André já não reconhecia a própria esposa — não compreendia o que se passava com ela. Vera sempre limpava, cozinhava, passava a ferro, mas agora tinha deixado de fazer as tarefas de casa. André, cauteloso, perguntou-lhe o que se passava, ao que Vera respondeu: “Passei anos a tratar de vocês todos aqui, será que não posso descansar um pouco?” O marido começou a desconfiar que Vera pudesse ter alguém e decidiu vasculhar-lhe os pertences. De repente, na mala de Vera, André encontrou uma carta estranha

Henrique já não reconhecia a sua mulher, não compreendia o que se estava a passar com ela. Leonor sempre mantinha tudo arrumado, cozinhava, passava a ferro, mas ultimamente tinha deixado de fazer as tarefas de sempre. Henrique perguntou-lhe, com cuidado, se estava tudo bem, ao que Leonor respondeu:

Já lá vão tantos anos a tomar conta de vocês! Também mereço um pouco de descanso!

Henrique começou a desconfiar que Leonor se estava a afastar ou talvez até tivesse alguém, e decidiu dar uma olhadela nas coisas da mulher. Foi assim que, de repente, encontrou na mala de Leonor uma carta estranha.

Henrique sentia-se perdido. Eles estavam juntos há dezassete anos e, durante todo esse tempo, nunca vira algo assim Leonor sempre fora carinhosa e compreensiva, nunca gostava de discussões e era transparente, foi por isso que ele se apaixonou por ela. De manhã, havia sempre papas de aveia ou uma omelete ao pequeno-almoço. Quando chegava do trabalho, Leonor arregaçava logo as mangas para tratar do jantar. Ao domingo, passava quinze camisas uma para cada dia da semana para Henrique e os dois filhos. Ainda tentou incutir nos rapazes o gosto pela arrumação, mas apenas Henrique realmente ligava a esses detalhes.

Agora, já iam duas semanas em que o pequeno-almoço eram cereais ou uma sandes, e Leonor sugeria que cada um tratasse do seu. Ao jantar, o melhor que encontravam era comida de sobra do dia anterior, e algumas vezes havia apenas um recado: “Chego depois das nove, cozam massa.”

Henrique pensava que era por causa daquele congresso do instituto onde Leonor trabalhava, mas o congresso terminou e a rotina tranquila não voltou.

Um dia, Henrique perguntou com calma à esposa porque é que as coisas estavam mudadas. Leonor apenas respondeu:

Não posso ter a minha vida própria? Anos e anos a servir-vos, e preciso mesmo de uma pausa!

Claro que sim, Leonor respondeu ele.

Henrique quis perguntar quanto tempo duraria “essa pausa”, mas não se atreveu. Os dias foram passando e Leonor continuava a sair cinema, teatro, exposições de escultura. O que também não o deixava descansado era ver no roupeiro dela vestidos mais ousados e, agora, via a mulher maquilhar-se de manhã em vez de preparar-lhes o pequeno-almoço. Henrique começou a pensar o pior: e se ela tinha outro?

A vergonha destas suspeitas era grande, mas não conseguiu controlar a ansiedade. Começou a espreitar o telemóvel dela, o extrato bancário, e finalmente vasculhou a carteira. Aí encontrou uma carta, já gasta e com as pontas dobradas, claramente lida muitas vezes. Era, sem dúvida, uma carta de amor que só podia ter sido escrita por um homem muito próximo. Leonor, que saudades tuas tenho, nem encontro palavras para te dizer o quanto me custa esperarte. Ouço a tua voz em todo o lado, procuro o teu sorriso por onde passo e não o encontro…

Era doloroso ler aquilo. Pelo aspecto da carta, aquele romance já durava há algum tempo, e Henrique sentiu-se traído teria toda a sua vida em comum sido uma mentira afinal?

Durante três dias, calou-se, remoendo a dor. Lembrou-se das tentações que evitou, das muitas oportunidades que teve para falhar, e sentiu-se ainda pior. Na terceira noite, explodiu:

Eu sei tudo disse, em tom sombrio.

Sabes tudo o quê? perguntou Leonor, surpreendida, mas sem alterar a calma.

O tom sereno só o deixou mais desconfiado sabia o que lera, não podia estar enganado.

Tens alguém, não tens? atirou, mais como uma afirmação do que pergunta.

Leonor riu-se.

Que parvoíce, Henrique. Estás a falar a sério?

Se ela se tivesse emocionado, talvez doído menos. Mas, assim…

Li a carta dele! exclamou Henrique. Achas que sou ingénuo? Ninguém escreve assim: não aguento esperar pelo dia em que voltaremos a estar juntos, as nossas almas estão destinadas a caminhar lado a lado até ao fim dos tempos Bah! bufou.

A Leonor desatou a rir, para perplexidade de Henrique.

Estás mesmo a falar a sério? perguntou-lhe ela.

Estás a gozar comigo?

Olhou para ela, furioso.

Portanto, andavas a mexer na minha mala?

Andava.

E leste a carta?

Li.

E não te lembras de que foste tu que a escreveste?

Como? custou-lhe a compreender.

Essa carta foste tu que ma escreveste! Quando tiveste em trabalho no Porto, e eu fiquei sozinha com o Diogo. Lembras-te?

Henrique ficou atónito.

Achas mesmo que não reconheço a minha letra? E eu não escrevia desse modo romântico!

Leonor suspirou, sentou-se e puxou uma caixa de sapatos do armário do quarto. Abriu-a, procurou e tirou um envelope, entregando-o a Henrique.

Vê lá, Henrique. Nessa altura tinhas a mão engessada e escreveste com a esquerda.

Ele olhou o remetente, era de facto ele, noutro endereço. Agora tudo fazia sentido, mesmo com a letra diferente lembrava-se vagamente de ter caído num estaleiro e magoado a mão.

E por que levas essa carta sempre contigo? perguntou de má vontade.

Porque a psicóloga me aconselhou respondeu calma.

Psicóloga?!

Sim. Henrique, estou exausta. A vida inteira a tratar de vocês, três homens. Desde que o Diogo nasceu perdi a minha própria vida. Nem sempre agradecem! Flores recebo só no Dia da Mulher, e já não me lembro quando disseste que me amavas. Ainda sou jovem, sabes? Houve dias em que pensei em separar-me. Mas valorizo a nossa família, por isso procurei ajuda. A psicóloga dá-me conselhos, eu sigo-os. Quero salvar o nosso casamento.

A confissão surpreendeu Henrique. Separação? Queria mesmo isso?

E os conselhos estão a resultar? perguntou.

Às vezes sorriu Leonor.

E as cartas?

Para não me deixar esquecer do nosso amor.

Henrique assentiu em silêncio. Precisava pensar. Levantou-se e saiu para a varanda. Nunca mais falaram do assunto.

***

Na manhã seguinte, Leonor acordou com barulho e o cheiro a baunilha em casa. Não percebia o que se passava até entrar na cozinha.

O filho mais velho fazia uma omelete. O mais novo punha queijadas nos pratos. Na mesa, um jarro com as suas flores favoritas.

O que significa tudo isto? espantou-se.

Bom dia, mãe disse o mais novo. Queres chá ou café?

Leonor não quis acreditar no que via ou ouvia.

Café respondeu ela.

E omelete ou queijadas?

Queijadas…

Henrique não estava, mas Leonor sabia quem tinha mexido os cordelinhos. Quando mordeu a primeira queijada, o marido apareceu, com um papel dobrado na mão.

Bom dia, meu amor!

O que é isso? perguntou ela.

Uma nova carta sorriu Henrique. Pode ser que ajude ainda mais.

Leonor sorriu também. A partir desse dia, as coisas melhoraram. Não, não houve pequenos-almoços assim todos os dias milagres raramente acontecem. Mas alguns, de vez em quando. E, ao cinema, agora já não ia sozinha Henrique fazia-lhe companhia com gosto. O matrimónio ficou salvo.

E assim perceberam, ambos, que o amor exige cuidado, reconhecimento e, sobretudo, tempo partilhado. Pois a felicidade doméstica constrói-se diariamente, com pequenos gestos e grandes corações.

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André já não reconhecia a própria esposa — não compreendia o que se passava com ela. Vera sempre limpava, cozinhava, passava a ferro, mas agora tinha deixado de fazer as tarefas de casa. André, cauteloso, perguntou-lhe o que se passava, ao que Vera respondeu: “Passei anos a tratar de vocês todos aqui, será que não posso descansar um pouco?” O marido começou a desconfiar que Vera pudesse ter alguém e decidiu vasculhar-lhe os pertences. De repente, na mala de Vera, André encontrou uma carta estranha
A amante do marido era impecável. Se nascesse homem, ela própria a teria escolhido…