Este é o filho do Igor…

Este é o filho do Ivo…

Foi há pouco tempo, num prédio moderno da Baixa de Lisboa, no quarto andar de um edifício de nove pisos. Vivendo ali sozinha, encontrava-se uma jovem reformada ainda trabalhadora, uma senhora chamada Amélia.

A sua vida corria sem grandes sobressaltos: reforma, trabalho, amigas, visitas aos netos e auxílio diário à mãe idosa que morava noutro bairro.

Esse dia prometia ser igual aos restantes.

De manhã, liguei à minha mãe e perguntei como estava. Era sábado, o meu dia de folga: na reforma trabalhava por turnos, de três em três dias, ao balcão de uma clínica privada, a atender chamadas e marcar consultas.

Hoje, como de costume, era dia de cozinhar algumas coisas e levar até à mãe um ritual diário que, para ser sincero, já me tirava do sério, com suspiros e revirar de olhos. Dois quarteirões até ao prédio da mãe, nada inquietante O problema era o quinto andar sem elevador! E as queixas: ouvir as eternas lamúrias sobre as dores novas e velhas, com diagnósticos reformulados com explicações das vizinhas e receitas mirabolantes da doutora da televisão, a doutora Maria de Lurdes.

Os meus conselhos, mesmo após quarenta anos no bloco operatório como enfermeira, eram tratados como opiniões de quem nada sabia da verdadeira saúde de mãe e das doenças dela. Que percebes tu disto, sabes lá do bisturi!, dizia sempre.

Mas avanti! Um dia como qualquer outro.

Tinha que passar no supermercado. Saco do lixo preparado, lápis nos lábios, espelho à frente. Para uma mulher de sessenta e tal anos, sentia-me com bom aspeto: pés-de-galinha suaves, rosto agradável, cabelo curto grisalho, brincos grandes. Talvez umas bochechas um pouco caídas, só isso.

“Pão de centeio e manteiga para a mãe,” pensava, quando tocaram à campainha.

O nosso prédio tinha videoporteiro, quem seria? A vizinha D. Sofia, talvez? De batom na mão, abri a porta.

Diante de mim estava uma rapariga loira, rabo-de-cavalo, t-shirt às riscas, casaco, jeans, mochila às costas. Só mais tarde me lembraria dos pormenores: naquele momento, só os olhos aflitos e o bebé no colo dela me sobressaltaram.

Olhos ansiosos, rosto tenso, respiração ofegante, um passo à frente de mim, o embrulho nos braços e uma frase atirada:

É para si!

Levei o bebé sem pensar, com o batom ainda na mão. O peso nos meus braços, olhei para baixo Santo Deus, um bebé!

Quando levantei os olhos, a rapariga já descia as escadas.

É o filho do Ivo, eu tenho de estudar… ouvi os passos apressados a ecoar escadas abaixo.

A porta bateu. E pronto…

Fiquei ali, parada, à espera, a imaginar que a rapariga iria voltar. Depois entrei novamente, reparei no saco do lixo e pensei: Ainda tenho que o deitar fora a caminho de casa da mãe.

Deparei-me também com o saco desconhecido no hall. Já não dei pela rapariga a deixá-lo.

E então… começou a doer o peito.

Um bebé! Mas o que disse ela? Filho do Ivo?

Eu só tinha um filho, chamado Tiago já casado, dois filhos, a viver no Porto com a mulher. Eu morava aqui, em Lisboa. O meu marido, António, faleceu há cinco anos.

Sem perceber nada, sentei-me no sofá com o bebé ao colo. Sim, era isso que ela dissera: Ivo.

Que Ivo?

Olhei para o bebé: traje de algodão bege, bem pequeno, chupeta em forma de sapo. Não teria mais de um mês.

Então, pequenino… toquei-lhe na face, ele estalou os lábios e adormeceu de novo.

Fui ver o saco: duas biberons, uma lata de leite, fraldas e roupinhas.

Continuei à espera: a qualquer instante ia tocar à porta; a rapariga viria buscar o bebé, pediria desculpa e o dia voltava ao normal: lixo, supermercado, casa da mãe…

Ainda retoquei a maquilhagem, encostei-me à janela, olhos postos na rua.

Nada da rapariga. Que coisa absurda!

Passado pouco, o bebé chorou. Fiquei ali, sem saber bem: posso despir o bebé? Dar-lhe de comer? Isto não é legal; não tenho direito, dizia eu a mim mesma.

Mas a fralda tinha mesmo de ser mudada. Sob o macacão, estava uma camisa de bebé.

Era uma menina.

Aí, sim, o medo pela responsabilidade caiu-me em cima. Abandonaram-me a pequena.

Ivo… E se…

O Tiago, meu filho, sempre foi dado à festa. Ralhei tanto com ele por causa das namoradas. Inclusive, trouxe algumas a casa. Mas tudo antes do casamento, há muito tempo.

Agora parecia feliz. Negócios próprios, família, casa nova, filhos mais crescidos…

Pronto, pronto, não chores. Vamos mudar o cueiro…

Meu Deus, a mãe abandonou a filha aqui?

Enquanto não assimilava bem, as mãos já sabiam o que fazer; substituí fralda e vesti novamente a menina, depois abracei-a e fui preparar o leite.

Nisto, telefonema:

Demoraste a atender! era a minha mãe.

Ainda vou ao supermercado, mamã…

E já agora compra peras, mas daquelas sumarentas, não daquela última vez…

Havia uma vida normal a acontecer, mas ali estava eu, a embalar um bebé na sala.

E agora? Liguei ao Tiago o telefone estava desligado.

Resolvendo não precipitar as coisas, esperei. Talvez a rapariga viesse buscá-la. Parecia tão normal, só um pouco frágil, estudante talvez.

À mãe nada contei. Não estava para ouvir dramas, suspeitas e aflições.

Liguei ao meu neto mais velho para saber do Tiago; estava num projeto em Trás-os-Montes, sem rede. Só dali a dois dias regressava, mas à noite ligava sempre à família.

Podiam avisar-me, ora! resmunguei eu.

Telefonei à nora Eugénia, pedi que dissesse ao Tiago para me ligar.

Passou-se alguma coisa?

Não, mas espero ansiosamente o telefonema dele.

Invente uma entorse à perna para a minha mãe. Ela chateou, ameaçou aparecer.

Despi-me, vesti o robe, sentei-me junto da menina e comecei a pensar sem pressas.

A razão dizia para ligar à polícia e entregar a menina. Mas e se fosse do meu Tiago? Podia ter enganado a rapariga com o nome Ivo. O Tiago nunca foi um santo, quem sabe? E se a família dele…

Balancei o leite no pulso estava morno. O braço já cansava. Não era como dantes, quando transportava tantos quilos no hospital.

Talvez devesse ligar logo ao 112. Mas e o Tiago?

Resisti, olhava para a menina e via semelhanças com a neta.

Caramba, que estúpida situação! Se fosse dele, era uma tragédia. Eugénia não perdoaria, as crianças ficariam destruídas.

A pequena chorava, dei-lhe o biberon, distraída. Era tão linda! Senti saudade dos meus tempos de mãe de bebés.

Quando ela adormeceu, pus-na no sofá, fui à cozinha e liguei para o Tiago, sem sucesso.

Decidi não apressar as coisas. Amanhã logo avisava as autoridades, se fosse caso disso. Ainda esperava que a verdadeira mãe aparecesse.

Combinámos com a minha melhor amiga, Teresa, investigarmos. Ela sugeriu ir falar com os vizinhos: havia algum Ivo no prédio?

Naquela tarde, depois dos cuidados todos à menina (alimentar, massagem, banho, canção de embalar…), Teresa percorreu os vizinhos, com a conversa de que havia uma carta para o Ivo.

Finalmente, no sexto andar, vivia um Ivo, com idade para ser pai da menina.

Fomos confrontá-lo. A avó, baixinha e corcunda, abriu a porta.

Quem é? gritou lá de dentro.

Viemos falar com o Ivo.

O jovem apareceu, um pouco desleixado, barba por fazer.

É sobre o tablet? perguntou.

Não, sobre outra coisa, disse Teresa.

A situação é que a Amélia acabou por receber, por engano, uma criança. Disseram que era filha do Ivo.

O rapaz ficou atónito.

Que filha?! Eu? Nunca tive filhos!

Tem a certeza? Talvez não esteja a assumir, insistia Teresa.

Estou sozinho há anos, as únicas ligações são ao Wi-Fi. Nem conheço nenhuma rapariga chamada assim… Olhem, se quiserem faço um post a pedir informações, sou blogger.

Obrigada, mas não é necessário, agradeci, já a pensar no Tiago e no melhor a fazer.

Descemos resignadas. Não era dele, notava-se.

A noite caiu, sem notícias do Tiago nem da rapariga.

Telefonei à Eugénia. Estava entretida com as rotinas dos netos e esquecera-se do recado.

Prometi-me: amanhã mesmo ligo à polícia.

Contudo, à noite ao dormir, só pensava nos olhos da rapariga. Será que entregando a menina estava a condená-la?

Mal dormi. De cada suspiro da bebé, levantava-me, dava o biberón, fazia carícias.

De manhã, a minha mãe telefonou:

Vens cá? Sim, mãe. Traz peras maduras, daquelas…

Crianças precisam de passear, pensei. Improvisei uma espécie de porta-bebés com um lenço, vesti a menina (a roupa dela era quase nova e engraçada) e fomos às compras.

Dava-me prazer andar pelo supermercado já não sozinha. Só me lembrava do quinto andar, sem elevador.

Saímos, fomos até casa da mãe. Ela abriu a porta de olhos arregalados:

Mas quem é esta menina?

É a neta da D. Sofia, pedi-lhe para tomar conta por uma hora entreguei-lhe as compras e deitei-me na sala com a menina.

Como é que se chama?

Não perguntei, só fiquei com ela por um bocadinho.

Como é possível cuidarem duma criança sem saber o nome?! ralhou minha mãe.

Fui para casa a pensar em nomes para dar à menina, como se adivinhasse qual seria.

Subitamente, um SMS: o Tiago estava disponível! Sentei-me no sofá com a menina ao colo e liguei de imediato.

Mãe? O quê? Estás a brincar? Eu sou Tiago, não Ivo

Rápida expliquei o desenrolar dos acontecimentos.

Mãe, tens de ligar já para a polícia!

Vou, vou É que agora ela tem fome outra vez. Assim que alimentar dou notícias.

Vais, ou queres que vá eu!?

Acarinhei a menina, preparei-lhe o biberon. Depois, vestir, mudar, embalar. Tarefas não faltavam.

À noite, adormecemos juntas, a menina aninhada no meu braço.

Um toque à campainha acordou-me.

Fui à porta: a rapariga estava ali! Cabelos despenteados, olhos vermelhos, suada.

Onde está? Onde a deixou? Porque não disse logo?

Disse o quê? perguntei.

Que não era a mãe, que devia saber onde estava!

A menina está aqui, está a dormir. Entre, por favor…

Levei-a ao quarto. Quando viu a filha, caiu de joelhos a chorar convulsivamente.

Dei-lhe água, depois chá, e esmerei-me no acolhimento.

Entre lágrimas, desabafou: chamava-se Joana, a filha era a Elisa.

Uma história banal e triste: estudante de enfermagem, oriunda duma aldeia em Trás-os-Montes, conheceu um tal Ivo, promessas de casamento, depois abandono nem contacto deixou. Pai furioso, expulsou-a de casa. No fim, com algumas notas que sobravam da tia, sobreviveu sozinha, determinada a terminar o curso.

Viu nas redes sociais que Ivo estava numa cidade universitária, quem sabe no Porto. Perdeu a cabeça quando a amiga a pôs fora de casa, já sem dinheiro. Planeou deixar a filha na casa da mãe do Ivo, convencida que lhe dariam abrigo.

Enganou-se no prédio, no andar, até no rosto da suposta mãe na confusão, a mulher nas fotos parecia-se comigo!

Na noite anterior, escreveu desesperada ao Ivo, que nada sabia da menina percebeu então que tinha cometido um erro grave. E correu de volta, sem parar.

Quase enlouqueci. Andei a noite toda à procura da Elisa nos sonhos, no peito a doer Não a deixo mais.

Fica cá esta noite, Joana. Moro sozinha, sempre desejei companhia. Não te preocupes com pagar renda agora. Prepara-te, faz os exames, amanhã vais buscar as tuas coisas ao quarto da faculdade, e cá ficas até te orientares.

Joana anuiu, exausta. Deixou-se embalar por um futon improvisado ao lado da bebé.

Liguei à Teresa:

Não era filho do Tiago, nem do vizinho! Estão as duas a dormir, e não, não vou chamar a polícia Que sorte a minha, que não me precipitei!

***

O leite não chegou a secar, a Joana passou nos exames com distinção. Começou a ficar de olho na minha mãe: subia os malditos cinco lanços de escada e até a minha mãe lhe seguia as dicas!

Ela é tão sabida, muito dedicada, dizia minha mãe à vizinhança.

Aos poucos, arranjou uns turnos como enfermeira, com uma ajudinha minha nas antigas ligações ao hospital.

O vizinho Ivo (o outro!) finalmente percebeu que a sua avó precisava de tratamento sério, e quem passou a aplicar as injeções foi a Joana.

No outono, mãe e filha mudaram-se para o sexto andar: ajudava assim a avó do Ivo e tratava do coração partido, riscando e reescrevendo a sua história com uma letra confiante de esperança.

***

Registo daquele dia: todas as vidas são feitas de desencontros, pequenas escolhas e ajudas inesperadas. O suficiente para perceber que, no fim, aprender a ser compassivo e não julgar apressadamente pode mudar um destino e o teu próprio.

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