Avó pobre alimentava gémeos famintos — vinte anos depois, dois Lexus pararam à porta dela

Olhe, a sua batata caiu.

Dona Judite Salgueiro virou-se, arqueando uma sobrancelha. Dois miúdos, iguaizinhos e magros, com blusões que lhes caíam até aos joelhos, espreitavam-na. Um apanhou a batata, esfregou-a nas calças e estendeu-lha. O outro olhava para a caixa de batatas cozidas como se não comesse há três dias.

Obrigada, meninos. Mas digam lá, estão sempre a rondar por aqui Já é a terceira vez que vos apanho!

O mais crescido encolheu os ombros:

Só a passar o tempo.

Ela sorriu, conhecendo bem aquele só a passar o tempo. Enrolou duas batatas num papel de jornal, juntou um pepino e estendeu-lhes o embrulho.

Amanhã, passem cá. Ajudam-me a carregar as caixas, pode ser?

Eles agarraram no pacote e sumiram-se sem dizer palavra.

Mais tarde, já com o sol a pôr-se atrás dos telhados cinzentos, Judite arrastava um balde de água quando os dois miúdos apareceram de novo. Em silêncio, pegaram no balde e levaram-no pelos degraus. O mais velho meteu a mão no bolso e tirou duas moedas de escudo, velhas, sem brilho.

Era do pai. Ele era padeiro, depois Já não está cá. Não damos a ninguém, mas pode espreitar.

Ela percebeu aquilo era tudo o que tinham.

Tomás e Egídio passaram a voltar todos os dias. Judite dava-lhes o que trazia de casa, e eles ajudavam como podiam, carregando sacos, empilhando caixas. Comiam depressa, sempre de olhos pregados ao chão. Um dia, ela perguntou:

Onde é que vocês dormem, rapazes?

Num cave ali ao fundo da Rua da Fábrica, respondeu Egídio. Lá não chove, não se preocupe.

E como não me havia de preocupar?! Por isso pergunto.

Tomás ergueu a cabeça:

Nós não somos pedintes. Quando crescermos, abrimos uma padaria. Como o pai tinha.

Judite assentiu, sem querer cavar mais fundo. Davam ares de serem rígidos, teimosos. Uma disciplina de ferro, típica de quem vem de maus lençóis.

Mas no mercado, começou a reparar que o senhor Vasco Carneiro, o porteiro do recinto, a vigiava. A mulher dele vendia peixe salgado e praticamente ninguém lá ia. Ao balcão de Judite formava-se fila. Ele resmungava sempre a passar:

A senhora pensa que isto é a Santa Casa? A dar comida a gente de rua

Preocupe-se com a sua banca, Vasco.

Isto é comigo sim. Aqui sou eu que mando.

Apontava coisas num bloco, fitava os miúdos de cima a baixo. Judite sentia-lhe a má vontade, mas nunca imaginou até onde ele iria.

Foi numa quarta-feira que tudo mudou. Um carro parou em frente da banca. Saíram duas mulheres e uma agente da GNR. Tomás e Egídio empilhavam caixas e congelaram.

Tomás e Egídio Salgueiro?

Sim, respondeu o mais velho.

Façam o favor de vir. Vamos para a instituição.

Judite irrompeu, peito aberto:

Onde é que pensam que levam os miúdos?! Eles estão comigo, respondo eu por eles!

Está a explorar menores, disse uma das mulheres, apontando com o olhar para Vasco, que assistia de braços cruzados. Houve denúncia. Eles vão para um lar do Estado.

Explorar?! Eu só lhes dou de comer!

Deixe, Tia Judite, murmurou Tomás. Não se meta em trabalhos.

Egídio só cerrava os punhos, sem palavras. Levaram-no para o carro. Judite atirou-se à manga da assistente:

Deixem-me ser eu a responsável, posso pedir a tutela!

É pensionista. Dê um passo atrás. Os meninos vão ser colocados em instituições diferentes.

Diferentes?! Mas eles são irmãos!

A porta fez um estrondo. Judite ficou ali no meio do mercado, a ver o rosto de Tomás pela janela, colado ao vidro. Só os lábios se mexeram: Obrigado.

Vasco Carneiro assobiou ao passar por ela.

Passaram vinte anos.

Judite Salgueiro deixou o mercado vivia agora numa casa antiga no fim da aldeia, quase sem dinheiro, mal chegava ao fim do mês. Pensava nos rapazes. Estariam vivos? E juntos? Sonhava com eles: sentados ao balcão, a comer batatas, ela a afagar-lhes o cabelo.

Vasco vivia na rua em frente. Envelhecera, mas quando cruzavam olhares não resistia à provocação:

Então, Judite, ainda a pensar nos seus abrigados?

Ela não respondia. Nem forças para isso tinha.

Num sábado, enquanto tratava das couves, chegaram dois carros em silêncio pretos, a brilhar, de ar imponente. Nunca tais viaturas tinham passado por ali. Os vizinhos espreitavam nas soleiras.

Pararam mesmo à porta dela.

Saíram dois homens de fato, altos, iguais, com sinais no rosto. Judite endireitou as costas, a enxada caiu.

Tia Judite?

A voz tremeu-lhe. Reconheceu-os pelos olhos os mesmos de há vinte anos.

Tomás?..

Ele acenou. Egídio sorriu, parado ao lado. Tomás deu um passo, puxou de uma corrente e mostrou-lhe uma moeda de cobre a tal.

Eu e o Egídio nunca nos separamos dela.

Judite abraçou-os, um de cada lado, e ficaram assim, agarrados como se fosse um sonho.

O povo nem respirava, sem perceber nada. Egídio afastou-se, limpou o rosto à palma da mão:

Demorámos três anos a encontrá-la. O mercado foi abaixo, as pessoas espalharam-se. Só a conseguimos encontrar pelos antigos registos. Chegámos a ter medo que já não a víssemos.

Tomás pegou-lhe na mão:

Viemos buscá-la. Temos padarias, dezassete no total. Levantámos tudo do zero. Separaram-nos, mas o destino juntou-nos outra vez; fugimos dos lares, começámos de novo. E nunca esquecemos que foi a única pessoa a parar e a ajudar-nos.

Oh, meninos Eu cá vou-me aguentando

A aguentar-se? Egídio olhou em volta para a casa torcida. Tia Judite, há vinte anos dividiu connosco o último, agora é a nossa vez. Vai viver connosco, comigo ou com o Tomás. Andamos nisto há uma semana, não chegamos a consenso.

A casa dele fica perto do centro de saúde disse Tomás mas a minha quintinha tem um pomar dos melhores.

Desataram a falar um por cima do outro, como se nunca tivessem crescido, e Judite chorou baixinho.

Vasco Carneiro espreitava atrás da sebe. Reconheceu os carros, os fatos e ficou sem palavras. Tomás apanhou-lhe o olhar e foi ter com ele.

É o senhor Vasco, não é? O porteiro do mercado?

Vasco acenou.

Foi você que deu a denúncia?

Silêncio. Depois, velho, resmungou:

Era a lei. Não se pode explorar os miúdos.

Egídio esboçou um sorriso torto:

Olhe, se não fosse o senhor, se calhar continuávamos na cave. Assim, separaram-nos, depois encontrámo-nos, começámos do zero e a vida mudou. De certa forma, acabou por nos dar uma oportunidade.

Tomás estendeu-lhe um cartão:

Fique com os nossos contactos. Nunca se sabe. Nós não guardamos rancor. Nem toda a gente pode dizer o mesmo.

As mãos de Vasco tremiam ao segurar o cartão: Padarias Salgueiro & Salgueiro. Ficou lívido, virou as costas e entrou em casa, corcunda, como quem carrega uma laje às costas.

Judite Salgueiro fez a trouxa em meia hora. Também, pouco havia para arrumar. Tomás e Egídio sentaram-na no banco de trás, taparam-na com uma manta de lã.

Quando os carros arrancaram, Judite olhou para trás. Num dos vidros via-se a sombra de Vasco. E naquele olhar não havia raiva, nem vingança. Só o vazio de quem passou a vida a fazer mal aos outros e no fim ficou sem nada.

Tia Judite Tomás olhou pelo retrovisor. Lembra-se que prometemos abrir uma padaria?

Lembro pois.

A principal chama-se Da Tia Judite. Todos os dias alimentamos crianças, à borla. Aqueles que não têm onde ir.

Judite fechou os olhos. Vinte anos antes, dera duas batatas a uns rapazes esfomeados. Não lhes virou costas. Eles voltaram, e deram-lhe tudo e mais um pouco.

Os carros apanharam a estrada nacional. A velha aldeia ficou para trás. Pela frente só o que verdadeiramente merecia: uma vida nova, só por nunca ter deixado de ser humana.

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