Graças a Deus, Senhor! Finalmente, consegui esperar! a avó respirava com dificuldade, mas o rosto irradiava uma felicidade sincera. Afagando suavemente o rosto do neto com as mãos frágeis e secas, deixou-as cair no aconchego da manta.
Descansa, avó pedia o Joaquim, lançando-lhe um olhar terno. Amanhã teremos o dia todo, vamos conversar até cansar!
Não, Joaquim sorriu a avó, com tristeza estampada no olhar. Só pedi uma coisa a Deus: aguentar até te ter de volta. Já não preciso de mais nada vi-te, abracei-te. Agora vou descansar um pouco e depois falamos. Cerrou os olhos, já exausta. Arlete, dá de comer ao rapaz afinal, acabou de chegar de viagem.
A avó sentia o fim a aproximar-se. Já sabia que o tempo era curto. O Joaquim era o único laço de sangue que ainda a ligava a este mundo, tal como ela era a única família que lhe restava. Os pais dele desapareceram, esvaídos pelo vinho, entregando tudo primeiro o que podiam vender, depois os móveis, a casa, a dignidade, por fim, eles próprios. A mulher arrancou o neto à ruína a tempo, criou-o, ensinou-o na escola, convenceu-o a tirar a carta tanto de ligeiros como de pesados, e acompanhou-o até ao serviço militar. E hoje, voltou a recebê-lo. Não era assim que tinha sonhado este reencontro, mas o destino não dá sempre escolha.
Enquanto a Arlete a vizinha de longa data e amiga inseparável da avó servia um prato quente ao Joaquim na cozinha, a idosa, de olhos fechados, ia tentando arrumar as palavras, querendo que ficassem gravadas na memória e no coração do neto. Mas a memória já lhe pregava partidas. Acariciava a gata a sua querida Xica, que não se afastava da dona, pressentindo o fim próximo.
Por fim, chamou:
Joaquim, anda cá. Quando ele se sentou ao lado dela, a mulher falou num sussurro: Queria tanto pegar os teus filhos ao colo, mas não calhou. Vais ficar sozinho, Joaquim. E sozinho é duro. Se um dia aparecer uma boa rapariga, não a deixes fugir, não escolhas por leveza mas para a vida inteira. Nunca foi, nem será fácil a vida portuguesa é feita de lutas. Nunca te percas na folia e, sobretudo, foge do vinho, que traz só desgraça. Basta um perder-se, e todos à volta sofrem. Há muitos caminhos, Joaquim, escolhe o teu com cabeça.
Fez uma pausa, talvez a pensar nos pais do neto. Mas reencontrou forças:
Passei a casa para o teu nome já terás onde trazer a futura mulher. Para o funeral, deixei o dinheiro de lado, a Arlete sabe onde está. O resto do que tinha, está na tua conta, para te orientares nos primeiros tempos. Cuida bem da Xiquinha, não a deixes sozinha. É esperta e sente tudo. Tu melhor que ninguém sabes, foste tu que a encontraste bebé na rua Pronto, é tudo. Vai descansar, eu também preciso.
Na manhã seguinte, a avó não acordou…
Joaquim conseguiu emprego numa empresa de montagem de redes de internet, graças à recomendação dos amigos. Era uma equipa de seis homens, sempre ocupados a estender fibra óptica e a instalar clientes novos. O trabalho cansava, mas o ordenado razoável e a sensação de dever cumprido compensavam tudo.
Em casa, encontrava sempre a Xica uma gata cinzenta que resgatara da rua já havia oito anos. Desde a morte da avó, a Xica entristeceu, deixou de comer. Ficava o dia todo sentada na velha poltrona o assento preferido da avó olhando fixamente para o corredor, como se esperasse que a dona voltasse de repente. Mas ela nunca voltava.
Joaquim fazia tudo para animar a gata: conversava longamente com ela, sentando-a ao colo, contava-lhe como correra o dia e oferecia-lhe petiscos. Só um mês depois a Xica começou a reagir.
Foi no dia em que Joaquim recebeu o seu primeiro salário. Os amigos exigiram que pagasse a rodada tradição absoluta, recusá-lo seria tremendo mau-feitio. Convidou-os para um café típico, todos comeram e beberam. Joaquim acabou por chegar a casa mais tarde e bem-disposto de vinho. À porta, esperava-o a Xica. Por alguma razão, evitava os olhos grandes e verdes da gata, cheios de compreensão.
Xiquinha… tentou justificar-se não podia mesmo dizer que não. Eles meteram-me na empresa, são amigos, tinham de festejar Sentiu que se justificava não a ela, mas à avó.
No dia seguinte, a Xica recebeu-o de novo, cheirou-o com curiosidade e, percebendo que tudo estava normal, correu a enrolar-se nas pernas dele, ronronando sonora e alegremente. Petiscou com gosto, seguiu-o toda a noite de divisão em divisão e, ao deitar, aninhou-se-lhe ao lado, confiante.
Tu entendes tudo… murmurou Joaquim, acariciando a Xica. Nada temas, já sou crescido, sei distinguir o certo do errado. Só quem bebe sem controlo é que perde a cabeça. Eu tenho medo disso está no sangue, percebes? Talvez tenha de mudar de emprego, nesta equipa o copo faz parte, seja pelo frio, pelo cansaço, pelos festejos, até inventam dias de brindar. Sexta-feira tem sempre motivo. Fujo como posso, mas já me olham de lado. Tenho de procurar outra coisa… Sonho, desde miúdo, com a estrada, conduzir camiões, mas não tenho carta suficiente, ninguém me ia entregar um veículo daqueles
Numa sexta-feira, Joaquim e os colegas estavam num café. O grupo celebrava o fim da semana, os copos circulavam. Como era habitual, Joaquim ficou-se pela água, observando com alguma tristeza os amigos exaltados.
A mesa era servida por uma rapariga jovem e bonita. Os homens não poupavam nas chalaças, a certa altura o chefe estica-se e agarra-a pela mão, puxando-a para junto dele. Ela tenta soltar-se, assustada, mas ele, já tocado, força mais.
Larga-a! atira-se Joaquim, erguendo-se. O barulho na mesa cessou contrariar o chefe era sagrado, jamais! Apanhado de surpresa, o homem afrouxou e a rapariga escapou, recuando e lançando olhares de medo a Joaquim.
O dono do café um gigante vestido com uma bata branca, braços fortes apareceu e a situação acalmou de imediato. Os homens apressaram-se a sair, lançando olhares carregados de azedume a Joaquim.
Não vás já disse o dono do café, travando-o Deixa-os arrefecer, pode ser que ganhem juízo. E encarou Joaquim com simpatia: O que fazes tu com essa gente? Nem bebes, já reparei, não te identificas ali.
É a equipa… encolheu os ombros, tanto a trabalhar como a beber, fazem tudo juntos.
Larga isso resmungou o homem, apresentando-se como Manuel. Que festa é essa? Ainda por cima com gente dessas. Voltou-se para a filha atrás do balcão: Maria Inês, faz-nos um chazinho, do teu especial. Assim descansamos um bocadinho.
Ela é a tua filha? perguntou Joaquim, admirado.
É sim. Ajuda-me aqui depois das aulas. Sentaram-se e beberam um chá quente, aromático, servido num bule de porcelana. Olha, meu rapaz, tens mesmo de mudar de emprego, depois desta noite já sabes o que te espera. Tens carta de condução?
Tirei-a antes da tropa e, durante o serviço, passei o ano inteiro ao volante. Sempre quis ser camionista, mas ninguém me dá uma oportunidade.
Não será já, mas posso ajudar tenho amigos no ramo, bons profissionais. Entretanto, vem trabalhar comigo. O nosso carro de entregas, a velha Ford Transit, dá para começares, há viagens semanais, e depois, se estiveres pronto e tirares a categoria, passo-te para o camião.
Aceito! Joaquim sorriu. Gostava do senhor Manuel enorme, calmo, generoso. E mais: era pai da Maria Inês, o que merecia respeito. Manuel, apercebendo-se do olhar demorado do jovem, comentou com astúcia:
Vá, filha, termina o serviço. Obrigado pela ajuda. Joaquim, vais levá-la a casa. Sorrindo para a filha, viu o embaraço corar-lhes o rosto.
***
Cinco anos depois, Joaquim guiava um pesado pela estrada fria do inverno português.
Faltam uns 30 quilómetros até casa, onde o esperam a Maria Inês, a filha Mariana e a velhinha Xica, agora rainha da casa. Viu, à beira do asfalto, a silhueta de um homem só, tremendo dentro de uma blusa fina.
Vai congelar aqui ao relento, pensou Joaquim, abrindo a porta.
Chefe? reconheceu, assim que o homem se sentou ao seu lado.
O outro olhou-lhe com ar perdido, olhos embaciados pelo álcool:
És tu ficou em silêncio. Já fui chefe, ficou tudo para trás. A equipa desfeita, os lugares ocupados por outros. Dos nossos, só metade sobrou. Um morreu de frio, outro afogou-se bêbado, outro envenenou-se com álcool barato. Os outros, como eu, andam a fazer biscates Tirou do bolso uma garrafa malcheirosa, bebeu, soltou um grunhido. Não faz mal! Isso passa!
Joaquim deixou-o perto da Avenida Principal e viu-o afastar-se. Pensou, com alguma tristeza, na arrogância quebrada daqueles tempos
Ao aproximar-se do prédio, olhou para as janelas da sua casa. Na cozinha brilhava luz a Maria Inês estava acordada, à sua espera. Talvez a Arlete tenha passado para um chá e uns dedos de conversa, ou talvez a Mariana dormisse já no berço, debaixo da foto da bisavó, a quem tanto gostava de contar as histórias do infantário, as pequenas inquietações de cada dia. Não importava o silêncio da fotografia sabia que o olhar era bom, de compreensão, e o sorriso gentil.
E à janela, lá estava a Xica, a vigiar a noite. Assim que o reconheceu, saltou do parapeito e correu para a porta, pronta para o receber.
Nunca estive sozinho, avó murmurou Joaquim, sorrindo às luzes da sua casa. Agora estamos todos juntos, e tu nunca nos deixaste. Esta é a minha estrada.





