A mãe foi libertada em liberdade condicional após cumprir a pena no lugar do filho; o filho vendeu a casa e nem lhe permitiu entrar.

Alzira Martins parou em frente ao pequeno portão da casa de família, encostando a das costas na cerca de vime. Tinha corrido do autocarro como se o mundo fosse acabar e já não lhe sobrava energia. Ao ver a fumaça cinzentaazulada a subir da chaminé, pôs a mão no peito: o coração batia tão forte que parecia que podia partir-lhe as costelas. Apesar do ar fresco, a testa pingava suor. Secouse num gesto rápido e empurrou a porta de ferro com determinação.

Com o olhar experiente percebeu que o arrumecasa tinha sido remendado. O filho já não lhe escrevia, mas não mentira: a casa dos pais ainda se mantinha, como prometera. Subiu os degraus da varanda num só salto, pronta para abraçar o querido Zé.

Mas a porta abriuse para um estranho, carrancudo, com um pano de cozinha lançado sobre o ombro.
Procuram alguém? perguntou com voz rouca, fitandoa.

Alzira ficou boquiaberta.
E o Zé, onde está?

O homem coçouse o queixo, encarandoa sem cortesia. Sentiuse diminuída sob o seu olhar: jaqueta velha, botas gastas, bolsa manchada vestimenta de quem tem poucos recursos. Mas não se podia estar a passear de verão; era final de outono e ele vestia apenas o que tinha do refeitório prisional.

O Zé é meu filho. Onde está? Está bem? insistiu.

O estranho encolheu os ombros, indiferente.
Provavelmente está. Vocês são que devem saber. Quase fechou a porta, mas recuou. Zé Silva?

Alzira assentiu apressada. O homem lançou-lhe um olhar compreensivo.
Vendime esta casa há quatro anos. Entrem à vontade

Não, não! Alzira agitou as mãos, quase a cair dos degraus. Pode dizernos onde o encontrar?

Ele balançou a cabeça. Alzira dirigiuse à cerca. Poderia ter ido à amiga Maria, mas ela era de língua afiada e encheria a conversa de palavrões. E o coração de mãe sentia que algo terrível tinha acontecido ao filho.

Caminhando devagar até ao ponto de autocarro, perdeuse em pensamentos sombrios. O que tinha sido? Zé fora tão confiante Quatro anos antes tinha confiado num amigo e acabou enrolado numa farsa. Se Alzira não assumisse a culpa, ele teria cumprido uma pena ainda maior. Condenarama, já idosa, a apenas cinco anos. Três dias antes tinham-lhe libertado por bom comportamento e ainda lhe tinham pago a passagem.

Sentada numa banca de betão, murmurou:
Onde te escondes, miúdo?

As lágrimas subiam aos olhos. O coração disparou quando, três anos atrás, as cartas do filho deixaram de chegar. Agora os seus piores temores pareciam confirmados: até vendera a casa. Secouse as faces com um lenço.

De repente, um carro preto parou ao lado dela. O homem carrancudo, novo proprietário da casa, entregoulhe um papel:
Encontrei este endereço nos documentos. Se quiser, levoa à cidade.

Alzira agarrou o papel como se fosse um salvavidas.
Obrigada, rapaz, não se preocupe; dou um jeito. Reanimada, dirigiuse ao velho autocarro que já se aproximava.

meia hora de tropeços, ansiedades e desencontros pela cidade; finalmente chegou à porta do terceiro andar de um prédio engomado. Pressionou o interfoné várias vezes e prendeu a respiração. Talvez a recebam com uma notícia terrível. As lágrimas escorriam sem parar.

Quando a porta abriuse de largada, a sua alegria não teve limites: desarrumado, um pouco cambaleante, mas vivo o seu Zé! Caiu em soluços, querendo abraçaro, mas ele não parecia nada feliz. Recuou, mantendo a porta entreaberta:
Como é que me encontraste?

Desconcertado com o frio acolhimento, ele não soube o que responder. Zé virouse e empurroua rumo às escadas:
Desculpa, mãe, mas não podes entrar. Vivo com uma mulher que odeia expresidiários. Arranja-te, não tenho dinheiro.

Alzira tentou falar da venda da casa, mas a porta fechouse como um tiro ao coração. Não chorou mais. Cabisbaixa, desceu os degraus. Maria tinha razão: criara um patife. Tinha de admitir a situação e suportar as críticas, sem teto.

De volta ao vilarejo, o destino foi ainda mais duro: Maria havia falecido há seis meses; a sua casa agora acolhia sobrinhos quase desconhecidos. Sob uma chuviscada fina, Alzira refugiouse ao ponto de autocarro para refletir sobre o futuro.

Os faróis de um carro chamarama: o mesmo homem do início, novo dono da casa, gritou:
Sobe, estás encharcada!

Ela recusou, soluçando: não tinha onde ir, e aquele estranho parecia tão cuidadoso. Ele quase a forçou a entrar no carro.

Conversaram. Alzira contou a sua amarga história, omitindo apenas a visita ao filho por pudor. O condutor, André, propôslhe ficar na sua casa, pelo menos por um tempo. Assim, Alzira Martins regressou ao antigo lar, agora da propriedade de André. E ficou lá.

André trabalhava do amanhecer ao pôrdosol: tinha uma serraria em plena expansão; ela encarregavase da casa cozinha, roupa de cama, tarefas domésticas. Adaptouse facilmente aos eletrodomésticos modernos. André, ainda jovem e divorciado, não pensava em formar nova família.

A sua presença era exatamente o que precisava: sob a sua asa materna, André, órfão criado na assistência, descobria finalmente o calor de um lar. Cada vez que ela falava em ir embora, ele respondia:
Onde andarías? Aqui é a tua casa!

Aos poucos, até o seu coração aquecia. Um filho de sangue não substitui, claro, mas André mostrava uma bondade rara, quase como um verdadeiro filho. Com a aproximação do inverno, decidiu levarlhe o almoço na serraria a dois passos, e às vezes estava tão ocupado que não conseguia voltar para comer.

Naquele dia trouxelhe um termo de caldo quente e uns bolinhos de carne. Expulsou um estranho do escritório, estendeu uma toalha limpa. André riu:
Alzira, és uma general: sem discussões! E se ofender?

Ela franziu a testa:
Queres contratálo como chefe? Dále pela cara: é um patife. Confia no meu instinto, a prisão ensinoume a ler as pessoas.

Ele sacudiu a cabeça:
Vai, mãe! Tem um currículo sólido. Não podemos confiar só na impressão.

Ela tinha razão: um mês depois, a serraria sofreu perdas enormes; o indivíduo furtava madeira à noite e desaparecia com um camião inteiro. André, cabisbaixo, reconheceu o erro.

Ao recrutar nova equipa, decidiu: como a avó entende do assunto, ajudaria. De agora em diante, Alzira assistia às entrevistas: André interrogava, ela observava, anotava um veredicto que depois lhe entregava. Folhas completas: bêbado brigão, patife comprovado, preguiçoso alcoólatra conciso, preciso.

E também identificava bons operários, mesmo que desleixados. Contudo, num candidato hesitou: fixou o formulário, as mãos tremiam.

André olhou o visitante: era o homem que vendera a casa! Zé ficou boquiaberto, encarando a mãe sentada ao lado do patrão, franzindo a testa, brincando com o boné. A esposa dele o tinha mandado trabalhar; a serraria pagava bem. Não esperava encontrar a mãe ali; achavaa desaparecida.

No silêncio, André pegou o papel do veredicto. Alzira escreveu duas palavras e correu para fora. Zé deu um sorriso irónico: claro que o iriam contratar, a mãe confessaria por ele.

André leu em voz alta:
Tipo maldito. Sacudiu Zé como se fosse uma mosca. Fora! Confio no julgamento da mãe.

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