Dito com Medo

Dito em medo

Graça segurava na mão a folha dos exames e as indicações médicas como se aquilo fosse capaz de segurar o mundo todo dentro daquele papel A4. No corredor do serviço de cirurgia, alinhavam-se cadeiras plásticas; na parede, um televisor sem som exibia apenas a legendagem de notícias, como se fosse uma linha de comboio de um destino que não lhes pertencia. Levantou-se, quando viu a enfermeira aparecer na porta.

Familiares do senhor Joaquim Coutinho? Queiram aproximar-se, por favor.

Graça avançou primeiro, logo sentindo o irmão, Tiago, levantar-se ao seu lado. Ele ainda estava com o casaco com que chegara de madrugada, as mãos nos bolsos, como se tivessem medo de se denunciar pelo tremor.

Na enfermaria, o pai jazia numa cama alta, os joelhos discretamente dobrados sob o lençol branco, pose habitual de quem sempre procurou um jeito para se encaixar no mundo. Sobre a mesa de cabeceira: um garrafão de água, um saco de documentos e a T-shirt preferida, dobrada com uma eficiência quase maternal. O pai olhou-os de um jeito que parecia querer sorrir, mas a energia não se esticava até ao canto dos lábios.

Então, como é que isso vai por aí? murmurou ele.

Graça sentou-se na pontinha da cadeira, a tentar não se debruçar demasiado sobre o pai. Queria dizer algo animador, prático, lançar ordens ao universo, mas a língua parecia enrodilhada.

Estamos aqui, pai. Vai tudo correr bem. Agora é só esperar pelos médicos e… ficou-se pelo ar.

Tiago debruçou-se, como se pudesse proteger o pai só com o largo do ombro.

Pai, aguenta. Nós tratamos de tudo, prometo. Se for preciso, venho cá sempre que der.

A frase sempre que der ficou a boiar como bóia num dilúvio, e Graça percebeu que ambos se penduravam nessas palavras. O médico, no dia anterior, tinha falado com uma objetividade tão lusitana que em cada silêncio se lia perigo. O medo colava-lhes à pele, como cola UHU difícil de arrancar.

Tiago disse Graça sem encarar o pai , vamos ser sinceros. Não é tempo para brigas. Fazemos turnos, o que for preciso. Ninguém desaparece, ninguém foge. Não deixamos o pai sozinho.

Tiago assentiu vigorosamente.

Prometo. Eu venho. E, se for caso disso, fico responsável, ouviste? Dizia-o ao pai, mas fixava a irmã, como se estivessem a rubricar um contrato.

O pai olhou de um para o outro, os dedos secos e quentes trincando a borda do lençol.

Não sejam piegas, disse ele, só vos peço que não se chateiem por minha causa.

Graça queria garantir que não, que eram adultos, crescidos, que sabiam ao que iam. Mas, em vez disso, pousou a mão sobre a do pai. Se dissesse a frase certa, talvez a operação custasse menos.

Vai correr bem, prometeu. Fazemos o possível e o impossível.

Quando levaram o pai na maca, Graça e Tiago ficaram sozinhos no corredor, a promessa soando-lhes como escapulário. Graça enviou ao marido um SMS rápido (vou demorar), tirou o som do telemóvel. Tiago ligou para o trabalho avisando que tirava um dia à custa dele, e Graça sabia que nem assim era garantido que lhe mantivessem o horário.

A operação arrastou-se mais do que prometido. O médico apareceu esgotado, máscara a meio do queixo, dizendo que fizeram tudo o possível, que agora as primeiras vinte e quatro horas eram cruciais. Não disse tudo ótimo, e Graça agarrou-se ao estável como quem se agarra ao Santo António.

O prognóstico é reservado, explicou ele. A recuperação vai levar o seu tempo. Precisa de cuidados, controlo da medicação, vigilância.

Graça acenava com a cabeça, como quem faz exame oral. Tiago perguntou pela fisioterapia, pelos prazos, por quando poderiam levar o pai para casa. O médico frisou: Casa nem pensar para já, e atenção, vai ser trabalho lá também.

Numa rotina imposta, Graça passou os dias seguintes no vaivém: ir ao hospital, perguntar, trazer, regressar à pressa para casa. Sabia de cor as horas de visitas, o nome das duas auxiliares, o número do gabinete onde se passavam receitas. A lista de comprimidos ficava num bloco, porque o telefone, esse, podia morrer de cansaço, mas o papel não.

Tiago aparecia dia sim, dia não, normalmente já depois do lusco-fusco. Trazia fruta, água, ou resguardos descartáveis, que Graça lhe encomendava pelo WhatsApp. Esforçava-se por ter conversa animada, mas, assim que entrava na enfermaria, calava-se, como se as paredes sugassem qualquer esperança.

O pai portava-se com dignidade. Queixava-se pouco, pedia apenas que lhe arranjassem a almofada ou lhe passassem o copo. Quando a dor apertava, fechava os olhos e respirava devagarinho, como aprendera num curso qualquer depois do último susto. Graça olhava e pensava: dignidade também dá trabalho.

Duas semanas depois, transferiram o pai para o internamento geral. Na terceira, começaram a falar na alta. Graça sentiu ao mesmo tempo alívio e terror: ali, dentro das paredes do hospital, tudo era esquema e horário; em casa, iam ser eles a improvisar.

No dia da alta, Graça foi buscar o pai no carro do marido. Trouxe uma bengala emprestada da vizinha e um saco de roupa lavada. Tiago garantiu que aparecia ao prédio para ajudar a carregar o pai até ao terceiro andar sem elevador. Não apareceu.

Graça ficou à porta do prédio, com as chaves e os papéis na mão. O pai sentado no banco, disfarçando as dores da viagem. O marido, inquieto, a consultar as horas.

Ele deve estar quase a chegar, Graça arriscou, só porque se diz alguma coisa nessas horas.

O telefone tocou tarde demais.

Estou preso no trânsito na ponte, não chego a tempo. Vocês safam-se?

Graça sentiu o sangue ferver.

Safamo-nos? Tiago, tu…

Passo por aí ao fim do dia, prometo. Agora não consigo.

Graça engoliu em seco para não discutir à frente do pai. Subiram o pai a pulso: o marido, um vizinho caçado na escada e ela própria empurrando-lhe o cotovelo. O pai bufava, mas aguentou-se calado. Lá em cima, Graça abriu a porta, pousou o saco das receitas na mesa de cabeceira e logo se lembrou de tirar o tapete: não fosse o pai tropeçar.

Tiago apareceu à noite, com cara de cachorro batido e um saco de laranjas.

Então, como é que o velhote está? perguntou, como se nada tivesse acontecido de manhã.

Graça pôs-lhe à frente a lista: comprimidos de manhã, comprimidos à tarde, injecções de dois em dois dias, pensos, tensão arterial. Falou sem inflexão, porque, se deixasse as emoções sair, não conseguiria falar de todo.

Ao fim-de-semana consigo vir, afirmou Tiago. Durante a semana é… tu sabes como é.

Graça sabia demasiado bem. Ele tinha um emprego de horários com mais voltas que a rotunda do Marquês, uma mulher e um filho pequeno e medo de não conseguir dar vazão. Ela também tinha a vida contada ao cêntimo: dois filhos em idade escolar, um marido que já perdia a paciência com tanta ausência, e uma chefe que piscava o olho ao relógio sempre que Graça falhava um minuto.

As primeiras semanas em casa foram um nevoeiro de tarefas. Graça levantava-se antes dos galos, dava a medicação ao pai, media-lhe a tensão, preparava papas sem sal à prova de dietista. Acordava os miúdos, levava-os à escola, deixava ao marido a lista das compras e fugia para o trabalho. À hora de almoço, telefonava ao pai: Comeste? Estás bem? Ao sair, parava na farmácia, ficava na fila porque ora faltava um comprimido, ora o genérico assustava-a.

Tiago aparecia ao fim-de-semana, às vezes só uma horita. Levava o lixo, ia ao supermercado, ficava com o pai enquanto ela preparava o jantar. Mas, sempre que podia, olhava para o relógio.

Tenho de ir andando. Tenho coisas combinadas.

Graça engolia em seco. Tentava não fazer contas ao esforço de cada um, mas as contas davam-se por si.

Numa noite, depois de adormecerem todos, Graça ficou na cozinha a lavar pratos. A água queimava os dedos, e o marido, calado, rondava-lhe a preocupação.

Tu sabes que isto não pode continuar assim, não sabes? desabafou ele. Vais rebentar. Os miúdos quase não te veem.

E o que queres que faça? devolveu ela.

Contratar uma ajudante, nem que sejam só umas horas por dia. Ou falar com o Tiago para assumir mais tempo ao longo da semana.

Graça imaginou a conversa com Tiago: Não temos dinheiro para isso, Graça. E não sabia se tinham ou não. O euro já estava todo contado antes de aparecer mais esta despesa.

No dia seguinte, o pai pediu-lhe para o ajudar na casa-de-banho. Agarrou-se às paredes, andou muito devagar, e Graça sentiu as próprias mãos a esfriarem de esforço. Sentou o pai no banco da casa-de-banho; ele olhou para cima.

Filha, tu estás exausta.

Estou bem.

Bem é quando se sorri de verdade, não assim de lado.

Graça virou-se, para ele não ver os olhos húmidos. Sentia-se quase traidora por se cansar.

Um mês depois da alta, ficou claro que a recuperação estava lenta. O pai andava pela casa, mas facilmente se cansava. Precisava de ajuda para o banho, para não se esquecer de beber água e tomar os comprimidos. Tentava ser autónomo, mas trocava sempre as caixas dos medicamentos.

Graça pediu a Tiago para vir numa quarta-feira à noite, para que ela pudesse ir a uma reunião na escola do filho. Tiago disse que sim.

Não apareceu.

Mandou mensagem: Não consigo, o miúdo está com febre. Graça leu e sentiu algo estalar dentro de si. Não se podia zangar com a criança, mas a raiva não arranjou outro pouso.

Não foi à reunião. Ficou na cozinha, a olhar para o caderno do filho, onde tinha de assinar o teste, e pensou que a vida se tinha transformado numa soma de urgências alheias e ela a desaparecer no meio.

Ao sábado, Tiago lá apareceu, animadíssimo com a febre do filho, a noite mal dormida, a mulher esgotada.

Eu sei, disse Graça. Sei mesmo.

Tiago ficou à espera do mas.

Graça abriu o bloco onde apontava medicamentos e datas.

Mas tu prometeste, Tiago. Dentro da enfermaria. Disseste que estarias lá, que ficavas responsável. Lembras-te?

As palavras soaram mais duras do que queria. Viu Tiago tenso.

E não estou? Também venho quando posso! O que queres mais?

Vens quando te dá mais jeito. E eu preciso que venhas quando é preciso a mim. Isso não é o mesmo.

Tiago corou.

Achas que é fácil para mim? Achas que não me custa? Também tenho trabalho, família não posso largar tudo!

E eu, posso? Posso largar os meus, o emprego, dormir mal porque o pai sofre, e no dia a seguir fazer de conta no trabalho? Posso?

Da sala, ouviu-se a tosse do pai. Silêncio. Tiago chegou-se mais perto.

Foste tu que disseste nós não abandonamos. Já agora, sempre carregaste tudo és forte. Mas depois queres que toda a gente acompanhe o teu ritmo.

Graça ficou vazia. Viu-se de fora: sempre a querer controlar tudo, para não desmoronar. E zangada quando os outros não aguentavam o mesmo.

Eu não sou forte, confessou. Só não sei ser de outra maneira.

Tiago baixou a cabeça.

Eu também não. No hospital, prometi porque achei que, se não dissesse, o pai…

Ficaram calados. Outra tosse do pai; Graça foi ter com ele. O pai olhava o tecto.

Não quero ser o motivo das vossas zangas, resumiu ele.

Não estamos a zangar-nos, mentiu Graça.

O pai virou a cara.

Eu sei ouvir, filha. Não me quero sentir uma carga que vos separa.

Graça sentou-se na beira da cama.

Não é isso, pai. Não é.

Então decidam-se. Mas não com palavras com ação, a dividir pelos dois.

Na semana seguinte, Graça marcou consulta para o pai na unidade de saúde local. Tratou das burocracias no portal da segurança social, levou papéis, documentos, sacos com tudo. Tiago ofereceu-se para ir também já era altura de partilhar o peso das papeladas.

No consultório, a médica lia os exames, perguntava com calma, sem prometer milagres nem ameaçar desgraças.

Quem cuida dele? perguntou no fim.

Graça e Tiago cruzaram olhares.

Eu, disse Graça.

Eu ajudo, acrescentou Tiago.

A médica acenou.

Precisam de plano, não de heroísmo. Podem pedir apoio domiciliário, há ajuda estatal, e podem dividir serviços de cuidadora o Estado suporta parte dos custos. E lembrem-se: quem cuida também tem de ser cuidado. Se não descansarem, passam a ser também doentes.

Graça, ao ouvir, sentiu-se libertada daquele mandato de ser super-mulher.

Depois da consulta, foram ao balcão da Junta de Freguesia, porque a médica entregou uma lista do que pedir. Na fila, Graça percebeu que estavam juntos, sem trocarem culpas. Tiago perguntou o preço das cuidadoras para umas horas por dia e apurou logo o valor no telemóvel.

À noite, sentados à mesa da cozinha em conselho de família, o pai escutava debaixo do colete e do chá quente. O marido de Graça também se sentou, apanhando o ar de quem já se incluía nas decisões.

Graça pegou no bloco.

Então: sem sempre e nunca. Precisamos é de agenda, dinheiro e limites claros.

Tiago levantou dois dedos.

Eu posso ficar dois fins de tarde por semana. Terças e quintas. Venho do trabalho, fico com o pai, e tu aproveitas para descansar de verdade.

Graça sentiu um calor estranho de alívio.

Bom. Nessas tardes, não marco nada a não ser filhos e descanso. Ao fim-de-semana, um dia inteiro contigo: largo tudo e vou viver a minha vida. Não vou andar sempre a telefonar.

Tiago sorriu genuíno.

Fechado.

O marido de Graça acrescentou:

Quanto à parte das cuidadoras, podemos juntar dinheiro para, pelo menos, três horitas por dia, nos dias úteis. Eu assumo uma parte, o resto logo se vê.

Tiago torceu o nariz.

Metade é impossível para mim. Mas dou um valor fixo, todos os meses, e trato eu das farmácias.

Graça escreveu. Apetecia-lhe dizer devias mais, mas calou-se a tempo.

Assim fica: eu faço as marcações, papéis, chamadas. Tu assumes dois fins de tarde, um sábado inteiro e as receitas. Ninguém anda a comparar fadigas. Só seguimos o plano.

O pai ergueu uma mão.

Também quero assumir alguma coisa, disse, faço os exercícios diários se me organizarem as caixas dos medicamentos. E aviso logo se me sentir mal, sem esconder.

Graça olhou e viu ali não só o doente, mas o homem a querer recuperar-se. Fez-lhe sentido.

No dia seguinte, foi comprar à farmácia um organizador de comprimidos semanal. Em casa, distribuiu as doses, escreveu as horas a marcador e pôs tudo em cima da mesa de cabeceira, ao pé do copo de água. O pai abriu as tampas gostava de confirmar, com as próprias mãos, esse apoio.

Na terça-feira, Tiago apareceu. Tirou os sapatos, lavou as mãos, entrou no quarto do pai. Graça mostrou-lhe onde estavam as fraldas limpas, o termómetro, os contactos da médica e do 112. Passou-lhe as responsabilidades como quem passa as chaves de casa.

Vou dar uma volta, anunciou. Esperou, à escuta. Lá do quarto vinham vozes: Tiago falava de futebol, o pai treinava uns risos, quase esquecidos.

Saiu de casa e deu uma volta pelo bairro, passou pelo parque infantil sem objetivo, só por andar. Sentia no corpo o nervosismo contido, pronta a ser chamada. Mas ninguém a chamou.

Voltou uma hora depois. Silêncio em casa. Tiago estava na cozinha, a beber chá, o bloco aberto nas páginas dos horários.

Tudo tratado, confirmou. O pai bebeu o chá, tomou os comprimidos desta vez sozinho.

Graça agradeceu com um aceno.

Tiago fitou-a.

Olha, sobre aquela promessa Eu não queria que isso ficasse sempre a pairar. Só quero que façamos o que conseguimos, e que saibas que não te abandono.

Graça sentiu aligeirar-se por dentro.

Também não quero promessas, contrapôs. Quero plano. E espaço para, às vezes, simplesmente viver, não só sobreviver.

Tiago fechou o bloco devagar.

Mantemos o plano. E, se houver mudanças, falamos. Não fazemos guerra.

Graça acompanhou-o até à porta, depois foi ver o pai. Dormia tranquilo, sem a carga da enfermaria. Na mesa de cabeceira: água, o organizador dos comprimidos, tudo assimétrico mas seguro.

Deixou-se sentar ao fundo da cama, ajeitou o cobertor não sentia vitória nenhuma. Sentia, isso sim, que tinham arranjado um modo de não se desfazerem enquanto ajudavam o pai.

Na cozinha estava o bloco com o horário da semana: terça, quinta, sábado. Ao lado, as despesas anotadas e o contacto da cuidadora recomendada pelo centro de saúde. Não era promessa de tudo, era plano de quem decidiu fazer só aquilo que consegue e repetir amanhã.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

1 × 5 =

Dito com Medo
Päť SUV pred bránou Slovenskej záhrady