Só vamos ver a quinta e já! — prometeu a sogra na sexta à noite. Foram no domingo. Cheguei na segunda — e pus um cadeado.

— Então, é assim, — disse a sogra da soleira da porta, sem cumprimentar, sem tirar os sapatos, — que lixeira é esta no teu hall de entrada? As pessoas vivem, e vocês têm a casa como uns sem-abrigo!

Catarina não respondeu. Estava à janela da cozinha, a olhar para o pátio, com o telefone na mão — já não mostrava nada de importante, só brilhava, como um candeeiro de cabeceira. O marido, José, arrastava-se atrás da mãe com o ar de alguém que há muito perdera a capacidade de ter opinião própria.

Dona Ernestina Carvalho — assim se chamava a sogra — era uma mulher monumental. Não em altura, mas em presença: ocupava o espaço por inteiro, sem deixar resto, como um móvel que não se consegue arrumar. Cabelo tingido cor de caramelo queimado, anéis em cada dedo, blusa de lurex — à sexta-feira à noite e com calor. Lábios franzidos. Olhos agudos, rápidos, que tudo viam e a tudo punham preço.

— Pronto, — disse ela, já mais suave, com outra entoação — aquela a que Catarina chamava, para si, «modo fingimento». — Nós só vamos ver a quinta e vamos embora. Mostra como está, e voltamos para trás. José, não disseste que era só umas horas?

José acenou que sim. José acenava sempre.

A quinta tinha vindo a Catarina da avó — uma casa de madeira em Sintra, com um pequeno quintal, uma macieira velha e uma varanda onde se podia tomar café de manhã e ouvir o silêncio. Catarina investira nela três anos e todo o dinheiro que poupara desde a universidade. Substituíra os soalhos. Mudara as janelas. Pintara as paredes naquele tom de branco que tanto procurara nos catálogos. Pendurara cortinas de linho. Instalara uma banheira de ferro fundido que mandara vir do Porto.

Era a sua casa. Só sua.

Antes do casamento — só sua, de certeza. Depois, de alguma forma, tornara-se «nossa», embora José nunca lá tivesse passado um dia com uma trincha ou uma pá na mão.

Na sexta-feira, saíram às sete da tarde. Catarina conduzia; Dona Ernestina ia atrás e comentava a estrada, os outros condutores, as placas e o comportamento dos camiões na autoestrada. Chegaram a casa quando já escurecia.

— Bem, — disse a sogra, saindo do carro e percorrendo o terreno com o olhar, — então há quem viva assim.

Naquela frase não havia admiração. Havia — inveja, disfarçada de indiferença. Catarina percebeu-o de imediato, como se sente o cheiro a fumo antes de ver o fogo.

Percorreram a casa. Dona Ernestina tocava em tudo — cortinas, bancada, louça no armário. Abria os roupeiros. Espreitava a despensa.

— Aqui está húmido, — anunciou, parada no quarto.

— Aqui está normal, — respondeu Catarina.

— Digo-te que está húmido. José, sentes?

José fungou o ar e acenou. Claro, acenou.

Catarina saiu para a varanda. Sentou-se. Olhou para o quintal — lá, na escuridão, adivinhavam-se os pés de groselha que ela própria plantara. Ouviu atrás a sogra a falar ao telefone, a contar a alguém sobre a casa, sobre «a beleza que a mulher do José aqui montou».

A mulher do José. Não Catarina. Não uma pessoa com nome. Apenas um apêndice do filho.

— Ouve, — gritou Dona Ernestina da sala, — posso trazer a minha irmã amanhã? Ela vai gostar daqui.

Catarina não teve tempo de responder.

A irmã chegou no sábado às onze da manhã. Com o marido, a filha adulta e o namorado da filha, de quem Catarina nunca se lembrou do nome.

Chegaram de mãos vazias.

Catarina reparou logo — carro, gente, barulho, risos, e nem um saco. Nem pão, nem queijo, nem dois tomates. Apenas pessoas que vinham comer.

A irmã da sogra, Zulmira, era uma versão de Dona Ernestina, só que mais alto. Começou logo a explicar a todos como devia ter sido feita a varanda, onde era melhor pôr o grelhador e porque é que a macieira estava plantada no sítio errado.

— Foste tu que plantaste? — perguntou a Catarina.

— Não, foi da avó.

— Bem, à avó perdoa-se, — disse Zulmira, magnânima.

Catarina foi para a cozinha. Tirou do frigorífico tudo o que havia: queijo, fiambre, ovos, ervas, restos de massa que cozinhara para si no dia anterior. Pôs a chaleira ao lume.

José entrou atrás.

— Que tal fazer um churrasco? — perguntou.

— A carne está no congelador. Descongela demorado.

— Tira-a, deixa descongelar.

Catarina olhou para ele. Ele olhava pela janela, onde a mãe mostrava o quintal a Zulmira com ar de dona.

— José, — disse Catarina em voz baixa. — Prometeste — só ver e ir embora.

— Bom… eles já cá estão.

— Quem os convidou?

— A mãe queria mostrar…

— A mãe queria. — Catarina repetiu devagar, para que ele ouvisse como aquilo soava.

Ele não ouviu. Ou fez de conta.

A carne descongelou às três. Nessa altura, Catarina já pusera a mesa na varanda — com as suas mãos, a sua comida, a sua loiça, que depois teria de lavar também ela. À mesa sentaram-se sete pessoas que ela não convidara. Falavam todos ao mesmo tempo. Dona Ernestina contava como, no tempo do Estado Novo, ia à quinta de um diretor de fábrica e «isso sim era casa de campo, não como agora». Zulmira queixava-se dos vizinhos. O namorado da filha olhava para o telemóvel.

José ria-se. Estava bem.

Catarina recolhia os pratos.

— Deixa, depois! — acenou a sogra. — Senta-te, pareces uma empregada!

Empregada. Exatamente.

Catarina pôs os pratos no lava-loiça e saiu para o quintal. Parou junto da macieira, que não fora ela a plantar, mas que agora era sua — pelos documentos, pelo direito, por todas as linhas do contrato. Pegou no telefone. Escreveu a uma amiga: «Ficam para a noite. Sinto que sufoco.» Depois apagou. Escreveu de novo: «Ficam. Vou para casa.»

Mas não foi.

Porque era a sua casa. Quem devia ir embora eram eles.

No domingo de manhã, Dona Ernestina bebia chá e dizia que era boa ideia voltar no fim de semana seguinte — «para dormir, a sério, como deve ser».

Catarina ouvia, acenava, e só pensava numa coisa: no pequeno cadeado de metal que estava em casa, na gaveta da secretária.

Lembrava-se onde estava.

Na segunda-feira, depois do trabalho, foi buscá-lo à gaveta.

O cadeado era pequeno — compacto, pesado, com um arco de aço temperado. Catarina comprara-o dois anos antes, quando ainda acabava as obras — com medo que alguém da rua chegasse às ferramentas. Depois esquecera-o. Depois encontrara-o. Depois esquecera-o outra vez.

Agora segurava-o na mão e olhava para ele como se olha para uma coisa que, de repente, se revela necessária.

As chaves do portão estavam com ela. Só com ela.

Foi a Sintra na quarta-feira ao fim da tarde — sozinha, depois do trabalho, por volta das sete. Não disse a ninguém. Mandou uma mensagem a José: «Vou demorar» — ele respondeu «ok» e enviou um coração, porque era mais fácil do que conversar.

A casa estava calada, escura, cheirando a madeira e a erva arrefecida. Catarina percorreu os cômodos, abriu as janelas, pôs a chaleira ao lume. Sentou-se na varanda e ficou muito tempo a olhar para o quintal, onde na escuridão se adivinhava a macieira — já começava a encher-se de frutos pequenos e duros, que só amadureceriam em agosto.

Depois, foi buscar o cadeado.

No portão já havia um — velho, solto, com folga. Qualquer coisa o abria, até um gancho de cabelo. Catarina tirou-o, meteu-o ao bolso e pendurou o novo. Rodou a chave duas vezes. Puxou o arco.

Não cedeu.

Voltou para dentro e sentou-se muito tempo à mesa da cozinha com uma chávena de chá que arrefeceu enquanto pensava. Não pensava se estava a fazer bem — isso já estava decidido, era óbvio, como o facto de a macieira estar plantada exatamente onde devia e nenhuma Zulmira a mudava dali. Pensava noutra coisa: no que Dona Ernestina diria quando descobrisse que não tinha chave. Em como José diria — «para que fizeste isso, a mãe só queria, elas não fazem por mal». Na ideia de que «não fazem por mal» já ouvira tantas vezes que perdera qualquer significado.

Não fazem por mal é quando é uma vez.

Quando é todas as sextas-feiras, é assim mesmo.

José ligou na quinta-feira.

— A mãe pergunta se podem vir este sábado outra vez.

Catarina ficou em silêncio um segundo.

— Não, — disse ela.

— O quê, não?

— Este sábado, não.

— Mas elas…

— José. — Ela disse o nome dele de forma neutra, sem a entoação que ele pudesse tomar por raiva. A raiva ele sabia contornar — fazia cara de ofendido, calava-se, e a conversa desviava-se. — Quero que combinemos. Quando alguém vier à quinta, tenho de saber com antecedência. Não na sexta de manhã, nem na véspera. Com antecedência.

— Bom, a mãe não sabia que a Zulmira…

— Não estou a falar da Zulmira. Falo de uma regra.

— Que regra…

— Minha. — Fez uma pausa. — É a minha casa, José. Eu construí-a. Eu pago por ela. Eu decido quem lá vai e quando.

O silêncio no telefone foi longo — tão longo que Catarina conseguiu ver nele tudo o que José não sabia dizer em voz alta: desorientação, irritação, a vontade de que tudo se resolvesse sozinho.

— És egoísta, — disse ele por fim. Baixinho, quase admirado.

— Talvez, — concordou Catarina.

Não se deu ao trabalho de explicar que egoísmo é quando se tira. Quando se defende o que é nosso, chama-se outra coisa.

Dona Ernestina ligou no domingo.

— Ouvi dizer que andas a mudar fechaduras.

— Coloquei um cadeado novo no portão, sim.

— Dás-me as chaves?

— Não.

Pausa.

— Não, — repetiu Catarina com a mesma calma com que falara a José no dia anterior. Descobrira que aquela palavra se tornava mais leve a cada vez — como um músculo que finalmente se começa a usar. — Se quiserem vir, combinamos com antecedência e eu abro. Mas chaves não.

— Tu… — Dona Ernestina parecia não encontrar a palavra de imediato. — Isto também é casa do José!

— O José sabe o meu número.

Desligou.

Não com grosseria. Não com um estalo. Apenas desligou, porque a conversa estava terminada.

Na sexta-feira seguinte, foi a Sintra sozinha.

Abriu o cadeado com a sua chave.

Fez café, saiu para a varanda, ouviu um pica-pau a martelar no quintal vizinho — coisa rara ali, um visitante ocasional. Leu o livro que adiara desde fevereiro. Ao almoço, veio a vizinha, Dona Teresa, com um frasco de compota de framboesa; sentou-se meia hora, falou do verão seco e de que as maçãs seriam pequenas mas doces. Foi-se. Catarina voltou ao livro.

Ao fim da tarde, chegou José.

Ligara antes — com uma hora de antecedência. Era a primeira vez.

Ela abriu-lhe o portão, e ficaram muito tempo na varanda quase em silêncio — não por estarem magoados, mas porque não havia nada a dizer. Tudo o que importava já fora dito, e o facto de José ter vindo e ter ligado com uma hora de avanço era também uma conversa, só que sem palavras.

Ele próprio lavou a loiça depois do jantar.

Catarina reparou, mas não disse nada.

Às vezes, basta reparar.

O cadeado ficou pendurado no portão — pequeno, compacto, de metal escuro, que não saltava à vista. Catarina via-o sempre que chegava. Não era um símbolo. Não era vingança. Não era uma declaração.

Era apenas um cadeado.

No seu portão. Da sua casa.

E a chave estava só no seu bolso — onde devia ter estado desde o princípio.

Agosto chegou quente e calmo.

As maçãs inchavam, como prometera Dona Teresa — pequenas, rijas, com aquele cheiro especial que só as macieiras velhas de quintal têm, nunca tocadas por químicos. Catarina ia agora todas as sextas-feiras, às vezes quinta à noite, se o trabalho a deixava sair mais cedo. Abria o cadeado, punha a chaleira ao lume, sentava-se na varanda e sentia uma coisa tão simples e há tanto esquecida que demorou a encontrar-lhe nome. Depois encontrou: paz. Não silêncio, não solidão — paz, aquela que se tem quando o espaço à nossa volta é finalmente nosso.

José aparecia aos sábados. Ligava com uma hora de antecedência, às vezes duas. Uma vez trouxe um grelhador que comprara sem pedir e descarregava do porta-bagagens envergonhado, explicando que era bom, em aço inoxidável, não enferrujava. Catarina olhava para ele, para aquele grelhador absurdo, para a nuca dele que conhecia de cor há seis anos, e pensava: pronto. Alguma vez havia de começar.

Não falavam de Dona Ernestina. Tornara-se uma regra não dita — não por ser proibido, mas por ser desnecessário: tudo fora dito, as posições estavam marcadas, e voltar ao assunto seria reabrir o que já parecia estar a cicatrizar.

A sogra ligou no princípio de agosto, outra vez, como se nada fosse, com a mesma confiança monumental com que entrava nas entradas alheias sem tirar os sapatos.

— A Zulmira e eu gostávamos de ir no próximo domingo. O José diz que agora queres aviso com uma semana de antecedência.

— Peço, — corrigiu Catarina. — Não exijo. Peço.

— Bem, peço. Pode?

Catarina calou-se — não por maldade, mas porque estava mesmo a pensar. No próximo domingo tencionava caiar os lancis do caminho e queria sossego. Mas também não queria estar eternamente na defensiva. O objetivo era outro: ordem. Não guerra.

— No próximo domingo estou ocupada, — disse ela. — Daí a um domingo, sim. Mas a Zulmira que avise se vem ou não. Preciso de saber quantas pessoas são.

Dona Ernestina calou-se. Naquele silêncio, Catarina ouviu a luta — entre o hábito de impor e a sensação nova, ainda estranha, de que ali não havia onde fazer pressão.

— Está bem, — disse por fim. Seco, sem calor, mas disse.

Daí a dois domingos, vieram as duas — Ernestina e Zulmira, sem maridos, sem namorados. Catarina recebeu-as ao portão. Abriu o cadeado com a sua chave, deixou-as passar à frente, entrou atrás.

Na varanda, a mesa estava posta: chá, compota de Dona Teresa, uma torta de maçã que Catarina cozinhara sozinha — a primeira vez na vida, pela receita do caderno de receitas da avó, encontrado na despensa em maio. A torta queimara um pouco de um lado e estava torta, mas cheirava bem.

— Fizeste tu? — perguntou Zulmira.

— Sim.

— Olha, — disse ela sem ironia. Apenas se admirou.

Dona Ernestina sentou-se direita, como sempre, a olhar para o quintal. Os anéis brilhavam ao sol. A blusa, hoje, não era de lurex — simples, de linho, clara. Talvez o calor. Talvez outra coisa.

— As maçãs estão quase para apanhar, — disse ela.

— Fim de agosto, talvez.

— A Zulmira e eu sabemos fazer compota. Se quiseres, ajudamos.

Catarina olhou para ela. Dona Ernestina não olhou de volta — olhava para a macieira, e a expressão era uma que Catarina nunca vira: sem lábios franzidos, sem olhos rápidos a avaliar. Apenas uma mulher de idade a olhar para um quintal alheio e a pensar nos seus próprios assuntos.

— Talvez, — disse Catarina.

Não disse «sim». Mas também não disse «não».

José chegou ao fim da tarde, quando a mãe e a tia já se preparavam para ir embora. Não se cruzaram olhares com Catarina, não falaram do passado, não puseram os pontos nos is — apenas beberam chá, falaram de maçãs, do verão seco, de que no ano seguinte deviam plantar morangos ao longo da vedação. Catarina ouvia e respondia — curto, neutro, sem aquela tensão interior que antes lhe ficava o dia inteiro depois das visitas delas, como uma farpa.

Quando se foram e José saiu ao portão a despedir-se do carro, Catarina ficou sozinha na varanda.

Do outro lado da vedação, ouviam-se vozes baixas, depois uma portada a bater, depois silêncio. O sol poente espalhava-se nas tábuas da varanda em longas listras cor de laranja. No quintal vizinho, o pica-pau martelava outra vez — outro, ou o mesmo visitante ocasional, que por qualquer razão ficara.

Catarina sentou-se a pensar que nada ficara resolvido de vez. Dona Ernestina não se tornara outra pessoa. José não se transformara de repente num homem que sabe dizer «não» à mãe — estava apenas a aprender, com dificuldade, uma palavra de cada vez. Zulmira continuava a achar que a macieira estava no sítio errado. Nada disso desaparecera.

Mas qualquer coisa mudara.

O cadeado pendia do portão — pequeno, de metal escuro, quase invisível. A chave estava no bolso. E quando José voltou do caminho e se sentou ao lado dela, e ficaram muito tempo calados a ver a luz apagar-se sobre o quintal — aquele silêncio era diferente. Não o silêncio onde se escondem as mágoas não ditas. Aquele onde simplesmente se está bem.

Catarina serviu-se de chá frio e pensou que, no fim de agosto, quando as maçãs amadurecessem, talvez ligasse a Dona Ernestina. Ela própria. Primeiro. E dissesse: venham fazer compota.

Talvez.

Se quisesse.

Porque era a sua casa, a sua macieira e a sua escolha — a quem abrir o portão.

A chave estava no bolso.

Onde devia estar.

No fim de agosto, as maçãs caíram sozinhas.

Não todas — só as que pendiam do lado da vedação, onde a sombra demorava mais. Catarina encontrou-as no sábado de manhã, quando saiu com o café para a varanda: três maçãs na erva, um pouco amolgadas, mas inteiras.

Apanhou uma. Mordeu-a ali mesmo, sem faca.

Dona Teresa não mentira — pequenas, mas doces.

José dormia nessa manhã. Chegara tarde, cansado, e Catarina não o acordou — que ficasse. Sentou-se sozinha, a ouvir o quintal vizinho a começar o seu dia, e pensou que setembro estava quase a chegar e que em breve o cheiro ali seria outro — folhas podres, terra fria, aquele cheiro especial de fim de verão que nunca é triste.

Não ligara a Dona Ernestina. Não por raiva — simplesmente não ligara, e pronto. Talvez ligue no ano que vem. Talvez não. Também esse era o seu direito — não ter pressa, não fechar nem abrir antes de se sentir pronta.

José apareceu na varanda perto das dez — despenteado, com a marca da almofada na cara, com uma caneca que encheu sozinho, sem perguntar onde estava o quê. Portanto, lembrava-se. Portanto, já lá estivera vezes suficientes.

Sentou-se ao lado dela. Olhou para o quintal.

— As maçãs estão a cair, — disse ele.

— Sei.

— Temos de as apanhar.

— Depois.

Ficaram calados. Um bom silêncio.

Catarina acabou o café, pousou a chávena no parapeito e olhou para o cadeado — via-se dali, da varanda, se soubéssemos para onde olhar. Escuro, compacto, seguro.

Apenas um cadeado.

No seu portão.

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Só vamos ver a quinta e já! — prometeu a sogra na sexta à noite. Foram no domingo. Cheguei na segunda — e pus um cadeado.
Cansei de cozinhar para todo mundo!