— Então por que é que me gritas assim?! — indignou-se o homem. — Eu trato e alimento a tua mulher, e ainda vens aqui levantar-me a voz?! Mas isto agora?! Discutiram aos berros durante meia hora, até o pássaro ficar rouco e o homem exausto…

Porque é que estás a gritar comigo?! irritou-se o homem. Eu estou aqui a cuidar e a alimentar a tua esposa, e ainda assim falas assim comigo? Mas que raio!

Os dois discutiram durante meia hora, até a ave ficar rouca e o homem esgotado

Hoje regressei a casa depois do meu turno matinal na fábrica. Finalmente vinham aí uns dias de folga e só isso já bastava para me animar. Mas não era só isso: ao sábado à noite tinha encontro marcado com uma mulher com quem falava há um mês através da internet.

As nossas conversas já eram quase rituais: falávamos das rotinas do trabalho, contávamos episódios engraçados, discutíamos paixões e trocávamos pensamentos sobre a vida. O entusiasmo de um primeiro encontro estava todo ali só faltava reservar mesa no pequeno restaurante do bairro e escolher a roupa certa.

Ia já a subir a minha rua, distraído com estes planos agradáveis. Morava num prédio igual a tantos outros na periferia de Lisboa, num T1 modesto, no quarto andar. Faltava-me só atravessar cinquenta metros até ao portão. Podia jurar que bastava dar mais um passo para que a vida, de alguma forma misteriosa, pudesse tomar outro rumo, mas

Ah, este “mas”

Mesmo à entrada, de uma árvore que nunca tinha dado grande atenção, caiu-me uma gralha aos pés. A ave debatida, crocitava desesperada, e nos ramos da árvore agitava-se um bando inteiro, a gritar como se o mundo estivesse a acabar.

Só me faltava mais esta, resmunguei para mim.

A pobre da gralha tentava levantar-se, mas só conseguia cair outra vez. Notei logo que tinha a pata direita partida.

E agora, o que faço contigo? questionei-me.

Não consegui seguir caminho e ignorá-la. Tirei o casaco, cobri a ave devagar para ela não fugir, levantei-a com cuidado e encaminhei-me para a porta. Atrás de mim o coro da família dela era mesmo de preocupação.

Em casa, analisei a asa e a pata: ali estava o osso torto, a precisar de jeito e calma. Respondeu-me imediatamente, bicando-me o dedo tão forte que até larguei um palavrão em voz alta, esforçando-me depois por enrolar um pano no bico dela.

Liguei a várias clínicas veterinárias, mas nenhuma tratava de aves silvestres. Os amigos também não faziam ideia do que fazer. E foi então que percebi: se consigo arranjar máquinas, adaptar peças, porque não ajudar uma simples gralha?

Arranjei-lhe logo uma acomodação decente: caixa baixa, toalhas macias dentro, janela bem iluminada. E batizei-a logo Lúcia.

Demorei duas horas a improvisar uma tala. Peguei num canivete e uns paus de gelado, escavei o sítio certo, liguei-os com fita adesiva e coloquei cuidadosamente na pata ferida. Retirei o pano do bico.

Lúcia tentou atacar-me de novo, cheia de energia.

Calma aí, falei serenamente. Só quero ajudar Mas assim não dá. Ainda te falta comida e água.

Procurei instruções online e vi logo que tinha de ir ao armazém de pesca e à farmácia: comprei larvas de mosca, umas minhocas, um pinça e uma seringa. Em casa, munido das compras, comecei a missão impossível de lhe abrir o bico e empurrar comida lá para dentro, além de lhe dar água lentamente, gota a gota. Ela protestava com força, eu resmungava baixinho, e lá continuámos.

Cansados, rendemo-nos ambos. Lúcia, saciada mas exausta pela luta e pela dor, adormeceu. E eu, derrotado pelo cansaço e por toda esta surpresa, deitei-me também.

Na manhã seguinte, tudo se repetiu: mais comida à força, mais protestos. Enquanto isso, reparei que no parapeito estava um grande corvo, a olhar para dentro, como quem observa um caso de vida ou morte.

Sem pensar muito, abri-lhe a janela.

Tu deves ser o Carlos, o marido da Lúcia. Entra, vê por ti próprio. Só quero ajudar a tua companheira.

O corvo olhou-me longamente, de cabeça inclinada, observando a caixa da Lúcia. Aproximou-se, curioso.

Lúcia resmungou baixinho. O corvo inflou o peito, virou-se para mim e crocitou alto.

Ó pá, acalma-te! atirei-lhe. Ando aqui a curar e alimentar a tua mulher e ainda me falas dessa maneira? Mas isto faz sentido algum?!

Gritámos um com o outro, homem e ave, durante bom bocado até o corvo ficar rouco e eu já sem fôlego.

Por fim empurrei-lhe duas caixas: uma com larvas, outra com minhocas. Falei pouco.

O corvo inspecionou o petisco com respeito e começou a comer.

Ah, claro Aproveita. Afinal, quem gastou euros nisto tudo fui eu, ri, meio resignado.

Farto, o corvo aproximou-se da Lúcia e começou a pentear-lhe as penas com o bico, com um cuidado enternecedor.

Bem, família é família murmurei, de repente enternecido. Fiquem descansados, faço tudo pela tua Lúcia. Só peço que lhe expliques que não convém morder e que convém comer como deve ser.

Nessa noite, o Carlos voou para fora. Mas no dia seguinte voltou a bater no vidro, esperou que abrisse, fez a visita à Lúcia e tomou o pequeno-almoço como príncipe.

Bom dia, amigo, sorri-lhe. A verdade é que já nos entendemos sem palavras

Enquanto alimentava Lúcia, com o Carlos atencioso mas sem intervir, subitamente fui atingido por um choque:

Valha-me Deus agarrei a cabeça. Ela deve estar à espera! Esqueci-me de reservar o restaurante!

Agarrei no telemóvel e marquei o número.

Desculpe, por favor comecei e contei honestamente tudo, desde o acidente com a gralha, até ao motivo da minha falha.

Portanto, uma gralha qualquer é mais importante do que o nosso encontro?! interrompeu-me ela, azeda.

Não é bem assim Isto é importante. Mas não era suposto acontecer

Olhe, então fique com a sua gralha! disparou ela e desligou-me o telefone na cara.

Suspirei, derrotado e já meio a falar para o corvo.

Pronto, acabou-se o encontro nem chegou a começar.

De repente, o Carlos voou para cima da mesa, abriu as asas, empinou-se com importância, caminhando para lá e para cá.

Não consegui conter o sorriso.

Não sei se entendes alguma coisa do que digo, mas sinto que estás comigo. Achas que devo animar-me? Talvez seja melhor encarar isto com leveza.

Nessa altura, tocaram à porta. Era a minha vizinha do quinto uma senhora simpática, Maria Eduarda, sempre sorridente nos dias em que nos cruzávamos no elevador.

Desculpe começou ela, tímida. Anda aí uma revoada de gralhas à volta do seu apartamento há dias. Está tudo bem?

Não dá para explicar assim de repente Mas venha ver.

Entrou e ficou paralisada de espanto:

Meu Deus Está a salvar uma gralha?

É a Lúcia, corrigi com um sorriso.

Nesse caso, este corvo deve ser o Carlos! atirou ela, rindo com um som leve e cristalino.

Dei por mim a pensar que há muito não ouvi nada tão reconfortante. Olhei para ela e esqueci a desilusão do encontro nunca acontecido.

Carlos expandiu as asas, pavoneou-se pela mesa. Maria Eduarda voltou a rir, corando, e vi logo que tudo começava a ganhar outro tom em casa.

O corvo passava a dar-se melhor com a nova presença até parecia exibir-se. A Lúcia, vendo toda a harmonia, parou de reagir mal, começou a comer e a ganhar forças. Dei à Maria Eduarda uma cópia da chave. Quando eu tinha turno, ela ia tratar dos pássaros e, a cada dia que passava, tornava-se mais próxima.

A mulher conquistava-me a cada visita ponderei finalmente convidá-la para jantar. Mas, como sempre, a vida tinha mais uma surpresa.

Numa noite, já depois das dez, saí do turno e ia para casa, sorrindo só de pensar que tinha comprado o presente ideal para oferecer: uma correntinha de prata, com um coração encarnado pequenino.

Mas à entrada do bairro, debaixo do candeeiro, surgiram duas figuras.

Passa a carteira, o telemóvel e o relógio! exigiu um deles, mostrando uma navalha.

E o casaco também! ameaçou o outro.

Não tive tempo de sentir medo.

De repente, caiu sobre nós uma tempestade negra: gritos de horror e dor ecoaram pela rua. Uma dúzia de corvos e gralhas atacavam com os bicos os assaltantes.

Consegui escapar para casa. Na manhã seguinte, tocaram-me à porta.

Era Maria Eduarda, pálida e a tremer:

Meu Deus! exclamou, atirando-se aos meus braços. Você está vivo! Pensei que lhe tivesse acontecido alguma coisa horrível

Mas o que se passou? perguntei, penteando-lhe o cabelo, tentando acalmá-la.

Esta noite, uma revoada de gralhas atacou dois homens no bairro. Dizem que quase não escaparam vivos. Estão agora no hospital, em estado grave.

Sorri-lhe, ainda meio atordoado, e lembrei-me:

Eu tenho um presente para ti.

Ai, não era preciso disse ela, envergonhada.

Quando lhe mostrei a correntinha de prata com o coração, ela riu, enternecida, e beijou-me a face.

Que coisa mais bonita. Obrigada! disse ela, estendendo a mão para pegar no presente, mas

Ah, outra vez o mas

Carlos, negro, veloz como uma rajada, apanhou o fio da minha mão e foi pousá-lo, vitorioso, junto de Lúcia, quase totalmente recuperada.

Nós rimo-nos às gargalhadas.

Compro-te outra, prometo.

Carlos expandiu as asas, empinou-se orgulhoso e soltou um potente Cááá!. Lúcia pegou, delicadamente, na corrente e guardou-a na sua caixa, como um tesouro.

E nós? Ficámos ali, à porta, a beijar-nos, sem pressa.

E afinal, que importa?

Família é famíliaAs semanas seguintes passaram-se num compasso doce: Lúcia, já de penas novas e saltos alegres, ganhou a liberdade das janelas abertas, mas voltava sempre ao fim da tarde, trazendo pequenos presentes roubados ao parque para nos agradecer. Carlos era visita diária, protetor e cúmplice, já sem medo do nosso convívio.

Eu e Maria Eduarda fazíamos do apartamento um reduto de afeto improvável, onde corvos e corações batiam quase ao mesmo ritmo. Entre chávenas de café e risadas, aprendemos a decifrar os silêncios um do outroe os segredos da natureza que ali se instalara, à margem do mundo apressado lá fora.

Numa dessas tardes, Maria Eduarda encostou a cabeça ao meu ombro, olhando Lúcia brincar à janela, com Carlos a seu lado, cioso mas finalmente descontraído.

Acho que nunca teria acreditado se alguém me contasse esta história, murmurou ela.

Sorri e peguei-lhe na mão. Lá fora, o sol mergulhava nos telhados e, por um instante, todos os gritos, zanga e azar do passado pareciam pertencer a outra vida.

Lúcia lançou um voo rasante, desenhando um coração no ar. Carlos acompanhou-a de perto.

Talvez não tenha sido sorte disse eu, olhando Maria nos olhos mas foi o destino a bater à nossa janela.

No momento em que ela me beijou, ouvi um cááá! triunfante. E, entre penas, beijos e sorrisos, ficou claro: há encontros que mudam o rumo da vidamas há também asas que nos salvam do chão.

Ficámos assim, juntos, enquanto as primeiras estrelas nasciam e um par de gralhas vigiava o entardecer. O mundo parecia finalmente saber fazer sentido.

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— Então por que é que me gritas assim?! — indignou-se o homem. — Eu trato e alimento a tua mulher, e ainda vens aqui levantar-me a voz?! Mas isto agora?! Discutiram aos berros durante meia hora, até o pássaro ficar rouco e o homem exausto…
Nevlastný otec ma vychoval ako vlastnú po smrti mamy – a na jeho pohrebe mi tajomný muž pošepkal: „Nazri do spodnej zásuvky v garáži, ak chceš poznať pravdu“… to, čo sa stalo o 20 minút neskôr, ma úplne šokovalo a zaskočilo