Enquanto olhavam para João a desenhar mais um Homem-Aranha no caderno, em vez de resolver o exercício de matemática, os pais percebiam que o único com futuro garantido naquela casa era o gato.
Dezenas de explicadores bem pagos não conseguiram enfiar-lhe amor pelas ciências, nem com molho bechamel. Pelo contrário: a cada novo professor, João ia ficando mais filosófico e especulativo. O mundo? Uma trapalhada! A felicidade? Sofá, bolas de Berlim e desenhos animados ao telemóvel.
Quando o desespero dos pais já fazia sombra no soalho, o pai tropeçou num anúncio enigmático na net: Vendo barra de halteres e faço com que crianças, primos, amigos e até vizinhos passem a gostar das disciplinas escolares e de desporto. Método inovador. Aulas de matemática, história, português, inglês, bíceps, tríceps, pernas, ombros, omolete perdão, literatura, peito. Fábio.
A esperança é mesmo a última a morrer, sobretudo à portuguesa. O pai ligou, e do outro lado, entre o barulho do ferro a tilintar, ouviu-se um sopro ofegante:
Sim?
Boa tarde, é do anúncio.
Barra já foi, exclamou Fábio e ia desligar.
Não, não, eu queria aulas de português, matemática, literatura para o meu filho!
Idade, peso, e já agora, as skills do candidato.
O minimalismo intimidador de Fábio inspirava ou assustava, vá. O som do ferro transformou-se em salto de corda. O pai jurava que até sentiu cheiro a suor a sair do altifalante.
Tem nove anos, pesa vinte e cinco quilos e, vá lá, já quase soma em coluna…
Quantas flexões aguenta?
Peço desculpa?
Flexões e elevações. Quantas?
Ora talvez cinco, vá.
Já distingue prefixo de sufixo?
Ó amigo, isso é tema de mãe, não faço ideia.
Que ferramentas tem aí por casa?
Ferramentas?
Compasso, transferidor, extensor, halteres?
Uma régua de madeira velha…
Perfeito, envie morada, estou aí em uma hora, disse Fábio, para logo gritar para alguém, Mais fundo nas pernas, costas direitas! Não é consigo, estou na aula de história, e desligou.
O pobre do pai ficou uns segundos com as pernas abertas e as costas hirtas no corredor, a tentar perceber se devia rir ou chorar, antes de ir falar com João.
Quando lhe contou que ia ter um novo explicador, o João reagiu como de costume: subiu mais o volume da Netflix e pediu uma torrada com chá. O rapaz era a serenidade em pessoa sempre que o assunto era estudo, como qualquer português a fazer contas às finanças.
Tocou a campainha. A mãe espreitou pelo óculo da porta e quase se engasgou: um Cristiano Ronaldo de bairro de regata justíssima, cheirando a shampoo de côco.
Boa tarde! Poisou o halter na entrada e entrou, peito empertigado, arrasando com a autoconfiança de qualquer mãe. Onde está o vosso futuro campeão?
V-v-vai, vai, Vítor, disse a mulher ao marido, gelada. Deve ser aquele tipo musculado do Opel a quem prometeste no bilhete melhorar a visão!
Isso foi um equívoco, sou oftalmologista era, antigamente.
Fábio Martins, explicador atualmente e com gosto.
O Vítor saiu de trás do aparador.
Ah! É o senhor… desculpe, não o reconheci! Deixe que eu levo a mala
Mal agarra a mala de hóquei, cai-lhe um peso em cima que o esmaga quase ao soalho. O gato? Fugiu da sala como se tivesse visto o cão dos vizinhos teleportou-se por entre portas fechadas.
O que traz aí que pesa tanto? bufava o pai, arrastando aquilo para o quarto do João.
Material didático. 1º ciclo e áreas aplicadas.
O João estava estendido no sofá, olhos hipnotizados no telemóvel, quando entrou o explicador.
Têm berbequim? perguntou Fábio, a examinar as paredes.
Para quê? estranhou o pai.
Exercícios de português responde, já a tirar uma barra de elevações, um saco de boxe e uma corda da mala.
Pergunto ao vizinho, respondeu o pai, já derrotado. Entretanto apresento-vos: este é o João.
Levantou o filho do sofá, um rapaz que mal lhe dava pelo joelho.
Ó senhor, onde arranja esses músculos todos? perguntou o João, sem cerimónias nem boa tarde.
Somava sempre em coluna. respondeu Fábio, empilhando discos de halteres.
Bem, ponham-se a isso! O pai fugiu dali.
É mais forte que o Homem-Aranha?
O Homem-Aranha levanta duzentos quilos no supino?
João não percebeu a pergunta, mas sentiu que a resposta era não.
Não gosto de aulas, avisou logo o miúdo.
Só os fracos gostam de aulas. Nós vamos é tratar do six pack!
Fábio deitou-se no chão e começou com abdominais. João ficou à parte, à espera que o explicador desistisse. Mas passaram abdominais, pesos, elásticos, flexões e o homem parecia só aquecer.
Então, já fixaste? Queres ser forte ou preferes, como aquele mutante que desenhas, viver colado às teias?
João abanou a cabeça: forte estava melhor.
Ótimo! Agora faz três séries de quarenta e cinco menos trinta e nove abdominais. Começa já.
Isso dá quanto?
Descobre e logo me dizes!
Não havia berbequim, só achei uma furadeira, entrou o pai e vendo o filho a fazer flexões caiu em estado de choque. Pronto, eu volto mais logo…
***
No dia seguinte, às cinco e meia da manhã, toca o telemóvel. O pai, de olhos ainda presos no sono, levantou-se pronto para berrar todos os palavrões que sabia, mas ao ver a cabeça reluzente de Fábio no postigo conteve-se: aquilo não era para amadores.
Hoje temos geografia e história. Equipamento: ténis, t-shirt e calções. Vai ser corrida pelo bairro, estudar o terreno e a história local.
Ele ainda só vai no terceiro ano, ainda não tem isso bocejou o pai.
Inclui poesia também. Quer juntar-se?
Não, obrigado, safei-me no liceu.
Em que ano é que os mouros perderam o Castelo daqui? atirou Fábio.
Eh… Vou já acordar o rapaz, fugiu Vítor para o quarto de João.
Não acorda, está tipo pedra!
Veste-o que acorda ao caminho, sugeriu Fábio.
***
Assim foi três vezes por semana. Segunda: peito, tríceps, ombros, matemática, português. Quarta: costas, bíceps, literatura, inglês. Sexta: pernas, geografia, história.
Três semanas depois, João apareceu na cozinha sem t-shirt e o pai só não escondeu a barriga com a chaleira por estar demasiado surpreso. O miúdo ficou todo aprumado, corrigia a postura dos pais, envergonhava-os com o seu entusiasmo saudável.
Vítor, isto não me está a cheirar nada bem, resmungava a mãe ao jantar. Sabes o que é que o João me pediu para o aniversário?
Sei: uma PlayStation.
Não, uma barra de parede e uma liquidificadora. Estou a achar que esse Fábio não tem nada de explicador É outro treinador maluco capaz de nos dar um filho todo rachado.
Isso é exagero, até estudam matemática!
Viste um único manual nas mãos deles?
Vi uma tabela de calorias.
Pois, é tudo musculação. E tu sabes como são esses cromos do ginásio.
Como são o quê? Vítor boquiaberto.
Limitados, pá! O nosso filho vai acabar igual
Antes um parolo do fitness que um croma do Magalhães!
Quero um filho normal, se faz favor! Acabou-se a palhaçada.
Toca o telemóvel.
É a professora, sussurrava ela. Sim? O quê? Já vou aí.
Então?
O João envolveu-se numa briga. Vês? Eu não avisei?
Vou contigo.
***
De táxi, chegaram à escola. Foram direitinhos ao gabinete da diretora.
Olha que bonito! Explicador novo e já nos chamam ao gabinete.
Pais, filhos, psicóloga e professora juntos na sala. O escândalo era tal que até o piano da sala de música ficou desafinado.
Isto não é o ginásio! rosnavam as mães.
O que se passou, afinal?
A professora tomou a palavra:
O João obrigava os colegas a jogar gincana no intervalo e a contar pontos com frações.
Perdão?
A fazer elevações à vez com peso crescente, explicou João.
Quietos! Os outros não quiseram, João ameaçou…
Mas eles é que começaram, quiseram bater-me porque eu corrigi quando se enganaram a insultar.
Explicaste como?
Ensinando como declinar bronca e armado em esperto. Eles atacaram-me e defendi-me. Fábio diz sempre quando há energia a mais, faz-se mais repetições e se não queres barulho, ensina a dividir por frações, concluiu João, de cabeça baixa.
Disse-nos que da próxima vez nos fazia raízes quadradas! chorava um.
Este cromagnon não pode conviver com os nossos filhos! berrava uma mãe.
Calma, interveio Vítor. Houve pancada ou não?
Os queixosos abanaram a cabeça: que não.
Ou seja, o meu filho defendeu-se com matemática e barra fixa?
E obrigou ainda a correr e a recitar Camões!
Está a ver? E tu a dizer que ia ser parvo!
Quero pedir desculpa… disse a diretora, de repente.
Ele é que devia, ralhou um pai, apontando a João.
Não a vocês: aos pais do João. O vosso filho está de parabéns, mas perante tudo o que ouvi vai avançar de turma.
Pais bufavam de raiva, mas a diretora decretou:
Passa para o quarto ano, está claramente avançado.
O silêncio gelou tudo. Só se ouvia a inveja a mastigar os cérebros dos outros pais. Saíram da sala sem trocar olhares.
Ó Fábio, temos de falar… Ele sobe para o 4º, vai precisar de mais disciplinas, telefonou Vítor no corredor.
***
Uma semana depois, João já era oficialmente do quarto ano. Duas semanas e foi competir em crossfit, a preparar-se para a olimpíada da literatura juvenil. Um mês passado, um pai dos antigos colegas ligava a pedir o número do Fábio.
Não tardou a nascer ali uma mini-secção desportiva-académica, onde quem não fazia desporto era perdoado, mas notas más? Era logo afastado!







