És irresponsável, mãe. Vai ter filhos para outro lado.
Leonor tinha apenas dezassete anos quando se casou à pressa com Ricardo. Mal saiu da escola, já andava de aliança no dedo e barriga a despontar, tão rápida, que até as vizinhas sussurravam pelas janelas: Aquilo foi de certeza por acidente, ai foi, foi.
Teve uma menina, a quem chamaram Matilde, e foram viver para o apartamento da sogra. Apesar de a sogra, D. Rosa, viver noutra casa, apenas a duas paragens de elétrico, fazia questão de fiscalizar tudo o que a jovem família fazia. A casa era grande, de três quartos, com tetos altos e móveis velhos que D. Rosa comprara nos tempos do Estado Novo, e Leonor, entre aquelas paredes, sentia-se uma visita prolongada, de malas sempre por desfazer.
Com Matilde, filha, Leonor dava-se bem. Fraldas, babygrows, noites em claro, o primeiro dentinho, primeiro passinho, a primeira vez que a menina disse mamã e Leonor sentiu o coração despedaçar-se de ternura. Mas Matilde crescia também com a avó Rosa e com a tia Mariana, irmã de Ricardo, que morava num pequeno quarto ao lado da cozinha. Mariana era cinco anos mais velha que Ricardo, magra, cabelo sempre apanhado num coque apertado e cara como se cheirasse algo desagradável. D. Rosa e Mariana eram mulheres muito corretas, daquelas que sabem como se faz tudo: criar filhos, fazer o arroz de polvo, lavar a roupa e tratar dos maridos.
Leonor, por que deixas o Ricardo ir ao café com os amigos? perguntava D. Rosa, franzindo os lábios. O meu marido, que Deus o tenha, vinha sempre para casa. Família primeiro, era a regra.
Leonor mantinha-se em silêncio, pois discutir com a sogra era inútil. Bastava um olhar e a conversa morria. Mariana acrescentava no seu tom seco:
Leonor, o mais importante é a Matilde. Está a ler os livros certos, aqueles que lhe trouxe? As crianças hoje em dia andam muito soltas, e tudo começa com as mães.
E Leonor fazia de tudo Matilde lia os livros que a tia trazia, ia com a avó a museus, tinha explicações de inglês com professora que D. Rosa arranjou. Crescia bem, ajuizada, inteligente. Uma cópia da avó na juventude, diziam as vizinhas.
Ricardo era homem discreto, trabalhava numa fábrica como técnico e gostava do seu copo de cerveja ao fim do dia, do futebol ao domingo. Leonor amava-o do jeito manso de quem partilha a vida há anos já não havia brigas por tudo e por nada, nem necessidade de máscaras. Ricardo também amava Leonor, mas expressava-o em pequenos gestos chá na cama, ovos mexidos nas manhãs de folga.
A sogra tratava Ricardo com paternalismo frio, como se fosse um menino grande, e dizia, sem rodeios, na presença de Leonor:
Ricardo, tens de ganhar mais confiança. Uma mulher quer um homem, não um rapaz.
Ricardo, encurvado, calava-se. À noite, Leonor acariciava-lhe o cabelo e murmurava: Não ligues, és o melhor. Ele suspirava fundo e adormecia. E Leonor olhava o teto, sentindo-se intrusa na própria casa que não era sua, sem força contra a sogra, porque dependia daquele teto, porque ali era sempre hóspede.
Quando Matilde tinha treze anos, D. Rosa adoeceu gravemente. Câncro no pâncreas. Soube-o e não chorou, limitou-se a apertar ainda mais os lábios e foi ao notário tratar do testamento. Decidiu dividir tudo como devia ser: o seu T2 no centro ficaria para Mariana; o T3 onde Leonor, Ricardo e Matilde viviam, para Ricardo. Assim ninguém se ressentia.
Mas houve o imprevisto. Três semanas depois de assinar o testamento, Ricardo saiu da fábrica, meteu-se a atravessar uma passadeira e um carro conduzido por uma jovem distraída apanhou-o. Foi Mariana quem deu a notícia a Leonor, voz trémula ao telefone:
Leonor, o Ricardo… não resistiu, acidente, a ambulância chegou tarde. Tens de vir ao hospital, identificá-lo.
Leonor não se recorda do caminho ao hospital, de olhar o rosto do marido, de assinar papéis. Lembra-se de chegar a casa e ficar sentada até à manhã seguinte, sem dormir.
D. Rosa sobreviveu ao filho apenas dois meses. Os médicos diziam que a doença avançara, que nada a salvaria, mas Leonor tinha a certeza: a sogra morreu de desgosto. Por mais duras as palavras, Ricardo era o menino dela. Caiu num silêncio, num corpo franzino deitada na cama, o olhar na parede. Ainda do hospital chamou o notário e mudou o testamento: agora, a casa grande ficaria para Matilde.
Para a Matilde, disse a doente à filha Mariana, que nem pestanejou. Olha pela miúda, não deixes que perca o rumo como a mãe dela. Leonor é boa mulher, mas fraca.
Mariana assentiu, impassível, tão dura quanto a mãe.
Leonor ficou com a filha numa casa que, nos papéis, pertencia a Matilde, mas era ainda Leonor quem mandava ali, enquanto a filha fosse menor. Durante anos nem pensou nisso. Tinha de trabalhar, criar Matilde, correr atrás do dinheiro queria dar-lhe tudo: roupas, telemóvel, explicações. Quando Matilde entrou na universidade em Lisboa, Leonor chorou de felicidade. O esforço valeu a pena, a filha era uma jovem brilhante, feita ao futuro. Matilde, desde o segundo ano, já se desenrascava a fazer traduções inglês não era problema, graças à avó e à tia e à férrea disciplina.
Foi então, quando Leonor julgou que finalmente podia pensar nela, com a vida a entrar nos eixos, que conheceu Diogo. Tropeçaram um no outro à saída do supermercado, ela de saco nas mãos, ele a ajudar. Descobriram que trabalhavam perto, que ele era mais velho treze anos, com dois filhos já adultos e uma mulher paralisada após um AVC.
Não sou herói, confessou Diogo, mão nas mãos de Leonor, sentados nos bancos do Jardim da Estrela. Ela está dependente há cinco anos. Deixei de saber o que é desejar algo, esperar algo. Em ti, recordo o que é querer viver.
Leonor compreendia. Tinha trinta e oito anos, idade de quem já não espera príncipes nem acredita em contos, mas aceita a felicidade que aparece.
Guardou segredo a Matilde. Dizia que fazia horas extra, que ia jantar com amigas. Mas Matilde, atenta, percebeu logo. Reparou nos novos pormenores uma roupa diferente, o sorriso, o perfume. Certa tarde, ao ver a mãe escolher um vestido que não usava há anos, perguntou de frente, olhos nos olhos:
Mãe, tens alguém? Novo vestido, novo perfume… Conta.
Leonor corou como adolescente e desabafou tudo: Diogo, a mulher dependente, o sentimento entre eles.
Matilde escutava, rosto a endurecer. Quando a mãe terminou, a voz da filha saiu gélida, adulta, de D. Rosa:
Percebes o que estás a dizer? Falas de um homem casado. A minha mãe, que me ensinou o certo e o errado, anda agora com um homem ocupado. Ouves-te, mãe?
Matilde, não entendes tentou justificar-se Leonor.
Entendo. És sozinha, tens necessidades, não sou parva. Mas existem limites, mãe. Um homem casado não está disponível. Já não tens dezoito anos para estas novelas.
Sentida, Leonor chorou, mas desculpou-a como a quem peca por juventude. Matilde via tudo a preto e branco, só há bom e mau.
Os encontros de Leonor e Diogo eram às escondidas numa casa de campo emprestada, no pequeno apartamento que Diogo alugava de vez em quando por uns euros. Não era o romance dos sonhos, mas Leonor, com quase quarenta, sabia dar valor ao que recebia.
Às vezes acho que não mereço isto, murmurava Diogo, deitado ao lado dela na penumbra do quarto alugado. Olho para a minha mulher, sinto culpa. Isto é baixo, não é?
É, admitia Leonor, sem mentiras. Mas eu espero por ti. Quem sou eu para te julgar?
És a melhor que alguma vez tive, respondia ele, beijando-lhe o ombro. Nunca te abandono, eu prometo.
E Leonor acreditava. Depois de cinco anos a carregar a vida sozinha, precisava daquela esperança, daquele abraço.
Quando percebeu que estava grávida, sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Comprou três testes, foi à consulta, confirmou: seis semanas, tudo normal. Saiu, sentou-se no banco da entrada do centro de saúde e chorou, mistura de medo, alegria e desespero.
Ponderou dias como contaria a Diogo. Imaginava o susto, a hesitação. Sabia que Diogo era responsável, mas tremeria: filhos adultos, mulher doente, uma vida já demasiado cheia de lutas.
Ainda mais, Leonor temia contar a Matilde. Esperou, adiou, até não aguentar mais. Uma noite, Matilde regressou de casa da tia Mariana, Leonor sentou-se à mesa e anunciou:
Matilde, há algo que tens de saber. Estou grávida.
A filha ficou imóvel, chávena suspensa.
De casado? murmurou.
Do Diogo, sim. É ele o pai.
Eu já suspeitava, Matilde torceu o lábio, sorriso triste. Mãe, estás bem da cabeça? Tens trinta e oito anos, trabalhas em dois empregos, acabei de entrar na faculdade e tu agora decides ter outro filho? De um homem que nunca vai deixar a mulher?
Matilde, não fales assim… a voz de Leonor tremia.
Isto é a minha casa, minha, deixada pela avó. Aqui, não vais engravidar de amores proibidos. Está ouvido? A casa é minha, não tua.
Leonor perdeu o sangue do rosto. Viu a filha aquela menina a quem dera a vida, por quem tudo sacrificial, que levou ao jardim, à escola, às explicações e não a reconhecia. Era uma estranha de rosto severo como a avó, de voz dura como a tia Mariana, sempre convencida de estar certa.
Matilde, como podes dizer isso? Leonor levantou-se, trémula, agarrando-se à mesa.
Viveste aqui porque o pai era vivo, cortou Matilde. Quando morreu, a avó podia ter-te posto fora, mas teve pena, por mim. Mas a casa é minha. Tu ficas, mas aqui não há mais filhos. Queres família, vai ter com o pai do teu filho e pede-lhe casa.
Como podes?… lágrimas rolavam pelo rosto de Leonor. Fui tua mãe cedo…
Tiveste-me aos dezoito porque não pensaste nas consequências, rebateu Matilde. E agora repetes o erro. Com um homem que tem uma mulher acamada. E se te largar? Já não tens dezoito, estás quase nos quarenta, não tens forças como dantes. Não sou tua ama, tenho a minha vida, os meus estudos.
Recusas ajudar-me? Olhar de Leonor, dor e incredulidade. Matilde desviou os olhos por um instante.
És a minha mãe, nunca te expulso. Mas não vais criar mais filhos aqui. Aqui só tu. Se queres filhos, arranja casa. Não quero a vida destruída por erros de outros.
Erros dos outros Leonor abraçou o peito, sentindo dor real. Mas é teu irmão ou irmã! Sangue teu! Matilde, acorda!
Não, mãe. Matilde tremia de lágrimas, não se sabendo se verdadeiras ou fingidas. É teu filho, não meu. Eu não vou ficar presa a isso. Comecei agora a minha vida, quero estudar, trabalhar.
Leonor desabou na cadeira. Via Matilde de braços cruzados, lábios contraídos como D. Rosa, como Mariana. Corretas, firmes, sempre prontas a lembrar a Leonor que ali era outsider.
Metade da casa seria minha, sussurrou Leonor, dor amarga. Se o pai não morresse antes da avó, era minha por lei. Esqueceste? Sou herdeira direta. Se a avó não mudasse o testamento, se o pai vivesse mais dois meses
Mas não viveu, interrompeu Matilde, dura. A avó fez o que devia. Confiou em mim, não em ti. Sabia que és irresponsável, nunca soubeste gerir a vida. Ficaste grávida aos dezoito, agora outra vez. Se herdasses a casa, já a tinhas perdido. A avó confiou-me a casa, e não vou falhar.
Não vais falhar, ecoou Leonor, sentindo rebentar algo dentro de si aquele laço invisível entre mãe e filha, amor que julgava inquebrável. Já és como a tua avó, Matilde. E tens razão, aqui não sou ninguém. Só estou porque tu deixas. Sou uma hóspede de favor.
Mãe, não cries cenas, Matilde suspirou, adulta cansada. Ninguém te vai pôr na rua. Mas faz a tua vida. Não dependo de ti, nem tu de mim. Não vou ajudar, nem dividir a casa. Fala com o Diogo. Ele é o pai, que assuma.
Ele não pode, saiu de Leonor, logo arrependida.
Lá está, sorriu Matilde, igual à avó. Foste envolver-te com um homem que não te pode dar nada. Nem casa, nem família. E queres que eu fique a cuidar do teu filho, enquanto tu corres para encontros? Não, mãe. Não.
Não te peço para criares ninguém, sussurrou Leonor. Só para me entenderes, me apoiar, não me deixares na rua.
Não te ponho fora, respondeu Matilde. Podes sempre viver aqui. Sozinha. Se tiveres o bebé, tens de sair, encontrar onde viver. Dou-te tempo até ao nascimento. Mas um bebé aqui, não.
Leonor levantou-se, arrastando-se para o quarto, fechando a porta atrás de si. Deitou-se enrolada na cama, como quando era menina.
Sentiu rasgar-se por dentro o último fio da maternidade, aquele laço que parece eterno. Ali ficou uma ferida aberta, onde se escoaram as memórias do primeiro passo da Matilde, as inseguranças partilhadas, os desenhos juntos, e até os mamã, adoro-te tanto! sussurrados ao ouvido.
Eu não sou erro, murmurou Leonor à almofada, tão baixinho que nem ela acreditou. Eu sou tua mãe.
Mas na sala, Matilde já ligava a televisão bem alto, e Leonor soube: tudo tinha sido dito. Era dona da sua decisão, não sentia remorsos.
Ficou na cama no escuro, até que, sem saber como, pegou no telefone. Ligou a Diogo. Atendeu ao segundo toque, a voz exausta.
Diogo, disse ela, sem emoção Estou grávida. Preciso de casa e dinheiro, que não consiga trabalhar o primeiro ano. Consegues?
Ouviu Diogo prender a respiração. Ele começou a falar apressado:
Leonor, não estou preparado… Sabes como é, a minha mulher depende de mim, os filhos ajudam mas não chega, a vida está difícil Queria muito, mas não dá. E alugar casa em Lisboa e tu sem trabalhar… Não consigo, Leonor, não consigo. Ajudo no que puder, mas pouco
No que puderes… repetiu Leonor. Está bem.
Espera, falamos melhor Não há outra solução? Conversamos depois
Ela desligou, sem despedidas. Pousou o telefone, fechou os olhos, imóvel até o dia clarear, ouvindo o ruído do frigorífico, um cão distante a ladrar. Ao raiar do dia, levantou-se, vestiu-se devagar, pegou no cartão do cidadão, no papel do SNS, e saiu sem fazer barulho. Na maternidade esperou duas horas, sentada num banco frio, olhar perdido. Quando a médica, a mesma de antes, perguntou: Então, vamos avançar? Leonor respondeu, firme:
Não. Vou interromper.
A médica suspirou, acenou. Marcou o horário. Leonor saiu para a rua, respirou fundo o ar frio da manhã lisboeta, que lhe fez arder o peito, e ali nos degraus da maternidade, deixou-se chorar, com o rosto nas mãos, as mulheres de barriga a passar, as mães com carrinhos, e ninguém a reparar nela.







