Vencedora Sem Amor

A Vencedora Sem Amor

Pronto, Sérgio, acabou disse Dona Inês, colocando a chávena sobre o pires com aquele toque cerimonioso, como se fosse uma vitória.

Mãe, até parece que ganhaste um torneio de xadrez.

E não ganhei?

O filho olhava pela janela. Lá fora, Março era húmido e cinzento como uma toalha velha. Dona Inês acompanhou o seu olhar, mas nada de interessante encontrou.

Sérgio, estou a perguntar: não foi vitória?

Mãe, ela só foi embora, com uma mala. Não há nada para festejar.

Exactamente o que há para festejar. Foi com uma só mala. Chegou de mãos vazias, saiu de mãos vazias. Justo.

Ele finalmente virou-se. Dona Inês esperava ver qualquer coisa no olhar mágoa, zanga, quem sabe cansaço. Viu algo indecifrável, de que preferiu desviar-se.

A Beatriz também investiu dinheiro naquela casa disse ele baixinho Do dela.

A casa está em meu nome. Dei-a a ti, não a ela.

Eu sei em nome de quem está.

Então, qual é a dúvida?

Ele levantou-se, pegou no casaco no bengaleiro. Dona Inês reparou que deixara metade da fatia de bolo que ela tinha feito por ocasião especial. A tarte de maçã estava lá, esquecida.

Eu vou disse o filho.

Para onde?

Para qualquer lado.

A porta fechou-se sem estrondo. Silenciosamente. Como quem toda a vida tenta não fazer barulho, não partir, não incomodar. Dona Inês olhou a tarte, pegou no garfo e acabou o pedaço dele. As maçãs estavam ácidas, mas era acidez saudável. Caseira.

Sentou-se na cozinha do apartamento onde vivia há trinta e sete anos e achou que agora finalmente tudo deveria correr bem.

Dona Inês ia nos seus sessenta e três. Era uma mulher pequena e arrumada, com cabelos brancos sempre apanhados num coque. A reforma era razoável, pelas medidas de Coimbra. Fora contabilista quarenta anos, sabia fazer contas. Por isso, há cinco anos, quando o filho trouxe a Beatriz a casa, logo viu nela um cálculo qualquer.

Beatriz era de uma vila a três horas de viagem. Viera estudar, ficou a trabalhar, morava num quarto de pensão. Simples, reservada, com uma trança até ao meio das costas e o hábito de desviar o olhar quando falava. Dona Inês lia pessoas com facilidade. Leu Beatriz ao primeiro jantar: vinha pelo apartamento.

O filho dizia o contrário. Dizia que amava. Em geral, dizia pouco e Dona Inês filtrava tudo até chegar à resposta certa, que era sempre aquilo que ela própria pensava.

Viveram três anos no apartamento que Dona Inês passara em escritura para Sérgio aos vinte e oito, sob conselho do amigo advogado em caso de divórcio, é inatacável se não for bem comum. Na altura não pensava no divórcio. Pensava em prudência.

Beatriz pôs novas cortinas, o que Dona Inês achou atrevimento. Trocou o serviço de chá, e a sogra declarou que o antigo era de melhor qualidade. Beatriz convida-a duas vezes por semana para jantar, e Inês ia, comia, agradecia com reserva e ia-se embora sentindo algo errado.

Depois Beatriz remodelou a cozinha. Com o seu dinheiro frisado em conversas com o marido, nunca com Dona Inês. Ela soube depois, quando já estava tudo feito. Foi ver as paredes novas, móveis claros e cerrou os lábios.

Dona Inês, não gosta? perguntou Beatriz, sempre direita.

Está muito agradável, querida disse, com aquela entoação que fazia de muito agradável um sinónimo de horrível. Ambas perceberam. Mas Beatriz não disse nada. Sabia calar-se quando Dona Inês esperava escândalo e motivos para críticas.

O divórcio chegou ao quarto ano. Várias razões, nenhuma definitiva. Ou todas verdadeiras, mas nenhuma única. O filho foi-se distanciando. Ela pediu, ele acenava e recuava para a televisão. Dona Inês ouvia as lamentações do filho ao telefone, de dois em dois dias, concluiu: era hora. E disse-lho sem rodeios.

Sérgio, não podem viver assim. Nem tu, nem ela.

Talvez se resolva

Não se resolve. Só piora.

Depois veio o advogado. Depois os papéis. Depois este encontro na cozinha, tarte e Março à janela. Beatriz foi-se embora com uma única mala cinza. Caminhou até ao táxi sem olhar para trás.

Dona Inês pensou: perdeu. E sentiu-se aliviada, como depois de uma longa gripe quando finalmente passa a febre.

Sérgio Correia tinha trinta e quatro anos. Engenheiro civil, bem empregado, nunca falava de dinheiro por iniciativa. Dona Inês sentia orgulho amor, possessividade e algo que não sabia nomear. Criou-o sozinha desde que o marido partiu, quando Sérgio tinha oito anos. Desde então, eram só os dois, o que lhe parecia o certo.

Aos dezenove, percebeu que ele sabia estar sozinho não no bom sentido: não sabia exigir, não fazia ondas, só consentia e calava. Inês apelidou de educação e sossegou.

Depois do divórcio, Sérgio viveu um mês sozinho. Depois telefonou conhecera uma tal Leonor.

Onde conheceste?

No trabalho.

E que tal?

Boa pessoa. Vens conhecê-la?

O encontro foi num café, não em casa sinal que ela notou, mas não soube interpretar. Leonor era sete anos mais nova. Trabalhava numa agência de publicidade, vestia-se com ousadia, sabia bem o que queria da vida e do empregado.

Dona Inês Leonor cumprimentou de mão firme, como quem manda no encontro. Ouvi muito sobre si.

Do Sérgio?

Do Sérgio.

Espero que bem respondeu Dona Inês, com um sorriso calculado.

Um pouco de tudo Leonor abriu o menu.

Dona Inês sentiu uma pontada no peito, que atribuiu à corrente de ar.

Leonor era bonita. Não como Beatriz, tímida, mas com uma beleza que sabia dominar. Olhos pretos, cabelo escuro, batom sempre no ponto. Também sabia calar-se, mas era silêncio de análise; o de Beatriz era de paciência.

Quatro meses depois, casaram-se. Dona Inês soube por telefone, numa quarta à noite.

Casámos hoje.

Hoje?

Sim. Não quisemos grandes festas.

Parabéns.

Desligou e ficou dez minutos em silêncio. Regou as plantas, foi dormir. De manhã, tudo parecia normal.

Leonor mudou-se na semana seguinte. Trouxe muitas coisas, apesar de pequena. As caixas ocuparam o corredor. No dia seguinte, Dona Inês reparou que as cortinas postas por Beatriz já tinham ido para o lixo.

Leonor, e as cortinas velhas?

Para o lixo respondeu ela da cozinha.

Mas eram quase novas!

Não são do meu gosto.

Fim de conversa. Dona Inês ficou calada, pela primeira vez sem planos para dizer o que pensava.

Nos primeiros meses, vinha muitas vezes. Leonor não a mandava embora, mas sabia criar aquele ambiente em que a visita se sente a mais. Não parava o que fazia, não oferecia chá. Respondia curto. Dona Inês começou a sentir-se desconvidada na casa que ela própria dera ao filho.

Sérgio, na sua presença, tornava-se ainda mais calado. Servia chá, acenava e olhava para a esposa com aquele cuidado de quem evita desconforto. Dona Inês percebia, mas não punha nome o mais correcto seria medo, mas não dizia.

Em Outubro, Leonor mudou as fechaduras. Sérgio avisou:

Mãe, mudámos as fechaduras. Quando quiseres vir, avisa antes.

Para quê mudar?

A Leonor diz que é mais seguro.

Mais seguro de quem?

Silêncio. Longo e incómodo.

Mãe, toda a gente faz isso.

Dona Inês tivera a chave daquela casa por vinte anos: primeiro dona, depois mãe sempre bem-vinda. No mesmo dia, tirou a chave do porta-chaves e guardou-a numa gaveta. Continua lá.

A noite de Ano Novo sempre se fazia em casa de Dona Inês. Havia saladas, peixe frito, pinheiro em canto da sala, como na tradição da mãe dela. Era ritual.

Em Novembro, Leonor informou:

Este ano vai ser em casa dos meus pais, em Lisboa.

Em Lisboa?

Toda a família dela lá.

E eu?

Mãe, perceba não dá para estar em todo o lado.

Dona Inês passou o Ano Novo sozinha. Mesa posta para uma, espumante aberto pouco antes da meia noite, viu o discurso do Presidente, brindou à televisão, lavou a loiça e deitou-se logo depois.

De manhã ligou ao filho. Ele atendeu à terceira chamada, sonolento.

Feliz Ano Novo, mãe.

Feliz Ano Novo, Sérgio. Como estão?

Tudo bem. Foi animado. Mãe, posso ligar mais logo? A Leonor ainda está a dormir.

Claro, claro.

Aquele claro soou como nunca. Mas ele já desligara.

Em Fevereiro, Leonor apareceu em casa de Dona Inês sem avisar, pronta, saltos altos. A sogra abriu a porta, surpreendida.

Entra. Queres chá?

Aceito.

Sentaram-se na cozinha. Leonor observava tudo com ar de planeamento.

Dona Inês, gostava de falar abertamente.

Fala.

O Sérgio liga-lhe todos os dias.

É meu filho.

Percebo, mas é demais. Uma hora por dia, todos os dias. Afecta a nossa rotina. Acho que devia ser menos frequente.

Dona Inês deitou água nas chávenas, mãos seguras.

Leonor, o Sérgio é adulto. Decide ele quando liga.

Claro. Mas um adulto vive com a família dele.

Eu também sou família.

É a mãe dele. É diferente.

Olharam-se em silêncio, o chá arrefecia.

Entendi disse Dona Inês.

Óptimo respondeu Leonor, terminando o chá como se nada fosse.

Depois da visita, Dona Inês ficou à janela a pensar em Beatriz esta nunca afrontava assim. Dizia ou fazia coisas menos acertadas, mas nunca de forma dura.

A frequência dos telefonemas do filho diminuiu. Primeiro em dias alternados, depois só de vez em quando. Nunca reclamou. Começou a ligar menos. Ouvia sempre ao fundo a voz decidida da nora.

Leonor trabalhava em publicidade e ganhava bem ouvia-se pela ênfase do filho, um tom parecido com dependência. Comprava aparelhos, levava-o em viagens. Era acção permanente, que engolia todo o espaço à volta de Sérgio.

Na Primavera, Dona Inês apareceu de surpresa. O filho abriu a porta, e o seu rosto confirmou o que ela já intuía.

Mãe, sabes que era melhor avisares.

Ia a passar, resolvi subir.

A passar?

Vivo a dez minutos.

A Leonor está a trabalhar em casa. Não pode ser interrompida.

Não vim para ela. Vim para ti.

Sentou-se na cozinha. Leonor nem saiu do quarto. Meia hora depois, despediu-se foi a última vez que entrou sem avisar. Não porque ele pedisse. Porque não queria ver-lhe aquele olhar à porta.

O Verão passou calmo. Dona Inês ia à quintinha, plantava tomates e pepinos, levou os netos da vizinha à praia. Netos seus, não tinha Leonor dizia que era cedo, carreira em primeiro. Inês não discutia.

Em Setembro, aconteceu algo a que só depois chamou acaso, se bem que acasos em cidades pequenas como Coimbra não existem.

Vinha do mercado, pela Avenida Fernão de Magalhães, com sacos, passos lentos. Viu Beatriz à porta de um escritório, ao telefone. Usava um casaco azul escuro, cabelo curto. Ria-se, não o riso antigo este era solto, real.

Dona Inês parou. Deveria passar adiante, mas ficou.

Beatriz deu por ela, desligou e veio cumprimentar.

Dona Inês.

Beatrizinha chamou-a, surpreendida por usar o diminutivo que nunca pronunciara antes.

Está com óptimo ar disse Beatriz. Soava como cortesia, mas era verdade.

Tu também.

Agora diferente. Algo mudara na postura, no olhar, não havia hesitação.

Trabalhas aqui? apontou Inês.

Sou gerente. Abri o meu próprio gabinete de design de interiores há meio ano.

O teu negócio?

Sim.

Como arranjaste dinheiro? saiu sem pensar, mas Beatriz foi serena.

Trabalhei três anos em dois empregos, guardei. Comprei um apartamento no ano passado. Pequeno, mas meu.

Os sacos pesaram mais, fisicamente.

Compraste?

Um T1, na Estrada de Lisboa. Chega-me.

Vives sozinha?

Sim. Gosto.

Silêncio. Carros seguiam na avenida, crianças riam ao longe.

Beatrizinha começou Dona Inês, sem saber para onde iria a conversa.

Dona Inês interrompeu Beatriz suavemente tenho uma reunião dentro de dez minutos.

Claro.

Tudo de bom.

Para ti também.

Beatriz rumou ao escritório. À porta, olhou para trás uma vez, serena, o olhar de quem já decidiu tudo há muito.

Dona Inês foi para casa, arrumou as compras, lavou as mãos, fez sopa, lavou a loiça, sentou-se à janela.

Comprou apartamento. Um t1 na Estrada de Lisboa. Negócio próprio. Aos poucos, tudo a pulso.

Dona Inês sentia-se vencedora a casa continuava deles, o filho também. Beatriz saíra sem nada.

Mas o filho agora telefonava uma vez por semana. Ou de dez em dez dias. E o Ano Novo era de novo passado em Lisboa, com a família de Leonor.

Beatriz comprou apartamento.

Deitou-se sem acender a luz. O escuro era agora mais confortável.

Em Outubro, Leonor disse a Sérgio que queria ir para Lisboa Coimbra era pequena, a empresa dela oferecia promoção na sede.

Sérgio ligou à mãe ao domingo, após almoço.

Mãe, temos de conversar.

Diz.

Eu e a Leonor talvez nos mudemos.

Para onde?

Para Lisboa, pelo trabalho dela.

Dona Inês ficou calada, estranhamente calada.

Para quando?

Não sabemos. Quis que soubesses primeiro.

Obrigada por avisares.

Não fiques assim.

Assim como?

Fria.

Sérgio, não estou fria. Só estou a ouvir.

Pausa.

Mãe, nós podíamos arrendar a casa, assim rendia algum. E podias ir controlando os inquilinos.

Dona Inês entendeu: inspecionar casa alheia, sem chave própria.

Vou pensar.

Ok, mãe. Não fiques triste, Lisboa é perto, duas horas no Alfa. Vamos visitar.

Claro.

O claro soou a nunca, mas ele não percebeu.

Em Novembro, o frio chegou depressa. Dona Inês foi ao mercado das conservas, encontrou a amiga Olga. Tomaram um cházinho no café ao pé das bancas das frutas e conversaram uma hora.

A amiga contou dos netos, quinta, marido que precisava de termas. Por fim, perguntou:

E tu, Inês? O Sérgio, a nova mulher? Adaptou-se?

Adaptada está. Vão para Lisboa.

E tu não vais?

Não.

Olga abanou a cabeça com aquele silêncio comunicativo de quem diz tudo sem uma palavra.

Inês, não tens pena?

De quê?

Da Beatriz. Era uma rapariga tão calma.

Calma, sim. Mas queria a nossa casa.

Achas mesmo?

Dona Inês pousou o copo.

Vi-a na outra semana.

Então?

Comprou apartamento. Negócio próprio. Vai bem.

Olga olhou-a longamente. Nada de julgamento, só observação. Dona Inês desviou o olhar.

Então afinal não era pela casa disse Olga, baixinho.

Deixa estar, Olga.

Não faço juízos, só falo.

Não sabes como era lá em casa. O que se passava, como ela era.

Talvez não. Só vejo que hoje estás sozinha em Novembro no mercado, e o Sérgio vai para Lisboa.

Dona Inês voltou a pé, para pensar. Andar dava ilusão de rumo.

Dezembro chegou com neve. Dona Inês enfeitou a árvore sozinha bolas de vidro, luzes, como sempre bonita.

Sérgio ligou dia 23 viriam dia 31, só de manhã.

Depois vamos para casa dos pais da Leonor.

Percebi.

Mãe, não fiques magoada.

Fico feliz que venham. Faço tarte de maçã.

Vieram às onze em ponto. Leonor num casaco bonito, com um saco de presentes. Pousou na mesa, sem grande cerimónia. Sérgio abraçou a mãe. Tomaram chá, Leonor sempre ao telemóvel, atarefada.

Leonor, tarte?

Obrigada, não como farinha.

Sérgio?

Claro, mãe.

Comeu duas fatias. Dona Inês notou: talvez um dos últimos serões na cozinha. Porque Lisboa. Porque a vida vai onde quer.

Antes da uma, partiram. À porta, Leonor olhou para Dona Inês demoradamente. Algo no olhar, que ela não entendeu.

Dona Inês disse Leonor a sua tarte é óptima. A senhora é boa dona de casa.

Obrigada.

Leonor sorriu levemente e saiu. Sérgio deu-lhe um beijo.

Até logo, mãe.

Até logo, filho.

A porta fechou-se. Dona Inês limpou a mesa, guardou a tarte, lavou a loiça, ligou a televisão sem ver. Voltou a passar o Ano Novo só. À meia-noite, brindou à TV, olhou para a árvore. As luzes brilhavam tranquilas.

Em Janeiro, Sérgio avisou mudavam-se em Março; a casa não seria arrendada, ficava fechada. Ela acenou pelo telefone.

Fevereiro passou sem novidade. Compras, cozinha, televisão, Olga às vezes, visita ocasional à vizinha da quinta. Um corte de cabelo, mas manteve o coque.

No início de Março, com neve ainda nas ruas, Dona Inês ligou a Beatriz.

Sabia o número de cor memória de contabilista.

Chamadas longas. Ia desistir, quando:

Estou?

Beatrizinha, sou a Dona Inês.

Pausa. Não de zanga, só pausa.

Boa noite, Dona Inês.

Boa noite. Queria perguntar se podíamos encontrar-nos.

Nova pausa. Dona Inês olhava para rua derretida de Março.

Para quê? perguntou Beatriz, não áspera, só objectiva. Sempre foi assim.

Para falar. Só isso.

Pausa longa. Dona Inês pensou que viria recusa. E ela teria razão.

Podemos sábado. No café da Fernão de Magalhães, conhece?

Encontro, sim.

Ao meio-dia.

Ao meio-dia repetiu Dona Inês. Obrigada, Beatrizinha.

Até lá disse Beatriz. Mais nada.

No sábado, Dona Inês chegou cedo, escolheu mesa à janela. Pediu chá. Viu as pessoas apressadas na rua de Março, sem casacos.

Beatriz chegou a horas, no casaco azul. Cabelo curto, moldado na humidade. Sentou defronte, tirou o casaco, pousou a mala.

Bom dia.

Olá, Beatrizinha. Obrigada por vires.

O que me queria dizer?

Dona Inês agarrou a chávena. Pousou. Pegou outra vez.

Queria pedir desculpa disse. Em vários aspectos. Não em todos, mas muitos.

Beatriz esperou.

Pensei mal de ti. Antes de fazeres ou deixares de fazer. Fui injusta.

Beatriz nada disse.

Acreditei que só querias a casa. Que não gostavas do Sérgio. Que era cálculo teu.

E ainda pensa assim?

Não respondeu Dona Inês, devagar. Não. Vi-te em Setembro, na avenida. Vi como eras diferente. Só querias uma família e uma casa. Como qualquer um.

Beatriz olhou para o lado. Um pombo chapinhava na poça.

Dona Inês disse, baixo É bom ouvir, a sério. Mas não sei o que espera que eu faça agora.

Não peço nada. Só precisava dizer. Para mim, não para ti.

Beatriz olhou sem pena ou vaidade. Com uma terceira coisa, cujo nome Inês desconhecia.

O Sérgio, como está? perguntou.

Mudam-se para Lisboa. Ela trabalha lá.

Entendo.

Não é como tu. É diferente.

Melhor ou pior?

Dona Inês pousou a chávena.

Não sei respondeu sinceramente. Foi das respostas mais francas em anos.

Beatriz sorriu, de canto. Sem ironia, só sorrindo.

Precisa de alguma coisa? Quer ajuda, ou…?

Não, nada. Só isto.

Então tenho de ir. Tenho reunião.

Força.

Beatriz levantou-se, pegou na mala, procurou na carteira.

Eu pago disse Inês.

Não precisa.

Deixa-me fazer.

Beatriz hesitou e aceitou.

Está bem.

Ao sair, parou:

Dona Inês, já não dói. Há muito. Gostava que soubesse.

Fico contente.

Não por si. Por mim. Não guardo mágoa, não porque tivesse razão, mas porque é melhor para mim.

Dona Inês acenou. Faltaram-lhe palavras.

Tudo de bom despediu-se Beatriz.

Igualmente, querida.

Viu-a cruzar a rua, direita, sem pressa. Parou junto ao escritório, usou o telemóvel e desapareceu na esquina.

Paga a conta, Inês saiu. O cheiro a Março e neve derretida era-lhe familiar da infância. Março cheirava a possibilidades.

Caminhou pensando no dia em que Beatriz saiu com a mala cinzenta. Ficou à janela convencida da vitória.

E Beatriz caminhava sem pressa, sem olhar para trás. Parecia dignidade de derrotada, pensou então. Hoje sabe que era outra coisa.

Chegou ao apartamento, subiu ao terceiro andar. Abriu com a sua chave. Lá dentro, a mesma paz que a recebia há anos, em cada sexta-feira, cada dia de Ano Novo. Um silêncio íntimo, dela.

Arrumou o casaco, foi à cozinha e pôs água a ferver.

Março derretia lá fora. O monte de neve junto à porta estava quase a desaparecer; uma vassoura rota, esquecida em Outubro, já à mostra. Dona Inês olhou e pensou em silêncio.

O chá pronto, bebeu devagar, sentiu o calor nas mãos.

Aqui está a vitória: a casa ainda é sua, o filho vai para Lisboa, a nora mudou as fechaduras e levou as tradições com ela. A primeira nora partiu sem nada, mora agora no seu T1 na Estrada de Lisboa, negócio próprio, rindo ao telemóvel.

Dona Inês não era ingénua. Quarenta anos de contas treinam o olhar para o balanço final.

O saldo era este: sozinha com um chá na cozinha.

Não por falta de quem ligar. A amiga Olga, a vizinha, há sempre o filho longe, mas existe. Sente-se só porque a casa se habituou ao silêncio. Deixou de lembrar a última vez que alguém apareceu sem razão.

Beatriz entrava sem razão. Levava pãezinhos da padaria do mercado, agora fechada. Ninguém lhe pedia, ela trazia. E dizia: Dona Inês, são de couve, que gosta tanto. Inês comia e pensava no cálculo da rapariga.

Bebeu o chá até ao fim. Lavou a chávena, secou as mãos no pano de galos que comprara na Feira da Figueira.

Pegou no telefone e ligou ao filho. Não tinha nada para dizer. Só porque sim.

Mãe? Tudo bem?

Tudo, Sérgio. E por aí?

A empacotar tudo. E tu?

Bem. Só te quis ligar.

Está bem. Posso devolver a chamada mais logo? Estamos atrapalhados com as caixas.

Claro, tratem disso.

De certeza que está tudo bem?

Está, sim, filho.

Óptimo. Beijinhos.

Desligou. Março lá fora, vassoura na neve, silêncio.

Sentou-se no sofá, abriu um álbum antigo. Uma foto do Sérgio aos oito anos, na quintinha, com cana de pesca, cara séria. Ao lado, ela própria, ainda nova, a rir. Sabia rir, então. Depois esqueceu sem saber quando.

Uma página adiante: Sérgio aos vinte e oito, ao lado de Beatriz, ambos de mãos dadas mas não agarrados, só juntos.

Fechou o álbum. Devolveu à gaveta.

Anoitecia, não acendeu a luz. Sentada na penumbra, escutava o silêncio.

Beatriz dissera: já não dói. Não guardo mágoa não por ter razão, mas porque assim vivo melhor.

Talvez aí esteja toda a diferença. Beatriz fazia para si, Dona Inês para o filho. E no fim, Sérgio vive em Lisboa e ela em casa, à meia-luz, com o álbum.

Dona Inês nunca chorava por estar só. Nem agora. Só chorou quando o marido partiu; três dias, depois pegou em Sérgio e foi ao cinema. Nunca mais chorou por isso.

Acendeu a luz, foi à cozinha, cortou fatia de tarte de maçã.

Lá fora noite escura, luz de candeeiro fazia parecer a rua quase acolhedora.

Comeu a tarte olhando a rua. Pensou em telefonar à amiga Olga sábado. Talvez irem ao café ou ao parque, se estiver bom tempo.

Pensou que a quinta precisava ser arranjada no início da Primavera. Pequena, mas dava bons tomates, que até a vizinhança encomendava mudas.

Depois, pensou simplesmente em nada. Mastigava tarte olhando a luz laranja.

O telefone ficou quieto. O filho não voltou a ligar. Devia ter-se esquecido, com as caixas e a azáfama da mudança.

O gato da vizinha miou do outro lado da parede. Depois calou-se. O aquecedor bateu. Vida normal.

Pensou que amanhã talvez fosse ao mercado, ver se já vendem mudas. Ou talvez ainda não.

Lavou o prato, apagou a luz da cozinha, foi para o quarto.

Antes de dormir, sempre lia um pouco. Um policial a meio, marcador na página certa. Leu vinte minutos. Releu a mesma página três vezes sem reter nada.

Fechou o livro, deixou na mesa de cabeceira, apagou a luz. Ficou no escuro.

Beatriz a andar na avenida, casaco azul, tranquila.

Há três anos também saia com a mala cinzenta. Igual, sem pressa. Dona Inês olhava da janela, achando que havia dignidade na derrota.

Agora pensa que Beatriz já saberia algo que ela não sabia. Talvez não pensasse no que deixava, mas onde ia chegar.

Dona Inês não sabia olhar para a frente só via o que tinha mantido, defendido. O balanço.

Agora o saldo: apartamento existe, filho existe, vida continua.

Apenas muito sossego.

Vira-se na cama, fecha os olhos.

Fora, Março prepara-se para a noite. A vassoura na neve vai derretendo, talvez em Abril desapareça. A Primavera chega sempre, queira-se ou não.

Talvez um dia passe de novo na avenida e veja o escritório de Beatriz. Não de propósito, só ao acaso. Ver if funciona. Deve funcionar. Beatriz nunca deixou trabalho a meio.

Trabalhar bem foi sempre dela. Só que Dona Inês deu outro nome na altura.

Demorou a adormecer, ouvindo o silêncio daquela casa que sempre foi sua, só sua, durante tanto tempo.

O gato da vizinha tornou a miar. Depois silêncio.

Dona Inês deitada, pensando, sem pensar, até os pensamentos acalmarem, ficarem lentos. Como eléctrico a chegar à última paragem, devagar.

E nessa lentidão, quase havia paz. Nem boa, nem má. Só como é, quando tudo já aconteceu, e agora é preciso continuar.

E disso, Dona Inês sempre foi capaz. Isso ninguém lhe tirava.

De manhã acordaria às sete, por hábito. Liga a chaleira. Olha pela janela. Março a derreter.

Em outra ponta da cidade, no T1 da Estrada de Lisboa, Beatriz também acordava. Talvêz mais cedo, talvez mais tarde. Punha a chaleira dela, olhava pela janela dela.

E ambas olhavam o mesmo Março. A mesma neve derretida, o mesmo céu a clarear.

Só de janelas diferentes.

Por fim, Dona Inês adormeceu a sério.

À sua volta, a noite tranquila de Março.

E no silêncio, há sempre um novo dia à espera, para quem aprende a viver mesmo depois das vitórias.

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