A Nora Aguentou a Sogra – Veja Onde Isso Foi Dar na Família Silva

Querido diário,

Gémeos?! escapou-se à Dona Fernanda.

Juro, ela até tentou fingir surpresa e alegria, mas a cara dela não engana ninguém. Eu, Teresa, já sei bem que esperar sinceridade da minha sogra é o mesmo que esperar mar sol em dia de tempestade. Nunca gostou verdadeiramente de mim, sempre achou que sou “pouco” para o filho dela. Engraçado, porque toda a gente à volta dizia que o Rui é que era demasiado simples para uma rapariga como eu.

Não é arrogância, sabes? Só que acabei o curso de Economia com 23 anos, arranjei logo trabalho numa rede de clínicas privadas em Lisboa. Sim, nasci em Viseu, mas o meu pai tem uma pequena empresa lá e a minha mãe é professora na faculdade local. Portanto, não sou propriamente alguém sem cultura nem educação. Mas Dona Fernanda só me vê como uma aldeãzinha.

Pronto, meus parabéns! Que sorte, gémeos! Dupla felicidade resmungou, arrastando as palavras.

Mas, claro, ajudar a cuidar dessa felicidade, nem pensar. A minha gravidez foi um sufoco, sempre em risco de perder os bebés, acabando internada várias vezes. Lá estava o Rui quase todos os dias, mas Dona Fernanda, que vive a duas paragens de elétrico, nem apareceu uma vez no hospital.

Quando as miúdas nasceram, nem no dia da alta quis saber. O Rui chegou a insistir, e mesmo nos quarenta dias a seguir não apareceu.

Não está certo! E se levo algum vírus aos bebés? Quando estiverem fortes, logo conhecem a avó.

As gémeas tinham três meses quando cruzei com ela à porta do mini-mercado. Sorriso amarelo, apertado:

Estás bem, Teresa? E as meninas?

Retribuí simpática.

Olhe, estamos a passear. O carrinho ocupa metade do passeio, mas é o que há. O ar faz-lhes bem.

Quis ir-se embora, mas uma amiga antiga dela apareceu de repente a acenar, toda contente.

Fernandinha! Olha que crescidas estão as tuas netas!

Pois é, Alice O meu tesouro!

A amiga sorriu para mim, recordei logo os jantares em casa dela. Cumprimentei-a discretamente.

Gémeas! Teresa, como conseguiste? Tão franzina

A Teresa é uma autêntica guerreira! atirou logo a sogra.

Olhei pasmada. Se minutos antes quase que fugia de nós, agora era a avó-da-televisão, orgulhosa. As duas ficaram ali a conversar, ouvi coisas sobre a ajuda que Dona Fernanda supostamente me dava, que com gémeos era tudo o dobro, blá blá blá Foi ouvir mentiras atrás de mentiras. No fundo, já nem sabia o que responder.

Quando finalmente a amiga se despediu, foi só o tempo de ela virar costas e Dona Fernanda perdeu logo o sorriso, despediu-se friamente e foi embora.

Contei tudo ao Rui ao jantar. Ele só encolheu os ombros.

Tita, é a minha mãe Sabes como ela é. Também não fez grande coisa por nós. Mas depois diz pelos cafés que ficava a estudar comigo até à meia-noite, quando na verdade nem abria o meu caderno. Dizia que passava tardes a passear a minha irmã, quando era eu que a levava para o parque e ela ia ao cabeleireiro É ela. Não te consumas com isso.

Já ouvi estas histórias vezes sem conta. Mas nunca deixa de me surpreender quando passo a ser protagonista disso tudo.

***

Os anos passaram e nada no comportamento dela mudava. Até que, um dia, o azar bateu-lhe à porta: escorregou a sair de um táxi e partiu a perna.

Vou ficar em vossa casa! anunciou-nos, decidida.

Eu e o Rui trocámos aquele olhar de quem percebe bem no que isso ia dar, mas não tivemos coragem para dizer que não.

Olha, foi um pandemónio! Ocupou o nosso quarto, nós passámos para o quarto das miúdas. E precisávamos de fazer tudo por ela cozinhar, limpar, dar banho, ir às compras.

Na altura, as nossas gémeas tinham dois anos e meio. Eu tentava regressar ao trabalho, pelo menos a meio tempo, por isso as meninas começaram a ir ao infantário. Todas as manhãs era uma autêntica batalha lágrimas, gritarias, tudo para sairmos de casa a horas.

Um dia, já de saída, o Rui recebe uma chamada:

Mãe?! Para quê é que ligas? Estás na sala ao lado!

Não me posso levantar, tenho a perna partida

Mas tens canadianas!

Cala-te, Rui! Para te dizer o que quero nem preciso de estar de pé!

Então, mãe, despacha-te

Não suporto este barulho logo de manhã. Não consigo dormir! Andam sempre a correr, fecham as portas com estrondo, e aquelas crianças não se calam!

O Rui, furioso, abre a porta e grita-lhe:

Se queres tanto dormir, então fica tu com as miúdas logo de manhã!

Silêncio total. Poucos dias depois, Dona Fernanda decidiu sair da nossa casa. Nem esperou pela retirada do gesso. O Rui ficou aliviado, mas eu, engraçado, sentia-me culpada. Não queria que o meu marido brigasse com a mãe. Mas o que podia eu fazer?…

***

Às sextas costumo sair mais cedo do trabalho. Vou buscar as miúdas, levamos uns doces da padaria e vemos um filme juntas, as três deitadas nas almofadas da sala. Aquele dia não fugiu à regra. Ia já de pijama quando tocaram à porta.

Abri. Dona Fernanda estava na soleira com o Pedro, filho da irmã do Rui, pela mão.

Teresa, olha, a Lúcia deixou-me o Pedro até ao final da tarde. Mas tenho que sair já. Ficas com ele por uma horinha, faz favor?

Nem cheguei a responder, ela despachou-se para o elevador.

Quando vens buscá-lo?

Duas horas, no máximo!

Dois beijinhos rápidos, já tinha desaparecido.

***

O Rui chegou às sete da tarde. Viu o Pedro a devorar uma fatia de bolo na cozinha.

Olá campeão! A tia Lúcia não veio buscar-te?

Eu suspirei fundo, nem queria ser eu a causa de outro mal-entendido, mas não havia maneira de esconder a história.

A tua mãe trouxe-o para cá. Disse que era só por duas horas Já passaram quase cinco.

E a Lúcia?

Não lhe disse nada. Não quis prejudicar a tua mãe, já viste se ela confia nela para ficar com o Pedro

O Rui bufou.

Teresa, és boa demais Isto não é normal! A minha mãe não te disse aonde foi?

Abanei a cabeça. Ligou logo à irmã a contar-lhe tudo. A Lúcia prometeu vir buscá-lo assim que pudesse.

***

Quase eram nove e meia, já as miúdas estavam de pijama a brincar no quarto. Eu, o Rui e a Lúcia sentados na cozinha a conversar.

Ainda estamos à espera da mãe? As crianças já deviam estar na cama

Oh Teresa, hoje deixam-se ficar acordados. Mas com a mãe precisamos de esclarecer isto.

Mesmo enquanto terminava a frase, ouve-se o toque à porta. Fui eu abrir.

Pronto, vim buscar o Pedro! disse Dona Fernanda, na maior das calmas.

Eu estava pronta a dar-lhe um sorriso, mas vi logo Rui e Lúcia aproximarem-se.

Mãe, estás bem da cabeça?!

Como é que se fala assim com a mãe?

Mãe, não atires as culpas! O Pedro ficou contigo, não com a Teresa! O que te passou pela cabeça?

Dona Fernanda encolheu os ombros e riu-se.

Lúcia, qual é o problema? A Teresa tem duas meninas, já está habituada! E eu tinha compromissos!

Rui deu um passo à frente.

Que compromissos são esses? Pediste sequer autorização para deixar aqui o Pedro?

Meu Deus, por amor de Deus, que dramas

Onde estiveste afinal? insistiu Rui.

Lúcia explodiu a rir, sem conseguir evitar.

Olha, aposto que de manhã ainda tinhas o cabelo diferente e as unhas noutro tom Ou fui só eu que reparei, mãe?

Dona Fernanda não sabia onde pôr as mãos. E Rui, já exaltado:

Não tens vergonha? Só te pedem um favor uma vez na vida e despachas o teu neto para a nossa casa? Não achas que a Teresa também merece ir ao cabeleireiro de vez em quando?!

Nessa altura, Dona Fernanda ficou vermelha, bufou e tentou virar a situação para nós.

Ó Rui, cabeleireiro para a Teresa? Unhas? Ela sempre foi uma coitadinha lá de Viseu! Nunca há de ser mais do que isso.

Ficou um silêncio pesado. Logo a seguir, ouvi um berro:

Rua daqui!

E foi o Rui que a pôs na rua, fechando-lhe a porta na cara. Ele olhou para mim com olhos aflitos, viu-me de lágrimas nos olhos e correu a abraçar-me. A Lúcia também.

Custou-me aquilo, claro. Mas percebi que Dona Fernanda não mudava, nem para os netos. Se nem os próprios filhos ela valorizava, não era a mim que ia respeitar. E tive de aceitar: há pessoas para quem nunca seremos suficientes.

Depois disso, a relação arrefeceu de vez. O Rui e a Lúcia ajudavam a mãe pontualmente, mas ela deixou de ter qualquer papel nas nossas vidas. Tentou fazer-se de vítima, mas a necessidade de “estar ligada aos filhos” falou mais alto e acabou por reatar algum contacto mas nunca mais nos ajudou com as crianças.

Uma vez só, reparei numa foto no estado do telemóvel dela, com os três netos e a legenda: “Feliz Dia das Avós. Para todas as que criaram os netos!” Sorri com amargura. Mais tarde, à noite, ouvi o Rui e a Lúcia a gozarem com aquilo até às lágrimas. Custava-me rir com eles, mas era impossível não ver a ironia.

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