A Tia Chega de Surpresa, Esposa em Lágrimas: Uma Noite Caótica e o Desabafo de uma Família Portuguesa

O som estridente da campainha ecoou pelo apartamento, arrancando Rogério do sono profundo. Ao seu lado, Maria Inês, a esposa, tentou ajeitar o cobertor sobre os ombros. Rogério passou-lhe a mão carinhosamente e sussurrou, cansado:

Dorme, querida, eu vou ver quem é…

Arrastando os chinelos até à porta, falou baixinho, ansioso:
Quem é que aparece assim a estas horas?

Ao abrir a porta, deparou-se com a tia Gracinda, de mala volumosa na mão, acompanhada do tio Amadeu, que se remexia nervosamente no patamar.

Meu querido sobrinho! exclamou tia Gracinda, quase abafando Rogério num abraço apertado, como se quisesse esmagá-lo entre os braços.
Lá se vai a nossa tranquilidade, pensou Rogério, resignado, enquanto carregava os sacos aparatosos pelo corredor.

A noite que se seguiu foi um pandemónio. Gracinda recusou-se a dormir no sofá, declarando-o um desconforto insuportável, e insinuava com ar dramático que talvez Rogério próprio a deitasse. O apartamento virou-se de pernas para o ar em menos de uma hora.

Maria Inês, incrédula, assistia às movimentações. Quando finalmente se instalou a calma, Gracinda e Amadeu apropriaram-se do quarto, restando aos anfitriões a dureza do sofá-cama.

Durante o pequeno-almoço, Maria Inês, nervosa e com os olhos inchados, sussurrou, oferecendo a chávena de café:

Quanto tempo achas que vão ficar?

Não sei, amor. Pergunto logo quando voltar do trabalho, prometo…

Rogério tentou serenar o ambiente, mas Maria Inês, ouvindo os roncos do quarto, suplicou:

Tenho medo deles… Por favor, tenta chegar cedo hoje!

Eu vou tentar, confia em mim, respondeu ele, antes de sair.

Ao regressar, foi recebido por uma mesa posta com requinte, as toalhas de linho da mãe e a louça antiga exposta.

Senta-te, sobrinho! Hoje celebramos o reencontro da família! anunciou Gracinda da cozinha.

Maria Inês sussurrou-lhe, os olhos marejados:

Ainda bem que chegaste…

Sentaram-se todos. Rogério, inquieto, arriscou:

Tia Gracinda, já estão cá há mais de um dia… Têm planos para regressar a casa?

A tia franziu o sobrolho, ofendida:

Já nos estás a expulsar? Sabes, parece que não somos bem-vindos nesta casa… grunhiu para Amadeu, que mastigava em silêncio.

Tia, como pode dizer isso? Podem ficar o tempo que quiserem! Rogério tentava (em vão) entender os olhares.

Foi então que Gracinda disparou, deitando-se dramaticamente na cadeira:

Vamos ficar, Rogério. Para sempre. Já vendemos o nosso apartamento de Benfica. Só nos resta a família. Não me vais pôr na rua, pois não? O que nos faltar de vida, bem podes aguentar connosco, não achas?

Amadeu limpou calmamente a boca ao guardanapo:

Concordo contigo, querida murmurou, sem largar o prato.

És um banana, Amadeu! Falo sempre eu nestas coisas. Que género de homem és tu? bufou Gracinda, virando-se então para Rogério. E tu, estás feliz com essa mulher?

Nesse instante, ouviram-se os soluços de Maria Inês na entrada. Rogério, encurralado, pegou na garfada de arroz sem entusiasmos. Os tios mastigavam com uma energia tal que parecia ouvir-se estalar loiça.

No fim da refeição, Gracinda reclinou-se com teatralidade e declarou:

Pronto, era uma brincadeira, meu querido. Viemos só por uns dias, para controlos no hospital. Vais ter de nos aturar só três noites… Foste um bom sobrinho, apanhaste um susto, mas mantiveste a calma. Fico feliz de ver que não esqueces da família. Não temos filhos, por isso serás o nosso único herdeiro. O apartamento de Benfica será tudo teu, um dia.

O alívio estampou-se na cara de Rogério e respondeu, desta vez sincero e leve:

Tia Gracinda, viva cem anos!

Naqueles dias, Maria Inês foi sombra do que era: chorosa, insegura, perdia-se em tentativas de agradar à visitante: a sopa estava insossa, os bifes demasiado secos, a roupa cheirava a detergente estranho e o chão, diziam, parecia nunca lavado como lhe competia.

Quando chegou a hora da despedida, Gracinda sussurrou ao ouvido ao sobrinho:

Como pudeste casar-te com uma queixosa destas? Parece que está sempre prenha, só porque não aguenta as lágrimas.

Quando enfim fecharam a porta atrás dos tios, Maria Inês não conteve a alegria, dançando pela sala:

Oxalá nunca mais voltem suspirou, entre risos e lágrimas.

Não digas nada… Acho que a tia até gostou de estar aqui! brincou Rogério.

Já não aguento mais loucuras destas… gemeu ela.

A campainha soou fracturando o silêncio.

Outra vez?! saltou Rogério Ah! Era só o despertador. sorriu por fim. O dia parecia agora, finalmente, luminoso.

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Já chega, basta, vou embora! Até quando isto vai continuar!