Entre a Verdade e o Sonho

Entre a Verdade e o Sonho

Margarida aconchegou-se no seu xaile de lã, deliciando-se com o silêncio e o sossego do seu apartamento em Lisboa. Lá fora, a chuva caía miudinha, batendo suavemente no parapeito da janela, quase como se fosse uma música de embalar num serão de inverno. Tinha acabado de chegar da última prova do vestido de noiva um momento que aguardava há muito, com o coração aos pulos. Ainda segurava o saco com os acessórios: uns brincos delicados, uma tiara singela e outros pequenos detalhes que iam dar o toque final ao seu visual no grande dia. A cabeça voava entre imagens do casamento, imaginando-se no vestido, o brilho do olhar das pessoas, as luzes a reflectirem-se nas jóias, a felicidade partilhada entre amigos e família.

O sossego foi quebrado por um toque insistente à campainha. Margarida sobressaltou-se, apertando com mais força as pontas do xaile em redor do corpo. Olhou para o relógio: faltavam dez minutos para as sete. Quem é que se lembrava de aparecer assim, sem avisar, naquela hora? Será o estafeta com aquela encomenda esquecida, ou a vizinha do lado, a Dona Amélia, à procura de açúcar?

Aproximou-se da porta, espreitou pelo óculo. Viu apenas que era um homem alto, mas não conseguiu perceber mais nada. Por isso, hesitou antes de destrancar.

Quem é? perguntou, tentando transmitir calma na voz.

Sou eu, Rui, respondeu uma voz conhecida, abafada pela porta. Preciso mesmo de falar contigo. Agora.

Margarida parou um segundo. Não tinha grande vontade de conversar com Rui, quanto mais naquela noite chuvosa. Mas e se tinha acontecido alguma coisa à Joana? Respirou fundo, rodou a chave e entreabriu a porta. Lá estava ele: Rui, encharcado, com os ombros cheios de pingos a escorrer pelo sobretudo escuro. O rosto pálido contrastava com o brilho estranho dos olhos Margarida achou-o diferente, inquietante. Por momentos, até teve dúvidas se fizera bem em abrir-lhe a porta.

Entra, disse por fim, recuando e tentando esconder o desconforto. O que fazia ali? Fechar-lhe a porta na cara? Isso é que não! Estás completamente molhado.

Rui passou para dentro, sem sequer se lembrar de tirar os sapatos. A água dos seus sapatos começou logo a deixar marcas no soalho claro, mas ele parecia alheio a tudo o que não fosse o turbilhão dentro dele. Margarida limitou-se a observá-lo, o aperto no peito a crescer. Pressentia que aquela conversa não ia ser nada fácil.

Margarida… começou ele, apertando as luvas nas mãos. Já não aguento mais! Amo-te.

Ela ficou imóvel, incrédula.

Rui, tu… tentou, mas a voz falhou-lhe, e as palavras ficaram penduradas no ar.

Ele não lhe deu tempo para reagir. Aproximou-se mais um passo, como se tivesse medo de perder a coragem se hesitasse.

Eu sei que te vais casar. Sei que isto soa a loucura! Mas já não consigo calar. Estes meses todos tentei esquecer-te, fazer de conta que a vida continuava, mas é impossível, ouves? Devia ter-te dito antes. Comecei a sair com a Joana só por tua causa! Para estar mais perto de ti. Nunca a amei, Margarida. Nunca.

O chão fugiu-lhe dos pés. Mas quê?! Rui com a Joana, uma estratégia só para estar perto dela? A pobre Joana, tão apaixonada…

Soltou o xaile, deixando-o escorregar para o encosto do sofá precisava de sentir os pés bem assentes na realidade. Sentiu o ar ficar denso, quase difícil de respirar.

Rui… tentou outra vez, escolhendo as palavras com cuidado. Tu ouves-te a ti próprio? Eu tenho noivo, Rui. Já marquei o casamento. Amo-o! Fazemos planos para a vida. E a Joana…

Ele assentiu, o olhar fixo em Margarida, firme, finalmente aliviado do peso que carregou tanto tempo.

Eu sei. Mas não consigo calar mais. Daqui a umas semanas, vais ser inalcançável. Se não dissesse, ia arrepender-me para sempre. A Joana para mim não representa nada. Nunca representou. Perdoa-me a sinceridade.

Sentiu um nó no estômago. A voz de Margarida soou fria, distante, quase de fora do corpo:

Como é que tens coragem de falar assim? Achas que o mundo gira só à tua volta?

É verdade o que digo. A Joana foi apenas uma forma de me manter perto de ti. Pensei que eventualmente notasses como sou atencioso, generoso, como seria o homem certo. Só tu dás sentido à minha vida.

Tirou do bolso uma pequena caixa. Abriu-a: um anel simples, com uma pedra discreta.

Termina com ele, comigo é que vais ser feliz. Juro-te.

E Margarida via, na mente, flashes: Rui a rir com Joana, a segurar-lhe a mão, a olhá-la com imensa ternura. Tudo falso? De repente, todos os momentos pareceram uma farsa, as peças do puzzle da amizade e do amor desmoronavam.

Levanta-te, pediu ela, num murmúrio. Por favor.

Rui ergueu-se, relutante. No olhar dele ainda dançava uma réstia de esperança.

Não acreditas em mim?… a voz dele vacilava.

Acredito. Mas não muda nada, Rui, disse Margarida com serenidade. És meu amigo, mas eu amo outro. Vou casar-me por amor, porque é ele o meu destino. Não há lugar para ti nesse papel.

Ele baixou o olhar, mordendo os lábios.

E se tivesse dito antes? Antes de o conheceres?

O resultado era igual. Sinto muito, Rui, mas nunca te vi assim. Quero-te bem, mas não de forma romântica.

Rui não desistiu. Deu mais um passo.

Porquê? Também sentiste qualquer coisa… Vi o teu olhar.

Margarida recuou para perto da porta. Agora sim: sentiu-se desconfortável, até um pouco assustada. Se ela lhe desse um empurrão, caía ao sofá… e ela podia sair porta fora…

Não há nada, Rui. O que sentes não é amor, é uma obsessão. Inventaste uma história em que eu sou perfeita e os outros só servem de escada. Vamos acabar esta conversa.

Rui cerrou os punhos, não de raiva, mas de frustração.

Enganas-te. Nunca senti isto por ninguém. Isto não é fantasia nem fixação é amor!

Ela controlou a voz, tentando não agravar a situação.

E a Joana? Tu sabes o que acabaste de fazer-lhe? Usaste-a. E agora vens exigir que eu largue tudo por ti?

Ele baixou ainda mais o tom:

Sei que errei. Mas se pudesse voltar atrás, fazia igual.

Não se constrói felicidade sobre a desgraça dos outros, Rui. E tu nem me conheces de verdade. Nunca convivemos tanto quanto pensas. Preferes amar uma ideia do que uma pessoa real.

Margarida fez uma pausa. Depois insistiu:

Tens de contar tudo à Joana. Ela merece saber. E pede-lhe desculpa.

Rui hesitou, os dedos a tremer.

Para quê? Não sinto nada por ela. Enerva-me, só isso! Por ti… tudo seria diferente.

Um silêncio pesado instalou-se. Margarida sentiu-lhe a dor nos olhos, mas não cedeu. Não queria ser mal-interpretada se mostrasse pena.

Comigo não tens lugar. Nem com a Joana. E, se pensas que vou fingir que nada se passou…

Rui encarou-a uns segundos em silêncio. Por fim, disse num fio de voz quase ameaçador:

Vou embora. Mas não desisto. Um dia vais perceber que a vida nos destinou um ao outro.

Não esperes nada de mim. Vive, apaixona-te por alguém de verdade e agora, Rui, preciso que te vás embora.

Rui caminhou devagar para a porta, cada passo uma luta. Antes de sair, olhou para trás.

Obrigado pela sinceridade. Mas não é o fim.

E fechou a porta com calma. Margarida ficou ali, imóvel, sentindo finalmente a tensão a aligeirar-se. Passou para junto da janela. A cidade continuava o seu compasso, os candeeiros davam uma luz dourada à rua molhada. Rui afastava-se cabisbaixo, mãos nos bolsos, corpo vencido pelo peso da humilhação.

E Margarida pensava: não pode deixar isto ficar assim. Rui era capaz de tudo, e Joana não merecia sofrer às cegas.

Pegou no telemóvel, procurou o contacto da amiga e carregou no botão de chamada.

Joana, olá. Precisamos mesmo de conversar. É importante.

Do outro lado, ouviu-se barulho de papéis e um tom ansioso:

Margarida, está tudo bem? Pareces nervosa.

O Rui acabou de vir cá. Foi duro… Ele disse que só saiu contigo para estar próximo de mim, que nunca gostou de ti. Que só queria a minha atenção. Ele não está bem, foi assustador.

Fez-se silêncio longo. Margarida imaginava Joana sentada a digerir cada sílaba. Enfim, Joana falou, trémula:

O quê? Ele disse mesmo isso? Nem sei o que pensar…

Não quero que vivas enganada. És minha amiga. Ele quer que eu largue o Jorge… Joana, não gosto do que vi hoje.

Mais um instante em silêncio.

Obrigada por me avisares, Margarida. Vou pensar. Estou em casa, não te preocupes.

Desculpa ter sido assim. Mas prefiro dar-te a verdade, mesmo que custe.

Mais vale saber o que se passa do que viver numa mentira, respondeu Joana, já mais calma.

Despediram-se, e Margarida encostou-se à janela. A chuva continuava, as luzes refletiam-se nos passeios molhados. Sabia que, algures em Lisboa, outra pessoa também tentava recompor o que restava do coração após a verdade.

***************

Joana sentou-se na cozinha, ainda a pensar nas palavras da amiga. Margarida tinha sido direta, mas nem por isso doeu menos. Lembrava-se do primeiro convite de Rui, dos gestos carinhosos, das piadas subtis, da atenção que lhe parecia tão sincera.

“Ele nunca gostou de mim”, repetia para si, sentindo o seu pequeno mundo a desfazer-se. Pegou na chávena, mas o chá já estava frio. Deixou-se ficar a ouvir o relógio, o som contínuo a lembrar-lhe que o tempo não pára.

Devia ligar-lhe? Esperar? Chamar alguém? Não sabia o que fazer.

Uma campainha soou. Joana levantou-se devagar, olhou pelo óculo. Era o Rui.

Por momentos hesitou. Abriu.

Rui apareceu com o rosto molhado da chuva e os olhos inflamados.

Joana, tenho de te contar tudo… Nunca…

Já sei, cortou ela, mantendo a voz firme. A Margarida disse-me tudo. Não tens mais nada para me dizer.

Ficou desarmado, olhando o chão.

Queria ser eu a explicar antes… disse em voz baixa. Que entendas, ao menos.

Rui, porque vieste? Para magoar ainda mais? Para eu ouvir outra vez que fui só um trampolim?

Não, só vim pedir desculpa e talvez perdão pela mentira e por tudo. Não estou à espera que me perdoes.

Joana fixou-o. Agora, sentia menos raiva do que desilusão.

Devias ter sido sincero desde o início. Foste a correr pedir à Margarida para largar o noivo, mas para mim só tinhas restos…

Ele tirou então a caixa do bolso, a mesma do pedido à Margarida.

Fica com isto. É para tentar remediar o mal que fiz.

Joana olhou para o anel. Simples, uma aliança fina com um pequeno brilhante. O símbolo dos sonhos de outra pessoa, não dela.

Guarda, Rui. Não preciso de nada teu.

Ele fechou a caixa, resignado, e deu um passo atrás.

Joana, quero tentar compensar…

Não há como respondeu ela, seca mas sem gritar. Onde não há verdade, não se constrói nada.

Pelo menos deixa-me tentar a partir do zero, sinceramente…

Joana abanou a cabeça.

É impossível voltar a confiar. A mentira estragou tudo. Preciso de espaço e de tempo. Prefiro não te ver, nem ouvir falar de ti.

Rui ficou sem palavras. Encostou-se à porta, sem saber o que fazer.

Se algum dia quiseres falar…

Não quero, respondeu, firme.

Não acabou a frase: a campainha tocou de novo.

Joana viu pelo óculo quem era; ficou surpresa era Jorge, o noivo da Margarida. Arrojado, sério, com aquela presença forte.

Abriu.

Posso entrar? perguntou ele, sem rodeios.

Ela deixou-o passar. Rui, ao ver Jorge, pareceu encolher. Jorge não perdeu tempo:

Já sei o que se passou disse, olhando fixamente Rui. O que fizeste às duas.

Rui ia abrir a boca, mas Jorge cortou-lhe, frio:

Cala-te. Ouvi tudo da Margarida. E há lições que só se aprendem com consequências.

Deu um passo largo, Rui recuou até à parede.

Não vale a pena, Jorge, tentou intervir Joana, receosa por Rui, apesar de tudo.

Jorge ergueu as mãos, sem largar Rui.

Não é contigo, Joana. Isto é entre mim e ele.

Joana hesitou, presa entre querer impedir e sentir que nada podia fazer.

Bastou um instante. Um rápido empurrão de Jorge, um soco Rui bambeou, caiu, levou a mão aos lábios, o sangue misturando-se com as lágrimas da humilhação.

Isto é só um aviso disse Jorge, a voz fria como a noite. Voltas a aproximar-te da Margarida ou da Joana, e corres pior.

Rui recompôs-se lentamente, limpou a boca, olhou para Joana mas só viu desprezo. Saiu sem mais palavra, deixando atrás de si apenas silêncio.

Jorge voltou-se para Joana, agora menos tenso.

Desculpa, Joana. Não sou violento, mas há homens que só percebem as coisas desta forma. Sei que dói, mas vais recuperar.

Joana assentiu, percebendo no olhar de Jorge uma sinceridade reconfortante.

Obrigada, Jorge. Mesmo. Apesar de tudo.

A Margarida está preocupada contigo. Ias gostar de saber.

Ela é a melhor amiga que se pode ter respondeu, com genuína ternura.

Voltou a instalhar-se a paz. A chuva continuava lá fora, mas dentro da casa sentia-se, aos poucos, um certo alívio. Apesar do coração destroçado, sabia que não estava sozinha.

Quando Jorge saiu, Joana sentou-se no sofá.

“Acabou”, pensou. E essa ideia, finalmente, trazia-lhe uma ponta de esperança. Era o começo de algo novo talvez força para voltar a confiar, sonhar, e um dia amar de novo. Mas sem ilusões.

***********

Enquanto isso, Rui vagueava pela Rua Augusta, indiferente às poças e à humidade a penetrar-lhe o casaco. A dor no rosto era mínima, comparada com o peso insuportável que sentia no peito. Sabia que tinha perdido tudo: Joana irremediavelmente e Margarida, há muito. Entregando-se às fantasias destruiu o que era possível, e agora colhia a solidão.

No dia seguinte, chegou ao emprego com o lábio ferido. Os colegas trocaram olhares, cochicharam baixinho, mas ninguém perguntou nada. Rui já só contava os minutos para sair.

Ao fim de uma semana, pediu transferência para o Porto. O chefe levantou as sobrancelhas, mas assinou sem discutir. Rui só queria distância; cada recanto da capital lembrava-lhe o que destruiu.

Antes de partir, passou pela ourivesaria e devolveu o anel. O funcionário fez-lhe o crédito em euros (só reclamando um pouco). Rui voltou para casa, fez a transferência do valor para a conta da Joana com uma simples nota: “Desculpa. É teu por direito.”

No dia da viagem, na frente do prédio, respirou fundo. O táxi chegou, carregou a mala para a bagageira. “Estraguei tudo”, murmurou apenas antes de entrar.

No banco de trás, deixou Lisboa desaparecer na janela, a cidade lavada pela chuva a perder-se na distância. Era hora de um novo começo.

Do outro lado da cidade, Joana estava sentada numa pastelaria com Margarida e Jorge. Havia três galões e um prato de pastéis de nata à frente deles aquele conforto tipicamente lisboeta.

A conversa era sossegada. Margarida falava do dia do casamento, dos nervos e da logística, rindo-se das minudências, Jorge participava sem se impor, sempre atento. Joana ouvia e, aos poucos, a tempestade que sentia ia dando lugar à paz.

Sabem… disse Joana, olhando lá para fora, onde a chuva já ia passando. Acho que já nem tenho raiva do Rui. Só… pena que as coisas tenham sido assim.

O tom era calmo, sem mágoa. Não valia a pena alimentar o passado.

Margarida sorriu-lhe e pousou a mão sobre a dela.

Não tens de te lamentar, Joana. Mereces mesmo é alguém que te faça feliz, sem mentiras nem jogos.

Joana sorriu de volta.

Vou encontrá-lo um dia, sem dúvida.

Na janela, as luzes da cidade refletiam na calçada molhada. Era tempo de novas histórias e novos sonhos sempre com verdade.

E assim, entre uma bátega e outra, Lisboa continuava a viver, ensinando a todos que até depois dos maiores temporais, a vida renasce sempre com esperança.

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