Galina regressa das compras e encontra a nora a fazer as malas: “Vou-me embora!” – A surpreendente carta que mudou a vida da família numa aldeia portuguesa onde todos pensavam que nada poderia abalar a felicidade dos filhos e netos

Hoje voltei do supermercado para casa e comecei a arrumar as compras nas prateleiras da cozinha. Ainda tinha as chaves na mão quando ouvi um barulho estranho a sair do quarto do meu filho e da nora. Um pressentimento levou-me lá.

Beatriz, onde vais com essa mala? perguntei, incrédula, vendo a minha nora a enfiar apressadamente as roupas na bagagem.

Vou-me embora daqui! disse ela, os olhos marejados de lágrimas.

Ir-te embora? Ir para onde? Mas o que aconteceu? insisti, tentando perceber.

Em silêncio, Beatriz entregou-me uma carta. Abri-a, li, e senti-me gelar por dentro.

Recordo o tempo em que o António trouxe a Beatriz para nossa aldeia, para a casa que herdou do pai. Já passava dos trinta e, ao fim de tantos anos, tinha finalmente decidido casar-se. Já era tempo. Sonhei que juntos me ajudariam nos últimos anos e, talvez, eu tivesse algum descanso.

A casa estava cheia e arrumada, éramos uma família unida. O meu marido já partira, deixando-nos uma casa resistente e uma pequena quinta que sempre cuidou com dedicação. Não consegui que o António tivesse irmãos. O trabalho no campo era pesado; por vezes, as forças não chegavam. Quando o meu marido adoeceu, fui eu a cuidar dele durante três anos. No fim, aprendi não só a conduzir o trator, como a tratar sozinha das terras.

A Beatriz era uma jovem delicada, uns dez anos mais nova que o António. Olhava para ela e via-me a mim, quando em tempos também cheguei a esta casa de mala na mão e pouco mais que trazer. Por ser órfã, ninguém se opôs até foi melhor assim.

Todas as moças da aldeia tinham inveja. O António era trabalhador e bom rapaz, e agora estava comprometido. Teve três filhos com a Beatriz: dois rapazes e uma menina.

Quando o mais novo tinha cinco anos e o mais velho dez, o António decidiu ir com um amigo trabalhar para Lisboa.

Falta-nos dinheiro? Temos de tudo! tentei demovê-lo. A minha reforma, o teu ordenado e o da Beatriz chegam para vivermos. E a quinta? Quem toma conta?

Cansei-me disto, mãe. Trabalho em Lisboa, e levo a família comigo. Os miúdos têm de estudar. E a casa está na hora de vender. Vais connosco.

António, a escola é aqui ao lado! tentou intervir Beatriz.

Tu és de cidade, Beatriz. Ficas melhor lá retorquiu ele, sem paciência.

Fui criada num colégio em Lisboa, mas nem me lembro. Era pequenina. E a tua mãe, António? Ela precisa de ajuda, nós estamos bem aqui. Como vamos aguentar com três filhos numa cidade? A voz da Beatriz tremia-lhe.

Chega! Está decidido. Livra-te desse ar cansado, pareces exausta.

Fiquei do lado da Beatriz. Havia em mim aquela empatia de quem já foi jovem e se sentiu sozinha numa casa estranha. Com o tempo, tratei Beatriz como filha, e ela a mim como mãe.

O António partiu. Escrevia cartas, já que ainda não tínhamos telemóveis. Apareceu em casa apenas seis meses depois, com prendas e algum dinheiro e mais uma vez voltou a Lisboa, prometendo regressar em breve. O amigo dele, o João, regressou passado pouco tempo. E foi a esposa do João que, num dia de conversa, me contou que o António estava a viver com uma mulher rica onde faziam umas obras, e já não trabalhava.

Nada contei a Beatriz. Não queria espalhar rumores. Mas as línguas da aldeia são afiadas e os boatos rapidamente chegaram à minha nora. Um dia, vi-a calada e triste, a arrumar as malas.

Para onde vais? perguntei.

Ela, sem dizer nada, mostrou-me uma carta, mais uma nota de despedida do que uma carta.

Beatriz. Desculpa, mas agora estou com outra pessoa. A casa ficará para mim, quando a mãe morrer. Segue com a tua vida, cuida das crianças. Aqui tens algum dinheiro para começares. Agora desenrasca-te sozinha. António.

Vai então, mas eu não vos deixo sozinhos. Não há motivo para arrastares os miúdos por casas alheias. Ficas aqui. Não te preocupes, nunca vos vou deixar.

O tempo passou. Um dia, o António voltou à aldeia com a nova mulher e um carro topo de gama. Não esperava ver os filhos a mãe nunca o avisou que estavam ali. A filha, já com doze anos, correu para o pai a chorar. O mais velho aproximou-se e afastou a irmã, sem dizer palavra. O outro irmão seguiu-os.

Não tens vergonha? Para nós, tu já não és o nosso pai. Anda, temos trabalho.

O António só observou. O filho mais velho subiu ao trator e foi lavrar o campo de batatas. Os irmãos ficaram a tratar dos coelhos, que antes nem faziam parte da quinta. Os filhos cresceram, e ele nunca viu.

E a mãe deles? Abandonou-os e ficaram contigo? perguntou António.

Não julgues pelo teu padrão. A Beatriz trabalha e logo chega. Por que vieste, afinal?

Vim falar contigo.

Diz o que tens a dizer antes que a Beatriz chegue.

Viemos buscar-te. Vende a casa e o terreno, compramos um apartamento perto da cidade. Ganha-se bom dinheiro.

E os miúdos?

Que vão com a mãe. Arrenda uma casa em Lisboa, há mais oportunidades para os rapazes.

Nunca quiseram sair daqui, se quisessem, já tinham ido.

O comprador já está pronto, pensa no assunto, mãe.

Não tenho de pensar. Esta é a minha casa. Não a vendo.

Não digas isso, mãe!

Nessa altura, entrou Beatriz, agora uma mulher adulta e confiante. Estava mais bonita, bem vestida, com uns brincos antigos de família. O António ficou a olhar para ela, até que a nova mulher dele lhe lançou um olhar cortante.

Não te vou servir à mesa. Se queres alguma coisa, serve-te tu disse eu.

Já disse o que tinha a dizer. Adeus. respondeu António, virando costas. Fica com o meu número, caso mudes de ideias.

Só voltou à aldeia quando a mãe estava nos últimos dias. A Beatriz, já avó, chamou os filhos, mas nenhum deles se entusiasmou com a presença do António. O mais velho, agora com família própria, falava com ele como se fosse um desconhecido. A filha nem sequer lhe dirigiu a palavra.

Beatriz. Os miúdos cresceram. A casa é minha. Vou voltar. Se quiseres, ficas. Se não, não tens de ficar.

Beatriz, serena, foi ao armário buscar os papéis. A casa já estava em nome dela a mãe do António assim o quis logo depois do tal bilhete que ele escrevera. Ele partiu em silêncio. Ninguém o quis prender. Já nada os ligava, só a lembrança da família que poderiam ter sido. Restavam-lhes os filhos e os netos verdadeiros laços desta casa.

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