uma nova vida – logo a partir do Ano Novo.
Olívia passou o dia inteiro a preparar-se para a passagem de ano: limpou a casa, cozinhou pratos tradicionais
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0101
Vítor, por favor, não fiques magoado. Mas queria mesmo que fosse o meu pai a levar-me ao altar. Ele é o meu pai de sangue, afinal de contas. Pai é pai. Tu… Bem, tu entendes, és o marido da minha mãe. Nas fotos vai ficar mais bonito se for com o meu pai, ainda por cima ele fica todo elegante de fato. Vítor congelou com a chávena de chá na mão. Tinha 55 anos. Mãos calejadas de camionista, costas já debilitadas. À frente, sentada, estava a Aline, a noiva. Linda, 22 anos. Vítor lembrava-se dela pequenina, com 5 aninhos, quando entrou naquela casa pela primeira vez. Escondeu-se atrás do sofá a gritar: “Vai-te embora, és um estranho!” Mas Vítor ficou. Ensinou-a a andar de bicicleta. Passou noites ao lado da cama dela quando teve varicela e a mãe, Vera, já quase não aguentava de cansaço. Pagou-lhe os aparelhos dos dentes (vendeu a motorizada para isso). Pagou-lhe a universidade (a trabalhar em dois turnos, destruindo a saúde). E o “pai verdadeiro”, o Igor, aparecia de três em três meses. Trazia um urso de peluche, levava-a ao Santini, contava histórias das conquistas no mundo dos negócios e desaparecia. Nem um euro de pensão. — Claro, Alininha — disse Vítor baixinho, pousando a chávena. — Pai é pai. Compreendo. — És o maior! — disse Aline, beijando-lhe a face áspera. — Por falar nisso, ainda falta dar o sinal do restaurante. O pai disse que transferia, mas os bancos bloquearam-lhe a conta por causa das Finanças. Podes avançar com cem mil? Depois devolvo-te… do dinheiro dos presentes. Vítor levantou-se, foi ao móvel velho, tirou um envelope do meio dos lençóis. Era o dinheiro do arranjo da sua velha Toyota. O motor já batia, precisava de ser reparado. — Leva. Não precisas devolver. É a minha prenda. O casamento foi de sonho. Num clube de campo, arco de flores naturais, animador caro. Vítor e Vera sentados à mesa dos pais, no seu único fato, já apertado nos ombros. Aline brilhava. Foi o Igor que a levou ao altar. Impecável, alto, bronzeado (acabado de chegar do Algarve), smoking alugado. Orgulhoso, sorrindo para as câmaras, a limpar uma falsa lágrima. Sussurravam: “Que classe! É toda do pai!” Ninguém sabia do smoking alugado — pago às escondidas pela própria Aline. No copo-d’água, Igor pegou no microfone: — Filhota! Lembro-me quando te peguei nos braços pela primeira vez. Eras uma princesa minúscula. Sempre soube que merecias o melhor. Que o teu marido te trate como eu tratei! Palmas gerais. Mulheres de lágrima no olho. Vítor, de cabeça baixa. Não se lembrava do Igor pegar nela ao colo. Lembrava-se que nem sequer foi buscá-la à maternidade. A meio da festa, Vítor saiu para fumar. O coração a queixar-se — música alta, ambiente abafado. Foi até à sombra do alpendre. Ouviu vozes. Era o Igor, ao telefone com um amigo: — Está tudo bem, pá! Casamento da filha, uma festa. Os papalvos pagam, a gente diverte-se. A filha cresceu, ficou jeitosa. Já fiz negócio com o noivo — o pai dele está na Câmara. Pisquei-lhe o olho, disse que o genro podia ajudar o sogro com o negócio. Parece que pegou. Vou carregar mais um bocadinho, sacar-lhe uns trocos, depois logo se vê. E a miúda? É apaixonada, adora o paizinho. Basta dois elogios, fica logo derretida. A mãe dela, a Vera, sentadinha com o cromo do camionista. Está acabada, credo. Ainda bem que me pus a andar a tempo. Vítor ficou sem palavras. Mãos fechadas com força. Queria avançar e dar um murro naquele pavão. Mas não. Porque reparou que, na outra ponta do alpendre, na sombra da hera, estava Aline. Tinha ido apanhar ar fresco. E ouviu tudo. Aline ficou imóvel, mão na boca. A maquilhagem perfeita já a escorrer. Olhou para o “verdadeiro pai”, que ria perversamente, a chamá-la de “recurso” e de “pateta”. Igor desligou o telefone, ajeitou a gravata, foi radiante para o salão. Aline deixou-se cair de cócoras, o vestido encostando na tijoleira suja. Vítor aproximou-se suavemente. Não disse “Eu bem te disse”. Não se vingou. Apenas tirou o casaco e colocou-lhe nos ombros. — Levanta-te, filha. Ainda apanhas uma gripe, isto está frio. Aline olhou para ele com pânico, vergonha. Daquela que dá vontade de desaparecer. — Tio Vítor… — murmurou. — Pai… O Igor… — Eu sei — respondeu Vítor, serenamente. — Chega. Já passou. Tens o teu casamento, os convidados estão à espera. — Não consigo voltar! — chorou, a borrar a maquilhagem com as lágrimas. — Eu traí-te! Escolhi-o a ele, pus-te num canto! Como fui tão burra! — Não foste. Só querias um conto de fadas — Vítor deu-lhe a mão forte, quente, calejada. — Às vezes, os contos são escritos por aldrabões. Bora. Lava a cara, ajeita a maquilhagem, vai dançar. Não lhe deixes perceber que te magoou. O dia é teu, não é espetáculo dele. Aline voltou ao salão. Pálida, mas de cabeça erguida. O animador: — Agora… a valsa da noiva com o pai! Igor, todo sorrisos, abriu os braços no meio da pista. Silêncio. Aline pegou no microfone. Tremia, mas a voz era firme. — Quero mudar a tradição — disse. — O pai biológico deu-me a vida. Obrigada por isso. Mas a valsa dança-se não com quem dá a vida, mas com quem nos protege. Com quem curou joelhos esfolados. Com quem me ensinou a não desistir. Com quem deu tudo para eu estar aqui hoje. Virou-se para a mesa dos pais. — Pai Vítor. Danças comigo? Igor ficou parado, sorriso idiota a meio. Correu um murmúrio na sala. Vítor levantou-se devagar. Corado de vergonha. Foi ter com ela. Desajeitado, de ombros caídos no fato apertado. Aline abraçou-o pelo pescoço, encostou-se ao seu ombro. — Desculpa, pai — murmurava a dançar. — Desculpa, por favor. — Está tudo bem, pequenina. Está tudo bem — Vítor afagou-lhe as costas com a mão pesada. Igor ainda ficou um bocado, percebeu que o espetáculo acabou, fugiu para o bar e saiu da festa. Passaram três anos. Vítor está no hospital. O coração não aguentou tudo. Enfarte. Debilitado, deitado, soro no braço. A porta abriu-se. Entrou Aline pela mão de um menino de dois anos. — Avô! — correu o miúdo para a cama. Aline sentou-se, pegou na mão de Vítor e beijou todos os calos. — Pai, trouxemos-te laranjas. E caldo de galinha. O médico disse que o prognóstico é bom. Não stresses. Vais ficar bem. Já te comprei estadia na estância termal. Vítor olha para a filha e sorri. Não tem milhões. Tem um carro velho e costas lixadas. Mas é o homem mais rico do mundo. Porque é PAI. Sem “padrasto”. A vida põe tudo no seu lugar. Pena é, às vezes, o preço da lição ser a humilhação e o remorso. Mas mais vale tarde do que nunca perceber: pai não é o nome no registo, é quem te segura, quando cais. Moral: Não se deixem levar pela embalagem bonita. Muitas vezes está vazia por dentro. Valorizem quem está convosco nos dias simples, quem vos ampara e não pede nada em troca. No fim da festa, só fica quem vos ama de verdade, não quem gosta de brilhar à vossa custa. Já tiveram um padrasto que foi mais pai do que o próprio? Ou acham que o sangue fala mais alto? 👇👨‍👧
Tiago, não leves a mal Mas eu gostava mesmo que fosse o meu pai a levar-me ao altar. Ele é o meu pai