Hoje, 31 de dezembro
Diário de Raquel Simões
Hoje à noite, enquanto o vento frio e a chuva de inverno batiam nas vidraças, dei por mim a pensar que em trinta e um anos de casamento é possível guardar todo o tipo de hábitos e dores sem nunca as interrogar. A rotina faz-se hábito, o hábito faz-se casa. Mas hoje, tudo, mesmo o mais pequeno gesto, pareceu diferente.
Quando pus a panela do caldo verde na mesa, o Francisco já estava sentado, sempre com o telemóvel na mão. Nem olhou para mim.
Não tenho colher, disse, sem tirar os olhos do ecrã.
Estão no aparador, como sempre, expliquei.
Já vi… Dá-me tu.
Peguei numa colher e coloquei-a ao lado da taça. Ele não disse obrigado. Nunca disse nestes anos todos aprendi a não esperar. Mas hoje, por algum motivo, ouvi esse silêncio de maneira cortante, um frio por dentro, como se uma lasca de gelo me caísse no peito, devagar a derreter.
O caldo está frio, disse ele, largando por um momento o telefone.
Saiu agora do fogão.
Está frio, estou a dizer-te. Não acreditas em mim?
Não respondi. Fui à janela. Lá fora, as ruas de Lisboa brilhavam molhadas, luzes refletidas no empedrado. Trinta e um de dezembro tinha sempre um aroma distinto, como se o fim do ano trouxesse um silêncio mais profundo, mesmo em plena cidade. Cheiro a chuva, a castanhas queimada e a expectativa.
Aquece isso, ouvi às minhas costas.
Olhei-o. Francisco estava já de novo absorvido na tela.
Podes aquecer tu no micro-ondas.
O silêncio que se seguiu pareceu-me maior do que o habitual. Ouvi o velho relógio do corredor, passos dos vizinhos, porta a bater no átrio.
Disseste o quê?
Virei-me, olhei-o. Disse que podes aquecer tu: é só carregar em start, duas voltas no tempo: consegues.
Francisco levantou a cabeça, olhos surpresos, como quem vê um absurdo.
Raquel.
Sim?
Estás bem?
Estou.
Olhou-me como se calculasse estragos, como faz quem vê o seu património abalado por um tremor imperceptível.
Vai lá aquecer o caldo, faz favor.
Fiquei ainda à janela uns segundos. Depois fui até ao fogão, pusemos o caldo a aquecer, porque trinta e um anos de costumes pesam mais que um rasgo de coragem numa manhã. Compreendi, mas não impedi o gelo de continuar a derreter.
Conhecemo-nos no fim dos anos oitenta. Eu, aos vinte e dois, já trabalhava como administrativa numa pequena fábrica de alumínio, ele era chefe de secção. Tinha aquele ar confiante, o sorriso de quem diz sei o que faço. Demorei a perceber que uma confiança excessiva, muitas vezes, é só o reflexo da certeza de poder mandar nos outros. Só entendi isso mais tarde, bem mais tarde.
Os primeiros anos foram normais. Depois nasceu o nosso filho, o Miguel, e, sem perceber como, tudo ficou nos meus ombros: filho, casa, comida, roupa, visitas à sogra, festas, doenças, reuniões de pais. Francisco, esse, tinha sempre o argumento do trabalho. Passo o dia inteiro a trabalhar, não me podes pedir para ainda lavar a loiça! E eu, que também trabalhava, ficava sempre em segundo plano.
Deixei, há muito, de chamar àquilo relação. Era só vida. A vida simples de quem arruma, cozinha, passa a ferro, vai ao Pingo Doce, encara a sogra quando ela adoece, vai buscar o neto à creche quando a nora pede. No meio de tudo, sobravam raros momentos: os meus livros, os telefonemas nocturnos com a minha amiga Clara, as conversas cúmplices. Clara sempre foi o meu abrigo amizade de infância. Casou tarde, aos trinta e oito, com um viúvo com filhos, e acabou por ser feliz. Invejava-a um pouco, mas com ternura. Não aquela inveja amarga, mas aquela de quem se alegra pelo outro.
Raquel, tu voltas sempre ao mesmo, dizia-me ela ao telefone. Cinco vezes já contaste esta história do caldo este mês. Só muda a sopa.
Mas desta vez foi diferente
Não foi. A única coisa diferente são as batatas, Raquel. Percebes?
Eu percebia, mas isso não me ajudava. Aos cinquenta e três, com trinta anos disto que a Clara chama família tóxica, não é fácil mudar tudo de repente. Ir para onde? Para quem? Miguel tem a vida dele, é casado, vive com a Katia e o pequeno Martim. Trabalho, ainda tinha: sou contabilista numa construtora familiar, o patrão, o senhor António, valorizava-me muito. Dona Raquel, sem si esta empresa não caminhava, dizia-me. Era bom ouvir. Sentia-me, pelo menos ali, necessária.
Hoje, contudo, algo virou dentro de mim. Senti, como quando muda o tempo, que havia um clique, uma passagem, o gelo derretido tornou-se calor, mas um calor novo, desconhecido.
Depois do almoço, o Miguel telefonou.
Mãe, vêm cá passar a passagem de ano?
Logo vejo, filho.
A sério? Mas já é dia 31! A Katia já prepara tudo. Vão lá, sim?
Vou falar com o teu pai.
Mãe estás bem?
Fiquei a ver a chuva. Estou, filho. Estou mesmo.
O Francisco estava deitado no sofá, noticiário na televisão. Entrei na sala.
O Miguel convidou-nos para a passagem de ano.
Muito longe.
Quarenta minutos de metro.
Voltar tarde.
Podemos lá dormir.
Onde? O Martim dorme na sala.
Compraram uma cama nova, catre extensível.
Não vou. Dói-me as costas.
Assenti. As costas só doíam quando era para visitas aos filhos ou ajudar nalguma coisa. Para pescar, nunca doíam. Todos os verões pescar e regressava novo.
Está bem. Eu vou.
Como?
Vou sozinha. Tu ficas, já que tens as costas assim.
O mesmo olhar, a mesma pausa.
Sozinha? A passagem de ano?
Sim. Quero passá-la com o Miguel e o neto. Podes vir se quiseres.
Fui ao corredor, tirei a mala de cima do roupeiro. As mãos tremiam, mas não de fraqueza. Era outra coisa, algo parecido com determinação.
Raquel, estás a ficar maluca?
A frase veio do corredor. Ele era grande, preenchia a porta com os ombros largos e os braços cruzados o gesto de quem está farto de conversa.
Não, respondi, sem lhe dar as costas. Estou óptima.
Vais embora na passagem de ano? Sozinha?
Vou para casa do nosso filho. É diferente.
Raquel!
Olhei-o. Trinta e um anos a olhar para esta cara e a imaginar nela sentimentos que raramente lá habitavam. Agora via só um homem envelhecido e magoado por perder as suas certezas de conforto, de obediência.
Volto amanhã. Ou depois. Ainda não sei.
Vesti o sobretudo, o cachecol, peguei na mala. Ouvi atrás as velhas palavras: egoísmo, idade, falta de vergonha, como sempre. Conhecia-as como poemas antigos, já sem vida.
Abri a porta, saí. Lá fora, a chuva e o cheiro a tangerinas do supermercado ao pé do prédio. Parei no alpendre, rosto para cima. As gotas caiam-me nas bochechas. Não me lembrava da última vez em que ficara assim, simplesmente parada.
A Clara atendeu ao terceiro toque.
Raquel? Que se passa?
Nada. Vou sozinha a casa do Miguel, passar a passagem de ano.
Silêncio.
Sozinha?
O Francisco ficou. Diz que são as costas.
Raquel, a voz dela foi de uma alegria contida. Estou orgulhosa de ti.
Disseste como se eu tivesse feito uma coisa fantástica.
E fizeste. Se calhar, ainda não percebeste, mas fizeste.
No metro demorei quase uma hora, com trocas na linha. As pessoas, todas com sacos, vestidos de festa, olhares de quem prepara uma celebração. Nunca gostei do fim do ano, não pela tradição, mas porque todos os anos parecia igual: mesa cheia, saladas, convidados, um marido que, invariavelmente, largava uma palavra, metia uma piada e estragava tudo.
Ano passado disse à Vera, minha amiga: Então, Vera, ainda nada de namorado? Ela sorriu, mas ficou tensa. Pedi depois ao Francisco para não repetir. Ele disse: É só uma piada! Não tens sentido de humor?
As piadas dele eram todas assim: não faziam rir, faziam encolher.
A Katia abriu-me a porta, sorriso aberto, farinha nas mãos.
Dona Raquel! Que bom ver-la! O Francisco?
Não veio, filha. Venho sozinha.
Ela olhou-me de relance, e de imediato me abraçou com esse calor genuíno que só se sente em família.
O Martim, cinco anos, correu de uma ponta à outra:
Avó! És tu mesmo! Escrevi ao Pai Natal!
E que pediste?
O camião das construções! E disse que queria a avó cá e aqui estás! Resultou!
Ri-me, do fundo, daquela maneira que já não me lembrava. Miguel saiu da cozinha de avental ao ombro.
Mãe! Abraçou-me como há muitos anos não fazia. Que bom que vieste!
Sentámo-nos na cozinha, o Martim aos saltos ao meu lado, a Katia a mexer tachos, o Miguel de chá quente nas mãos a observar-me atentamente como, de facto, não fazia há muito.
Mãe, isto é mesmo verdade: está tudo bem?
Martim, para com isso, podes magoar-te! disse para evitar outra pergunta direta.
Mãe
Não me olhes assim, Miguel.
Assim como?
Como se fosses explicar-me alguma coisa.
Quero é que sejas feliz, mãe.
Eu sei.
És?
Olhei para a janela, chuva nas calçadas.
Estou a pensar nisso. Já é qualquer coisa.
A noite foi nossa. Caseira. Katia surpreendeu-me com o pudim de Abade de Priscos, os bolinhos de bacalhau, e depois de deitarmos o Martim embalada no novo camião, brindámos com um espumante sem álcool à meia-noite. Pedi um desejo. Pela primeira vez em muito tempo, era um desejo só meu.
Regressei a casa no segundo dia do ano. Miguel insistiu que ficasse mais, Katia também. Martim fez birra por eu não ficar para sempre. Mas voltar não era fugir, era necessário. Não se escapa à vida, só se pode mudar dentro dela.
Francisco recebeu-me no corredor. Queria mostrar-se magoado mas não totalmente sozinho.
Chegaste.
Cheguei. Como estás?
Estive sozinho na passagem de ano.
Eu propus irmos juntos.
Disseram-me que doíam as costas.
Pois.
Fui ao quarto, desfiz a mala, ele ficou ali na porta.
Não tens nada a dizer?
Olhei-o, calmamente: Sobre?
Deixar o marido sozinho num dia daqueles?
Francisco, podias ter ido. Escolheste ficar. Não sou responsável por isso.
Não respondeu. Fez para sair, hesitou.
Que se passa contigo?
Sorri. Nem eu sabia que tinha coragem para sorrir-lhe assim. É do fim do ano. Chegou atrasado.
Janeiro passou entre silêncios e pensamentos. Nunca fui de falar alto ou de escrever muito, mas passava tempo a virar os pensamentos, como quem lava uma pedra velha apanhada à beira-rio.
Foram trinta e um anos ao lado de alguém que nunca aprendeu que respeito é tão importante como pão à mesa. Francisco sempre achou que bastava dar comida e casa. E eu? Eu, afinal, nunca exigi respeito, nunca falei claro, só fui guardando, porque sempre ouvi que mulher de bem é aquela que aguenta. Quem me ensinou isto? A minha mãe, talvez. A sogra também. E as vizinhas. Não laves roupa suja fora de casa, diziam. Fui construindo muros por dentro.
Agora, esses muros tinham rachaduras.
Um dia, Clara ligou-me.
Raquel, só te vou contar. Lembras-te da Natália Teixeira, a ruiva do nosso prédio antigo?
Claro.
Pois, foi-se embora do marido com cinquenta e seis anos. Arrendou um T1, foi trabalhar numa florista, agora tem negócio próprio a decorar casamentos. Disse-me há pouco: Por que não fiz isto antes? O que tinha de cair, caiu mais nada.
Fiquei em silêncio.
Ouviste-me, Raquel?
Ouvi.
Não estou a dizer-te o que fazer, só quero que saibas que mereces melhor.
Sei mas saber e sentir são coisas diferentes.
Então começa a sentir.
Mais fácil de dizer do que fazer, claro. Mas pequenas mudanças foram acontecendo. Antes, quando Francisco dizia alguma coisa ofensiva, ia para a cozinha abafar tudo. Agora ficava na sala. Olhava-o nos olhos. Ele percebia e por vezes até hesitava a meio da frase.
Uma noite, ele comentou ao jantar:
Estás diferente.
Em quê?
Olhas de outro modo.
Como?
Não sei, incomoda-me.
Talvez nunca tenhas reparado, Francisco, que te olho mesmo.
Saiu, resmungando.
Em meados de Janeiro, o senhor António chamou-me ao gabinete para um anúncio. A empresa ia crescer, abrir um segundo escritório em Oeiras. Queriam que fosse eu a chefe de contabilidade. Mais salário, mais autonomia.
Dona Raquel, espero mesmo que aceite.
Senti uma força a brotar por dentro, como se ao fim destes anos todos andasse de cabeça baixa e, de repente, a erguesse.
Em casa, não disse logo. Quis amadurecer. O novo escritório ficava longe. Era outra fase.
Ligou-me a Clara.
Raquel, é agora! Tens de aceitar! Não podes recusar porque ao Francisco lhe apetece reclamar.
No dia seguinte aceitei. Escrevi ao senhor António: Aceito a proposta, obrigada pela confiança. Guardei o telemóvel e fui preparar compota de frutos secos para o Martim.
Disse ao Francisco ao jantar:
Tenho novidades. Vou ser chefe de contabilidade no novo escritório.
Longe?
Quase uma hora.
Para quê?
Mais responsabilidade, melhor salário, mais interessante.
Já ganhas bem.
Vou ganhar melhor.
E quem vai tratar do almoço?
Demorei a responder, não porque não soubesse, mas porque queria escolher bem as palavras.
Francisco, tens cinquenta e oito anos. És saudável e sabes tratar de ti.
Não sei cozinhar.
Toda a gente aprende.
Raquel!
Vou aceitar. É o meu caminho.
Ele retirou-se, barafustando pelas costas. Fui ao varandim, olhar Lisboa à noite.
Pensei na Natália Teixeira a decorar casamentos. Em Clara e no marido, e naquele gesto natural de elogio. No silêncio do carro a caminho de casa quando chorei uma vez, por já não me reconhecer.
Em fevereiro, ao arrumar gavetas, encontrei uma carta antiga, papel amarelado, letra do Francisco. Era para uma tal de Leonor. Poucas palavras, mas inequívocas um extravio de outros tempos, confissões, dúvidas, desejos.
Não chorei. Sentei-me no chão, a carta entre as mãos. A primeira coisa que pensei foi então nessa altura. Depois: E o tempo que perdi. Mas não, não perdi criei um filho, vivi, pus amor no pouco que me cabia.
Voltei a guardar tudo na gaveta.
Clara ligou:
Como estás?
Encontrei uma carta. Antiga, não era para mim.
Ai, Raquel
Não é nada. Cheguei a uma conclusão: não precisamos de justificações para viver a nossa vida.
Decidiste?
Penso nisso, agora com outros olhos.
Em março, comecei no novo escritório. Ambiente pequeno, gostoso. Gostei logo da dona Isabel, do RH mulher tranquila, sorriso aberto. No primeiro dia trouxe-me chá, mostrou-me tudo.
Gostava da complexidade do novo trabalho. Os dias passavam num ápice, as voltas da mente ocupadas por contas e relatórios, e, ao fim, ia para casa cansada, mas inteira.
Francisco nunca se ajustou a isto. Falava do teu trabalho como quem refere um passatempo. Aprendi a separar: casa é isto, eu sou aquilo.
Em abril festejámos o aniversário do Miguel lá em casa dele a Katia, o Martim, amigos. Francisco apareceu, mas manteve-se distante, saiu primeiro, cansado.
Ao despedir-se à porta, Miguel deu-me um abraço:
Mãe, se precisares de qualquer coisa mesmo? sabes que podes contar comigo.
Vi o meu filho, já homem feito, olhos de esperança. Não lhe disse nada solene sorri só, prometendo.
Em maio, D. Isabel telefonou-me para conversar. Não sobre trabalho.
Dona Raquel, alguma vez pensou em viver sozinha?
Quase larguei o telemóvel.
Pergunta por quê?
Passei o mesmo. Saí de casa aos cinquenta e um, aluguei um T1. O princípio custa, depois é liberdade.
Ficámos uma hora ao telefone. Deixou-me a pensar. Abri o portátil, procurei rendas de quartos em Oeiras, só para saber. Rapidamente vi que era possível. Fechei, tornei a abrir, fechei de novo.
Fiz duas listas: o que me prende, o que me solta. No primeiro lado, três itens. No segundo, só um: medo. Vivi três semanas com esse medo. Era hábito: receio do falatório, do vazio, do erro? Mas onde está escrito que ficar é certo e sair é erro? O medo maior revelou-se só uma rotina antiquada de infância.
A meio de junho telefonei para um anúncio. T1, terceiro andar, perto do escritório. A senhoria, D. Antonieta, simpática, visivelmente habituada à vida.
Trabalha em quê?
Chefe de contabilidade.
Animais?
Não.
Silenciosa?
Muito.
Fica com a casa?
Fico.
Trouxe a chave para casa como quem traz o princípio de um livro novo.
À noite disse ao Francisco, sem rodeios:
Francisco, vou viver para outro lado. Arrendei uma casa.
Silêncio. Televisão abafada.
O quê?
Arrendei uma casa. Quero outra vida. Não é de ti que estou cansada, é da forma como vivemos. Quero respeito, calor, conversa.
Encontraste alguém?
Não. Encontrei-me a mim, que é diferente.
Parvoíce.
Talvez. Mas é a minha.
Tens cinquenta e três, Raquel.
Sei. Não é por aí.
O que vão dizer?
O que disserem não muda isto.
Olhou-me, e pela primeira vez, foi como se víssemos finalmente os dois os mesmos anos.
Deve ser por causa da carta.
Já sabia o que estava lá antes. Não é por ti. É por mim.
Arrumei pouco a pouco. O Miguel ajudou. A Katia fez bolos, Martim ofereceu-me uma planta para a varanda. D. Isabel trouxe-me um bolo de morango e chá. Sentámo-nos horas à mesa nova da sala vazia. E falámos, duas mulheres, sem pressa.
Agosto foi cheio de trabalho, adaptei-me à nova casa, à nova vizinhança. Ao final do dia sentava-me no jardim em frente, a ver crianças, cães, a cidade. Não pensava em nada de especial. Experiência nova: só estar.
Francisco telefonou um dia:
Disseram-me que estás bem instalada.
Estou.
Podemos conversar?
Sobre?
Sobre nós
Francisco, nós já não existe.
Mas podia
Não, não podia. Aqui estou bem.
Mudaste.
Mudei, sim. Para melhor.
Os telefonemas rarearam. Atendia quando queria.
No Outono a Natália, referida pela Clara, ligou, convidou-me para um café no Chiado. Falou-me da loja, das dificuldades, mas também do bem-estar de finalmente ser dona de si. Percebi que o medo só dura até decidirmos. Depois, some. Afinal, nada caiu.
Pensei muito naquilo. Nada caiu. O Miguel por perto, o Martim a telefonar: Avó, tenho saudades! Trabalho bom, novas amigas, Clara fiel.
No Réveillon seguinte, celebrei duas vezes: uma em casa do Miguel, outra no meu pequeno apartamento, com a Clara e o marido, a D. Isabel e a Natália. Conversa leve, calor, alegria simples ninguém a dizer ainda te lembras com mágoa. Só gente que escolheu estar ali.
Soaram as doze badaladas. Peguei no copo, pedi um desejo. Mas já não era esperança de milagre. Era um continuo. Tranquilo, meu.
Já em janeiro, a mãe do Francisco, D. Alzira, ligou-me de Leiria, onde vivia agora. Palavra a palavra, voz cansada, disse-me:
Raquel, Fizeste bem. Vi sempre como ele era. Os filhos são os nossos, mas não devemos fechar os olhos. Foi pena não te dizer antes. Tu mereces ser feliz. Não te enterres viva.
Obrigada, D. Alzira.
Liga-me de vez em quando. Para conversar.
Ligo sim. Prometo.
Desliguei e ri-me sozinha. O mundo tem destes milagres singelos.
Em fevereiro, o Miguel veio passar à minha casa. Falámos de tudo. Antes de sair:
Estás diferente, mãe. Para melhor. Como se tivesses ligado a luz por dentro.
Estava desligada há muito.
Pediu desculpa por não ter percebido antes. Disse-lhe que não havia culpa a vida não é para ser sempre transparente aos olhos dos outros.
Quando ele saiu, fiquei um pouco na cozinha, chá na mão. Olhei pelo vidro: a chuva persistente de Lisboa, certa como sempre.
Há um ano via aquela mesma chuva, mas estava gelada por dentro. O gelo finalmente derreteu. Agora é água limpa, corrente. Pronta para lavar, para saciar.
Uma semana depois, Francisco ligou:
Fui ao médico. Nada demais, só tensão alta. Dizem para comer melhor.
Ainda bem. Toma conta de ti.
Se tivesses lembrado antes…
Agora lembras-te tu. Assim é melhor.
Vais mesmo continuar sem voltar?
Sim. Estou bem. Não te preocupes.
Só perguntei.
Sei.
Após pausa, baixinho:
Sei que a culpa é minha.
Pensei. Não queria magoar nem consolar. Só dizer a verdade.
Francisco, não guardo rancor. Vivemos muito, nem tudo se deita fora. Mas esta não era a vida que desejava. Se era a tua, tu saberás.
Vou pensar nisso.
Faz bem.
Desliguei. Fui pôr água para o chá. Olhei a chave em cima da pequena consola. Só uma chave de casa, mas, para mim, o começo de outra vida, desta vez, só minha.






