Um idoso abastado organizou um desafio inédito para os seus filhos e netos: escondeu dinheiro e deixou uma série de pistas para ser descoberto.

Era perto das oito da manhã quando toda a minha família se reuniu no cartório em Lisboa, cada um carregando aquela expectativa de que finalmente iriam partilhar da herança deixada por um tio abastado. Como o notário se atrasava, a ansiedade aumentava a olhos vistos. A minha irmã mais velha, Leonor, estava especialmente nervosa, desejosa de saber se o nome dela constava no testamento. Vá lá, tia Eugénia, mostra algum respeito. Estamos aqui porque o nosso pai já cá não está…, atirou o meu irmão Manuel.

Não me chames de tia, ainda sou nova. Usa o meu nome próprio, respondeu Eugénia, sentindo-se tocada no orgulho. É curioso como achas que maquilhagem e uns retoques no rosto ainda te conservam na juventude, ironizou Manuel, já meio farto da conversa.

Finalmente, o notário apareceu e entrou de forma apressada no gabinete. Olhou à volta, pegou numa pasta sobre a secretária antiga de madeira, tradicional cá no país, limpou a garganta e perguntou: Estão todos prontos para ouvirem a leitura do testamento? Todos acenaram em silêncio, num misto de nervosismo e curiosidade. Com um sorriso travesso, o notário começou a ler o derradeiro desejo do meu pai.

A todos vos deixo a minha herança. Mas nem todos a poderão receber. Decidi organizar uma verdadeira caça ao tesouro, como a minha mãe fazia comigo e com os meus irmãos nas tardes de Verão, lá no nosso aldeamento em Trás-os-Montes. Era um tempo complicado, pouco dinheiro e muita alegria, mas eu, como filho mais velho, herdei um velho baú. A vossa fortuna está guardada lá dentro mas apenas o mais atento poderá levar a chave. Escondi-a em algum lugar da nossa antiga casa, mas não será fácil encontrá-la. Por isso, desejo-vos boa sorte!

Ficámos todos em silêncio, digestão feita à força do desafio lançado pelo meu pai, mesmo depois de ter partido. Quem diria? A família toda presa num jogo inventado pelo velho…

A calma não durou muito. Eugénia, sempre apressada, anunciou: Eu, o meu marido José e os miúdos vamos já para a aldeia procurar a chave. Quem se junta a nós?

Eu e o Manuel não vamos andar atrás de baús nem chaves. Conhecendo bem o nosso pai, é impossível que seja tudo assim tão simples. Há de haver mais qualquer coisa escondida. Não estamos aqui pelo dinheiro, respondeu a Leonor, inabalável.

Enquanto Eugénia, o marido, os filhos e mais alguns primos seguiram para Trás-os-Montes, eu fiquei pelo cartório, a pensar. Entretanto, pelo que soube depois, reviraram o palheiro, espreitaram debaixo das telhas, perderam-se pelo curral a olhar para as ovelhas do vizinho, tudo isto enquanto as mulheres da aldeia trocavam olhares curiosos e os miúdos gozavam com aquele desfile citadino. A certa altura, a roupa da Leonor, comprada no Chiado, mais parecia um trapo depois de cair sobre os picos da sebe.

Depois de muito esforço, Eugénia conseguiu encontrar a chave, escondida atrás da pintura do avô. Abriram o baú com aquela solenidade própria de quem espera encontrar barras de ouro, e depararam-se apenas com um bilhete e uma pilha de rebuçados coloridos.

Todas as minhas poupanças foram doadas a instituições de solidariedade. Aquilo que vos deixei é exactamente o que realmente merecem. Obrigado por levarem alegria aos meus conterrâneos, dizia o bilhete escrito pela mão trémula do meu pai.

No fim do dia, aprendi que o verdadeiro valor das recordações e o espírito de família não cabem dentro de nenhum baúnem mesmo daqueles cheios de rebuçados. E que, em Portugal, uma partida bem jogada permanece o maior tesouro de todos.

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Cheguei de surpresa ao encontro do meu marido e logo percebi por que ele costuma ficar até mais tarde no trabalho