Eh pá, que homem sério és tu, Manuel Antunes! Não é por acaso que te chamam de Lobo Solitário! Ninguém te arranca um sorriso. Basta um olhar teu, e qualquer um se encolhe. O que foi, congelaram-te o coração? A vida deixou de te ser querida, é?
A Rosalina ainda murmurava qualquer coisa atrás de mim, mas eu, Manuel, já tinha deixado de ouvir. Peguei, em silêncio, nas minhas compras do balcão da única mercearia lá da aldeia, e encaminhei-me para a porta.
A tua Filipa apareceu esta semana por cá, na casa da mãe. Trouxe o miúdo. Ouves, Manuel Antunes? E se afinal for teu filho, hã? Vais deixá-lo crescer sem pai? Até parece contigo, olha lá!
O remoque atingiu-me quando já punha o pé fora quase tropecei na soleira baixa. Não olhei para trás. Que sentido tinha? Por mais que explicasse, nunca acreditariam. A vida toda aqui é um poço de mexericos e meio-verdades. E o resto, se não sabem, inventam. Para quê discutir aquilo que é só meu e da Filipa? Assuntos assim, não é para os outros.
O sol, quente demais para Maio, inundou-me a cara de calor e obrigou-me a semicerrar os olhos. As pálpebras caíram devagar, e o meu rosto ficou imóvel, talhado a pedra. Segui em frente, sem pressa, mas o grito de uma criança pôs-me de novo alerta:
Cuidado!
O rapaz, saltando das escadas da mercearia, apanhou, num ápice, dois cachorrinhos que deambulavam pelos degraus.
Não calque os bichinhos por favor!
Nariz arrebitado, olhos escuros com pestanas pesadas e cabides nas orelhas, tão salientes como as minhas. Aí está o miúdo de que falavam as vizinhas. Apesar disso, eu sabia bem que o rapaz, que agora me fitava com curiosidade, não era meu filho. Parentesco tinha, mas não tanto assim.
Não quer um cachorro? Veja-lhe as patas, são do tamanho de um lobo! Vai ser rijo!
Assenti com um aceno de cabeça e segui até ao cruzamento, mas enveredei pelo beco mais curto, já sem forças. Encostei o respaldo ao muro carcomido da casa dos Moinhos e tentei respirar.
Porquê isto tudo? Porque havia ela de regressar agora? E aquele rapaz, que podia bem ter sido meu, se tudo tivesse corrido diferente? Será que o Nuno a deixou de vez?
Os pensamentos apertavam o peito, o coração falhava, como naquela primavera distante, fazia já sete anos. A memória não se cala, por mais que eu lhe ordene.
A Eduarda dos Moinhos abriu a cancela, arregalou as sobrancelhas e correu para mim:
Ó Manel! Sentes-te mal? Anda, apoia-te aqui no meu braço! Ou chamo o Tonho?
As mãos dela aqueciam mais que o próprio sol e, ao abrir os olhos, senti um consolo antigo.
Não é preciso, Eduarda, deix estar… Eu já passo…
Para onde queres ir, criatura? Encosta-te a mim! Assim! Isso… devagar. Estás pesado, santo Deus. Antunes, não podes dar cabo do coração! E depois, quem é que responde por ti? Ainda dizem que não te vigio! És paciente meu, esqueceu-te? Não quero cá sustos! Agora vou medir-te a tensão e já levas uma pica, ou duas, para ficares fresco que nem uma alface! Anda daí…
As pernas falhavam, mas a Eduarda era feita de ferro. Quase que me arrastou até ao seu quintal, encostou a cancela com o pé e gritou:
Tonho! Dá-me aqui uma mão!
A partir daí, recordo pouco. Acordei no velho sofá da sala dela, um peso estranho no peito. Por instantes achei que era mesmo o coração. Mas, ao abrir os olhos, aliviei. Uma gata cinzenta, fofa e macia, lambia um dos seus gatinhos que dormia encostado ao meu flanco; os outros remexiam-se na minha camisola.
A nossa Mimos, essa sim, sabe ler as pessoas! Se ela trouxe os filhos dela para ti, Manel, é porque tens boa alma. Não confiava em mais ninguém.
A Eduarda, deixando de parte os cadernos das filhas, começou a tratar de mim.
Já está! O pulso está melhor, estás quase bom. Agora, não me assustes mais! Com a estrada desta maneira, nem a ambulância cá entra. Achas cedo para morrer?! Tens tanto por fazer ainda!
Enfim, Eduarda… Só me resta a Mimosa e o Guardião. Não tenho mais nada.
Tua vaca é uma senhora! E precisa de ti inteiro. Se te der para adoecer, como é?
Reparei então nas cortinas corridas e luz quente da sala.
Que horas são, Eduarda?
Quieto! Já é tarde. Ficas aqui a dormir esta noite. A Mimosa eu já a vi, está bem.
Ela ajeitou-me os cobertores, abraçou o marido de fugida e foi à cozinha. O Tonho sentou-se a meu lado.
Continuas em baixo?
Não sei sequer explicar, amigo.
Eu sei. A Filipa, pois.
Não mexas, Tonho… desviei o olhar para os olhos verdes de Mimos.
Até a gata sente, Manel. Trouxe todos os seus gatinhos para ti, para te acalmares. Ficou ao teu lado, a vigiar-te até a Eduarda te pôr em sentido. Quando te viu dormir, apanhou os filhos e trouxe-os, um a um.
Animais, Manel, são mais sábios que nós. Vêem com o coração. Tu guardas tudo dentro, mas até quando? Lembro-me: quando precisei, apareceste logo para ajudar. E agora é minha vez. Deixa-me tentar fazer algo por ti, está bem?
Como posso ser ajudado, Tonho?
A minha avó dizia sempre: a dor, por vezes, é para derramar. Se não tens quem ouça, cava um buraco e grita lá para dentro. O que não se deita fora, corrói-te. Está na hora de falares, Manel. Sempre foste homem sério, mas sabes bem, nunca fomos feitos para a solidão.
Sabes… Não é assunto de pôr na rua. É vergonha de homem. Tu viste como eu amava a Filipa. Corria atrás dela desde rapazote. Todo o mundo via.
Ninguém me tira da cabeça que o problema nunca foi aquela traição. Nunca!
Virei a cara, seco nos olhos, mas exausto por dentro. Tudo o que havia para chorar, tinha já deixado naquela mata, caído de joelhos como um bicho.
Manuel, como pudeste afastar-te assim? Nunca acreditei nisso.
Eu vi, Tonho. Vi com estes olhos. Se mas dissessem, não acreditava…
O Tonho suspirou, incrédulo.
Conta-me tudo, mesmo! Alguma coisa não bate certo.
Não bate, não. Ela mentiu-me. Fez-me acreditar que o amor era só para mim. Acabei sem esposa, sem família. Os meus não me compreenderam, os restantes viraram-me as costas. Homem que perde o respeito da mulher, o que lhe resta? Força nenhuma…
Lá isso tens razão… Mas com quem é que foi, afinal?
Com o Nuno. O meu primo. Justo quando ele voltou para a aldeia com a mãe, ficaram meses em casa dos meus pais. Naquele tempo, eu e a Filipa a acabar o nosso lar, cheios de planos. Queríamos fazer uma queijaria, até tínhamos acordo com a estância termal para levar o nosso requeijão. A Filipa foi logo a favor da ideia gostava disto das vacas, aprendeu com o pai, homem de raça, sabes. Ela mandou-me ao Porto arranjar negócios, mas… Ela ficou cá.
Olha que aqui na aldeia nunca se disse nada. Nem mulher alguma falou de mexericos. A Eduarda saberia logo.
Tudo aconteceu dentro de casa. E só. Difícil para mim dizer isto, amigo. Calado fiquei este tempo todo e sinto dentro uma pedra, não, uma montanha!
O Tonho, engolindo em seco, perguntou:
E o menino? Vi-o um miúdo porreiro. E de ti tem tudo!
Que dúvidas? Eu vi-os juntos, na cozinha. O Nuno a beijá-la, ela sem afastar…
Neste ponto, a Eduarda apareceu para me injectar e pôr a dormir, e baixei a cabeça, já sem forças para esconder as lágrimas. Adormeci logo.
O Tonho foi até à varanda conversar com a Eduarda.
Ouviste tudo?
Ouvi.
E então?
Vou ter com a mãe do Manuel. E depois, à Filipa. Isto tem de se resolver. O coração do Manel já não aguenta. Vê-se que a Filipa definha. Está só de pé pelo miúdo. E ao menino falta-lhe um pai ao lado. Tenho de ir.
Vai, mulher.
A Eduarda saiu para a rua enquanto o Tonho ficava no alpendre a pensar. A vida nunca é o que desejamos, dizia ele para si. Pensamos que agarramos a felicidade e, afinal, é uma pena solta. Ele, que perdera tanta coisa os pais, o filho pequeno; e mesmo assim receberam as gémeas como dádiva, com medo e esperança misturadas. A Eduarda sentia sempre a culpa à perca do filho, nunca acreditou estar absolvida, mesmo anos depois, mesmo quando todos lhe diziam que com certas doenças ninguém vence. Mas só depois de muita insistência e paciência é que conseguiu voltar a sorrir. Agora, percebia no olhar triste daquele menino o que custa crescer sem saber o que é um pai.
Passaram horas. Duas vezes, o Tonho entrou para ver Manuel dormia pesado entre gatinhos e mantas. Foi já o dia a raiar, quando a Eduarda voltou, exausta e de lágrimas na cara.
Muitas feridas, Tonho. Pior que bichos feridos…
Chorou, lavada em dor, e contou. Era o filho do Manel, mas só agora havia certezas. Vera, tia do Manuel, tinha confessado tudo.
Como foi? Anos sem soltar uma palavra, e agora?
Não sei se foi vergonha ou medo de mim. Fui logo ter com a Filipa. Contou-me como foi aquele dia. Não teve culpa no beijo. Já estava de esperanças, mas receava contar antes de ter a certeza. Teve três abortos, Tonho, nunca contou a ninguém. Eles próprios carregam tudo sozinhos, que nem dois ursões emburrados.
Gravou-se nela o beijo do Nuno, o Manuel a afastar-se para os confins, a Filipa ir para o Porto, cada um a sofrer no seu canto.
E a Vera? Porquê?
Despeitou a irmã a vida inteira. Porque a irmã sempre foi a preferida, tinha, segundo ela, tudo. Quando casou com o pai do Manuel, Vera nunca perdoou. Anos a guardar raiva pela irmã sem motivo. Foi preciso cair-lhe a realidade em cima, já velhas, para abrir a boca.
E a mãe do Manuel?
Vera foi-me lá levar. Pediu-lhe perdão em lágrimas. Ficou tudo, agora vai ser difícil voltar a pôr a casa de pé.
A Eduarda contou-me, depois, como as mulheres, entre choro e acertos, curaram ali parte da mágoa, a mãe do Manuel a jurar que nunca expulsaria a filha, mas a Vera e ao Nuno mandou-os embora.
O sol já se esgueirava pela encosta, quando me levantei, ainda trémulo, e saí para o alpendre, límpido e lavado.
Ali, no patamar, estava o rapaz, de cachorro no colo.
Tu és o meu pai, não és?
Sou, sou, Simão…
Ainda bem! Vamos para casa a mãe vai fazer o pequeno-almoço, e a avó prometeu que hoje me leva com ela a ver os cavalos. Posso?
Naquele instante, senti o nó do peito desatar-se, e a alegria encher-me onde antes só pesava a tristeza. Peguei o cachorro, puxei o rapaz para junto de mim.
Podes. Agora vamos, filho. Temos tantos assuntos para pôr em dia, Simão. TantosE segui com ele, devagar, sentindo os passos do miúdo lado a lado com os meus, ambos a aprender o ritmo de sermos família. Senti o cheiro da terra humedecida, o ar fresco a atravessar o peito, e um calor novo, despontando em sítio onde antes só havia pedra. O Simão olhou-me, atento, e perguntou, muito baixo:
Vais ficar por cá, pai?
Sorri, mesmo antes de saber que era capaz, e o sorriso trouxe um rumor à cara, tal e qual como faziam os homens despreocupados.
Vou, Simão. Agora vou.
O caminho até casa fez-se curto, e ao fundo vi a Filipa de avental, de rosto lavado, a segurar a porta entreaberta. No olhar dela cansaço, ternura, esperança. Abracei o menino, mais forte, cachorro e tudo, e quando chegámos perto hesitei, mas ela falou primeiro, numa voz simples:
Manel, há tempo. Se quiseres, começamos de novo.
O Simão correu para dentro, as risadas a encherem o alpendre. E, pela primeira vez em anos, Manel entrou, não como lobo solitário, mas como homem inteiro, disposto a habitar a vida e seus pequenos perdões.
Por trás, ouvi a Eduarda sussurrar ao Tonho, lá longe, alegre:
Viste? Até o coração dos homens aprende a recomeçar. Foi preciso um rapaz e um cachorro. E o tempo, que ensina tudo.
E ali, naquele alpendre, com cheiro a café e pão torrado, o passado ficou atrás da soleira. O presente já era dos três.
E, do lado de fora, os gatinhos miavam, como quem anuncia: há vida nova nesta casa.







