“Os teus rissóis de carne nem um cão comia”, disse o Marcos a rir, e atirou o prato para o lixo. Hoje come na cantina dos sem-abrigo que eu financio.
O prato com o jantar voou para o caixote. O som nítido da loiça a bater no plástico fez-me estremecer.
“Os teus rissóis de carne nem um cão comia”, repetiu ele, apontando para o cão que, num gesto demonstrativo, virou o focinho.
O Marcos limpou as mãos ao pano de cozinha caro que eu tinha comprado de propósito para combinar com a mobília nova. Sempre fora obcecado com pormenores, desde que dissessem respeito à imagem dele.
“Anabela, já te disse. Nada de comida caseira quando espero sócios. Isso parece pobre.”
Cuspiu a palavra como se ela deixasse um travo a podre na boca.
Olhei para ele, para a camisa impecavelmente engomada, para o relógio caro que nem em casa largava. E, pela primeira vez em anos, não senti raiva nem vontade de me justificar. Apenas frio. Um frio cortante, gelado.
“Eles chegam dentro de uma hora”, continuou, sem reparar no meu estado. “Manda vir os bifes do Solar dos Presuntos. E a salada de marisco. E arranja-te. Veste o vestido azul.”
Os olhos dele percorreram-me de alto a baixo.
“E apanha o cabelo. Esse teu ar fresco faz-te parecer barata.”
Assenti em silêncio. Só um movimento mecânico.
Enquanto ele dava instruções ao assistente pelo telefone, fui apanhando devagar os cacos do prato. Cada um tão afiado como as palavras dele. Não tentei responder. Para quê? Todas as minhas tentativas de “ser melhor para ele” acabavam sempre em humilhação.
Os meus cursos de vinhos, ele gozava: “passatempo de dona de casa entediada”. As minhas ideias de decoração eram “de mau gosto”. A minha comida, onde punha não só esforço mas também a última esperança de carinho, ia parar ao lixo.
“Sim, e leva vinho bom”, disse ele ao telefone. “Mas não aquele que a Anabela provou nos cursos. Vinho a sério.”
Levantei-me, deitei os cacos fora e olhei para o meu reflexo no forno escuro. Uma mulher exausta, de olhar apagado. Uma mulher que passara tempo demais a tentar ser um móvel confortável.
Fui para o quarto. Mas não para vestir o vestido azul. Abri o armário e tirei uma mala de viagem.
Ele ligou duas horas depois, quando eu já estava instalada num hotel barato nos arredores de Lisboa. De propósito, não tinha ido para casa de amigas, para ele não me encontrar logo.
“Onde estás?”, perguntou com a voz calma, mas por baixo da calma espreitava a ameaça. Como um cirurgião a examinar um tumor antes de o cortar. “Os convidados estão cá, mas a anfitriã falta. Falta de educação.”
“Não volto, Marcos.”
“O que quer dizer com ‘não volto’? Estás amuada por causa dos rissóis? Anabela, não sejas criança. Volta.”
Ele não pedia. Mandava. Convencido de que a palavra dele era lei.
“Vou requerer o divórcio.”
Silêncio do outro lado. Ao fundo, ouvia-se música suave e o tilintar de copos. A noite dele continuava.
“Percebido”, disse por fim, com uma ironia gelada. “Então queres mostrar carácter. Muito bem. Representa a tua independência. Vamos ver quanto tempo aguentas. Três dias?”
Desligou. Não acreditou. Para ele, eu era apenas um objeto que tinha falhado por um instante.
Uma semana depois, encontrámo-nos no escritório dele. Estava sentado à cabeceira de uma mesa comprida, com um advogado bem barbeado e ar de jogador de póquer ao lado. Eu vim sozinha. De propósito.
“Então, já passou a birra?”, sorriu o Marcos com o seu ar superior. “Estou disposto a perdoar-te. Se pedires desculpa, claro.”
Pousei os papéis do divórcio em cima da mesa, sem dizer palavra.
O sorriso desapareceu. Fez um sinal ao advogado.
“O meu cliente”, começou ele em tom suave, “está disposto a ser razoável. Tendo em conta o seu estado emocional instável e a falta de rendimentos.”
Empurrou-me uma pasta.
“O Marcos cede-lhe o carro. E está disposto a pagar seis meses de pensão de alimentos. Uma quantia mais do que generosa. Para que possa alugar um apartamento modesto e arranjar emprego.”
Abri a pasta. O valor era humilhante. Não chegava a migalhas da mesa dele; era o pó por baixo dela.
“Naturalmente, a casa fica com o Marcos”, continuou o advogado. “Foi comprada antes do casamento.”
A empresa era dele. Não havia bens comuns. “A senhora nunca trabalhou.”
“Eu tratei da casa”, respondi baixo, mas firme. “Criei um lar para onde ele voltava. Organizei os jantares que o ajudaram a fechar negócios.”
O Marcos bufou.
“Lar? Jantares? Anabela, não sejas ridícula. Qualquer mulher a dias teria feito melhor e mais barato. Tu eras só um enfeite bonito. Que, já agora, tem vindo a perder o brilho.”
Queria magoar. E conseguiu. Mas não como esperava. Em vez de lágrimas, senti uma raiva a subir.
“Não assino isto.” Afastei a pasta.
“Não percebes”, atalhou o Marcos, inclinando-se. Os olhos apertaram-se. “Isto não é uma proposta.”
Era um ultimato. Ou aceitavas e ias embora em silêncio, ou ficavas sem nada. “Tenho os melhores advogados. Eles vão provar que só viveste à minha custa. Como uma parasita.”
Saboreou a palavra.
“Sem mim, não és nada. Um zero. Nem rissóis sabes fazer. Como é que pensas enfrentar-me em tribunal?”
Olhei para ele. E, pela primeira vez em anos, olhei para ele não como esposa, mas como estranha.
E não vi um homem forte, mas um miúdo assustado e vaidoso, em pânico por perder o controlo.
“Vemo-nos no tribunal, Marcos. E, sim, não virei sozinha.”
Levantei-me e saí, a sentir os olhos dele, cheios de ódio, cravados nas minhas costas.
A porta fechou-se e cortou o passado. Sabia que ele não ia aceitar. Iria tentar destruir-me. Mas, pela primeira vez na vida, estava pronta.
O processo foi rápido e humilhante. Os advogados do Marcos pintaram-me como uma parasita infantil que queria vingança por causa de um “jantar mal sucedido”.
A minha advogada, uma mulher mais velha e calada, não discutiu. Limitou-se a apresentar provas: recibos, extratos bancários, faturas.
Os mesmos recibos das compras dos ingredientes dos tais “jantares desadequados”, as faturas da lavandaria dos fatos antes das reuniões importantes, os bilhetes dos eventos onde ele fazia contactos, pagos por mim.
Foi um trabalho minucioso e monótono. Não para provar que eu contribuíra para o negócio, mas apenas uma coisa: eu não era parasita. Eu.







