Peguei os meus sacos de guloseimas. Pensem de mim o que quiserem!

Eu era a irmã mais velha de uma família numerosa, daquelas em que há sempre sopa na panela e roupa a secar nos cordéis da varanda. Quem tratava dos irmãos todos? Pois claro, eu. Era eu que lhes dava de comer, dava banho, levava-os à creche e à escola. Os meus pais nunca perguntaram se eu queria aquilo era assim e pronto, acabava a conversa.

Amigos? Nem vê-los. O tempo que tinha era para limpar narizes ranhosos, não para ir para o jardim brincar. Os miúdos da minha idade gozavam comigo: A Ana só sabe limpar o rabinho aos irmãos! Claro que me magoava, muitas vezes chorava em silêncio. O meu pai apanhou-me uma vez e deu-me uma tareia de cinto, garantindo que assim me tirava a «parvoíce» da cabeça.

A minha infância ficou em parte incerta. Quando acabei o 9.º ano, fui para a Escola Profissional ali de Setúbal. Não fui eu que escolhi: os meus pais é que decidiram que tinha de ser cozinheira, para assim ninguém morrer à fome lá em casa.

Três anos depois, arranjei trabalho num café. O meu pai queria que eu trouxesse comida, mas eu recusei. A minha mãe chamou-me egoísta, acusou-me de os deixar passar fome. Até o meu primeiro ordenado em euros me foi tirado. No segundo mês, fiz as malas e apanhei o primeiro comboio a sair da estação. Pouco importava para onde ia, desde que me afastasse daquele pesadelo. Se ficasse, sabia bem que daria cabo da minha vida.

Não foi fácil. Mas ser criada dos meus pais era pior. Decidi que ia atrás dos meus sonhos, custasse o que custasse. Comecei a esfregar chão, varri muito soalho até que passei a lavar pratos. Só mais tarde me deixaram meter as mãos nas panelas.

Mesmo quando comecei a ganhar mais, continuei a apertar o cinto e poupar cada cêntimo. Juntei tudo num mealheiro, sempre a pensar no dia em que teria o meu próprio apartamento só meu, com cortinas escolhidas por mim e tudo! Durante este tempo vivi em casa da minha avó Aurora. Ela cobrava-me só uma quantia simbólica e eu ajudava-a com as lides da casa. A velha senhora foi mais família para mim do que os meus pais alguma vez foram. Recebia-me sempre do trabalho com chá de limonete e bolo caseiro. Nessas alturas, sentia-me a rapariga mais feliz do mundo.

Acabei por conhecer o Manuel, o meu futuro marido. Não houve casamento daqueles de vestido branco só fomos ao registo civil, assinámos papéis e pronto. Fui morar com os pais dele em Coimbra. Meses depois nasceu a Mariana, pouco tempo depois veio o Tiago.

Comecei a sonhar com os meus pais. Falei com o Manuel e decidimos ir visitá-los. Comprei sacos cheios de prendas, mentalizei-me para uma visita calorosa. Quando lá cheguei, fui recebida com insultos e até tentaram pôr-me a mão. Os meus irmãos andavam metidos no vinho, a minha irmã estava perdida também.

A minha mãe e o meu pai nem repararam que eu não estava sozinha. Nem olharam para os netos, fecharam-me a porta na cara. Vão dizer que sou rancorosa, mas olhei uma vez para trás e fui-me embora. Levei os presentes comigo. Nem a um velório lá volto eu.

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