Vocês Já Não São a Minha Família: Quando a Responsabilidade dos Outros se Torna Demais e Chega a Hor…

Mãe, trouxe a Clarinha, ecoou a voz da Filipa vinda do hall de entrada, arrancando a Leonor dos seus apontamentos. Venho buscá-la ao final do dia, pronto, tenho de ir.

A porta da rua bateu, abafando atrás dela sons de azulejos e passadas apressadas. Leonor recostou-se na cadeira, esfregando a cana do nariz, os olhos pesados de subitamente acordar. Alzira, a mãe, entrou depois, trazendo a pequena nos braços. A Clarinha, de três anos, pestanejava com sono, um bocado perdida naquele cenário flutuante.

Outra vez? murmurou Leonor.

Alzira apenas assentiu, pousando a neta no chão. Clarinha foi logo direitinha à cama, trepando com destreza adquirida, e estendeu a mão para a mesinha. De lá tirou um livro de colorir amarrotado e uma caixa desarrumada de lápis de cor. Sentou-se, encolheu as pernas, e pôs-se a pintar sem proferir palavra, como um ritual misterioso, repetido.

Leonor, mal resistindo ao surrealismo do breve silêncio, levantou-se e seguiu a mãe para a sala. Alzira já remexia na mala do trabalho, conferindo papéis com um olhar vago, como se já estivesse noutro lugar.

Mãe… começou Leonor em voz baixa. Estou no último ano. Daqui a três meses faz-se a defesa da tese. Preciso de estudar, não de…

A Filipa precisa de ajuda, tu sabes, atalhou Alzira, com os olhos postos no interior da mala. Depois do divórcio, ficou muito abalada. Agora quer refazer a vida amorosa. Tens de compreender.

Que o faça, mas a responsabilidade da filha é dela, não nossa! Leonor não conseguiu evitar que as palavras silvassem, arrastando com elas a cólera e uma sombra que pairava em volta, para não acordar a Clarinha. É a filha dela, mãe! Dela!

Alzira apenas fechou o fecho da mala com determinação, antes de encarar Leonor:

Chega de discussões. Tenho de ir para a repartição. Cuida da menina.

Leonor pensou em retorquir, em dizer Chega, isto não é justo!, que tinha exame de Macroeconomia depois de amanhã e a dissertação por acabar. Mas fitou a mãe e chutou para dentro o protesto.

Assentiu em silêncio.

E Alzira saiu, engolida pelo elevador que rangia, enquanto Leonor regressava ao quarto. A Clarinha empunhava um lápis roxo, colorindo com meticulosidade um unicórnio a língua escorregando para fora, sob efeito do esforço.

Tia Leonor, olha! disse Clarinha, levantando a folha, olhos radiantes. Ficou giro?

Lindo, Clarinha, Leonor sentou-se ao lado, empurrando os apontamentos para a ponta da secretária.

O dia desenrolou-se moroso e húmido como nevoeiro de inverno no Porto. Desenharam, viram desenhos animados na televisão que piscava imagens irreais, depois Clarinha quis comer e Leonor fez-lhe massa, tentando ler o manual aberto sobre a mesa da cozinha, cujas letras se dissolviam, liquefeitas pelo cansaço. Clarinha entornou néctar de frutos sobre a toalha, fez birra antes de adormecer, indiferente ao peso daquela casa. Leonor embalou-a ao colo, cantando uma melodia incompreensível, um velho fado desbotado, até a criança repousar nos ombros dela, envolta em vapor de sonho.

Ao final do dia, estava seca como um arroz ao sol. O manual continuava exactamente na mesma página.

A Filipa apareceu perto das sete, Leonor abriu-lhe a porta com Clarinha a dormir-lhe nos braços.

Anda, querida, vamos lá então, Filipa levou a filha, rápida. Pronto, temos de ir.

E desapareceu no corredor, sem um obrigada, sem perguntar por comportamento ou saúde.

Leonor sentiu-se engolida por tudo aquilo.

Durante dois meses, o pesadelo repetiu-se com a regularidade abstracta dos sonhos: Clarinha surgia às terças, quartas ou ao acaso, Filipa sumia na névoa dos seus encontros românticos e Leonor tentava remendar as disciplinas com as horas que sobravam. Ainda assim, defendeu a tese, olho ardendo de tantas noites mal dormidas, enquanto a sobrinha dormia no corredor ao lado.

Depois Filipa conheceu o Ricardo. Tudo girou de novo: flores, mensagens nas redes sociais, jantares sofisticados na Baixa. Em três meses, estavam na Conservatória do Registo Civil, Leonor no canto, observando a irmã reluzente no vestido branco, ao lado de um homem de ombros largos, de sorriso largo, olhos fixos nela como se todos os outros estivessem desfocados. Alzira fungava de emoção, olhos a brilhar atrás do lenço, Clarinha rodopiava entre os tios no vestido cor-de-rosa. Leonor aplaudia, sentindo talvez agora, talvez qualquer coisa se alinhasse, que Filipa finalmente cuidasse da sua família.

Veio o nascimento de um rapaz. Chamaram-lhe Tomás. Leonor foi à maternidade com um ramo e balões azuis, segurando um embrulho minúsculo de vida entre os dedos. Filipa reluzia naquela felicidade nova, com Ricardo de pose paternal, Clarinha a anunciar de peito feito por entre ecos de corredores: Agora sou a irmã mais velha! Idílio, durante oito meses.

Até ao telefonema. Apanhou Leonor no trabalho, entre folhas de cálculo e telefonemas. Alzira, do outro lado, voz apressada, embaraçada: O Ricardo traiu-a. A Filipa apanhou mensagens. Discussões. Divórcio.

Assente ao telefone, Leonor pressionou as têmporas: o pesadelo de sempre reencarnado. Só que agora eram dois filhos.

Filipa apareceu chorosa, largava os filhos na casa da mãe, voltava para se recompor, aparecia depois, vagamente recuperada.

A vida de Leonor escapava-lhe entre os dedos, lenta, como areia levada pelo Tejo.

Passou um ano. Veio a promoção, mas a alegria durou um instante. Filipa anunciou namoro novo: António. E tudo recomeçou flores, vinho do Dão, jantares no bairro Alto, elogios. O terceiro casamento foi discreto, só família direta, e Leonor a pensar, bebendo um pouco de espumante: Vai piorar.

Alzira ligou à hora de almoço, quando Leonor picava devagar uma salada num restaurante com vista para a Avenida Liberdade.

Leonor… estás sentada?

Estou, mãe. Passa-se algo?

A Filipa está grávida.

Ficou o silêncio a pairar, cheirando a café e gritos de vozes alheias. Alzira acrescentou: São gémeos.

Leonor olhou fixamente para a salada, os verdes a fundirem-se num poço que não acabava. Quatro filhos. Quatro de três pais diferentes. E quando não se Leonor, mas quando o próximo casamento se desmoronasse, as crianças cairiam sobre ela e sobre a mãe, novamente.

Leonor? Estás a ouvir-me?

Ouço sim, mãe, Leonor esfregou a testa com os dedos. Dá-lhe os meus parabéns.

Desligou antes que Alzira disparasse mais palavras, e ficou assim, imóvel, a olhar o ecrã escuro do telefone. O apetite tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido.

Ao chegar a casa, já de noite, Alzira estava sentada na cozinha ao frio do chá. Mal viu a filha, começou a falar, as palavras tropeçadas, mãos trémulas.

Leonor, isto não faz sentido, gémeos… quatro crianças. Se o outro casamento correr mal… ela vive para os homens e os filhos somos nós a criá-los. Não vou aguentar, a tensão foge-me, estou velha, tu trabalhas, como fazemos?

Leonor pousou a mala no cabide, foi até à mesa mas não se sentou. Olhou de cima para a mãe, cabelos grisalhos, olhos tidos de cansaço.

Mãe… interrompeu, secamente. Quero sair. Mudar de cidade.

Alzira congelou, atónita, como se Leonor tivesse falado esperanto.

Não consigo mais, mãe. Não dá para viver sempre atrás dos problemas da Filipa. Já chega. Sacrifiquei tudo: tempo, estudos, carreira, afetos. É agora.

Alzira tentou dizer qualquer coisa, mas Leonor levantou uma mão:

Vens comigo, se quiseres. Começamos juntas, vida nova. Se não, percebo. Mas vou, mãe, porque cansei-me de criar filhos da minha irmã. São meus sobrinhos, sim, quero-lhes bem. Mas não são meus. Não é minha responsabilidade.

Leve como uma pena, Leonor sentiu sair um peso de cima. Alzira não disse nada, fitando um ponto qualquer na parede, fundo e inalcançável.

Esperou mais um minuto, saiu, tombou na cama, ainda vestida, a ver o teto dançar. O coração preso na garganta, mãos húmidas. Finalmente tinha dito em voz alta o que a atravessava há meses.

Só adormeceu perto do nascer do sol.

De manhã encontrou a pasta dos documentos sobre a mesa. Reconheceu-a: ali dentro estavam papéis da casa que herdaram da avó, há mil vidas atrás. Abriu, folheou. Não percebeu logo.

Vamos vender, ouviu a voz à porta, e estremeceu.

Alzira estava pálida, olhos fundos da insónia, mas uma decisão quieta na postura. Um terço fica para a Filipa, é dela por direito. Com o resto compramos qualquer coisa noutra terra. Não precisamos de muito.

Leonor fixou a mãe sem acreditar. Ia perguntar, mas parou: o olhar da mãe devolvera exatamente o mesmo cansaço que a consumia a ela. Alzira dissimulara melhor, ou Leonor nunca quisera reparar.

Abraçou-a, apertando forte, rosto enterrado no ombro materno. Alzira devolveu o abraço, docemente, a mão passando no cabelo como antigamente.

Vamos embora, filha, sussurrou. Basta.

Em dois meses fizeram tudo, numa cadência de sonho: comprador encontrado, novo apartamento na beira de Coimbra, T2 num prédio sem memória. Leonor tratou da transferência no emprego. O segredo guardado, ninguém contou à Filipa.

Avisaram-na só no fim, caixas já fechadas, bilhetes de comboio guardados na carteira. Filipa apareceu meia hora depois da chamada, grávida de sete meses, rosto vermelho de zanga.

O que é isto? Estão a abandonar-me? Agora, com gémeos quase a nascer?

Leonor pôs-lhe o envelope com a parte dela em euros. Filipa rasgou-o, olhou para dentro e torceu o rosto num esgar mais retorcido.

O que faço com isto? Não preciso de esmolas! Preciso de ajuda! Não percebem?

Precisas de ajuda há cinco anos, Filipa, disse Leonor calmamente. Acabou.

Acabou? Estão fartas? E eu? Acham que isto é fácil, com dois filhos e os gémeos a caminho?

Foi a tua escolha, Filipa, cortou Leonor. Está nas tuas mãos agora.

Filipa virou-se para a mãe, procurando salvação, mas Alzira desviou o olhar, fingindo organizar a mala.

Já não me são família, gritou Filipa, apanhando o envelope caído no chão, as notas dispersas pelo soalho. Nenhumas das duas.

Saiu a bater a porta, sem olhar para trás. Leonor e Alzira olharam uma para a outra, breves cúmplices silenciosas. Leonor pegou na mala, atirou-a ao ombro; Alzira arrastou o velho trolley. Desceram juntas, silêncio de receio e libertação.

O comboio partia dentro de uma hora. Leonor encontrou-se a olhar, janela aberta para a paisagem que fugia, postes a piscar, quintais esfumados; Alzira adormecida no assento, exausta da travessia e da última discussão com Filipa.

A cidade a desvanecer-se, levando com ela discussões que nunca chegaram a ser palavras, filhos de outros para embalar, um nó de culpa e obrigação. Leonor encostou-se no assento e respirou fundo pela primeira vez em anos. Só restava o desconhecido pela frente.

Enquanto o comboio as levava para longe, Leonor fechou os olhos, o sonho a afundar-se de novo na corrente do sono.

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Vocês Já Não São a Minha Família: Quando a Responsabilidade dos Outros se Torna Demais e Chega a Hor…
Roky posielal peniaze na dieťa, a potom zistil, že nie je jeho