Lugar Vazio
Tornaste-te um lugar vazio, Leonor. Percebes? Um vazio. Um lugar.
Ele disse isto de forma neutra, quase sem emoção, como quem lê uma lista de compras. Estava junto à janela, de costas para ela, a olhar para o pátio. Lá fora, alguém passeava um cão, um rafeiro pequeno e rávido, que puxava alegremente a trela para a poça de água.
Leonor Sofia sentava-se no sofá, as mãos enroladas à volta de uma chávena de chá arrefecido. O chá já tinha perdido o calor há vinte minutos, mas ela continuava a segurar a chávena porque não sabia o que fazer com as mãos.
O que queres dizer com isso? murmurou.
A voz era baixa, quase inaudível.
O que disse é o que quero dizer. António, finalmente, virou-se. O seu rosto tinha aquela expressão aborrecida e cansada de quem é forçado a explicar o óbvio. Olho para ti e não vejo nada. Um vazio. Cinzento. Caminhas, cozinhas, dormes. És como mobília, Leonor. Boa, sólida, mas ainda assim mobília.
Ela pousou a chávena na mesinha. Porcelana tilintou suavemente na madeira.
Dez anos disse por fim.
O que dez anos?
Vivemos juntos dez anos.
E daí? Ele deu de ombros, atravessou a sala, sentou-se na poltrona em frente. Dez anos. É o tempo suficiente para perceber que não faz mais sentido continuar. Já não quero isto. Eu quero fez uma pausa, procurando as palavras quero sentir alguma coisa. E tu não me fazes sentir. Não me inspiras. Tu não estás cá, mesmo estando sentada à minha frente.
Leonor sentiu no peito um minúsculo e persistente ponto de firmeza começar a ceder lentamente.
Para onde é que eu vou, António?
Isso já não me diz respeito. Ele cruzou a perna. A casa, sabes bem, está em nome da minha mãe. Legalmente, és ninguém aqui. Não te estou a apressar chega-te uma semana? Vais encontrar alguma solução.
Chega repetiu ela, mecanicamente.
Ótimo respondeu ele, pegando no telemóvel para deslizar o ecrã. Para ele, a conversa estava encerrada.
Leonor levantou-se. Recolheu-se no quarto e fechou a porta atrás de si. Deitou-se por cima da colcha, fitando o tecto branco, manchado num dos cantos uma promessa de pintura adiada há dois anos, nunca cumprida.
Na televisão da sala ouvia-se vagamente qualquer coisa. António encontrara maneira de se entreter.
Ela não chorou. Ficou ali, a olhar para o tecto com a mancha. No peito havia um silêncio absoluto, desses que vêm quando, depois de um vidro partido, a casa inteira se imobiliza.
***
A semana arrastou-se numa nuvem indistinta. António mal aparecia em casa, chegava tarde, saía cedo. Não se falavam. Leonor ia empacotando as coisas, o que era vergonhosamente fácil, já que pouco do que ali estava era realmente dela. Um par de vestidos, o casaco de inverno, uma caixa com fotografias de tempos antigos, algumas revistas de costura que por algum motivo nunca se decidira a deitar fora.
Resolveu deixar as revistas.
Depois, reconsiderou. Levou-as consigo.
Telefonou à tia-avó Benedita tia Bia de lado materno , que não via desde o funeral da mãe, há sete anos. Tia Bia escutou tudo, ficou por longos segundos em silêncio, depois respondeu:
Vem. Há um quarto, pequenino, mas existe. Vais ficando até te orientares.
A tia vivia na Ameixoeira, à extrema periferia de Lisboa, onde só há um autocarro de hora em hora, e o Pão Quente era o único minimercado no raio de três ruas. Leonor sempre detestou aquela zona. Prédios de betão dos anos setenta, varandas descascadas, filas de plátanos largando tufos brancos na primavera toda.
Chegou com duas malas e um trolley numa sexta ao final da tarde.
Santa Maria, como tu emagreceste! atirou tia Bia ao abrir a porta. Era baixa, maciça, o rosto sulcado de rugas, a cheirar a leite-creme e folhas de louro. Anda, entra. Tens jantar?
Não quero, tia Bia.
Vais comer respondeu ela, já a caminho da cozinha.
O quarto era mesmo pequeno. Um divã estreito, um guarda-fatos já gasto e uma janela virada para a parede do outro prédio. O papel de parede perdera quase toda a cor azul original. No parapeito, três vasos de gerânios vermelhos e verdes, surpreendentemente vivos.
Leonor pousou as malas e sentou-se no divã. As molas rangeram.
Queres chá? gritou tia Bia da cozinha.
Quero respondeu ela.
E só ali, naquele quarto minúsculo, entre gerânios e papel de parede desmaiado, Leonor chorou.
***
Depois, veio um tempo longo e difícil.
Daqueles em que levantar-se de manhã parece absurdo, porque não se vê propósito. Acordava cedo, pelas seis, escutava a tia Bia a ferver o leite na cozinha, ouvia o arrastar de carros na rua. Lavava-se, punha a mesa para o pequeno-almoço, olhava a parede branca da janela.
Tia Bia era inteligente. Não fazia perguntas, não dava conselhos, nem falava do vais encontrar melhor. Alimentava Leonor com sopa de feijão, deixava-lhe ver televisão e, de vez em quando à noite, abria as cartas na mesa da cozinha:
Jogas à bisca?
Jogavam, em silêncio.
Leonor tinha pouco dinheiro. Tirou tudo que tinha do banco mil e oitocentos euros. Dava para um mês e pouco, se fosse poupada. Foi poupada.
Trabalhara os últimos anos como contabilista numa pequena firma de obras, emprego que manteve: três vezes por semana, atravessava a cidade para o escritório, tratava dos papéis, recebia os mil e duzentos euros mensais. Pagava a tia Bia pelo quarto, apesar dela recusar; acabou por meter um envelope debaixo do açucareiro e saiu, não dando hipótese de devolver.
As noites eram piores. Pensava sempre nos mesmos dez anos. Todos aqueles pequenos-almoços, doenças, festas de Natal, viagens a Albufeira, discussões, reconciliações. Ele olhou-a e viu vazio. Talvez fosse mesmo. Talvez ela já tivesse apagado por dentro e não notou. Ou ele. Ou ambos.
Pegava no telemóvel, vasculhava as mensagens antigas, via fotos das férias no Algarve de há três anos. Ele tinha-a pelo ombro, ambos a rir. Já não se lembrava porquê.
Nessas noites, deitava-se cedo, enfiava-se debaixo dos cobertores.
Tia Bia apareceu uma vez à porta do quarto:
Leonor, já dormes?
Não.
Pois, tenho ouvido. Pausa. Tens fome?
Não.
Então descansa. Nova pausa. Olha, também despachei o meu, há muitos anos. Achei que ia morrer de desgosto. Não morri.
O clique da porta fechou-se.
Leonor ficou na penumbra, a pensar: Quase cinquenta, Leonor. Começa do zero. Como se fosse simples.
***
Encontrou a máquina no início do segundo mês.
Tia Bia pediu-lhe que ajudasse a esvaziar a arrecadação do corredor: ninguém lá ia há quinze anos, e ao abrir a porta caía quase um arquivo de tralha portuguesa. Leonor aceitou, só para ocupar as mãos.
Tirou de lá revistas Maria, um guarda-chuva partido, caixas de botões, frascos de perfume vazios, postais de Páscoa. No fundo, sentiu algo pesado embrulhado num lençol velho.
Desenrolou.
Era uma máquina de costura antiga, de ferro preto, decorada a dourado, com algumas lascas mas ainda bela. Lia-se Lisboa na placa da frente, em letras tímidas mas elegantes.
Tia Bia! chamou Leonor.
Ela veio com o pano do prato ao ombro.
A minha Lisboa! Era da mana, a tia Luísa. Nem me lembrava dela. Funciona ainda? Não sei… há muito tempo que não lhe toco.
Posso experimentar?
Sabes?
Sabia. Talvez ainda saiba.
Usa à vontade.
Leonor transportou a máquina para o quarto, colocou-a na mesinha. Limpou o pó do corpo, livrou-se dos restos de linha entranhados desde trabalhos de há décadas. Encontrou alguns carretos e agulhas numa lata enferrujada.
Havia óleo seco, que ela substituiu por um frasco novo comprado no Chave DOuro. Lubrificou cada peça, limpou a cremalheira, girou o volante. Inicialmente duro, suavizou.
Perdeu-se ali três horas. Desmontou e montou o lançadeira. Enfiou a linha. Pôs um trapo velho debaixo do calcador e pressionou o pedal.
A máquina ganhou vida, costurando com precisão e um leve trinado metálico. Leonor sentiu, pela primeira vez em meses, alguma coisa despertar: uma espécie de formigueiro doloroso e vivo.
Parou, analisou a costura: impecável.
Na memória, algo adormecido começou a erguer-se.
***
Tinha dezoito anos, e costurava sempre. Com o que lhe vinha à mão: transformava vestidos da mãe em saias, comprava tecidos em saldos. Na retrosaria da Rua dos Fanqueiros trabalhava a Dona Amélia, modista velha com mãos calejadas, e Leonor espreitava-a: como talhava, como alinhavava as bainhas. Dona Amélia ensinava de bom grado a quem tinha olhos de ver.
Depois veio a faculdade, depois António, depois o casamento, o trabalho, a vida diária. Vendeu a primeira máquina, comprada com o salário do primeiro emprego, quando se mudou com António: o espaço era curto, ele dizia que ocupava muito. Não resistiu: estava apaixonada, achava que o essencial era ele.
Os anos passaram, costura ficou esquecida. Salvo ao ver um vestido bonito numa montra ou revista e pensar, de relance: devia costurar um igual. Mas não fazia.
Agora, estava ali, numa pequena divisão da Ameixoeira, diante da Lisboa, ouvindo a agulha alinhavar.
No dia seguinte, foi à feira. Não à do centro comercial; foi ao mercado de tecidos do Lumiar, onde panos se vendem ao metro e pode-se comprar ganga, malha ou linho quase pelo preço de café.
Percorreu as bancas, sentiu os tecidos com os dedos. Pasmou-se ante um crepe azul-cinza, suave, discreto na sua beleza.
Quanto tem deste? perguntou à vendedora.
Quatro metros e pouco.
Fico com tudo.
A vendedora enrolou, atou.
Vai fazer o quê?
Um vestido respondeu Leonor, e surpreendeu-se com a confiança da própria voz.
***
Cortou no chão, com alfinetes presos à folha de modelo desenhada a lápis de cor, recuperada de uma revista velha. Sem grandes invenções: vestido recto, com cinto, gola subida e manga ¾. Discrição absoluta, portanto bonito.
Tia Bia olhava, calada, lá de fora. Uma vez deixou uma chávena de chá ao lado:
Obrigada disse Leonor, sem desviar o olhar do tecido.
Boa cor escolheste comentou tia Bia.
Teve medo de cortar o tecido, mas encontrou umas tesouras novas guardadas há anos. Encostou a lâmina, fez o primeiro golpe. O medo dissipou-se no primeiro corte.
Levou três dias a costurar.
Não porque fosse complicado, mas porque não quis apressar-se. Às noites, depois do expediente, sentava-se à máquina. Seguia à risca: costuras laterais, fecho nas costas, gola tratada com precisão, mangas ajustadas com algum esforço.
Quando surgia uma dificuldade, parava para pensar. Por vezes desmanchava tudo e recomeçava. A Lisboa trabalhava em silêncio, só o leve tilintar. Durante aquelas horas, não pensava em António. Só no tecido, na costura e nos pormenores.
No terceiro dia, passou o ferro, pendurou o vestido. Observou-o.
Era bom.
Simples, azul-acinzentado, de linhas serenas e elegantes. O cinto marcava a cintura, a gola suavizava o pescoço.
Vestiu-o.
Pôs-se diante do espelho comprido no corredor de tia Bia. Era velho, com as bordas escuras, mas refletia honestamente.
Achou-se a mirar o próprio reflexo longamente. Muito tempo.
No espelho não estava um ninguém, não estava um móvel. Só uma mulher de cinquenta, cabelo escuro apanhado, costas direitas e um olhar onde começava, lentamente, a acender-se qualquer coisa.
O vestido assentava-lhes tão bem.
Leonor! chamou tia Bia da cozinha. Anda mostrar como ficou.
Leonor entrou, de vestido feito por si.
Tia Bia voltou-se do fogão, olhou-a de alto a baixo.
É outra conversa disse, voltando à panela. Mas Leonor viu-lhe o sorriso.
Voltou para o quarto, sentou-se na cama. Acariciou o tecido. Era macio, confortável. O vestido não apertava, assentava certo.
O ponto que cedeu na primeira noite, endireitou um pouco.
***
Saiu com o vestido ao sábado.
Ia à farmácia buscar comprimidos de tensão para tia Bia. Pegou na receita, pôs o vestido azul-cinza, atirou um casaco primavera por cima e saiu.
Na rua fazia sol, o ar de outubro era seco e transparente. Os plátanos estavam já dourados.
Sentiu, ao caminhar, que pisava de outra maneira. Não como antes, a olhar apressada para o chão. Viu o gato gordo à janela do rés-do-chão, uma idosa a tricotar na entrada, uma criança arrastando a mãe para a poça.
A farmácia ficava a um quarteirão. Ao lado, abriu um café novo, Esquina Solar. Na porta lia-se: bolo caseiro e café de saco.
Entrou. Pediu um galão e um croissant, porque sim, hoje podia.
Havia cinco mesas. Numa, sentava-se uma senhora de sessenta e poucos, bem cuidada, cortes de cabelo prateado, brincos grandes. Segurava o telemóvel com ares de quem decide muitas vidas. Era alguém habituada a tomar o seu lugar no mundo.
Leonor levou o galão para a mesa.
Dez minutos depois, a senhora da outra mesa levantou a voz:
Desculpe.
Leonor virou-se.
Não quero ser indiscreta. Mas o seu vestido é lindíssimo. Onde o comprou?
Leonor hesitou.
Fui eu que fiz.
A senhora sorriu, genuinamente surpresa.
Fez? É costureira?
Não Quer dizer, sei costurar. Sabia agora voltei.
Corte impecável avaliou a senhora, olhos de conhecedora. Parece simples, mas tudo está no sítio certo. Trabalhei anos num atelier.
Obrigada.
Margarida Paula apresentou-se. Só Margarida.
Leonor.
Leonor, faço-lhe uma pergunta estranha? Margarida segurou a chávena com ambas as mãos. Faço sessenta e cinco daqui a três semanas. Queria algo elegante, mas não há vestido certo: ou parecem para velhas, ou para miúdas. Este é exatamente o que procuro. Aceita o desafio?
Leonor olhou-a nos olhos. Margarida devolveu o olhar, natural, sem pressão. Apenas perguntava.
Algo moveu-se dentro dela.
Aceito respondeu Leonor.
***
Margarida veio logo dois dias depois. Trouxe um tecido de crepe cor de groselha, discreto, bonita qualidade.
Leonor tirou-lhe as medidas no quarto, num espaço improvisado entre livros. Tomou nota em caderno de capa preta. Depois sentaram-se na cozinha da tia Bia, beberam chá e Leonor rabiscava esboços com lápis, até acertarem ambas num modelo: vestido evasé, manga ¾, decote discreto, elegante.
É mesmo isso declarou Margarida. Fico à espera.
Daqui a duas semanas está pronto.
Quanto fica?
Leonor corou. Não tinha ideia.
Sinceramente, não sei.
Eu sei quanto custaria num atelier. Pago isso. É justo.
Era o que Leonor ganhava em duas semanas de escritório.
Demorou um instante.
Combinado.
Quando Margarida partiu, tia Bia saiu da cozinha:
Boa paga.
Sim.
Tu costuras bem, Leonor. Continua.
Leonor olhou-a nos olhos:
Tia, porque me acolheu? Quase não nos conhecíamos.
Tia Bia pensou.
Porque és filha da Jacinta. E ela salvou-me a vida, em tempos. Agora pago a dívida.
Voltou para a cozinha.
Leonor foi até à janela. Naquela parede branca, pelo primeiro vez, notou uma pintura de graffiti: flores azuis.
***
Fazer o vestido para Margarida foi diferente. Não era para si, era para alguém. Uma responsabilidade, sentia cada vez que se sentava à Lisboa.
Cortou aos poucos, hesitante no início. O tecido era caro, erros não eram perdoados. Depois ganhou segurança. Costurou o vestido cinco dias, cada detalhe bem-feito, sem um ponto em falso. Colocou o fecho à mão.
Quando Margarida veio experimentar, mostrou logo no olhar o resultado.
Meu Deus murmurava à frente do espelho. Meu Deus.
Virava-se, avaliava os ombros, passava a mão pelo tecido.
Sou outra.
É você retorquiu Leonor. Só que num vestido bom.
Não. É diferente, sente-se fisicamente. Não apetece descair os ombros.
Só teve de ajustar as costuras na anca. Margarida não queria despir-se.
Digo-lhe uma coisa continuou. Tenho uma amiga, Teresa, que também celebra uma ocasião e procura vestido. Dou-lhe o contacto?
Claro.
E tenho a nora do meu filho, vai casar-se outra vez. Precisa de um vestido de cerimónia. Aceita?
Leonor fitou Margarida.
Aceito, sim.
Margarida sorriu de alívio, como se já soubesse.
***
Os dois meses seguintes foram uma correria. E não no mau sentido no melhor.
Teresa encomendou um fato. Depois veio uma senhora por indicação da Teresa, pediu saia e blusa. Depois apareceu uma jovem vizinha de Margarida, queria um vestido de festa. Leonor fez. A jovem publicou foto nas redes, encontrei artesã verdadeira, e vieram mais três encomendas.
O quartinho da tia Bia estava a abarrotar. Tecidos por todo lado: sofá, janela, cadeiras. A Lisboa trabalhava todas as noites e, às vezes, manhãs.
Tia Bia nunca se queixou. Só um dia, ao ver o chão coberto de panos:
Leonor, isto pede mais espaço.
Sei.
Aqui já não dá.
Sei, tia.
Já pensava nisso. O dinheiro acumulava-se: em dois meses ganhou mais do que em meio ano no escritório. E os pedidos não paravam.
Fez rondas pelo centro, pesquisou anúncios, visitou salas. Duas não serviam: escuras, humidade, tetos baixos. A terceira convenceu-a: sala no segundo andar dum prédio antigo, restaurado, convertido em escritórios. Grandes janelas a sul, muito claridade, chão de madeira. Era caro.
Fez contas. Se alugasse, somasse a compra de máquina profissional, um overlock e uma grande mesa, gastava tudo e ainda ficava a dever.
Ligou a Margarida.
Pode escutar-me um instante?
Diga, Leonor.
Explicou tudo. Margarida escutou em silêncio e respondeu:
Fique com a sala. Eu empresto o dinheiro, sem juros. Pagará quando puder.
Não posso
Pode. Cortou Margarida. Deu-me o melhor vestido da vida. Agora faço algo por si. Não é esmola. As pessoas devem ajudar, é assim que faz sentido.
Leonor calou.
Além disso sussurrou Margarida , já tenho quatro amigas em lista de espera. Convém que tenha atelier.
***
O atelier abriu início de dezembro.
Levou a Lisboa, agora mais símbolo que ferramenta: a nova máquina era mais rápida e precisa, mas a Lisboa ficou no canto da janela, como talismã.
O espaço ficou claro e tranquilo, com a mesa de corte, duas máquinas, estantes de tecidos e fita métrica, espelho grande para provas. Pendurou desenhos próprios nas paredes. Tia Bia veio ver, tocou na estante, demorou-se diante do espelho.
Está bonito.
Tia, quero devolver-lhe isto.
Entregou um envelope. A tia ficou boquiaberta.
Não é preciso…
É. Pelo quarto, pelos meses. Eu contei.
Nunca contei nada…
Mas eu contei. Fique com isso.
Tia Bia pegou, vacilando, e disse:
O frigorífico já faz barulho de morteiro.
Compramos um novo garantiu Leonor.
Foram à loja, tia Bia examinou portas e congeladores minuciosamente. No fim, escolheu um grande, inox.
Está ótimo disse com voz baixa; Leonor percebeu um contentamento difícil de explicar por palavras.
***
Dezembro trouxe uma avalanche de pedidos: festas, casacos, blusas. Leonor trabalhava até tarde, chá atrás de chá, escutando o zunido da máquina.
Janeiro acalmou. Contratou uma ajudante: Mafalda, jovem, boa com acabamentos, aprendia corte. Leonor gostava de ensinar; tornou-se prazer inesperado.
Despediu-se da contabilidade. Disseram-lhe para ficar até abril; cumpriu.
Em março, telefonou uma desconhecida. Queria aulas de costura.
Não sou professora.
Mas sabe e faz. A Margarida recomendou.
Pensou.
Venha, vejamos.
Primeiro workshop. Depois outro, e outro grupo. Era diferente, mas cabia na agenda.
Na primavera, mudou-se. Arrendou um T1 perto do atelier: moderno, cozinha luminosa, paredes todas brancas, sem manchas. Levou as coisas, pôs cortinas feitas por si.
Na primeira noite, sentou-se na cozinha com chá a olhar o largo com jacarandás. Era a sua casa. Pequena, mas dela.
***
Cruzou-se com António no final de maio.
Vinha do atelier, pelo largo. O fim da tarde estava morno, cheiro a lilases. O saco pesava, com amostras de tecido para ver melhor à luz do dia.
Veio-lhe ao encontro.
Reconheceu-o à distância. Mudado: mais magro, o blazer caía-lhe frouxo. Passo inseguro.
Ele também a viu; parou.
Leonor continuou, e ao passar, ele disse:
Leonor.
Ela parou.
Olá, António.
O olhar dele estava estranho, quase perdido.
Estás ótima.
Obrigada.
Silêncio. Ele meteu as mãos nos bolsos.
Vais para onde?
Para casa.
Aqui perto?
Sim.
Calados. Uma mulher com carrinho de bebé passou, o ruído das rodas cortando a tensão.
Leonor, eu começou, sem acabar. Podemos conversar? Só conversar.
Ela fitou-o de frente. Tinha um ar cansado. Não acabei de sair do trabalho. Era outro desgaste.
Vamos até ao banco.
Sentaram-se. António olhou para as mãos.
Não sei por onde começar.
Começa como for ripostou Leonor.
Ela foi-se embora. Aquela por quem enfim. Há meio ano. Disse que eu era aborrecido, sem ambição. Um sorriso sem graça. Percebes a ironia?
Percebo.
Moro com a minha mãe. O trabalho não presta, a firma fechou. Tudo ergueu os olhos tudo caiu. Penso que errei. Que cometi um erro enorme, Leonor.
Ela escutava, só.
Eu era feliz contigo e não percebi. Tu fazias tudo, eras real. Eu calou-se. Procurei, sem saber o quê. Apelei-te de vazio. Estremeceu. Sei que não tem perdão, mas quero que saibas: penso muito nisso.
Leonor olhou os jacarandás diante do banco. As folhas dançavam. Cheirava a sardinha grelhada de algum pátio.
António, não tens culpa de deixares de amar. Às vezes acontece.
Silêncio.
Tens culpa pela forma como disseste: Vazio, mobília, desaparece. Foi cru. Não por seres mau, mas foi cruel, e guardei isso algum tempo.
Eu sei.
Mas também fizeste algo bom com isso.
Ele ergueu o olhar.
Expulsaste-me. Tive medo, António. Saí com duas malas e mil e oitocentos euros no banco. Fui parar a tia Bia como órfã, chorei todas as noites. Foi péssimo.
Leonor
Espera. Preciso dizer tudo. Lá, encontrei a velha máquina. Lembrei-me que adorava costurar. Quisera nunca ter parado, mas a vida, tu disseste que ocupava espaço, veio o resto. Recomecei. Primeiro para mim. Depois para os outros. Agora tenho atelier no centro há meio ano. Chegam pessoas, gosto do que faço.
Ele fitou-a com uma expressão que não reconhecia.
Se não me tivesses mandado embora, ainda estaria ali. A cozer sopa e sem me conhecer. Não te dou razão, mas foi assim que resultou.
E tu perdoas?
Pensou.
Não guardo rancor. Mas não volto atrás. Não por castigo. Porque agora vivo a minha vida. A minha, finalmente.
Ele desviou o olhar.
Poderíamos
Não disse ela, suavemente, mas com certeza. Não, António.
A pausa foi longa. Não pesada.
Tia Bia está bem? disse ele, recordando.
Está. Dei-lhe um frigorífico novo. Aos domingos vou lá jogar à bisca.
António sorriu, genuíno.
Sempre foste boa pessoa, Leonor.
Tu também não és mau. Só que já não encaixávamos.
Levantou-se, pegou na sacola.
Tens de ir?
Sim, amanhã começo cedo. Tenho cliente às oito.
Pronto. Ainda bem que te vejo bem.
Também te desejo tudo de bom, António.
Era verdade. Sem amargura, sem triunfo: só verdade. Desejava-lhe o bem. Raiva, isso já não existia cá dentro.
Saiu pelo largo. Sentiu o olhar dele nos ombros alguns passos, depois não. Devia ter-se afastado.
O jacarandá deitava sombra azul na calçada. Leonor seguia essa sombra, a sacola a pesar do lado, dentro dela um corte de lã verde e o catálogo de acessórios. Amanhã de manhã chegava a professora aposentada, Dona Filomena, que queria uma saia de inverno: não volumosa, digna, própria para ir ao teatro ou ao médico.
Leonor pensava no corte da saia, como assentar a peça na figura de Dona Filomena, baixa e de ancas largas. Uma saia direita requeria engenho, para encontrar o equilíbrio. E, reparava, o aroma a lilases era mais forte à noite. Um miúdo passou de trotinete, cantando alto alguma melodia de desenho animado. De uma janela, subia o cheiro a arroz de forno. Cheiro de casa.
***
No atelier não trabalhou mais aquela noite: impôs-se começar a desligar a máquina após as sete. Só entrou para buscar o caderno de medidas. Estava na mesa de corte. Ao lado, a Lisboa, preta, com dourados.
Leonor passou os dedos pelo ferro.
Obrigada murmurou para a máquina.
Era estranho agradecer a uma máquina. Mas a quem mais agradecer pelo rumo da vida? À tia Bia, à Margarida, à Mafalda? Talvez a todas. Talvez a esta teia de acasos que começou com uma enorme injustiça e chegou ali, a uma sala clara.
Trocou a luz, fechou o atelier. Desceu pelas escadas de madeira.
Lisboa seguia a vida. Gente apressada, carros, risos de crianças. Uma noite de maio comum.
Pelo caminho passou na Padaria do Bairro, trouxe pão de sementes e um frasco de mel, que a senhora já idosa da aldeia vendia ao balcão.
Boa noite cumprimentou Leonor.
Boa. Este mel é do melhor, experimente com pão amanhã, vai ver.
Obrigada, vou provar.
Saiu. No saco, pão, mel, caderno de medições e catálogo de acessórios. Vestia um vestido que costurara para si na semana passada: linho cru, cinto macio, mangas largas.
Andou os minutos até casa, a pensar na saia de Dona Filomena, que precisava de novas linhas de costura, que Mafalda já quase sabia cortar moldes sozinha.
Depois deixou-se de pensar na oficina e só caminhou.
O céu estava claro, rosado do pôr-do-sol. Andorinhas riscavam sombras rápidas. A vida continuava, com toda a sua complexidade.
Felicidade de mulher divorciada, diriam idiotamente nas revistas. Como se houvesse felicidade de espécie própria. Leonor não pensava assim. Só pensava: estou a caminhar para casa. Amanhã levanto cedo. Tenho um trabalho em que acredito e me dá gosto. Tenho a tia Bia, que visito ao domingo. Tenho clientes que entram e saem felizes. Tenho a Lisboa na mesa. E este céu de Lisboa com andorinhas.
Isso era, ao fim e ao cabo, suficiente.
Nem em demasia, nem demasiado pouco. Bastava. Talvez seja esse o segredo da tal segunda juventude, de começar outra vida, de ganhar confiança em qualquer idade. Não num dia decisivo, nem por milagre. Apenas: um vestido, depois outro, depois um atelier, depois a casa, depois a noite de pão e mel.
Telefonou à tia Bia.
Tia, está em casa?
Onde havia de estar? Estou a ver televisão. Que foi?
Nada. Só queria ouvir a tia.
Pequena pausa.
Vens domingo?
Vou. Faço uns bolos?
De maçã, se der. Assim é que eu gosto.
Faço de maçã.
Guardou o telefone. Subiu ao terceiro andar, abriu a porta da casa pequena.
Cheirava a linho: cortara ali ontem, na mesa de cozinha, enquanto chovia e não apetecia sair. Já não havia restos, mas o cheiro ficou. Era bom cheiro.
Pôs água ao lume, cortou pão, abriu o mel. Era dourado, claro, quase transparente.
As andorinhas cruzavam o céu, agora aos pares, pois escurecia.
Leonor lambuzou pão com mel, mordeu, sorriu. O conselho da senhora estava certo: era mesmo bom.
***
A manhã raiou luminosa.
Dona Filomena chegou às oito em ponto, como combinado. Pequena, enérgica, cabelo branco em ondas, olhar fixo por detrás dos óculos.
Leonor Sofia saudou ela à porta trouxe a foto do modelo. Quero mais ou menos assim, mas sem tanto roda.
Tirou uma folha impressa da mala.
Leonor examinou. Modelo sóbrio, interessante para aquela figura.
Sente-se, vamos ver como faremos.
Dona Filomena sentou-se, mãos sobre os joelhos.
Sabe , repisou, olhando o atelier , sempre quis uma saia destas. Mas nas lojas nunca é o que se quer. Uma amiga falou de si, disse que depois do seu vestido sentiu-se outra mulher. Boa recomendação, não acha?
É a melhor concordou Leonor.
Abriu o caderno, pegou na fita métrica.
Fique aqui.
Dona Filomena endireitou as costas, olhou-se ao espelho grande.
Sabe , disse ela ainda , já estou reformada há quatro anos. Achei que já não importava o que visto. Depois pensei: porque não? Ainda me resta muita vida, graças a Deus. Não é razão para andar desleixada.
Precisamente respondeu Leonor.
Foi medindo, tomando apontamentos, a raciocinar o corte. O atelier estava cheio de luz. O sol entrava na janela, desenhando quadrados no soalho. No canto, a Lisboa reluzia discreta. Mafalda apareceria às dez. Às onze, nova cliente.






