Antónia Pereira caminhava sob a chuva e chorava amargamente. As lágrimas misturavam-se às gotas enqu…

Antónia da Conceição caminhava sob a chuva intensa, as lágrimas escorriam pelo rosto, misturando-se com as gotas frias que lhe molhavam a pele.
Pelo menos chove, ninguém repara que estou a chorar pensava ela, o peito apertado de mágoa.

E ainda se culpava: A culpa é minha! Fui lá sem avisar. Entrei como quem não devia entrar.

Ia andando, chorando amargamente. E, de repente, achou graça ao lembrar aquela anedota em que o genro diz à sogra: Então, dona Maria, nem um chazinho vai tomar?

Agora, era ela a sogra da anedota: posta de lado, sem chá, sem calor.

Chorava e ria. Ria e chorava, perdida entre as memórias e a realidade dura.

Quando chegou a casa, largou a roupa encharcada, enrolou-se no plaid no sofá e chorou sem forças para se conter. Sozinha. Ninguém ali para ouvir o seu desabafo, só a pequena carpa dourada no aquário redondo que tilintava silenciosa. Só a carpa! Mais ninguém!

Antónia da Conceição sempre fora uma mulher interessante, cativava olhares masculinos onde passava. Mas com o pai do seu filho, o Miguel, a vida não correu bem. Ele afundou-se no vinho. Um tempo, ainda era suportável, bebia e dormia. Mas depois, veio o ciúme: desconfiava até do senhor do talho, do velhote do prédio, do homem a quem ela dava bom-dia na rua.

Certa vez, porque Antónia sorriu ao vizinho, o marido perdeu o juízo por completo. Bateu-lhe. Bateu com fúria de quem sabe onde dói, bem nos rins, diante do pequeno filho. O Miguélinho contou tudo à avó e ao avô, sem esconder meias tintas.

A mãe de Antónia, dona Judite, chorou de raiva:
Criei uma filha para isto? Para sofrer nas mãos de um bêbado?

O pai, seu António, calou-se, vestiu o casaco, subiu ao quarto andar e deitou o genro escadas abaixo enquanto o outro ainda levava o braço partido na queda.

E, abanando o punho, gritou-lhe:
Se te voltas a aproximar da minha filha, mato-te. Vou preso de boa vontade, mas tu não estragas mais a vida da nossa Tóni.

Nunca mais o homem voltou. E Antónia ficou só. Nunca mais se casou; tinha o filho para criar. Nunca se sabe, podia calhar-lhe outro igual.

Teve oportunidades, namoros, acenos. Mas nunca conseguiu. Doeu-lhe demais o que passou com o pai do Miguel.

Nunca faltou o essencial. Era uma excelente técnica de restauração, tratava do menu num pequeno restaurante ali em Lisboa. Ganhava bem, não se queixava da vida. Ia poupando euros, devagarinho, com o sonho de um dia ter o seu próprio T2.

Quando finalmente conseguiu juntar o dinheiro, o Miguel decidiu casar-se com uma rapariga doce, de nome Beatriz nome mesmo de portuguesa, tão quente no ouvido.

Antónia ficou na sua casinha antiga e simples, e aos filhos fez-lhes boda grande, entregou-lhes o novo apartamento. Eles têm família, merecem! pensava com orgulho.

Agora, poupava para um carro novo para os filhos. Que já estava farta de os ver a empurrarem aquele velhinho Renault 5.

Nem era costumada ir a casa do filho sem razão. Mas naquele dia, andava mesmo por perto quando desabou aquela chuvada. Sem chapéu, nem valia a pena; tombo de água daquele, chapéu nem boia.

Pensou: Vou entrar, passar uns minutos com a Beatriz, pôr a conversa em dia. Um chá para aquecer.

Beatriz abriu a porta, surpreendida, e ficou a olhar para a sogra sem disfarçar o incómodo.
D. Antónia, precisa de alguma coisa? disse, fria, ali no corredor.
Antónia gaguejou, atrapalhada, sentindo-se deslocada.
Só a chuva
A chuva já passou! A senhora mora já ali e fitou a rua, braços cruzados.

Pois, pois murmurou Antónia, imersa em lágrimas, e saiu de novo para a tempestade.

Chorou até não sobrar mais força nas lágrimas. Depois, cansada, adormeceu. E sonhou com a sua carpa dourada. No sonho, a carpa crescia e mexia os lábios num silêncio mágico. Mas Antónia ouvia:

Ainda a chorar?! Que tola! Nem um chá te deram para aquecer, e tu a poupar para lhes comprar carro? Vais viver sempre para eles? Olha para ti, mulher! És bonita, inteligente, tens dinheiro. Achas que eles valorizam? Vai até ao Algarve, tira umas férias! Vive um pouco para ti.

Antónia acordou já de noite. A carpa nadava no aquário, abrindo a boca num silêncio irónico. Ela já não ouvia a voz dos peixes, mas compreendeu tudo: não se deve sacrificar por quem não sabe agradecer, por quem nem um café convida, nem um abrigo oferece numa noite de temporal.

Pegou então nos euros poupados para o carro dos filhos e comprou uma viagem para o Algarve. Vai, desfruta, apanha sol. Voltou diferente: mais bonita, mais bronzeada, alma leve.

E o filho e a nora? Nem notaram. Só lhe ligavam para pedir dinheiro, ou para tomar conta do neto.

Mas Antónia mudou. Não fugia mais dos homens. O director do restaurante, o senhor Manuel, sempre tinha gostado dela. Agora, finalmente, tudo se encaixou. Ele era elegante, distinto, simpático. Começaram a sair juntos, a partilhar rotinas e sonhos novos. A vida ganhou outro brilho.

Há dias, Beatriz apareceu.
Porque é que já não vem cá a casa, D. Antónia? Nem telefona? O Miguel viu um carro que lhe agradava

Antónia fitou-a, firme, braços cruzados:
Beatriz, precisas de alguma coisa?

Antes que Beatriz respondesse, ouviu-se uma voz vinda da sala:
Toninha, vamos tomar chá?

Vamos, pois! sorriu Antónia.

E chama a visita sugeriu o senhor Manuel.

Ora, não vale a pena, Beatriz já estava de saída Não é verdade, Beatriz? Chá ela não bebe!

Antónia fechou a porta atrás da nora, piscou o olho à carpa dourada e soltou uma gargalhada leve, nova, livre.

Assim é que é!

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Antónia Pereira caminhava sob a chuva e chorava amargamente. As lágrimas misturavam-se às gotas enqu…
Счупената кукла