Já não estou cá
Compraste outra vez essa porcaria? Augusto pôs o saco em cima da mesa com tanta força que qualquer coisa tilintou lá dentro. Eu já te disse: nada desse Veludo. Caro e inútil.
Beatriz Augusta estava à janela, a olhar para o pátio. Lá em baixo, a filha dos vizinhos, de uns sete anos, corria atrás dos pombos, que levantavam voo num alvoroço, dispersavam, e logo voltavam a pousar no alcatrão como se nada fosse. Beatriz observava o vai-e-vem e pensava que não se lembrava da última vez que tinha comprado alguma coisa simplesmente porque lhe apetecia. Só porque sim.
É creme para as mãos, Augusto. Custa três euros e oitenta cêntimos.
Três euros e oitenta são três euros e oitenta. Já não sabes contar?
Beatriz não respondeu. Virou-se, pegou no saco, tirou o pequeno frasco de tampa dourada e deixou-o no parapeito da janela, ao lado do vaso de gerânio. O gerânio já não dava flor há meses. Beatriz andava para descobrir porquê, mas nunca arranjava tempo.
Beatriz. Estou a falar contigo.
Estou a ouvir, Augusto.
Foi para a cozinha, abriu o frigorífico e começou a pensar no jantar. Ouvia atrás de si os passos pesados e regulares do marido, depois o barulho seco da porta do escritório a fechar. Suspirou.
Tinha cinquenta e oito anos. Vivia em Coimbra, num T3 na Rua da Liberdade, casada com Augusto Manuel Oliveira há vinte e nove anos. Tinham um filho já crescido, Tomás, a viver em Braga, a ligar ao domingo, quando se lembrava. Uma casinha na Figueira da Foz, o carro que só Augusto conduz, um emprego na biblioteca municipal, onde Beatriz trabalhava há dezoito anos.
A vida existia. Ninguém lha arrancava.
Pegou num peito de frango, pousou-o na tábua, apanhou a faca. Lá fora, já não havia menina e os pombos tinham levantado voo. O pátio restava vazio e cinzento, a relva do ano passado crescia por entre as fendas do cimento.
Beatriz percebeu que estava ali, de faca na mão, sem cortar nada. Só parada.
Largou a faca, foi até à janela, abriu o frasco de creme. O cheiro era suave, com um leve toque floral. Esfregou um pouco no dorso da mão. A pele absorveu depressa; ficou uma estranha sensação de toque quente, como se alguém tivesse apertado a mão dela por um instante.
Fechou o frasco e voltou a preparar o frango.
Aquela noite foi igual às outras. Augusto comeu calado, viu o telejornal, deitou-se cedo. Beatriz ficou um bom bocado sentada na cozinha, com um chá já frio, a folhear uma revista velha de jardinagem. Não lia de facto. Só se mantinha ali.
Na manhã seguinte, chegou à biblioteca e encontrou Lourdes Carvalhosa, detrás da estante das revistas, de olhos vermelhos.
Lourdes, o que é que se passa?
Lourdes Antunes tinha três anos a mais que Beatriz, era a mais antiga da biblioteca, conhecia o lugar de cada livro de cor e nunca a vira chorar.
Nada, nada desvalorizou Lourdes, tirando o lenço do bolso. Desculpa. Coisa de casa.
Se quiseres contar…
Não há nada para contar. Assoou-se, enfiou o lenço de volta no bolso. A minha filha ligou-me ontem. Disse-me, “mãe, estás ultrapassada”. Assim mesmo. Ultrapassada.
Como assim?
Assim mesmo. Tentei aconselhá-la, à minha maneira, como se fala entre gente normal. Ela responde, “mãe, esses conselhos são do século passado, não percebes como as pessoas vivem agora”. Lourdes endireitou a pilha de revistas. Se calhar tem razão.
Não tem disse Beatriz.
Como sabes?
Beatriz não encontrou resposta. As duas ficaram lado a lado em silêncio, um cheiro de papel velho e madeira enchia o ar. Depois lá seguiram cada uma para o seu posto.
À hora de almoço, Beatriz saiu para a rua. Abril estava fresco mas luminoso. Caminhou até ao largo, sentou-se num banco e fechou os olhos. Os pálpebras deixavam entrar um laranja quente do sol. Pensou em Lourdes, na filha dela, na palavra ultrapassada.
Pensou em si.
Beatriz Augusta Oliveira, de solteira Costa, nascida em Coimbra, 1966. Licenciou-se na Faculdade de Letras, casou-se tarde para a época: vinte e nove anos. Augusto, engenheiro, parecia-lhe sólido. Um ano depois nasceu Tomás. Beatriz ficou de licença, voltou em part-time, cuidou da mãe quando precisou, chegou a levá-la lá para casa, e depois depois voltou ao trabalho. A vida organizava-se. Discretamente, sem grandes sobressaltos.
Mas nessa arrumação toda, perdera-se algo que não sabia nomear. Sabia apenas que faltava. E já faltava há muitos anos.
Abriu os olhos. Em frente ao banco, uma ameixeira cheia de pequenas flores brancas, quase etéreas. Beatriz recordou que não desenhava há pelo menos trinta anos. Nessa altura, na faculdade, desenhava só porque sim, com pastéis. Depois faltou tempo, depois ficou o embaraço, depois esqueceu.
Pegou no telefone e ligou ao filho. Tomás atendeu ao terceiro toque, com voz apressada.
Olá mãe, tudo bem?
Tudo, só queria ouvir-te.
Olha, estou mesmo a entrar numa reunião, posso ligar mais logo?
Claro. Liga quando puderes.
Ele não ligou. Também era costume.
Beatriz acabou o turno às seis, comprou pão na padaria, voltou a casa a pensar que fazia aquele percurso há dezoito anos, todos os dias, conhecia cada buraco na calçada, cada esquina.
Augusto já lá estava, ao computador. Ela tirou o casaco, foi à cozinha.
Queres jantar?
Mais logo.
Pôs água ao lume, encontrou sopa no fundo do frigorífico. Enquanto aquecia, olhou para o creme, ali no parapeito. O frasco pequeno, bonito. Beatriz pensou que Augusto tinha razão, três euros e oitenta cêntimos para quê.
Mas o cheiro era bom.
E deixou-o ficar.
Duas semanas passaram, tudo igual. Até que, numa manhã, entrou na biblioteca uma mulher nova.
Beatriz viu-a logo: devia ter uns quarenta e cinco anos, casaco cor-de-vinho, cabelo curto, postura firme. Dirigiu-se ao balcão e pediu para se inscrever estava interessada em livros de psicologia e pintura, especialmente aguarelas.
Aguarelas? repetiu Beatriz.
Sim. Em criança gostava de pintar, quero voltar a tentar.
Preencheu-lhe o cartão, indicou as estantes certas. A mulher andou decidida entre os corredores, retirava livros, folheava, voltava a arrumar, recomeçava. Beatriz espreitava e sentia qualquer coisa diferente nela. Uma segurança serena, de quem está tranquilo consigo próprio.
Meia hora depois, com dois livros na mão, perguntou:
Costuma ler algo disto?
Acenou com a cabeça para a estante de psicologia.
De vez em quando.
E trabalha aqui há muito tempo?
Dezoito anos.
A mulher olhou a Beatriz atentamente. Não em julgamento antes, em escuta verdadeira.
É muito tempo.
É.
Gosta?
Beatriz deixou o silêncio instalar-se por um segundo. A pergunta era simples; a resposta, nem tanto.
Gosto. Gosto dos livros, das pessoas. O sítio já é uma espécie de casa.
Uma casa repetiu ela, como que a pesar o termo. Compreendo.
Levou os livros e saiu.
Na semana seguinte, voltou. Entregou um dos livros e pediu sugestões para pintar aguarelas. Beatriz encontrou um álbum de reproduções, mostrou-lho. Ela aceitou, agradeceu e, de repente, perguntou:
Não quer experimentar?
Experimentar o quê?
Pintar. Vou a um workshop de aguarelas todos os sábados. Grupo pequeno, despretensioso. Venha.
Beatriz preparava-se para recusar. Já abria a boca, mas saiu:
Onde é?
A mulher escreveu numa folha: Atelier Luz Clara, Rua Fernandes Tomás, sábado, onze da manhã.
Beatriz olhou para o papel durante horas. Meteu-o na algibeira do avental, depois no parapeito ao lado do creme. Augusto nunca perguntou pelo papel. Aliás, pouco perguntava exceto sobre despesas ou tarefas da casa.
Na sexta ao jantar avisou:
Amanhã de manhã vou a um workshop de pintura. Aguarelas. Uma leitora nova da biblioteca convidou-me.
Augusto ergueu os olhos do prato.
Onde?
Na Fernandes Tomás.
E quanto é que isso custa?
Ainda não perguntei.
Pois. Vai, se não tens mais nada que fazer.
Beatriz fitou-o. Ele já olhava para o prato. Recordou-se das frases de sempre: outra vez, para quê, quanto custa, não tens nada?
Vou respondeu apenas.
No sábado, levantou-se às oito, lavou-se, vestiu um camisola cinza e calças azul-escuro. Olhou-se ao espelho com atenção há muito que não o fazia. Viu um rosto envelhecido mas vivo. Os olhos estavam cinzentos e despertos; os cabelos, já grisalhos mas fartos. Passou a mão, tentou um penteado novo. Abriu o creme, usou nas mãos, também um pouco no pescoço.
Saiu às nove, sem pressa.
O Atelier Luz Clara ficava no segundo andar de um prédio antigo, fachada banal mas interior renovado: paredes brancas, chão de madeira, janelas grandes. Subiu as escadas e entrou.
A leitora nova, Mafalda, já estava. Mais quatro mulheres, idades várias, e um homem forte e de bigode, por volta dos cinquenta. Todos em volta de uma mesa, copos de água e papéis à frente.
Beatriz! Mafalda acenou. Que bom que veio!
Sentou-se ao lado dela. A orientadora, uma rapariga chamada Vanda, explicou: iam pintar um ramo de lilases. Beatriz pegou no pincel a mão tremeu ligeiramente, não de nervosismo mas de inexperiência.
Não pensem que tem de sair bonito disse Vanda. Pensem na água e nas cores. Só isso.
A primeira pincelada esvoaçou pelo papel, lilás a espalhar-se no azul. Depois outra, mais outra. A tinta dispunha-se por vontade própria, fugia ao que planeava mas isso era fascinante. Mafalda franzia o sobrolho de concentração ao lado; o homem pintava com um pincel minúsculo, visivelmente descontente.
Uma hora depois, Beatriz olhou para o seu trabalho. Não se assemelhava propriamente a lilases. Parecia qualquer coisa difusa, azul-lilás, manchada. Mas havia ali vida. Algo que tinha feito sozinha.
Está bonito comentou a senhora à frente, chamada Graça.
Não me parece reconheceu Beatriz.
Acho que sim. Tem alma.
Tornou a olhar. Talvez sim. Talvez não.
No fim, Mafalda sugeriu irem a uma cafetaria próxima. Aceitou. Ficaram à janela, encomendaram cafés e Mafalda perguntou sem rodeios:
Gostou?
Gostei. Não estava à espera.
Notei pelo seu olhar. Como se visse algo, mas hesitasse em encarar diretamente.
Beatriz não respondeu logo.
Mora cá há muito tempo? perguntou-lhe, desconversando.
Três anos. Vim do Porto, depois do divórcio.
Corajoso.
Ao início foi duro. Depois começou a ser diferente, a ser interessante.
Interessante?
Descobrir-me sozinha. Afinal, não sabia muito de mim. Sorriu, sem ironia. E é casada?
Há vinte e nove anos.
E?
Beatriz mexeu a colher no café, distraída.
Depende dos dias admitiu.
Mafalda acenou, sem insistir. Isso também era bom nela.
Beatriz voltou a casa por volta da uma e meia. Augusto via futebol, não perguntou como correu. Comeu sopa sozinha na cozinha. Pendurou o desenho da aula junto ao gerânio. O gerânio parecia mais viçoso. Notou um botão vermelho a despontar não o vira antes.
No sábado seguinte voltou ao atelier. E no outro. Mafalda também nunca faltou. Aos poucos, ficaram amigas. Beatriz contava episódios da biblioteca, das perguntas estranhas dos leitores, dos livros recorrentes. Mafalda, da empresa onde era contabilista, dos desafios do Porto, da filha (também lá), apaixonada por inglês.
Um dia, Beatriz perguntou:
Não se sente sozinha, aqui?
Às vezes. Mas é outra solidão, não aquela de antes.
Qual é a diferença?
Mafalda ficou pensativa.
Antes tinha alguém ao lado e sentia-me sozinha. Isso era o pior. Agora, estou fisicamente só, mas não me sinto vazia. Percebe?
Beatriz percebeu. Não o disse, mas dentro de si algo mudou. Como o degelo dos rios na primavera: lento, difícil, mas certo.
Em maio, a administração da biblioteca anunciou um evento cultural: era preciso preparar uma atividade para a comunidade. A chefe, Dona Margarida, reuniu a equipa.
Ideias? perguntou.
Toda a gente ficou muda. Beatriz também. Mas uma ideia já lhe mexia cá dentro.
E um encontro de mulheres? arriscou.
Toda a gente olhou para ela.
Que tipo de encontro? interrogou Dona Margarida.
Um encontro para partilharem histórias reais, não literárias. Mulheres do bairro, de todas as idades, a falar da sua experiência: o que foi, o que mudou, como viveram. Sem pompa, só partilha. E se fazem coisas com as mãos, podem mostrar desenhos, rendas, cerâmica
Silêncio.
Inusitado reconheceu Dona Margarida.
Mas com vida.
Quem organiza?
Eu disse Beatriz, surpreendo-se a si mesma.
A chefe observou-a demoradamente.
Faça então. Vamos experimentar.
Beatriz quase logo ligou a Mafalda. Esta soltou uma gargalhada:
Nunca imaginei. Tu?
Eu. Nem sei bem porquê.
Portanto, vais ser honesta. Contem comigo. E a Graça, lembras-te dela do nosso grupo? Faz cerâmica.
Graça, reformada, com sessenta e dois, passava agora horas com a argila a moldar pássaros e outras peças, vendia-as nas feiras. Aceitou de imediato: só peço que não me obrigues a falar muito, baralho-me sempre.
Beatriz começou a montar o programa. Passava os serões na mesa da cozinha, quando Augusto se fechava no escritório. Escrevia e riscava, reescrevia. Era uma sensação nova: criar algo, não apenas manter ou gerir, mas inventar do zero.
Uma noite, Augusto entrou, pediu água e viu-a de caderno aberto.
O que estás a escrever?
Projeto da biblioteca.
Mais um desses.
Sim.
Ele encheu um copo, hesitou.
Nos últimos tempos andas sempre ocupada.
Isso é mau?
Ele encolheu os ombros.
O jantar estava frio.
Desculpa, da próxima aqueço.
Saiu. Beatriz ficou a olhar para trás dele. Falava do jantar frio não do brilho novo nos olhos, não do que ela fazia de diferente. O jantar.
Voltou ao caderno.
O encontro ficou marcado para o terceiro sábado de junho. Beatriz combinou com quatro mulheres, incluindo Mafalda e Graça. Juntou uma professora de Geografia reformada, Dona Estela, que escrevia poesia mas nunca mostrava a ninguém. A jovem era a Vanda, que orientava os workshops de aguarela.
Beatriz fez cartaz, afixou no bairro, enviou anúncio ao jornal local. Tinha receio que ninguém aparecesse. Mas, nesse dia, a sala encheu. Mais de trinta pessoas, a maioria mulheres, de todas as idades, uma delas trazida pela filha já de idade avançada.
Beatriz coordenou a sessão. Sem discursos, apenas apresentou, disse que estavam ali para se ouvirem e que isso bastava. Passou a palavra à Graça.
Graça falou sobre a reforma, sobre não saber o que fazer depois. Como nos primeiros seis meses andava pela casa sem se sentir necessária. Até que pegou em barro num workshop. “Percebi que tinha mãos”, disse ela. Risos quentes na sala.
Mafalda falou da mudança de cidade e de como foi ter de recomeçar do zero aos quarenta e seis. Que ao início teve medo, depois percebeu: “não temia o novo, temia perder o costumeiro”. Frase que Beatriz quis decorar.
Dona Estela leu dois poemas, a voz trémula tornou-se firme. Ao acabar, uma mulher da terceira fila aplaudiu e logo todos se juntaram.
Depois, ao limpar, Lourdes aproximou-se.
Correu muito bem, Beatriz disse. A sério.
Nem eu esperava.
Estavas à altura. Sempre estiveste, só não te deixavas.
Beatriz olhou para ela.
Achas mesmo?
Sei. Trabalhamos juntas há dezoito anos.
Beatriz apanhou um lenço esquecido, pendurou-o no bengaleiro. Estava emocionada. Porque levou dezoito anos?
Em casa, Augusto já dormia. Beatriz despiu-se em silêncio, foi à cozinha beber água; o frasco do creme, o desenho da lilás, o gerânio agora com quatro flores vermelhas.
Pôs creme nas mãos, devagar. Olhou para a gerânio e lembrou-se de Mafalda: “Temia o costumeiro, não o novo”.
Na manhã seguinte, Augusto perguntou:
Então, como foi?
Bem. Veio muita gente.
Pelo menos jantaste?
Havia chá.
Chá não é jantar murmurou, focado no telefone.
Beatriz pegou no café e foi para a varanda. Era cedo, o pátio ainda vazio, cheiro a choupos no ar. Pensou que vinte e nove anos aceitara aquela forma de cuidado quente, prática, sem olhar para o que ela precisava realmente. Conteúdo e forma confundiram-se ali.
Agora começava a olhar de frente.
Em julho, Tomás ligou. Era quarta-feira, nada comum.
Olá mãe, tudo bem?
Tudo bem. Something happened?
Não, não. Só queria falar. A Mafalda escreveu-me.
Beatriz parou junto ao frigorífico.
Que Mafalda?
Tua amiga. Encontrou-me nas redes e disse coisas bonitas do que fizeste na biblioteca. Eu não sabia.
Nunca perguntaste.
Silêncio.
Desculpa, mãe. Conta-me como foi.
E Beatriz contou. Sobre workshops, sobre Graça e os pássaros, Estela e os poemas, a sala cheia. Tomás escutou sem interromper.
És uma força, mãe. A sério.
Obrigada.
Sempre foi assim?
Não, foi a primeira vez.
Devias ter começado há mais tempo.
Devia.
Mais uns instantes quietos. Depois Tomás perguntou:
E tu e o pai, está tudo bem?
Beatriz olhou pela janela. O pátio, banhado de sol, miúdos a jogar à bola.
Está habitual.
Isso é bom ou mau?
Ainda não sei.
Tomás não insistiu. Prometeu visitar em agosto. Beatriz ficou de telefone na mão, parada a pensar.
Em agosto, Tomás veio quatro dias. Era parecido com o pai de feições, mas dedicava-se às pessoas. Trouxe queijo, frutos secos, e ouvia Beatriz como quem se importa.
Numa manhã em que Augusto foi à Figueira, ficaram na cozinha.
Mãe, estás diferente.
Como assim?
Como se ocupasses mais espaço. Riu-se do que disse. É estranho, mas percebes?
Percebo.
Gostas disso?
Beatriz agarrou a chávena.
Sim. Só assusta um bocadinho.
Porquê?
Quando vemos melhor quem somos, também vemos os outros e o mundo de outra maneira. E nem sempre é cómodo.
Tomás assentiu.
O pai repara?
O pai nota que o jantar arrefeceu murmurou Beatriz. Logo se arrependeu. Desculpa. Não devia dizer.
Deviam falar.
Sobre o quê?
Sobre o que precisas.
Beatriz ficou à janela. Setembro, relva um pouco seca.
Sempre achei complicado disse baixo.
Experimenta.
Tomás foi-se embora. Beatriz trocou a roupa da cama e refletiu no conselho. Experimentar, sim. Vinte e nove anos sem nunca tentar de verdade. Falara, claro, mas não do que importava. Do essencial guardava silêncio. Porque era cómodo, seguro, Augusto sabia calar conversas antes de começarem.
Em setembro, Dona Margarida avisou: a autarquia queria repetir o evento, maior, para toda a rede municipal. E queriam-na responsável.
É importante, Beatriz. Dou-te mais tempo na folha, pode ser?
Sim.
A chefe sorriu levemente.
Este verão mudou-a. Não leva a mal?
Não.
Ficou melhor. Mais viva.
Beatriz voltou ao balcão. Atendeu um leitor, entregou-lhe uns policiais, registou no diário. Ficou a ver a sala de leitura: estantes, secretárias, candeeiros, luz do fim de setembro. Dezoito anos. Só agora sente que é seu lugar, não um sítio onde só está.
Em casa, Augusto começou a notar as mudanças. Beatriz chegava mais tarde, saía aos sábados para as aulas. Falava de amigas novas.
Quem é a Mafalda?
É minha amiga.
Quando é que passaste a ter amigas?
Desde fevereiro. Conheci-a na biblioteca.
Vais sair com ela todas as semanas?
Quase todas.
Augusto fitou-a. Havia algo de novo: não desprezo, não irritação habitual. Antes, confusão.
Não te proíbo de sair. É só estranho.
É estranho quê?
Que agora tenhas vida própria.
Beatriz sentou-se à frente dele. Pela primeira vez em muito tempo, olhou o marido sem a habitual armadura. Como quem olha alguém que mal conhece, apesar dos trinta anos juntos.
Augusto, ficas contente por eu viver, além da casa e do trabalho?
Ele hesitou.
Não sei. Acho que sim.
Só acho?
É estranho, só isso. Levantou-se, olhou pela janela. Dantes estavas sempre cá. Agora, sempre ocupada.
Mas continuo aqui.
Aqui, mas diferente.
Beatriz reparou nas costas dele: largas, já curvadas com a idade. Sessenta e um anos. Envelhecera sem ela notar.
Augusto, quando falámos de verdade, pela última vez? Não sobre jantar, nem sobre carros. Só conversar.
Virou-se.
Mas falamos, não?
Sobre o quê?
Sem resposta. Olhou pelo lado dela.
Pois murmurou Beatriz.
Novembro trouxe frio e o grande evento concelhio. Beatriz preparou-o durante três semanas, oito participantes, exposição na biblioteca. Mafalda ajudou, conviviam praticamente diariamente: na cafetaria, biblioteca, passeios à beira do Mondego, quando o tempo deixava.
Um dia, à beira do rio, Beatriz disse:
Não percebo como vivi antes.
Vivias, apenas respondeu Mafalda.
Não. Era um viver cá dentro, enterrada. Para quê?
Não é porquê, é como calhou.
Podia ter sido diferente.
Podia. Mafalda olhou o Mondego, cinzento de novembro. Mas o diferente só começa quando começa. Nunca antes.
Tenho cinquenta e oito anos.
E então?
Muito.
Agora a sério? Mafalda virou-se para ela. Conheço mulheres que aos trinta e cinco já desistiram. Vivem como relíquias no museu da vida, fechadas numa redoma. E tu, aos cinquenta e oito, estás a começar. Não é muito. É altura certa.
Beatriz contemplou o rio. Ao longe, uma barca avançava, devagar.
Pinto todas as semanas disse calma. Há nove meses.
Sei.
Hoje escrevi o texto para o evento. Meu, sem copiar.
Mostraste-me. E está bom.
Melhor: está vivo.
O evento foi numa sexta. Setenta pessoas, sala demasiado pequena, muita gente de pé. Beatriz abriu lendo o texto. Voz firme, mãos quase seguras. Falou do que é estar à espera que nos vejam; que a idade não tranca portas, às vezes abre-as. Não falava a ensinar. Falava porque acabara de perceber isso em si.
No fim, uma senhora muito idosa, que viera acompanhada da filha, procurou-a. Era a Dona Henriqueta, oitenta e três anos.
Minha filha, falou de mim?
Falei de todas.
Não, foi mesmo de mim. Percebi cada palavra. Em jovem, bordei a vida toda. Depois larguei, achei uma parvoíce. Hoje saio daqui a pensar: será que ainda vou a tempo? Oitenta e três, tão ridículo, não?
Nada ridículo.
Acha mesmo?
Acho.
Henriqueta sorriu, saiu lentamente de braço dado com a filha. Não saía de mãos vazias.
Chegou dezembro, calmo. Beatriz dava um pequeno clube literário às quartas na biblioteca. Seis, sete pessoas habituais, leitura e discussão acesa. Em casa, o ambiente era diferente. Augusto estava calado, algo o ocupava. Beatriz já não esperava que ele falasse.
No meio de dezembro, à noite, entrou no escritório dele.
Augusto, quero falar.
Fala.
Não assim. Sentou ao lado, fechou a porta. A sério.
Ele pousou o livro, olhou-a.
O que se passa?
Nada de anormal. Só quero dizer aquilo que nunca disse, ou nunca soube dizer.
Ficou em silêncio, atento.
Vivi muitos anos como se não estivesse cá de verdade começou. Fazendo tudo, mas sem estar inteira cá dentro. Parte é minha culpa, porque deixei. Mas parte também é nossa, deste modo silencioso de estar casados.
Augusto fixou a mesa.
Queres pedir o divórcio?
Não sei o que quero. Quero tentar falar. A sério. Quero que tu me encontres, não só ao jantar. Que vejas a Beatriz, não só a camisa ou a casa arrumada.
Longa pausa. Lá fora, caía neve.
Não sei fazer isso, Beatriz disse baixinho. Ninguém me ensinou.
Eu sei. Não estou a culpar-te. Quero arriscar. Tentar diferente. Saber se tu também queres.
Demorou a responder. Olhou a neve, depois para ela. De novo aquela confusão sincera.
Mudaste muito este ano.
Eu sei.
Às vezes não te percebo.
Faz parte.
Mas não quero não quero que vás embora. Daqui e gesticulou em volta da casa ou de nós.
Beatriz olhou para ele. Sessenta e um anos, ombros descaídos, ar perdido de quem sempre viveu de um certo modo e não sabe viver noutro.
Então tentamos. Não prometo facilidade. Mas tentamos.
Janeiro começou frio e luminoso. Beatriz ia à biblioteca, ao clube literário, às aguarelas ao sábado. Pintara muito já; algumas obras foram para Mafalda, outras penduradas na cozinha, ao lado do gerânio. Gerânio florido; Beatriz tratou dele, mudou-o para um vaso maior.
Com Mafalda, menos encontros; o trabalho dela estava mais agitado, mas falavam ao telefone.
Um dia, Mafalda perguntou:
Beatriz, pensou em continuar os encontros na primavera?
Pensei. Quero fazer um quase festival. Vários dias.
É imenso trabalho.
É. Mas agrada-me.
Mafalda riu-se.
Tu, há um ano, nem falavas disso.
Pois não.
Com Augusto, continuava difícil, mas falavam a sério mais vezes. Às vezes bem, outras vezes Augusto fechava-se. Beatriz não insistia. Tinha agora a sua vida.
Em fevereiro, Augusto confessou ao jantar:
Estive no médico. Fiz exames.
Passou-se algo?
Só prevenção. Mexia no prato. Dizem que está tudo bem. Receitei uns medicamentos.
Ainda bem que foste.
Não perguntaste porque só disse agora.
Beatriz pousou a colher.
Porque só agora?
Para não te preocupar. Costume.
Para ti é costume não me preocupares?
É. Andas ocupada.
Beatriz fixou-o. Algo nessas palavras soava importante, mas ainda não sabia o quê.
Augusto, quero saber se estás mal. Se vais ao médico. Quero saber. Percebes?
Percebo. Passo a dizer.
E eu também.
Ficaram calados. Na rua, nevava; a cozinha estava quente, cheirava a sopa. No parapeito, o creme e um desenho novo, um ramo de macieira, branco e delicado.
Belo desenho disse ele. Foste tu?
Fui.
Levas jeito.
Ainda estou a aprender.
Quase a acabar fevereiro, Lourdes ligou tarde.
Desculpa, Beatriz. Mas a minha filha está cá.
E então?
Fizemos as pazes. Disse que estava errada. Que não devia ter dito aquilo de ultrapassada.
E tu ficaste contente?
Muito. Beatriz, posso ir experimentar a tua aula de aguarela no sábado?
Claro, às onze. Não tenhas medo do resultado.
No sábado, Lourdes lá apareceu. Pegou no pincel timidamente, Vanda corrigiu a pega. Primeiro traço escuro demais, o segundo aguado. Ficou desapontada.
Olha para isto, Beatriz, uma borrada!
Vejo sim. Eu gosto.
Isto não é ramo nenhum.
É a primeira vez.
Não me venhas consolar
Falo a sério. Da próxima já sai diferente.
Lourdes largou o papel e soltou uma gargalhada.
Então pronto. Para a semana há mais.
Março trouxe os primeiros cheiros a primavera. Beatriz apresentou o projeto do festival, o conselho da biblioteca apoiou. Tomás avisou que viria em abril e queria ir ao evento.
Certa noite, com Augusto já deitado, Beatriz ficou na cozinha, caderno em punho, a anotar ideias. Lá fora chovia, o degelo encharcava a terra, a cidade acordava para a primavera. O gerânio esplendoroso, três flores abertas e um botão prestes a brotar.
Olhou o frasco de creme já vazio há meses, mas nunca o tirara dali. O novo creme era igual, três euros e oitenta centavos. Augusto não comentou.
Abriu o caderno numa folha limpa e escreveu: O que sei agora que não sabia há um ano. Ficou a olhar. Fechou o caderno. Não precisava escrever. Já estava nela.
O telefone tocou. Quase onze tarde para chamadas. Era Mafalda.
Está tudo bem? perguntou logo Beatriz.
Está. Está até melhor. A voz soava animada, um pouco nervosa. Beatriz, tinha de te dizer. Ofereceram-me trabalho no Porto, bom, paga bem. A minha filha lá está. Estou a pensar.
Beatriz demorou a responder.
Queres ir?
Não sei. Queria ouvir-te. Diz-me o que achas.
Beatriz olhou pela janela. Abril lá fora, húmido, escuro, vivo.
Acho que já decidiste. Só falta admitires em voz alta.
O silêncio não foi longo.
Pois… já.
Então o que receias?
O que deixo aqui. O grupo, tu, a Graça, a Dona Estela
Não desaparecemos.
Coimbra é longe do Porto.
Mafalda, lembras-te do que me disseste naquele dia no Mondego em novembro?
O quê?
“O diferente só começa quando começa”.
Mafalda riu-se. Quente e baixo.
Eu era inteligente.
E és.
Beatriz, posso perguntar-te uma coisa honesta?
Podes.
És feliz?
Beatriz olhou o gerânio, o creme, os desenhos na parede, o caderno com as páginas brancas.
Tornei-me eu mesma disse. Isso é o essencial.
Esse é o teu sim?
Também acho.
Mafalda ficou calada.
Fico mesmo feliz por ti.
E eu por ti.
Beatriz…
Sim?
E agora, o que vais fazer se eu for?
Beatriz olhou a folha em branco.
Continuar respondeu.





