O Presente — Uma Véspera de Ano Novo em Família, Solidariedade e Redenção no Coração de Lisboa

O PRESENTE

Então, filho, conta lá como foi o teu dia, correu tudo bem?
Cheguei do trabalho cansado, mas nada melhor que levantar a minha pequena Matilde e sentá-la ao meu lado no sofá, despenteando-lhe o cabelo loiro e fino. Enquanto a minha mulher, Leonor, preparava o jantar e a casa estava imersa nos aromas de frango assado no forno, gozava aqueles preciosos minutos a conversar com a minha filha, a única ainda, que ilumina a nossa vida em Lisboa. A sala estava quente e acolhedora e, entre a televisão baixinho e a estante, uma pequena árvore de Natal cintilava com luzes coloridas. Faltava apenas um dia para o ano novo.

Está tudo bem comigo! exclamou Matilde cheia de energia. Mas a minha amiga Beatriz não está tão bem
O que se passa com a Beatriz? perguntei, curioso. É aquela Beatriz que mora no andar de baixo?
Sim, essa mesmo confirmou Matilde.
Ela não recebeu presente na festa de Natal do infantário informou Leonor, aparecendo à porta da cozinha envolta no cheiro delicioso do jantar. Pobre menina Vão lavar as mãos, rapazes, o jantar está quase.

Como assim não recebeu? perguntei, incrédulo, enquanto me levantava do sofá. Deram presentes a todos menos à Beatriz? Algo está errado.
Sim, deram presentes a todos, menos à Beatriz repetiu Matilde, deslizando do sofá atrás de mim. A Mãe Natal e o Pai Natal distribuíram presentes, mas ela ficou à espera e nada
Que Mãe Natal e que Pai Natal são esses, que deixam uma criança assim? resmunguei, já zangado, puxando da cadeira para sentar à mesa.
Não têm culpa disse Leonor, encolhendo os ombros. Provavelmente, a mãe da Beatriz esqueceu-se de entregar o dinheiro para o presente ou simplesmente não tinha. Quanto mais não seja, acontece Matilde, lavou as mãos?
Lavou, lavou, estivemos juntos, respondi, começando a repartir o frango tenrinho pelos pratos. Mas mesmo que não tenha pago, como é que a coordenadora do infantário Como se chama, aquela senhora? Maria dos Anjos? Como é que a dona Maria dos Anjos permitiu essa humilhação?
A Maria dos Anjos até foi a Mãe Natal esclareceu Matilde. E o Pai Natal é o senhor Alfredo, o responsável pela manutenção.
Ainda mais! continuei, incapaz de conter a indignação. Não podiam arranjar um presente para a Beatriz e depois resolver com os pais? Onde é que está o coração destas pessoas?
Pelos vistos não conseguiram suspirou Leonor. Mas honestamente, no lugar deles, também teria encontrado uma solução para não deixar a menina sem presente.
E os pais dela? Como deixaram isto acontecer? Não percebo Olha lá, Matilde!
Olhei para minha filha, ocupada a saborear a coxa de frango.
Espero que tenhas partilhado o teu presente com a tua amiga.

Ela olhou para mim com ar reprovador.
Quis partilhar, sim, pai. A Inês, o Tiago, o Pedro também quiseram. Mas a Beatriz não aceitou nada de ninguém.
Que orgulho, hein! admirei-me. Aposto que nem chorou
Não sei, não vi admitiu Matilde.
Que miúda forte! repeti, admirado. Ela não merecia aquilo.

Sim, a Beatriz foi mesmo maltratada comentou Leonor, tocada. Só de pensar no que passou

Tenho uma ideia! declarei de repente, decidido. Sou capaz de ter deixado que a emoção me dominasse, porque senti o rosto corado e um brilho especial nos olhos.
Então como fazemos? perguntou Leonor, limpando os lábios com o guardanapo. Matilde também me olhava, cheia de curiosidade.
Simples! repliquei, deixando o mistério no ar. Sabem em que apartamento mora a Beatriz? Matilde, sabes?
Não, nunca lá fui. Só somos amigas no parque e no infantário.
Eu consigo descobrir hesitou Leonor. A minha amiga Clara quase sabe tudo e todos; telefono-lhe já Mas para quê?
Telefona, agora. insisti.
Está bem mas ficam vocês de arrumar depois a mesa e lavar a louça!

Vivem no sexto esquerdo, de apelido Pereira anunciou Leonor minutos depois. A mãe chama-se Sofia. O pai já não mora com elas. Ouvem-se histórias, ninguém sabe bem, se saiu ou se foi expulso. Vivem só as duas.
Tanto detalhe… brinquei.
Não é à toa que a Clara sabe tudo! sorriu Leonor. Ela faz parte da comissão de moradores, está sempre a par das novidades.
Pronto, já sabemos acrescentei, olhando para Matilde. Já comeste todo o teu presente?
Ainda não A mãe disse que muitos doces fazem mal.
E tem razão! aprovei, sorrindo. Então o saco do presente está inteiro?
Sim, abri-o com cuidado.

Ótimo. Consegues trocar os doces para outro saco e dar-me o do presente?
Porquê? Matilde desconfiou. Mesmo assim, foi ao quarto buscar o saco colorido de presente, agora mais leve, e despejou os doces sobre a mesa. Leonor observava em silêncio, até dar um passo à frente.

Estão a pensar oferecer um presente à Beatriz, não é verdade? Como e quando? Quem vai levar?
Hoje mesmo! decidi. Que dizes, Matilde?
Claro! Vamos já! Posso pôr uns doces meus para ela?

Se não te faz diferença, claro sorri-lhe com orgulho.
E vamos juntos entregar?
Já lhe tentaste oferecer hoje e viste que ela não aceitou. É uma menina de fibra. Acho que deve ser diferente…

Saí para o quarto e voltei vestido… de Pai Natal! O tradicional: botas brancas, manto vermelho bordado com fios dourados, gorro com pompom, barbas brancas postiças, o cajado numa mão e o saco de presentes na outra, ainda vazio.

Matilde olhou espantada.
Pai, eras tu o Pai Natal do ano passado?
Era, sim, confessei. Desculpa não te contar antes. Começou no trabalho: pediram-me para ser Pai Natal na festa, correu tão bem que nunca mais pararam. E claro, também faço isso com vocês Gostaste do Pai Natal do ano passado?
Adorei! abraçou-me. Ainda bem que o nosso Pai Natal é caseiro!

E Leonor, sem dizer mais nada, somou uns bombons aos doces, atou o saco com uma fita alegre e dei-lhe o toque final de Pai Natal.

Prontos para visitar a Beatriz?
Sim! responderam em coro mãe e filha.

Matilde pediu:
Posso ir contigo, vestido de coelhinha?
Para ser minha ajudante?
Coelhinha! gritou, e correu para o quarto. Regressou em poucos minutos vestida de macacão branco, orelhas a balançar e uma máscara de cartolina pintada.
Vamos, mas põe o casaco! Mesmo os coelhos sentem frio no inverno.

Lá fomos os dois, ela a arrastar o saco quase maior do que ela própria. Leonor mal se continha a rir ao ver-nos sair.

Dez minutos depois, voltei, já sem saco mas só eu entrei em casa.
Onde está a Matilde? Leonor ficou ansiosa.

Descansa, ficou a brincar com a Beatriz e daqui a pouco volto para a ir buscar expliquei, limpando as gotas de suor com as barbas falsas, ainda vestido de Pai Natal. Sentei-me no sofá, suspirando:
Que aventura

E contei o que aconteceu. Naquela noite, éramos já os sextos a levar presentes à Beatriz! E talvez não seríamos os últimos. Antes de nós saiu até Maria dos Anjos, a diretora do infantário, que pediu desculpa e se despediu sem a fantasia.

Disse que alguém gravou vídeo do momento e pôs no portal da cidade. Em poucas horas, milhares de visualizações e comentários furiosos!
A sério? Temos de ver isso! espantou-se Leonor.

Mas o mais importante veio depois. Afinal, a mãe da Beatriz conseguiu só um pouco depois da data entregar o dinheiro do presente
A Sofia também tem culpa, mas vive sozinha e as dificuldades são muitas ponderou Leonor, interrompendo. Mas podiam ter resolvido melhor no infantário.

Pois, mas foi mais fácil riscar a menina da lista do que compreender E, no fim, quem pagou foi a criança.

Se fosse eu a chefe da Maria dos Anjos, nem me davam tempo para despedir.
Talvez alguém tome medidas ou talvez ela mude. Mas quem trabalha com crianças não pode ser assim.

Fiquei a cismar, coçando o queixo. E ainda acrescentei em voz baixa:
Ah, e também apareceu o pai da Beatriz! Com presentes e cabisbaixo, quase chorou

A sério? Leonor até sorriu.
Foi interrompida pelo toque à porta era Matilde de volta.

Porque vieste sozinha? admirei-me. Ia buscar-te

Não sou nenhuma criança, pai! E já não estava divertido
Porquê?

A mãe e o pai da Beatriz primeiro discutiam, depois choraram, depois abraçaram-se, e nós fomos à cozinha ver. Depois a Beatriz juntou-se, e todos abraçados, sempre a chorar. Nem deram pela minha saída

Eu e Leonor olhámo-nos e rimo-nos aliviados.

Vá, vamos tomar um chá disse Leonor suavemente. Depois, quem não dormir, espera pela meia-noite. Que seja um ano feliz para todos!
Que seja! disse Matilde, magnânima.

Hoje, aprendi que qualquer pequeno gesto pode tocar muitos corações. E que, num país pequeno como o nosso, o verdadeiro espírito do Natal mora onde mora a generosidade.

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