Inveja à beira do abismo
Sim, é mesmo isso! Ele nunca vai perceber que não está diante da sua noiva…
Beatriz fitava-se no espelho do quarto, examinando cada traço com meticulosa atenção. Com um gesto delicado, ajeitou uma madeixa rebelde atrás da orelha. O coração batia rápido de ansiedade o reflexo correspondia, superando todas as expectativas! Maquilhagem, penteado, a expressão nos olhos tudo, em cada pormenor, era uma réplica perfeita da irmã. Beatriz conteve a respiração usando o vestido preferido da Leonor, nem mesmo a mãe conseguiria distinguir as duas de imediato.
A ideia fê-la sorrir, mas o relógio na prateleira arrancou-a ao devaneio. Faltavam vinte minutos para a chegada do Ricardo. Um turbilhão dançava por dentro: não podia falhar nenhum gesto, não podia vacilar na voz! Bastava uma dúvida, um olhar suspeito, e todo o plano cuidadosamente engenhado desmoronava num sopro. E nesse caso a irmã voltaria a sair vitoriosa. Como sempre.
Fez um esforço, respirando fundo para acalmar as mãos que tremiam cada vez mais. No momento em que a campainha tocou, já estava junto à porta, pronta para entrar em cena. Abriu com firmeza. Vendo o Ricardo, iluminou o rosto com um sorriso cálido, daqueles que treinara ao espelho a postura, as palavras, o brilho nos olhos.
Olá, Ricardinho! saudou numa voz baixa e suave, as sílabas escolhidas a dedo.
Sem dar margem para o improviso, ergueu-se nas pontas dos pés e pousou-lhe um beijo leve na face. Exatamente como tinha visto Leonor fazer nem mais, nem menos. Nenhum gesto extra, tudo no guião.
Entra, queres um café? convidou, dando espaço na entrada com aquela espontaneidade fingida que só treina quem planeia uma cilada com esmero.
Ricardo hesitou por um segundo, franzindo o sobrolho como se procurasse um enigma por trás das palavras e da expressão. Mas não tardou a responder-lhe com um sorriso enigmático um lampejo malicioso a percorrer-lhe o rosto. Percebeu? Talvez. O interesse, porém, só cresceu: o que teria Beatriz em mente, tentando passar-se pela sua Leonor? Decidiu, por ora, jogar o jogo dela.
Enquanto Beatriz arrumava copos e pires com gestos ligeiramente forçados, mantinha aquele sorriso angelical que já lhe doía nas bochechas. Olhava furtivamente para a garrafa de vinho tinto reservada na prateleira um DOC do Douro especial, para a ocasião. Sabia que Ricardo raramente bebia. O vinho, por isso, era aposta arriscada mas necessária para que baixasse a guarda.
Ele sentou-se à mesa, braços cruzados, perscrutando-a. O olhar dele era um misto de brincadeira e desconfiança. Até que, finalmente, quebrou o silêncio:
Beatriz, porque é isto tudo? disse, com serenidade. E a Leonor? Se isto é alguma partida, não tem grande graça.
Ela estacou, alinhando as respostas rapidamente. Uma sombra de confusão atravessou-lhe o olhar, mas respondeu com o sorriso forçado mais treinado do mundo:
Como adivinhaste, afinal? Não é uma brincadeira é antes uma experiência. A Leonor não sabe de nada.
Ricardo ergueu uma sobrancelha, rodando a chávena entre os dedos. Continuava curioso, mas não se denunciou; queria ver até onde ela ia.
Vocês podem ser gémeas, mas são muito diferentes, comentou, com leveza. Como é que vos confundem?
Tirou o telemóvel e digitou um SMS à noiva, perguntando-lhe onde estava. O ecrã brilhou, depois voltou-se para ela.
E qual é o objetivo disto? insistiu, guardando o telefone.
Beatriz mexeu-se na cadeira, baixando o olhar para o chá. Deu um trago, quase como se buscasse forças. De repente, ganhou ânimo:
Sabes, confundem-nos sempre. Dizes que somos distintas, mas até a minha mãe se engana se estamos vestidas da mesma maneira. Basta uma camisa igual, e tornamo-nos duas gotas de água.
A pausa seguinte carregou ecos de outras discussões. Continuou:
Por vezes é desconfortável. Sobretudo quando amamos a mesma pessoa. Já houve equívocos. Uma vez, o meu namorado marcou um encontro comigo e acabou por ir ter com a Leonor, porque ela estava mais perto do ponto combinado. Ou então, a Leonor quis falar com um amigo teu, e ele, julgando que era eu, começou uma conversa incómoda.
Porque não mudam o cabelo, então? questionou Ricardo, um pouco inclinado para a frente.
Sabia pela Leonor que Beatriz recusava qualquer mudança: parecia-lhe até prazer oculto nesta confusão contínua, enquanto a irmã cedia aos caprichos dela.
Beatriz torceu o nariz com graça, como quem morde um limão.
Não teria piada, respondeu, abanando a cabeça. Fizemos um pacto: não mudamos o visual até acabar o curso. É quase uma tradição entre nós. E… hesitou, sorrindo com malícia, a verdade é que por vezes é útil. Os professores também não nos conhecem à primeira!
Riu-se num tom quase cristalino, satisfeita com os pequenos truques que mantinham.
Pois murmurou Ricardo, pensativo. O telefone vibrou. Leu o SMS e acenou, como para si próprio.
A Leonor diz que já me espera no nosso café. Nem sonha onde estou.
Fitou Beatriz, e nos olhos dele bailava uma espécie de compaixão.
Fica tranquila; não lhe vou contar o teu experimento. Percebo que te preocupas com a tua irmã, não quero ser eu a criar um mal-estar entre vocês.
Beatriz relaxou visivelmente, libertando um suspiro de alívio. Agradeceu-lhe, com um sorriso sincero.
Obrigada, Ricardinho. És mesmo boa pessoa.
Até breve, despediu-se, levantando-se devagar. Vou já, para a Leonor não estranhar.
Fechou-se a porta atrás dele com um clique. Beatriz ficou entregue ao silêncio do apartamento, que de súbito pareceu ensurdecedor como se o mundo parasse, deixando-a sozinha com um vazio pesado no peito. Sentou-se, apertando com força os bordos da toalha para não ceder ao impulso de chorar. Porque é que nada resultava? Porque é que ele não se deixou enganar? Porque mesmo o plano meticulosamente preparado se desmoronou num instante?
A cabeça girava em espiral, devolvendo-a ao primeiro dia em que Ricardo surgiu nas suas vidas. Ao princípio, a leveza, o sorriso doce dele, as conversas fáceis pareciam-lhe irresistíveis. Sempre que ele aparecia, o coração de Beatriz acelerava, as mãos suavam. Encenava mentalmente mil diálogos, planeava aproximações e momentos… Mas nunca tinha coragem suficiente; faltava-lhe iniciativa, temia estragar a relação com a irmã.
E Leonor? Sempre mais destemida. Um dia, levou Ricardo à casa com naturalidade, apresentando-o durante um jantar de família. Este é o Ricardo, disse, e os pais de imediato aprovaram o rapaz, felizes pela filha.
Beatriz guardava cada detalhe desse dia. Da ombreira da sala, assistiu ao à-vontade dele com os pais e as piadas dirigidas ao pai. Por dentro, era consumida pela revolta, mas exibiu uma máscara quase apática pelo exterior. Como era difícil conservar essa fachada indiferente quando dentro dela tudo fervilhava!
Ele devia era estar consigo! Afinal, notara-o primeiro, sentira aquele fascínio primeiro! Era ela quem sonhava acordada com ele, noite após noite. Mas Leonor simplesmente avançou, sem imaginar sequer que a irmã pudesse nutrir sentimentos.
Beatriz respirou fundo para afastar o tremor das mãos. Sabia que não podia ser escrava destes pensamentos. Tinha de reerguer-se. Mas como agir, se a ferida continuava a latejar?
Leonor sempre captara o interesse de todos os rapazes. Era como um raio de sol aberta, divertida, com um sorriso contagiante e uma naturalidade luminosa. Adorava festas, falava durante horas com amigos sobre tudo e nada, e nem por isso se atrapalhava nos exames: tudo feito com aparente leveza, sem sacrifício. Beatriz, por contraste, era reservada, preferia tardes de leitura, conversas profundas. Evitava grupos barulhentos e achava que o tempo não devia ser desperdiçado em frivolidades.
Agora, ao olhar para trás, Beatriz perguntava-se se não terá errado devia, talvez, ter aceitado os convites, ter ido a uma daquelas festas? Se calhar, Ricardo teria reparado nela séria, sensata, determinada. Em vez disso, apaixonou-se por Leonor impulsiva e encantadora.
No íntimo, Beatriz sabia: não era só a diferença de estilos. Leonor simplesmente atraía naturalmente, nunca se esforçava para agradar. Beatriz pensava demais, receava cada palavra.
Estas contradições mantinham-na inquieta. Tentava convencer-se de que o seu caminho prudente seria, um dia, reconhecido. Mas à noite, sozinha, imaginava como seria tão diferente se tivesse sido um pouco mais como a irmã.
Quando Leonor anunciou o casamento num jantar em família, Beatriz sentiu-se a desabar por dentro. Sorriu, fingiu alegria, abraçou-a, mas a mente gritava: Isto não pode acontecer! Durante a noite, representou a filha/família feliz, mas o peito estava vazio.
Beatriz mal dormiu nos dias seguintes, a cabeça a fervilhar de perguntas e alternativas. Nasceu, então, um plano. Perfeito, parecia-lhe.
Se o Ricardo experimentar o meu lado, se se deixar enfeitiçar, e depois a Leonor nos apanhar juntos… Tudo acaba. Ela nunca perdoaria. Assim, ao menos, ele não fica com ninguém parece-me justo.
Envidou todos os esforços: vinho, cenário, frases, até a luz da sala. Ensaiou caretas e gestos da irmã. No dia, a ansiedade era tanta que as mãos suavam, a respiração falhava. Queria ir até ao fim. E tudo correu quase bem… até Ricardo topar a farsa à primeira vista.
O balde de água fria foi total. Em vez de ceder, Ricardo desmontou a encenação, terminou a visita com cortesia e partiu em direção à noiva.
Agora, Beatriz sentava-se num torpor. Todo o plano, antes assente em pormenores inatacáveis, desmoronara num instante. O tempo passava, o casamento aproximava-se e ela continuava a sentir-se impotente.
Tenho de encontrar um novo caminho e rápido! murmurava, a apertar com força a ponta da toalha da mesa. Pensava em mil soluções, mas nenhuma parecia plausível. Tinha plena consciência: a próxima jogada teria de ser infalível; não teria nova oportunidade…
******************************
Duas semanas volvidas, Leonor reuniu a família à mesa. Um brilho novo nos olhos, sorria de felicidade, com uma delicadeza na voz ao partilhar o segredo tão desejado: ia ser mãe. Os pais sorriram de alegria, fizeram perguntas, inventariaram planos para o futuro.
Beatriz limitou-se a segurar a chávena de chá frio, lutando para manter uma expressão neutra. Sorria, acenava, respondia às frases animadas, mas sentia-se trespassada por dentro: cada palavra, cada olhar, cravava-se nela como mil agulhas.
Imaginou um futuro jantares de família em que Ricardo estaria ali, oficialmente. Festas, passeios, a felicidade cada vez mais distante. Planeou mentalmente cena atrás de cena, todas insuportáveis. Não aguentava. Tinha que agir, e depressa. Antes que tudo se tornasse irreversível.
Um novo plano desenhou-se na sua cabeça cruel e cortante. O que poderia ser mais duro para um casal do que perder uma gravidez tão desejada? Era monstruoso, mas parecia inevitável.
Viu Leonor a olhar-lhe nos olhos ternura, confiança, alegria pura. Por um instante, hesitou. Mas depressa abafou qualquer dúvida. Sabia o que fazer. Conhecia um médico disposto, por uma quantia razoável em euros, a receitar o que fosse preciso. Nada ilegal, apenas um comprimido capaz de provocar o efeito indesejado…
Deu uma gargalha abafada som curto e triste. Leonor virou-se e sorriu, convencida de que partilhava da alegria dela.
O vosso tempo de felicidade está a acabar, pensou Beatriz, fitando o casal em silêncio, decidida como nunca…
*************************
Queres sumo? ofereceu Beatriz, com naturalidade, ladeando a voz de simpatia, adornada pelo sorriso treinado ao espelho. Comprei o teu favorito.
És um amor, obrigada! respondeu Leonor, iluminando o rosto com alegria sincera. Aproximou-se e apertou-lhe suavemente a mão. És a melhor irmã do mundo!
Beatriz vacilou, sentindo o coração a latejar, mas recompos-se num instante.
Já te levo, disse, com voz firme.
Na cozinha, tirou o sumo do frigorífico, serviu um copo. A mão deslizou para o bolso, fechando-se numa pequena cápsula branca. Pausou. O que estava prestes a fazer?
Olhava o copo e a pequena pílula na mão. No pensamento, cenas de Leonor a sorrir, os pais felizes, Ricardo ao lado da esposa grávida…
Estaria mesmo disposta àquilo? O horror do gesto paralisou-a não só era cruel, era anti-natural, insuportável!
Não! Aquela não era ela. Era… uma sombra, um devaneio, um tormento. Não podia, não queria.
Com a mão a tremer, soltou a cápsula sobre a bancada. Respirou fundo, tentando acalmar os dedos.
Bea? Sentes-te bem? Estás tão pálida Queres que chame o médico?
Levantou os olhos. Viu em Leonor o amor genuíno, o carinho. Cenas simples, partilhadas entre irmãs, a ganhar peso dentro de si.
Foi só uma tontura, sorriu, pela rama. Está tudo bem. Trouxe sumo para ti. Vou só preparar um chá para mim.
Virou-se para a torneira, enchendo uma chávena. As mãos tremiam minimamente, mas não lhes deu importância. Cada movimento era um enorme esforço como percorrer uma névoa densa, a tentar manter-se de pé.
Por dentro, as emoções rugiam desordenadas. Lembrava-se do momento em que quase cruzou a linha. Percebeu quão perigosas se tornavam as ideias negras se fossem alimentadas, silenciosas, tempo demais
Preparou o chá, mexeu devagar, o aroma familiar a reconfortar-lhe a alma. Observou Leonor a beber o sumo, a contar-lhe projetos para o fim de semana. O rosto sereno, terno, tornava tudo mais difícil de suportar.
Como foi possível?, pensava, apertando a chávena. Como pôde sequer conceber tal coisa? É a minha irmã. O meu sangue.
Percebeu, com clareza nova, que o que sentia não era um ímpeto passageiro, mas algo que se vinha acumulando há anos: aquela inveja, o ressentimento, o sentimento de injustiça. E hoje quase se deixava levar.
Respirou fundo, determinada. Tinha de conseguir admitir que ultrapassou todos os limites. Precisava de ajuda não só de reflexão, mas do apoio certo. Talvez conversar com um psicólogo, alguém de fora que a pudesse compreender.
Em que pensas? Leonor sorriu calorosamente. Estás tão calada hoje.
Só trabalho… nada de mais, forçou Beatriz um sorriso mais largo. Talvez precise mesmo de um conselho para organizar as ideias.
Era uma meia-verdade, mas Leonor não se incomodou. Continuou a partilhar planos e Beatriz ouvia-a, acolhia tudo, de quando em vez respondendo. Crescia dentro dela uma outra certeza. Não, não ia permitir que a inveja ou o ressentimento governassem. Demasiado estava em risco a ligação com a irmã, o equilíbrio interior, o futuro dela própria.
Sabia qual era o próximo passo: admitir que se perdera. Procurar ajuda, abrir-se. Não se envergonhar de pedir: Preciso de ajuda. Quero mudar.
******************************
Leonor deu à luz uma menina, numa madrugada morna de junho a pequena Matilde rapidamente se tornou a alegria da família. Enrolada em mantas macias, dormia tranquila, as pestanas longas a tocarem o rosto redondo, e todos sorriam perante aquele milagre.
Aqueles primeiros dias encheram a casa de momentos emocionantes. Leonor e Ricardo revezavam-se aos biberões, aprendendo juntos o estranho balé das fraldas, dos banhos, dos sorrisos novos. Os pais traziam mantinhas e bonecos, a avó tricotava meias minúsculas, o avô contava ao mundo inteiro que agora tinha neta.
Beatriz tornou-se a tia-origem. Depois de a alma ter desperto para outro lado, começou a estar cada vez mais com a pequena Matilde. Primeiro, para aliviar a irmã dava colo, cozinhava, tratava das compras. Depois, passou a demorar-se, fascinada com os dedinhos pequeninos, as sobrancelhas franzidas quando estava amuada, ou as gargalhadas inocentes ao vê-la chegar.
Rapidamente, Beatriz aprendeu a embalar Matilde, inventando-lhe canções e histórias. Comprava-lhe roupas coloridas e ficava enlevada a olhar a sobrinha vestida de flores, de ursinhos, de pássaros.
Com o tempo, Beatriz foi bem mais que tia: tornou-se confidente, guardiã, amiga. Faziam festas de chá de mentirinha, brincavam com livrinhos ilustrados, davam os primeiros passos de mão dada pela sala. E cada conquista de Matilde transformava-se numa festa um passo, uma palavra, um riso.
Leonor sentia este amor genuíno e agradecia-o de coração, numa noite em que Matilde já dormia e Beatriz arrumava brinquedos:
Obrigada. Vejo quanto gostas dela. Para a Matilde, és tudo. És mesmo a tia perfeita.
Beatriz sorriu, algo envergonhada. Nem ela imaginava o quanto aquele cuidado lhe dava. Ali, escondidos nos gestos mais simples as carícias, as palavras doces, os abraços da sobrinha encontrou a paz e o amor que sempre lhe faltaram.
E percebeu, olhando para Matilde, Leonor e Ricardo: por vezes, a vida oferece-nos outros rumos. E, ao cuidarmos dos outros, encontramos finalmente o nosso lugar um caminho para o nosso próprio sossego, alegria e redenção.






