Traição do marido: amante grávida abala casamento português

A Andreia nem se lembrava bem de como tinha passado aquela noite. Só recordava de estar sentada na cozinha, a ouvir o tic-tac do velho relógio que parecia marcar o fim de tudo o que ela conhecia. Tic dez anos de casamento. Tac hospitais e mais hospitais. Tac injeções, exames, esperanças que morriam sempre em silêncio, sem gritos, apenas desistindo.

Do lado do quarto vinha a respiração do Jaime. Tranquila, ritmada. Ele dormia. Mas na sala ao lado, estava uma miúda que carregava dentro dela o filho dele.

Quando começou a clarear lá fora, Andreia levantou-se. Não tinha lágrimas, nem tremores. Por dentro só sentia um vazio gelado, uma clareza estranha.

Abriu o armário do corredor e tirou de lá uma mala antiga, grande, com a pega partida tinham levado aquela mala a Setúbal, numa altura em que ainda acreditavam que as férias podiam curar a infertilidade. A mala gemeu, como se se queixasse também.

No quarto da Mariana cheirava a creme barato e a qualquer coisa doce, pegajosa. A rapariga dormia, deitada de lado, com os braços enrolados à barriga. Mal parecia ter saído da adolescência.

Não é nada pessoal, sussurrou a Andreia sem perceber muito bem se falava para si ou para ela.

Arrumou as coisas com o máximo de cuidado. Vestidos. Camisolas. Roupa interior. Documentos. O telemóvel. Só pegava no essencial. Nenhuma emoção, só movimentos mecânicos. Parecia uma enfermeira a preparar a sala de cirurgia.

Quando fechou a mala, sentou-se na beira da cama, a olhar para a Mariana. Só lhe passava uma coisa pela cabeça: dormes assim, descansada, porque ainda não sabes que já destruíste a vida de outra pessoa.

Acorda, disse com voz neutra.

A Mariana sobressaltou-se e sentou-se num salto.
O quê? Onde é que estou?…
Não aqui, respondeu a Andreia. E não comigo.

O Jaime disse a voz dela tremia. Ele disse que eu podia ficar que você ia perceber

A Andreia sorriu. Um sorriso frio, assustador.
O Jaime diz muita coisa. Principalmente às mulheres que ainda acreditam nele.

Foi nesse momento que o Jaime apareceu à porta, todo desalinhado, perdido.
Andreia, o que é que estás a fazer?! levantou a voz. Ela está grávida!

E eu sou estéril, respondeu ela calmamente. No fundo, estamos todos presos às circunstâncias, não é verdade?

Ele foi ter com ela.
Tu não podes! É o meu filho!

A Andreia olhou-o nos olhos.
E eu fui tua mulher. Dez anos. Isso também era teu. Ou já não é?

O silêncio ficou pesado, sufocante. A Mariana choramingou.
Eu não tenho para onde ir

A Andreia encostou-se à cama, mais perto.
Então vai para onde vieste. Ou para onde te aceitem, mas não à minha custa.

Ela abriu-lhe a porta.
Tens cinco minutos.

A Mariana, a soluçar, apressou-se a juntar as coisas. O Jaime ficou parado, sem saber se devia defender uma, a outra, ou nenhuma.

Quando a porta se fechou atrás da Mariana, a Andreia encostou-se à parede e deixou-se escorregar até ao chão.

O Jaime tentou dizer alguma coisa.
Vai embora, murmurou Andreia. Antes que eu deixe de ser quem sou.

Ela não sabia, mas aquilo era apenas o princípio. Ainda ia ter de tomar a decisão mais difícil de todas uma que teria um preço demasiado alto para voltar a ser quem era.

A casa demorou a esvaziar-se. Como se ainda pairasse no ar o cheiro de outra presença, os passos, os sussurros. Andreia sentia a Mariana espalhada pelo sofá, pela caneca de chá deixada em cima da mesa, no silêncio denso do ar que custava a respirar.

O Jaime calou-se. Primeiro vagueou de quarto em quarto, depois sentou-se no sofá de cabeça em baixo.
Sabes o que acabaste de fazer? disse quando finalmente abriu a boca.

A Andreia estava à janela. Lá fora, as pessoas apressavam-se para o trabalho, alguém ria, outros falavam ao telemóvel. Tudo continuava como se nada tivesse acontecido.
Sei. Pela primeira vez há muito tempo, sei exatamente o que faço.

Ela está grávida! quase gritou ele. Mandaste uma grávida para a rua!

A Andreia virou-se.
Não. Tirei de casa a tua traição. A gravidez agora serve só para não te sentires culpado.

Ele levantou-se de rompante.
És cruel!

Ela soltou uma gargalhada abafada, quase louca.
Cruel? Cruel é todos os meses acreditar e morrer de esperança. Cruel é ver o marido fazer um filho a outra enquanto eu me encho de hormonas. O que eu fiz e fez um gesto no ar foi só tirar a venda dos olhos.

O Jaime saiu porta fora, a bater com tal força que o vidro tremeu. A Andreia ficou sozinha.

Foi então que chegou o silêncio de verdade. O silêncio que assusta. Deitou-se na cama, ainda vestida, e finalmente chorou. Não de histeria chorou de tão fundo, que parecia não acabar nunca.

Dois dias depois ele apareceu. Cheirava a tabaco e a entrada de prédio.
Preciso de ir buscar as minhas coisas, disse, sem encarar a Andreia.

Leva tudo o que achas que é teu, respondeu ela, sem pestanejar.

E ele demorou-se, empastelou, à espera que ela fraquejasse, lhe pedisse para ficar. Mas a Andreia ficou na cozinha, a beber café frio.

Vais mesmo deitar tudo fora assim? a voz dele falhou. Dez anos!

Quem deitou fora foste tu, Jaime, disse calma. Eu só desenhei a linha.

Quando a porta fechou pela segunda vez, qualquer coisa nela quebrou. Não doeu. Foi libertador.

Nessa noite, Andreia pegou na pasta com os papéis dos médicos. Os antigos relatos, análises, esterilidade, quase impossível, poucas probabilidades. Olhou para o monte, sem medo.

E se murmurou para si.

No dia seguinte foi a uma clínica nova, privada, pequenina, no centro de Lisboa. A médica era jovem, delicada.
Tem a certeza que não quer tentar uma FIV? perguntou-lhe. Mesmo sem marido.

Andreia ficou parada.
Sem marido?…

Sim, claro. É a sua decisão. Não precisa dar satisfações a ninguém.

Saiu de mãos trémulas para a rua cheia. Carros, vozes, sol lá em cima. Sem marido. Sem o Jaime.

O telemóvel vibrou. Mensagem de um número estranho:
Sou a Mariana. Desculpe Estou mal. Ele não responde.

Andreia ficou a olhar para o ecrã um tempo. Depois, guardou o telemóvel na mala.
Daquele dia em diante, escolheu-se a si própria.

Só que o destino não perdoa escolhas corajosas sem antes pôr tudo à prova.
E muito em breve a Andreia ia pagar, de uma maneira inesperada e dolorosa, o preço da liberdade.

Descobriu que estava grávida sozinha. Numa consulta breve, paredes verde-claras, tubo de luz intenso. A médica sorria, mostrava números no ecrã, mas Andreia só ouvia conseguiu.

Ficou tanto tempo encostada à grade da escadaria que até o mundo pareceu rodar. Quis rir e chorar ao mesmo tempo. Anos de dor e ali estava um pontinho dentro dela. Sem Jaime. Sem concessões. Escolha só dela.

Só que a alegria nunca dura quando há portas do passado por fechar.

Na semana seguinte ligaram-lhe do Hospital de Santa Maria.
Conhece a Mariana Silva? perguntou uma voz feminina.
Sim… o coração apertou.
Demos entrada dela com ameaça de aborto. No registo está o seu endereço como último contacto.

Andreia ficou a olhar a parede com o telemóvel na mão. Podia recusar. Tinha esse direito. Mas alguma coisa dentro dela avançou.
Eu vou.

A Mariana estava pálida, assustada, os olhos vermelhos.
Ele foi-se embora, murmurou quando viu Andreia. Disse que não estava preparado… Que isto era um erro

Andreia nada disse. Só a olhou e percebeu, de repente: não era a inimiga à sua frente. Era só o resultado de uma fraqueza alheia.

Sabias que ele era casado, disse baixinho.
Sabia… a Mariana desabou. Mas ele disse-me que já não eram nada

Andreia sentou-se ao lado.
Ele mentiu-nos às duas. Só que o preço para cada uma é diferente.

A médica passou à porta e olhou Andreia de frente.
O bebé resiste, se ela acalmar. Precisa de apoio, pelo menos algum.

Andreia assentiu. Por dentro sentiu-se dividida entre a mágoa e a humanidade.
E venceu a humanidade.

Apoiou a Mariana a arranjar um sítio para estar, tratou do advogado, trouxe-lhe roupas. Nunca levantou a voz, nunca acusou.

O Jaime só apareceu tarde. Só telefonou quando soube da gravidez da Andreia.
É verdade? murmurou, rouco.
É.
É meu?
Não. É só meu, respondeu ela e desligou.

O tempo passou.

A Andreia sentava-se no jardim, no outono claro de Lisboa, com o carrinho do filho a seus pés. Ali, finalmente, o silêncio era bom: folhas no chão, ar fresco, o filho a dormir, esperado durante uma vida.

Na outra ponta do banco, de vez em quando, via a Mariana com a filha bebé ao colo. Não eram amigas eram duas mulheres que passaram pelo mesmo inferno e voltaram diferentes, cada uma para o seu lado.

Obrigada, disse-lhe um dia a Mariana. Podia ter acabado comigo.
A Andreia sorriu.
Só quis ser diferente dele.

E olhou para o filho a dormir, sabendo que aquele passo desesperado não foi crueldade. Foi salvação.
Primeiro dela própria.
Depois, de outra vida.

Às vezes, para se ser mãe, tem de se aprender a ser forte. E, por vezes, uma família começa não quando alguém entra na nossa casa, mas quando decidimos baixinho que vamos, finalmente, escolher viver de verdade.

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