Tenho Medo de Te Perder

É aqui que eu moro, sorriu Vasco, abrindo a porta do apartamento e convidando a jovem a entrar.
Vai entrando, que eu já venho.
Beatriz entrou hesitante, olhando de um lado para o outro, sem tirar os sapatos.
Sentia-se inquieta
Assim que Vasco voltou ao corredor, Beatriz ficou completamente paralisada de medo, os olhos cheios de pavor e as mãos a tremer.
Sem explicar nada, disparou porta fora.
Beatriz, onde vais?!
Vasco ficou estupefacto, olhando para a porta aberta e depois para a Luna, a cadela, que se aproximara dele.
Jamais imaginara que uma tarde tão agradável acabaria assim.
Ela simplesmente fugiu sem dizer nada?
perguntou incrédulo Duarte, o melhor amigo de Vasco, a quem ele contou o sucedido.
Nem uma palavra.
Parecia que tinha visto um fantasma.
Vasco agarrou numa caneca de cerveja, pensativo, e pousou-a de novo.
Juro que não entendo O que é que a assustou tanto?
Olha que pode haver várias razões.
Já tentaste perguntar-lhe diretamente?
Perguntava, se ela ao menos atendesse as chamadas.
Desde ontem à noite que não consigo falar com ela.
Foste a casa dela?
Não Só a acompanhei à porta do prédio.
Não faço ideia em que apartamento mora.
Estranho, mesmo.
Pois, isto é tudo muito estranho.
E tinha tudo começado tão bem acabou de forma tão parva.
Se calhar ainda não acabou.
Deixa-te de desanimar antes do tempo.
Duvido muito parece-me que já mudou de ideias.
Segunda-feira encontram-se no trabalho, falas com ela e logo vês o que fazer.
A primeira vez que Vasco encontrou Beatriz foi num autocarro lotado em Lisboa.
Ninguém cedia o lugar à jovem, mas ele fez questão de o fazer.
Ficou então perto dela, com um sorriso parvo o caminho todo.
Sentiu-se imediatamente atraído.
Quis meter conversa, mas estava atrasado para o escritório, e não gostava de abordar desconhecidas em público, e muito menos sabia o que dizer.
Olá, chamo-me Vasco, cá vai o meu número liga-me mais logo!?
Ridículo.
Assim, quando saiu do autocarro, nem esperou por ela.
Seguiu logo para o trabalho.
Enquanto caminhava, sentia que a rapariga ia atrás dele.
Não se virou para confirmar, convencido de que era só imaginação.
Tu só queres mesmo que isto seja verdade, pensou.
Sim, queria muito, mas estas coisas não acontecem assim: encontrar alguém e ser amor à primeira vista.
Durante uma hora, já sentado no computador, tentou expulsar Beatriz dos pensamentos, sem sucesso.
Procurava ficheiros de Excel e via-lhe os olhos na mente; entre os e-mails, era o sorriso dela que lhe surgia à frente dos olhos.
Já parecia uma obsessão.
Por isso, quando o diretor António Augusto entrou no escritório com ela e anunciou: Façam favor de dar as boas-vindas à nova colega, Vasco pensou que estava a imaginar tudo.
Só podia estar maluco!
Mas não: era mesmo ela.
E ia trabalhar no mesmo escritório que ele.
Isso só podia ser o destino.
Beatriz, disse ela, sorrindo com doçura, quando chegou a vez de se apresentarem.
Vasco.
Prazer em conhecer.
Não conseguiu dizer mais nada.
Estava atordoado.
Por dentro, sentia um tumulto de emoções, como se algo se expandisse dentro de si.
Sempre que falava ou olhava para ela durante o dia, sentia aquela vontade de fazer proezas, de mover montanhas, só para merecer a sua atenção.
Estava decido a conquistar o coração dela.
Nessa mesma noite, encontrou-se com Duarte no jardim do Campo Grande, como faziam sempre para passear a Luna.
Contou-lhe tudo sobre a colega nova.
Falou com tanto entusiasmo e tantos elogios, que Duarte percebeu logo tudo.
Tu estás apaixonado, pá!
Achas?
De certeza.
O mesmo me aconteceu com a Rita.
Vi-a e soube logo que queria estar com ela toda a vida.
Pois também sinto isso.
Só me dá vontade de ficar ao pé dela.
Então, convida-a para sair.
Vai por mim.
Achas que aceita?
Só há uma maneira de saber.
Se demorares muito, vai aparecer outro!
E se ela já namora com alguém?
Vou meter-me onde não devo!
Ora, se já está com alguém, ficam amigos.
Em todo o caso, tens de tentar.
Não arriscas, não ganhas.
Vasco decidiu arriscar.
Depois do trabalho, chegou-se a Beatriz, na paragem do autocarro, sorriu, corou, mas ganhou coragem:
Olha, não quero que penses nada de estranho mas podemos ir tomar um café ou ver um filme?
Ela sorriu e aceitou.
Acabaram a beber café numa esplanada, passearam por Lisboa até tarde, e Vasco acompanhou-a até casa.
Correu melhor do que qualquer cenário que tivesse imaginado.
Já em casa, andou com a Luna pelo bairro durante uma hora, porque não lhe tinha dado o habitual passeio.
E depois ficou a noite toda deitado a sonhar
Imaginava como pediria Beatriz em casamento, como viveriam juntos, terem filhos, passeios ao fim-de-semana pelos arredores de Lisboa, todos juntos.
Tinha a sensação de que esses sonhos se realizariam num instante.
Três meses passaram.
Foram os melhores três meses da sua vida, com jantares em restaurantes típicos, sessões de cinema, beijos à chuva pelo Rossio, sem se incomodarem com quem passava.
Beatriz era irresistível.
Carinhosa, divertida, encantadora, e acima de tudo, muito simples e honesta.
Vasco sentia-se grato ao destino por tê-la posto no seu caminho.
Mas
Havia só um problema depois dos encontros, Vasco tinha sempre que passear a Luna.
Ele morava sozinho e não tinha quem o ajudasse, o que se tornava pouco prático.
Propôs que saíssem todos juntos, mas Beatriz reagia sempre com estranho desconforto, desviava o olhar e acabava por recusar.
Mas não preferes irmos só os dois?
Podemos parar num café ou ir ao cinema, não dá para ir com a cadela.
tens razão, concordou Vasco.
Pouco depois, pediu Beatriz em casamento e sugeriu que fosse viver com ele.
Ela aceitou casar, mas ao convite para mudar de casa, ficou hesitante, sempre a adiar a mudança.
Beatriz, eu sei que o casamento só é para o próximo ano, mas podíamos já viver juntos.
Fico mais tranquilo contigo ao pé de mim.
Tinha prometido à minha senhoria que não saía antes do fim do ano.
Não quero deixá-la mal.
Eu pago-te os dois meses de renda!
Vem já comigo, mostro-te a casa e apresento-te a Luna.
Vais gostar dela.
Beatriz ficou cabisbaixa, mas aceitou ir, decidida a tentar superar o medo.
É aqui que eu moro, sorriu Vasco, enquanto entravam.
Vai entrando, eu já venho.
Beatriz circulou nervosa pelo corredor, sem se descalçar, perturbada
Assim que Vasco surgiu, ela gelou de horror, as mãos a tremer, e fugiu porta fora.
Beatriz, onde vais?
Vasco olhou, perplexo, para a porta aberta, depois para Luna, que continuava sentada.
Nem de longe pensou que a noite acabaria assim.
Tentou ligar-lhe, mas Beatriz não atendia.
Por isso, combinou encontrar-se com Duarte, sentia que precisava de desabafar e ouvir um amigo.
Depois da conversa, Vasco decidiu que ia esperar pela segunda-feira.
No trabalho, inevitavelmente, teria de lhe falar.
Na segunda-feira, não tirava os olhos do relógio, nem das portas do escritório.
Mas ela não aparecia estranho, porque habitualmente era sempre das primeiras.
“Isto cheira-me a sarilhos!”.
Já pensava pedir ao chefe para sair e procurá-la, quando a viu, a caminhar pelo passeio.
Cabelos soltos, rosto lavado em lágrimas, os olhos tristes.
Beatriz, espera!
Ela parou, olhou para ele, e ficou ainda mais abatida.
O que se passa, Beatriz?
Porque fugiste?
Porque não atendeste?
Não sei o que pensar
Vasco, desculpa-me.
Diz-me o que se passa!
Faltam cinco minutos para começar o dia.
Depois falamos à noite, sim?
Já não queres casar comigo?
Já não queres viver comigo?
Diz-me, por favor!
Não aguento mais esta angústia.
Fala agora.
Porque fugiste?
Perdoa, Vasco Não vamos conseguir viver juntos confessou, a chorar.
Mas porquê?
Eu fiz alguma coisa?
Não.
Então?
Beatriz limpou as lágrimas e fitou-o.
Tenho medo
Medo do quê, amor?
Tenho medo de cães.
Júlio-me Da tua Luna?!
Sempre te disse ela é super meiga, não morde ninguém.
Lembrou-se: afinal, talvez o medo fosse mesmo da cadela.
Não percebes Não é só da tua Luna.
Tenho medo de todos os cães.
Quando tinha seis anos, um pitbull atacou-me
Nunca tinhas contado.
Não contei porque só de recordar fico mal.
Estava no parque, a minha mãe foi ali ao supermercado, e o dono, bêbado, mandou o pitbull afugentar-me.
Foi um milagre sobreviver.
Desde aí, morro de medo de cães.
Mas, Beatriz
Vamos chegar atrasados ao trabalho Não faz sentido ficarmos aqui neste impasse.
Deixa estar.
Mas há cães em toda a rua.
Não tens medo deles?
Tenho, mas na rua é diferente.
Posso sempre mudar de passeio, pedir companhia.
Viver debaixo do mesmo tecto com um cão daquele tamanho não sou capaz.
A culpa não é tua, nem da Luna.
O problema é meu.
Mas isso não faz sentido nenhum
Tentei, juro que tentei.
Por isso fui à tua casa.
Queria vencer o pânico.
Mas entrei em pânico só de vê-la.
Pensei que conseguia mas não sou capaz.
Desculpa.
E agora?
O que faço?
contou Vasco ao amigo mais tarde, suspirando.
Eu amo a Beatriz, ela ama-me, e não podemos viver juntos.
Será possível?
Nem penses em abandonar a Luna resmungou Duarte.
Claro que não!
Gostava dela antes de tudo isto.
Mas também amo a Beatriz.
Então tens de lutar pela vossa felicidade.
Como?
Medos destes não são alergias, amigo.
Dá trabalho, mas pode-se superar.
Porque não vão juntos ao psicólogo?
Já foi Não ajudou.
Diz que vai tentar mas não promete nada.
Ao menos quer tentar.
Já é meio caminho.
Outra podia pôr-te um ultimato: ou ela ou a cadela.
Se a tua Beatriz quer resolver o problema, tens de ajudá-la.
Se não fores tu, quem será?
Nem sei como
Se calhar, nada de visitas a casa.
Comecem por passear juntos, ao ar livre.
Um parque, ou melhor ainda, a serra, só vós os três.
Isso deve ajudar.
Achas que resulta?
Vasco acenou com um fio de esperança.
Claro!
Vai ver que a Beatriz vai perceber que a Luna não é nenhum monstro.
É experimentar.
Mas e esse carro?
admirou-se Beatriz ao ver um jipe à porta.
É do Duarte, emprestou-mo.
Então queres que vamos os três juntos?
ela empalideceu.
Sim, mas não te preocupes.
A Luna vai no compartimento traseiro, está lá tudo preparado por causa do cão dele.
Tu vens ao meu lado.
Não há perigo.
Está bem
Após alguma hesitação, Beatriz aceitou.
Ir à serra era desafiante, mas deixou claro que voltavam para casa ao mínimo sobressalto.
Um pouco depois, estacionaram numa clareira perto da mata de Sintra.
Vasco ajudou Beatriz a sair, libertou a Luna e explicou-lhe para não incomodar a amiga.
Isto é tão bonito comentou Vasco, para acalmar os nervos dela.
É mesmo
Calçaram as botas de borracha, já que tinha chovido dois dias seguidos, e foram passear pela floresta.
Vasco entretinha a Luna com o jogo da bola, afastando-a da vista de Beatriz.
Estás a aguentar, Beatriz?
Não sei Estou nervosa confessou, sempre de olhos postos na cadela prestes a sair de uns arbustos.
Olha, amor, cães há muitos, como pessoas.
Aquela que te atacou foi diferente.
Foi criada por alguém irresponsável.
Não podes julgá-los a todos pelo mesmo.
Sim, eu sei.
Eles são amigos, se soubermos entender.
Com alguns passeios vais mudar de opinião, vais ver.
Vasco atirou a bola para dentro de uns arbustos, e a Luna correu a buscá-la, latindo alegremente.
É só por isso, não é?
Ela não está zangada?
Não, está toda contente, porque encontrou o brinquedo riu Vasco, abraçando-a com força.
A cadela voltou para eles com a bola e afastou-se, pronta para mais um lançamento.
Queres experimentar?
Vasco sorriu.
O quê?
Lançar-lhe a bola.
Dá-me medo
Fecha os olhos, assim não vês nada.
Só uma vez.
Beatriz pegou na bola, olho fechado de tanto medo, e atirou-a o mais longe que conseguiu.
Bravo!
riu-se Vasco.
Luna, vai buscar!
A Luna correu logo, e ouviram-se mais latidos.
Está é uma inteligência em cão.
Até lê os meus pensamentos.
Vasco Vamos voltar?
pediu Beatriz, ansiosa.
Sim, está na hora.
Luna, onde estás?
A cadela continuava a latir, cada vez mais alto.
Vou ver o que se passa, espera aqui murmurou Vasco, já preocupado.
Não, vou contigo!
Atravessaram as silvas e eis que viram a Luna a ladrar furiosamente para a bola, agora em cima de uma poça de água.
Pronto, já vi o que é riu Vasco.
O quê?
Ela tem medo da água.
Não se atreve a ir buscar a bola.
Só posso ser eu a apanhar.
Medo da água?
Pensei que cães não tinham medo de nada!
Cada cão tem o seu medo.
A Luna foi salvo duma cheia quando era cachorrinha.
Daí em diante, água é o seu terror.
Vá, fica por aí.
Já venho.
Não haverá perigo?
E se for um lamaçal?
Está aqui musgo e este cheiro
Não te preocupes, é apenas uma poça funda, por causa das chuvas.
Vasco disse à Luna:
Calma, Luna, já vou buscar a bola.
Avançou pela água, mas, surpreendido, afundou-se até ao joelho.
A cadela latiu ainda mais ansiosa.
Vas, estás bem?!
Sim, só está mais fundo do que pensava.
Aguarda aí.
De repente, sentiu as pernas presas no lodo e não conseguiu avançar mais.
Porque paraste, Vasco?
Sai já daí!
gritou Beatriz, alarmada.
Não dá, estou preso
A água já lhe batia pela cintura.
Acho que era mesmo um lamaçal.
Sinto-me a ser sugado
A Luna olhava aflita, sem conseguir ajudar, e, apesar do medo, Beatriz começou a tremer de pânico, sem saber o que fazer.
Chamou logo os bombeiros, mas não tinha rede no telemóvel.
Por favor, não agora ia entrando em pânico.
Se se aproximasse do lamaçal tinha de passar perto da cadela só de pensar, o coração disparava.
Quando Luna se virou para ela, a pedir ajuda com os olhos, Beatriz fraquejou, quase a fugir dali.
Mas pensou em Vasco, preso e assustado, e percebeu que não podia deixá-lo sozinho.
Beatriz, ajuda-me ouvia-o aflito.
Olhou à volta e viu um ramo forte caído.
Pegou nele, chegou-se ao lamaçal, com a Luna ao lado, e estendeu-o a Vasco, que agarrou, e juntos começaram a puxar.
Sozinha não conseguiu, mas com a ajuda da Luna lá puxaram-no para fora.
Exaustos, estendidos no chão, respiravam de alívio.
Raparigas, não sei o que fazia sem vocês!
disse Vasco, abraçando primeiro Beatriz e depois Luna.
Salvaram-me a vida.
Morri de medo
Só não digas que ganhaste outro medo novo sorriu ele.
Ganhei sim Medo de te perder!
E esse medo é maior do que qualquer outro.
Beatriz olhou para a cadela, e abraçou-a forte.
Obrigada, Luna!
Foste uma amiga.
Mais tarde, depois de um banho quente e um jantar reconfortante, Vasco, Beatriz e Luna deitaram-se no sofá a ver filmes de cães era tudo o que Beatriz queria naquele dia.
O mais importante é que, naquela noite, perceberam que o medo de perderem quem amam os unia mais do que qualquer receio Porque só vencendo os nossos medos conseguimos realmente avançar e ser felizes.

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