O Preço da Nova Vida
Rosa, preciso falar contigo. Tenho andado a pensar nisto há muito tempo.
Rosa Almeida estava de avental ao fogão, mexendo uma sopa que já fazia parte dos seus gestos automáticos: batatas, cenoura, um ramo de salsa, pouco mais. Não se virou logo. A voz do marido era diferente. Não era o tom habitual de quem fala das contas ou do chefe. Havia ali qualquer coisa mais funda, ensaiada.
Estou a ouvir disse ela, sem parar de mexer.
Não estás. Vira-te, por favor.
Ela desligou o bico. Pousou a colher devagar. E virou-se, no tempo que o corpo pediu.
Miguel Almeida estava à porta da cozinha, homem alto de cinquenta e dois anos, cabelo grisalho nas têmporas que em tempos lhe parecera bonito. Segurava o telemóvel, sem lhe dar uso, só para segurar qualquer coisa.
Vou-me embora disse ele.
Rosa sentiu um aperto fundo debaixo do peito. Não era dor. Era aquele segundo antes da dor.
Onde? perguntou. Imediatamente percebeu a falta de sentido, mas não achou outra palavra.
De forma definitiva. Já fiz a mala. Está no corredor.
Miguel.
Por favor, Rosa, não faças disto uma cena.
Não vou. E surpreendeu-se com a própria firmeza. Mas tens que me explicar. Deves-me isso.
Ficou calado. Passou o telemóvel de uma mão para a outra.
Não aguento mais admitiu. Não consigo continuar ao lado de alguém… incapacitada.
O silêncio era denso, cortava o ar. Lá fora, alguém fechou uma porta, ouviu-se um carro no largo e depois só o respirar ritmado da casa.
Diz isso outra vez sussurrou Rosa.
Parece crueldade. Mas tu perguntaste. Não posso passar o resto da vida a lidar com cicatriz, comprimidos, folhas do centro de saúde Mudaste, Rosa. Depois da operação, já não és a mesma.
Dei-te um rim.
Eu sei.
Dei-te o meu rim para te salvar.
Eu sei… não desviava o olhar. Era isso que mais custava: não se escondia.
Sou-te grato, vou ser para sempre. Mas não posso viver só por gratidão, ao lado de alguém que…
Que mudou?
Que não é o que era.
Rosa encostou-se à janela. Novembro do outro lado, cinzento, as árvores nuas da praceta. Ficou a ver as poças, a tentar perceber que raio de postura devia ter. Chorar? Gritar? Cair?
Há outra pessoa, não é? afirmou. Sabia.
A pausa confirmou.
Sim.
Há muito?
Desde há uns meses.
Acenou. Os últimos seis meses começaram a encaixar-se: os atrasos, o cheiro de uma nova água-de-colónia que não comprara, a distância que ele nunca explicou.
Vais agora?
Vou.
Está bem.
Ouviu-lhe os passos pelo corredor. O rolar da mala no soalho, o clique da fechadura da porta da frente. Só um clique, mais nada.
Rosa ficou ali mais uns minutos. Depois voltou à sopa. Tornou a ligar o bico do fogão, pegou na colher.
A sopa tinha que acabar de cozer.
***
Três anos antes, quando Miguel recebera o diagnóstico de insuficiência renal terminal, ela não hesitou. Propôs, fez exames, compatibilidade confirmada e em abril deram entrada ambos no Hospital de Santa Maria. Doou-lhe o rim esquerdo. A recuperação foi lenta para ela. Miguel sarou depressa.
Depois foi aprender a viver com um rim só. Dores de lado, cansaço, dieta, análises de três em três meses. O corte doía, tornou-se linha esbranquiçada, teimosa.
Nesses meses, Miguel floresceu. Corado, ganhou peso perdido, inscreveu-se no ginásio. Entrou um novo fato, depois um novo perfume.
Rosa achou que era celebração da vida. Acreditava que ele se sentia grato, que queria viver mais.
Estava a ser ingénua.
***
Durante as primeiras duas semanas após a partida dele, trabalhou o que podia. Era tradutora pegava em trabalhos de casa, tirando rendimento de alemão e inglês, traduzindo de tudo: relatórios médicos, textos jurídicos, uns contos. Sentava-se ao computador e traduzia vidas alheias para fugir da sua.
Ao jantar, era pão e queijo, um ovo cozido se tanto. Ia cedo para a cama estar a sós com o silêncio da casa era insuportável. Acordava às quatro e ficava a olhar o tecto até amanhecer.
A amiga, Carmo Ribeiro, telefonava todos os dias.
Rosa, comeste alguma coisa decente?
Comi.
O quê?
Carmo, não estejas sempre…
Diz o que comeste.
Uma sandes.
Isso não é comer. Amanhã passo aí.
Não venhas.
Amanhã aí estou.
Amigas desde a faculdade, ambas na casa dos cinquenta, Carmo era médica de família na Ajuda, com dois netos ao fim-de-semana e frontalidade de quem anda nisto há muito. Chegou no dia seguinte, abriu-lhe logo o frigorífico.
Santa paciência, Rosa… murmurou, olhando as prateleiras quase despidas. Não andas a comer nada.
Como, sim.
O quê?
Pronto… Basta.
Basta fechou o frigorífico. Tu estás a definhar, percebes?
Só te agradeço…
Não é elogio, Rosa. Sei que custa. Mas tens de reagir.
Eu estou a viver.
Não estás. Desapareceste. Senta-te e conta-me tudo.
Rosa obedeceu, o olhar no tampo da mesa.
Disse-me que não quer viver com uma inválida. Pronto, foi isso.
Carmo esteve muito tempo calada.
Que canalha concluiu, sem ódio, só uma certeza.
Não quero insultos, Carmo. Não me ajuda.
Precisas de raiva.
Procurei-a. Está vazio.
Carmo pôs a chaleira ao lume, começou a mexer nos armários com jeito de quem faz parte da casa.
Sabes o que é uma depressão a sério? perguntou. Não é tristeza. É vazio. Isso é o que descreveste.
Eu sei.
Vais recusar ver alguém, não é?
Conheces-me.
Mas tens o regime certo? Comprimidos, análises?
Cumpro.
Menos mal.
Carmo abriu uma caixa de arroz, pôs a cozer sem pedir licença. E Rosa chorou, pela primeira vez em duas semanas. Sem contenção, sem se controlar. Carmo não apertou trouxe só papel de cozinha.
Chora. Faz bem.
***
Dezembro foi um nevoeiro. Janeiro, um pouco menos. No trabalho, havia textos para traduzir, que pediam atenção e não deixavam sobrar espaço para mágoas próprias.
Em fevereiro, Carmo sugeriu um retiro. Um mês num centro de bem-estar nos arredores de Leiria.
Não sou inválida protestou Rosa.
Precisas de ar diferente. Não sais de casa há meses.
Às vezes falo sozinha ironizou.
Vais. Já tratei de tudo, é só três semanas. Depois de dar um órgão, tens direito a cuidar de ti.
Rosa sabia que era verdade. Sabia até que estava a apodrecer ali dentro. Foi.
***
O centro Águas Claras era o que Carmo prometeu. Edifício antigo renovado, pinheiros ao redor, caminhos de areia. O quarto tinha vista para um lago, que em março estava ainda gelado.
Naqueles primeiros dias pouco saiu do quarto. Entre os tratamentos, as refeições e algum trabalho de tradução, ia ganhando coragem.
Ao terceiro dia, saiu a caminhar.
O parque estava quase vazio; só uns reformados, pares de senhoras a fazer marcha com bastões, e um homem com um cão.
Rosa foi devagar, ouvindo o areal sob os pés, os pássaros nas copas. Não pensava. Era bom, não pensar.
Sentou-se num banco de madeira junto ao lago gelado.
Posso?
Virou-se. Um homem dos seus cinquenta, baixo, largo de ombros, num casaco azul-escuro. Apontou o banco.
Faça favor respondeu, chegando-se para o lado.
Ele sentou-se. Fitaram ambos o lago.
Ainda resiste o gelo, mesmo já em março comentou ele.
Sim.
Ano passado derreteu em fevereiro, disseram-me.
É a primeira vez que venho admitiu , não sei comparar.
Eu venho pela segunda. Outono antes, agora primavera.
Não perguntou o porquê de ali estar. Era injusto, ali toda a gente sabia que não estava por escolha.
Há muito que está cá? perguntou.
Três dias.
Cheguei ontem. Esticou a perna esquerda com cuidado. Ainda não está bem, mas lá vai. Prometeram fisioterapia a sério.
Só então Rosa notou o modo diferente como se sentava.
Lesão? arriscou, surpreendendo-se com a frontalidade.
Sim. Queda de uma obra. Fractura na coluna, mas estou a recuperar. Pelo menos caminho.
Lamento.
Para quê? disparou. Não foi você a empurrar-me.
Não, claro… Só pensei que custa.
Custa, mas serve para pensar esboçou um sorriso. E dizem que faz bem.
Rosa surpreendeu-se a sorrir-lhe de volta.
Pedro apresentou-se, estendendo-lhe a mão.
Rosa.
Apertaram as mãos, brevemente.
Tenho que caminhar mais, prescreveram pelo menos quarenta minutos diários.
Boa sorte.
Para si também.
Pedro afastou-se, coxeando mas sem se vergarem os ombros.
Rosa voltou ao gelo.
Não estava leve, nem feliz. Mas estava simplesmente ali.
***
No dia seguinte, encontraram-se ao pequeno-almoço. Mesa à janela. Ela acenou, ele sentou-se.
Quase não conversaram. Ele leu no telemóvel, ela só olhou a paisagem.
Quando ele levantou os olhos:
É tradutora?
Ela estranhou.
Porquê?
Ontem tinha um dicionário alemão. Papel, coisa rara agora.
Reparou…
Tenho olho disse sem vaidade. Portanto, é?
Sim. Medicina, leis, às vezes literatura.
Sou/era arquiteto explicou. Agora, logo se vê.
Não pode voltar?
As mãos aguentam. As costas é que pronto… veremos.
Se pudesse não trabalhar…
Não dava. Não é pelo dinheiro. É pela necessidade de projetar, pensar o espaço. O trabalho muda-nos a cabeça. Sem isso falta sempre alguma coisa.
Compreendo respondeu Rosa. No meu caso, é pensar noutra língua. Quando não o faço, falta sentido.
Certo anuiu Pedro.
Ficaram em silêncio. E era bom, não era pesado.
Fica muito tempo cá?
Três semanas.
Eu também. Havemos de nos cruzar.
Parece que sim.
***
Enquanto Rosa caminhava, Pedro Varela, o ex-marido, vivia outra vida.
Miguel não se percebia na nova fortuna. Três anos de doença e medo corporal, a cada diálise era menos. Agora, nada doía. Poder levantar-se sem pensar em comprimidos, um copo de vinho ao jantar sem conta certa… quase sem restrições. Sentia que renascera.
Cláudia era parte disso. Trinta e um anos, olhos claros, cheia de energia. Era gerente de uma agência de viagens, cheia de planos.
Olha, Miguel, vê isto! mostrava-lhe imagens no telemóvel: trilhos de montanha, águas azuis, penhascos. Descobri uns trilhos na Sardenha para abril, não são difíceis, mas lindíssimos. Vamos?
Vamos! dizia ele, de alma aberta.
Cláudia mudou-se. Trouxe caixas, mudou coisas, pendurou cortinas novas.
Miguel não pensava na Rosa. Ou, se pensava, era uma inquietação. Não culpa, porque não se sentia culpado. Rosa era uma boa mulher, tinha-lhe dado a vida. Mas era levar para baixo, era doença no olhar. E ele queria subir, ir mais longe.
Explicava-se assim. E funcionava.
No trabalho reparavam na diferença. Riam: Ó Almeida, estás um miúdo!
A vida recompõe-se! respondia ele.
E de facto, viajaram. Sardenha em abril, setembro na Islândia, para ver auroras boreais. Miguel queria tudo o que estivera interdito.
O ritmo parecia-lhe fundamental.
***
Enquanto isso, em Leiria, Rosa ia refazendo hábitos. Banho de pinho de manhã, caminhada, almoço, fisioterapia, leitura, chá ao fim do dia. Dormia mais, andava devagar.
Pedro também. Encontravam-se nas caminhadas; hora a hora, acabavam a conversar no banco junto ao lago.
Trinta e seis minutos hoje contou ao quarto dia.
Faltam quatro.
Cansei. Fitou o lago, já com buracos no gelo. Irrita.
Não devia. Está há cinco meses a recuperar de uma queda grave.
Pedro estudou-lhe o rosto.
Os textos médicos notam-se. Disse. Fala com realismo. Não embala, nem deprecia.
Não sei o que é ficar bem. Não sou médica.
Isso é raro sorriu. Honestidade é rara.
Ela pensou nisso. Nos últimos meses tinha ouvido muito vai ficar tudo bem, vais conseguir, és forte. Ninguém dizia a verdade.
Como foi? perguntou. Só se quiser responder.
Obra. Ando sempre nas obras, coisas correram mal com os andaimes. Três andares de altura.
E ficou?
E fiquei afirmou. Quando se está ali estendido e não se percebe, tudo se simplifica. Primeiro vê-se que se está vivo, depois que dói, depois aprende-se a distinguir se é recuperável.
Dura muito?
Dura. E voltou ao lago. Mas faz pensar. Casa própria não tive tempo de construir, só dos outros. Um filho com quem quase deixei de falar. Às vezes, é abalo que faltava.
Forma estranha de abalar.
A vida não é elegante.
Rosa riu-se baixinho. Surpreendeu-se a rir.
Três dias que conheço e ainda não a ouvi rir.
Só passaram três dias.
E não sorriu.
Não respondeu. O lago, agora com uma mancha escura, fascinava-a.
Rosa, ainda é casada?
Já não. Sem rodeios.
Há muito?
Quatro meses. Saiu de casa. Depois de
Calou-se. Depois continuou.
Dei o meu rim ao meu marido para o salvar. Ele não quis uma incapacitada. Palavras dele.
Pedro calou-se. Ouviu.
Dói disse afinal.
Dói confirmou ela.
***
Em março, derreteu o gelo do lago. A água escura ganhou reflexos de azul nas manhãs claras. Passarinhos gritavam logo ao nascer do dia.
Caminhavam juntos. Rosa adaptou o passo ao dele; ambos demoravam-se. A conversa fluía: temas de trabalho, arquitetura, línguas, corpo e mudanças. Rosa falou do corte no abdómen, do tempo que passou a detestá-lo, do aceitar, por fim, aquele traço como parte do corpo.
O corpo adapta-se disse Pedro. É pragmático.
Olha para a tua cicatriz?
Não dá jeito gracejou. Sinto-a todos os dias.
O que significa?
Que estou aqui. Já foi diferente. Não é preciso esquecer, basta estar.
Rosa pensava nisto ao serão, já deitada. Basta estar.
Era um modo diferente do de Miguel. Ele queria apagar tudo, começar de novo. Pedro aceitava que o novo era feito sobre o que ficou.
Não sabia o que sentir, mas gostava de pensar nisso.
***
Na segunda semana, começaram a tomar um chá juntos ao fim da tarde, perto da recepção. Ela levava bolachas que Carmo mandava. Ele pagava o chá da máquina.
Fala-me do teu filho.
Tomás. Vinte e seis anos. Informático no Porto. Casou-se no ano passado, mulher simpática. Falei uma vez com ela, no casamento. Nunca brigámos, mas crescemos em rumos diferentes.
Depois do acidente, falaste com ele?
Sim. Esteve comigo no hospital. Às vezes precisa acontecer algo grave para sentarmos juntos.
Sei o que isso é. Tenho uma filha, Sofia. Vinte e três. Ofereceu-se para vir ter comigo quando o Miguel foi embora, mas não aceitei.
Porquê?
Não queria que me visse assim. Não queria ser vitimizada. Sou mãe. Tinha que ser eu.
Por orgulho ou defesa?
Talvez ambos.
Sabe que estás aqui?
Sabe. Telefona. Oferece vir ao fim-de-semana. Estou a pensar aceitar.
Deixa-a vir.
Rosa olhou-o.
Porquê?
Porque é amor, não pena. Ele largou o copo. Demorei a entender. Quando o Tomás veio, percebi que não estávamos sozinhos.
Não achaste difícil que te visse frágil?
Achei. Mas vê na mesma. Filho sabe mais que nós julgamos.
Rosa acenou. Ligou à filha no dia seguinte e disse-lhe vem quando quiseres.
***
Miguel Almeida via revistas de viagens e sonhava com vulcões no Equador.
Olha, vê este mostrou o vulcão Cotopaxi a Cláudia. Quatro mil metros de altitude.
Nunca fizeste trekking.
Agora posso tudo.
Mas o médico disse para ter cuidado.
Caminhar é saudável.
Talvez no outono.
Combinado.
Miguel sentia que já não pensava quase nada em Rosa. Só nos raros telefonemas dos amigos comuns, ou ao encontrar nas farmácias os comprimidos imunosupressores. Lembrava-se de como ela arrumava as doses na caixa dos dias, sem que ele pedisse.
Agora fazia ele. Aprendeu isso também.
Já não precisava de antidepressivos, nem sentia abismos interiores. Os exames estavam normais, o nefrologista até sorria, algo surpreendido.
Está a correr bem.
Sinto-me ótimo.
E os esforços?
Moderados, prometo.
Atenção à dieta, à exposição ao calor.
Tenho cuidado.
Não se esqueça: o rim não é sozinho. Aceitou bem, mas não abuse.
Eu tenho noção.
***
Nunca chegaram ao Equador. Em vez disso, Cláudia propôs Marrocos, outubro. Cidades, mercados, deserto, camelos.
Não é trilho, mas é bonito.
Em Marrocos, estava calor. Trinta e cinco graus. Passaram dias a andar pela medina, a negociar, a comprar quase nada. Ao terceiro dia, Miguel sentiu febre.
Comi algo errado.
Ou calor a mais.
Deitou-se, sossegou. Passou. Mas ao último dia, sentiu dor do lado direito, onde o rim novo estava.
O que foi?
É só dor.
Em casa, a dor passou, mas ficou um incómodo, uma sombra de preocupação.
***
Sofia chegou ao centro de bem-estar num sábado. Alta como o pai, olhos claros como a mãe.
Mãe disse, abraçando-a.
Sofia respondeu Rosa.
Beberam chá na receção. Sofia contou da vida, da nova casa com o namorado. Rosa percebeu que a filha crescera num instante.
E tu, como estás?
Melhor.
Isto é bom?
É. É sossegado. E conheci uma pessoa.
Uma pessoa.
Um arquiteto, também a recuperar.
Uma boa pessoa? Sofia inquiriu com sorriso.
Não me provoques.
Só estou feliz por ti, mãe.
Cresceste.
Já era tempo.
Nesse dia Pedro cruzou-se com elas. Cumprimentou educadamente. Percebeu-se quanto a filha acolhia.
Estou bem disse Sofia, ao vê-lo sair.
***
A última semana passou devagar, e bem. O parque cobria-se de verde, o lago brilhava. Pedro já andava 1h20, quase sem parar.
Melhorou.
Faltam três ou quatro meses, diz o fisiatra.
Quero ir ao Porto ver o meu filho. Só porque sim.
Porque sim?
Sim. Tem razão sobre o amor. O que vem de pena afasta, o que vem de amor aproxima.
És observador.
Arquiteto olha os espaços entre as coisas, não as coisas.
Isso é bonito.
É prático. Posso perguntar uma coisa? quis saber Pedro. Quando regressarmos, deixas-me ligar-te?
Rosa parou. Ele também. Entre os pinheiros, o lago a brilhar ao fundo.
Deixo.
Está combinado.
Continuaram a caminhar.
***
Em fim de março regressou a casa. A mesma. Nada havia mudado nos móveis nem nas cortinas, mas tudo estava diferente. Ou talvez fosse ela.
Abriu as janelas, comprou legumes, carne, sabor para jantar a sério. Pôs música na rádio.
Carmo telefonou.
Já voltei.
E então?
Correu bem.
Ouve-se na voz. Encontraste alguém?
Encontrei.
E contou-lhe, resumidamente: nome, idade, profissão, minuciosa caminhada no parque, chá ao fim do dia.
Vai ligar?
Disse que sim.
Pedro ligou no dia seguinte.
***
Começaram a ver-se. Devagar. Era esse o ritmo.
Primeiro jantar fora, num restaurante junto ao Chiado. Pedro vivia sozinho, divorciado há muitos anos. Ex-mulher em Faro.
Separámos a bem. Ela precisava de rotina. Eu vivia em obras, viajava, tinha horários loucos.
Tomás ficou contigo?
Só uns anos, depois foi para a mãe, agora está sozinho no Porto.
Foste mau pai?
Fui ausente, não mau.
Jantaram. Na rua cheirava a abril, luz húmida dos candeeiros.
Preciso dizer-te uma coisa começou ele.
Diz.
Não sei o meu ritmo. Sou lento, agora ainda mais. Se para ti está bem, ótimo. Se não, compreendo.
Também trago outro tempo.
Vi-te caminhar. Sabes onde vais.
Era o maior elogio que Rosa recebera.
***
Viam-se semanalmente, conversavam. Partilhavam consultas médicas, esperavam um pelo outro para andar pelo Jardim da Estrela, ela traduzia, ele contratava projectos pequenos.
Em maio, convidou-a para uma exposição de projetos arquitetónicos. No meio das maquetas, mostrou-lhe uma casa que projetara antes do acidente.
Está quase pronta, queria ir ver no outono. Vens?
Era a primeira vez de tu cá, tu lá.
Vou respondeu ela.
Mudou qualquer coisa subtil, ali.
***
Naquele verão, Miguel começou a sentir problemas.
Tudo começou com análises. O nefrologista marcou consulta.
Sr. Miguel, estou preocupado com alguns resultados dos seus exames. Suspeita de rejeição.
Não…
Ouça, apanhámos cedo. Mas é preciso cumprir com rigor. E os esforços? Tem viajado?
Montenegro, Islândia, Marrocos…
O médico ficou sério.
Viagens são risco. A mudança de clima, altura, temperatura, afetam a medicação. O rim sobrevive por disciplina, não por instinto.
Miguel saiu do consultório, sentou-se no carro. Sentiu inveja dos jovens que riam ao lado.
***
Cláudia soube dos exames. Primeiro, esteve atenta. Depois, começou a irritar-se, sem dizer. Ia ficando fora noite sim, noite não.
Discutiram em novembro sobre planos para o fim de ano. Mas o problema era mais fundo.
Não posso viver assim disse Cláudia, cansada. Estás sempre ansioso, triste, não ficas cá.
Desculpa.
Não é a desculpa. É que não era isto que imaginava.
Miguel percebeu. Estranhamente, lembrou-se de Rosa.
Do modo como ela falava calmamente das doenças, sem drama. Como organizava os medicamentos. Como nunca fez cenas.
Afugentou o pensamento.
***
Em dezembro, Rosa sabia sentia dentro de si um tipo novo de felicidade. Não eufórica, serena. Acordava contente.
Pedro recuperou totalmente. Ria de si, pelo hábito de abrandar em plano.
Já podes andar depressa.
O corpo leva tempo a desaprender.
Naquele outubro, visitaram a tal casa terminada nos arredores de Setúbal. Pedro via detalhes, Rosa só via árvores e luz. Agradeceu-lhe.
Quero que vivas aqui disse-lhe ele.
Um dia.
É resposta?
É sincera. Não tenho pressa.
***
Em janeiro, Carmo ligou.
Ouviste falar do Miguel?
Aperto velho, quase esquecido.
Que aconteceu?
No hospital, complicações renais. Soube pela colega dele, dizem que a Cláudia se foi embora.
Rosa ficou à janela. Janeiro. Sabe-se lá do quê.
Obrigada por me teres dito.
Como estás?
Estou bem, Carmo. Muito bem.
Desligou, olhou a cidade. Sentiu uma coisa antiga, não raiva, não pena. Um entendimento profundo.
Ligou a Pedro.
Olá.
Está tudo bem?
Sim. Só queria ouvir a tua voz.
Tanto quanto quiseres.
Vens jantar? Faço uma sopa decente.
Já vou.
***
Miguel saiu do hospital em fevereiro. Magro. Outro rosto.
Vivia sozinho. Cortinas da Cláudia ainda lá. Ajudou-a a pôr as caixas no táxi, despediram-se educadamente. Na tristeza, não houve zanga, só conclusão.
Pensava em Rosa. A princípio pouco, depois mais. Percebeu que precisava de alguém assim alguém que ficasse, que cuidasse, que não fugisse.
Achou o número dela num velho telemóvel. Olhou, hesitou, ligou.
Ela atendeu ao terceiro toque.
Miguel…
Olá, Rosa.
Tudo bem?
Sabes o porquê da chamada.
Sei.
Gostava de falar contigo.
Vem, então.
***
Chegou num domingo à tarde. Rosa abriu à primeira parecia estar à espera.
Miguel estava diferente. Não era só velho: era realista.
Senta.
Trouxe-lhe chá. Ficaram calados. Ele olhava as fotos da filha e dela, jovem, sorridente.
Rosa, sei que não tenho direito, mas preciso tentar…
Não precisas.
Preciso. Quero pedir para tentarmos de novo. Mudei. Percebi agora quem e o quê preciso.
Ela pousou a chávena.
Precisas de mim? Ou de quem saiba cuidar de ti?
Ele hesitou.
Não é igual?
Não. A voz serena, não fria. Vieste porque te assustou a solidão com a doença. Porque sabes que quem está contigo a cuidar não foge. E lembraste que já tiveste isso.
Deixa-me acabar, Rosa. Não estou zangada. Não estou magoada. Já passou. Agora estou bem. A sério.
Como conseguiste?
Ajuda, tempo. A Carmo, o centro, tempo, e uma pessoa que não foge.
Eu fugi.
Fugiste.
Porque tive medo.
Ficou-te a ideia que um corpo doente era uma vida acabada. Enganaste-te. Não é o fim, é começo de outra coisa, que pode ser boa.
Rosa, quero voltar.
Tu queres voltares porque queres cuidados. Não amor. Amor é dar, não só querer receber. Se fosse amor, nunca tinhas fugido.
Silêncio.
Não sei como seguir em frente disse ele por fim.
É aí que começa. Começa-se a pensar. Em ti viste só velocidade, movimento. Mas é no fundo que se descobre se há alicerce.
E tu?
Eu descobri-me. E encontrei alguém igual a mim.
Olhou para ela percebeu finalmente.
És feliz? perguntou.
Ela hesitou.
Sim. De forma diferente. Mas sim.
Ainda bem murmurou e fechou a porta, sem fazer barulho.
***
Rosa ficou no corredor. Ouviu o elevador, ouviu portas, ouviu carros lá fora.
Pegou no telemóvel e escreveu:
Já foi. Está tudo bem. Onde estás?
Chegou resposta: À beira-rio. Vem.
Vestiu o casaco, saiu.
Lá fora o frio era seco, o ar limpo. Andava calmamente, sem pressas, sabendo exatamente por onde.
Pedro estava sobre as grades, olhando o Tejo. Ouvia passos, virou-se.
Demoraste.
O metro foi rápido.
Tudo bem?
Sim. A sério.
Que queria ele?
Recomeçar.
Pedro não comentou.
Explicaste-lhe?
Sim.
Percebeu?
Não sei. Acho que sim. Estava mudado. Mais calmo.
A vida muda quem quer mudar. Os outros parte ao meio.
Pedro acenou.
Ficaram à beira do rio, lado a lado, o vento fresco, mas suportável, o céu já a anoitecer, cor de rosa.
Ele não lhe pegou na mão de imediato. Apenas ficou ao lado. Só algum tempo depois, deixou os dedos tocarem os dela. Sem pedir, só ficando ali, devagar, como quem sabe que não se corre para lado nenhum, porque o caminho é sereno e é o certo.
Rosa não se afastou.
O rio corria.
***
Li nestes meses que há dores sem nome, mas todas passam, se deixarmos o mundo entrar, se aprendermos a estar. Não há velocidade que substitua o tempo de aceitar o que nos aconteceu. Aprendi que cuidar do outro só tem sentido quando sabemos cuidar de nós mesmos. Agora sei esperar, viver ao ritmo possível, com o amor que surge devagar. Estou, por fim, inteiro. Isso basta.






