Mama Márie nezniesla túto stratu, začala piť alkohol a úplne zabudla na svoju dcéru.

Maximilián, žiak piateho ročníka základnej školy, vždy obdivoval svoju mladšiu susedku Milenu. S jej dlhými zlatými vrkočmi a tvárou posiatou pehami, očarila každého, kto ju stretol. Maximilián ju často odprevádzal domov, aby ju chránil pred uličníkmi zo štvrte, ktorí radi zastrašovali menších. Ich životy však zásadne zmenila tragédia, ktorá sa odohrala už dávno.

Milenin otec ochorel a po dlhom a vyčerpávajúcom boji s chorobou zomrel. Jej mama sa nedokázala vyrovnať s bolestnou stratou a utiekla sa k alkoholu, čo viedlo k zanedbanej starostlivosti o Milenu. Niekedy jej dokonca zabúdala dávať jedlo. Nakoniec Milena prestala chodiť do školy. Maximilián si najskôr myslel, že je chorá. No keď sa týždne zmenili na mesiace a Milena stále chýbala, jeho obavy narastali. Rozhodol sa zveriť sa svojej mame a opýtal sa jej, kde je Milena.

Mama mu jemne oznámila: Synku, Milenu odviezli do detského domova. Maximilián cítil smútok a vedel, že je možné, že ju už nikdy neuvidí. Roky plynuli, Maximilián dospel a po ukončení vojenskej služby sa vrátil do rodného Trenčína. Jedného dňa sa náhodou stretol s Milenou. Držala sa za ruku so svojím mužom; pod kabátom jej bolo vidieť tehotné bruško. Bolo jasné, že je v posledných týždňoch tehotenstva. Ich stretnutie bolo krátke a ďalšie štyri roky sa nevideli.

Cesty sa im skrížili znova, keď sa Milena vrátila do Trenčína. Stala sa matkou samoživiteľkou, keď jej manžel tragicky zahynul pri pouličnom konflikte podľahol závislosti, ktorá mu vzala život. Milena zostala sama, aby sa starala o malého syna. Vždy, keď ju Maximilián videl, zaplavila ho hlboká túžba a pocit spolupatričnosti. Akoby osud spojil ich životy. Milena a jej syn potrebovali pomoc, a Maximilián si uvedomil, že má v ich živote dôležitú úlohu. A tak ju splnil.

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three × four =

Mama Márie nezniesla túto stratu, začala piť alkohol a úplne zabudla na svoju dcéru.
A Chave de Treze Ele telefonou de manhã e disse aquilo como se fosse coisa pouca: — Passas cá? Era para dar uma força com a bicicleta. Não me apetece andar nisto sozinho. As palavras “passas cá” e “não me apetece” soaram estranhas, demasiado próximas. Normalmente, o pai dizia “é preciso” e “faço eu”. O filho adulto, já com cabelos brancos nas têmporas, apanhou-se a procurar ali alguma armadilha, como nos velhos tempos. Mas não estava lá — só um pedido curto, e isso, curiosamente, fez doer. Chegou perto do almoço, subiu ao terceiro andar, ficou um momento no patamar enquanto rodava a chave na fechadura. A porta abriu-se logo, como se o pai estivesse mesmo ali à espera. — Entra. Descalça-te — disse o pai, afastando-se. No hall estava tudo nos sítios do costume: o tapete, a cómoda, os jornais dobrados. O pai parecia igual, mas os ombros estavam mais estreitos e as mãos, ao ajeitar a manga, tremeram por um segundo. — Onde está a bicicleta? — perguntou o filho, só para não perguntar outra coisa. — Na varanda. Deixei-a lá para não estorvar. Ia tratar dela sozinho, mas… — fez um gesto vago e seguiu à frente. A varanda era envidraçada, mas gelada, cheia de caixas e frascos. A bicicleta estava encostada à parede, tapada por um lençol antigo. O pai destapou-a com um cuidado quase solene e passou a mão pelo quadro. — É tua — disse. — Lembras-te? Comprámos para o teu aniversário. O filho lembrava-se. Dos passeios pelo pátio, das quedas, do pai calado, erguendo-o, sacudindo-lhe os joelhos e vendo se a corrente estava no sítio. Nessa altura, o pai quase não elogiava, mas olhava para as coisas como se tivessem vida e fosse responsável por elas. — Os pneus perderam ar — observou o filho. — Isso ainda vá. Mas o cubo range e o travão de trás não pega. Ontem mexi-lhe e até me doeu o coração — o pai tentou sorrir, mas saiu-lhe só um esgar. Transportaram a bicicleta para a sala, onde o pai tinha a “oficina”: não era uma divisão à parte, apenas um canto junto à janela com uma mesa, tapete, candeeiro, caixa de ferramentas. Alicates, chaves, tudo pendurado e arrumado. O filho reparou, como sempre: o pai gostava de manter ordem onde podia. — Vês aí a chave treze? — perguntou o pai. O filho abriu a caixa. As chaves alinhadas, mas a treze não estava lá. — Doze, catorze… treze não está. O pai ergueu as sobrancelhas. — Não está? Ela costumava… — calou-se antes de dizer “sempre”. O filho foi remexendo ferramentas, abriu a gaveta da mesa. Parafusos velhos, porcas, fita isoladora, lixa. A chave apareceu debaixo de umas luvas de borracha. — Está aqui — disse o filho. O pai pegou-lhe, sopesando-a. — Fui eu que a meti aí. Esta cabeça… — murmurou e riu-se. — Vá, chega-me a bicicleta. O filho deitou a bicicleta de lado, com um pano debaixo do pedal. O pai ajoelhou-se lentamente, como se os joelhos pudessem falhar. O filho viu isso, mas fingiu não notar. — Vamos tirar a roda primeiro — disse o pai. — Tu agarra, eu desaperte as porcas. Pegou na chave e forçou. A porca cedeu mal. O pai crispou os lábios. O filho agarrou ele também, e lá conseguiram. — Eu fazia sozinho… — resmungou o pai. — Era só para ajudar… — Eu sei. Aguenta aí. Trabalhavam calados, só frases curtas: “agarra”, “não puxes”, “aqui”, “cuidado com a anilha”. O filho sentia que assim até era mais fácil. Com poucas frases dedicadas ao trabalho, não precisava adivinhar significados escondidos. Tiraram a roda, puseram-na no chão. O pai foi buscar a bomba do ar, verificou a mangueira. Era velha, pega gasta. — A câmara está boa, deve ter só secado — disse o pai. O filho ia perguntar como sabia tão certo, mas ficou calado. O pai falava assim, como se não duvidasse. Enquanto o pai enchia, o filho inspeccionava o travão. As sapatas gastas, o cabo enferrujado. — Este cabo tem de ser trocado — disse. — Cabo… deve haver por aí um de reserva. Foi ao armário debaixo da mesa, tirou uma caixa, depois outra. Nelas, peças marcadas em papéis. O filho viu ali mais do que organização: uma luta contra o tempo. Enquanto tudo estiver arrumado e rotulado, nada se dispersa. — Não o vejo — disse o pai, fechando a caixa irritado. — Talvez na arrecadação? — sugeriu o filho. — Aquilo está uma desordem — disse o pai como se confessasse um pecado. O filho riu. — Desordem? Contigo? Isso era novidade. O pai olhou-o de lado, com um brilho agradecido pela piada. — Vai lá ver. Eu fico aqui a acabar isto. A arrecadação era pequena, cheia de caixas. O filho acendeu a luz, abriu caminho. Na prateleira de cima, estava o cabo enrolado num jornal. — Achei! — chamou. — Vá lá, disse-te eu. O filho trouxe o cabo. O pai analisou-o, viu-lhe as pontas. — Está bom. Falta é encontrar terminais. Remexeu numa caixa, achou as pequenas ponteiras de metal. — Vá, desmontamos o travão — disse. O filho segurou o quadro, o pai desapertou o travão. Os dedos do pai secos, falhados, unhas curtas. O filho lembrou-se de quando em pequeno lhe pareciam mãos invencíveis. Agora tinham outra força: paciente, poupadinha. — Porque olhas assim? — perguntou o pai, sem tirar os olhos do trabalho. — Nada. Estava a pensar como sabes onde está tudo. O pai bufou. — Sei, mas onde ponho as chaves já nem sempre. Tem piada, não? O filho quis dizer “não tem”, mas percebeu que o pai não falava de rir, mas de medo. — É normal. Também me acontece. O pai assentiu — talvez aceitasse assim não ter de ser perfeito. Desmontaram o travão. Faltava uma mola. O pai ficou um tempo a olhar o vazio, depois ergueu os olhos. — Ontem andei a mexer, devo tê-la deixado cair. Procurei, nada. — Vejamos outra vez — disse o filho. De joelhos, passaram as mãos pelo chão, olharam debaixo da mesa. O filho achou a mola encostada ao rodapé. — Está aqui. O pai apanhou-a, ergueu-a à luz. — Graças a Deus. Já pensava que… — não acabou a frase. O filho percebeu que ia dizer “que já nem para isto presto”. Mas não. — Tomas um chá? — o pai disparou, como se o chá pudesse disfarçar o instante. — Tomo, claro. Na cozinha, o pai pôs a chaleira ao lume, tirou duas canecas. O filho sentou-se, a ver o pai mover-se devagar entre fogão e armário. Os gestos iguais, só mais lentos. O pai preparou o chá, pôs uma travessa com bolachas. — Come, estás mais magro. O filho ia contrariar, dizer que não, que era da roupa grossa, mas calou-se. Naquela frase estava tudo o que o pai sabia dizer de cuidado. — E o trabalho, vai bem? — perguntou o pai. — Vai. — E acrescentou, para não ficar pela metade: — Fecharam um projecto, agora há outro. — O importante é pagarem a horas. O filho sorriu. — Sempre a pensar no dinheiro. — E hás-de querer que pense em quê? — o pai fitou-o. — Em sentimentos? O filho sentiu dentro uma pontada. Não esperava ouvir o pai usar aquela palavra. — Não sei — disse com sinceridade. O pai calou-se, segurou a caneca com as duas mãos. — Sabes, às vezes acho que vens cá só por obrigação. Apareces, marcas ponto e vais-te embora. O filho pousou a caneca. O chá queimava-lhe os dedos, mas não a largou. — Achas que é fácil vir cá? Aqui… parece que sou de novo miúdo. E tu, como se soubesses sempre tudo melhor. O pai sorriu de lado, sem ofensa. — Eu acho mesmo que sei. Vício antigo. — E nunca perguntaste como eu estou. A sério. O pai olhou o fundo da caneca como se ali visse respostas. — Tinha medo de perguntar. Perguntando… tem de se ouvir. E eu… — levantou os olhos. — Não sou bom nisso. O filho sentiu-se mais leve. O pai não pediu desculpa, nem explicou. Só admitiu que não sabia. Mais verdade do que mil discursos. — Também eu não sei. O pai assentiu. — Olha, então aprendemos juntos. Nem que seja com a bicicleta — disse, espantado com a frase. Acabaram o chá e voltaram à sala. A bicicleta, a roda, o cabo tudo no mesmo sítio. O pai arregaçou as mangas. — Pronto. Mete tu o cabo, eu alinho as sapatas. O filho passou o cabo, tirou-o por entre bainhas. Os dedos menos hábeis que os do pai. Irritou-se. O pai reparou. — Não tenhas pressa. Isto é paciência, não força. O filho olhou-o. — Falas do cabo ou de tudo? — De tudo — respondeu o pai, desviando o olhar. Ajustaram as sapatas, apertaram as porcas. O pai experimentou várias vezes o travão. — Agora está melhor. O filho encheu o pneu, verificou. A câmara aguentava. Voltaram a montar a roda. O pai pediu a chave treze e o filho passou-lha em silêncio. Ficou-lhe bem na mão, como sempre. — Pronto — disse o pai. — Vamos testar. Desceram com a bicicleta ao pátio. O pai levava-a pelo guiador, o filho ao lado. O pátio vazio, só a vizinha com o saco faz um aceno. — Anda, experimenta — disse o pai. — Eu? — Quem mais? Já não sou malabarista. O filho montou-se. O selim baixo, como em rapaz. Deu umas voltas à volta da floreira, travou. Parou logo. — Está boa — disse, descendo. O pai pegou, empurrou devagar, só para sentir. Parou, pousou o pé. — Está. Valeu a pena. O filho olhou-o, e percebeu: não falava da bicicleta. Falava de o ter chamado. — Fica com as ferramentas — disse o pai de repente. — Estas que usámos. — Um aceno para a caixa. — Chegam-me as que tenho. Dão-te mais jeito. Tu gostas de fazer tudo sozinho. O filho ia recusar, mas percebeu: era assim que o pai dizia “gosto de ti”. Não em palavras, mas em coisas. — Fico. Mas a chave treze não empresto. Essa é a tua rainha. O pai sorriu. — Essa fica sempre no mesmo sítio. Subiram de novo. No hall, o filho vestiu o casaco. O pai junto, sem pressas. — Passas cá para a semana? — lançou, casual. — A porta do sótão chia. Era capaz de pôr óleo mas… as mãos já não estão para isso. Falou sem desculpas. O filho ouviu o convite. — Passo. Liga antes para não ser a correr. O pai assentiu e, já a fechar a porta, murmurou: — Obrigado por teres vindo. O filho desceu as escadas com algumas chaves e uma ou duas chaves de fenda do pai guardadas num pano. Pesavam bem, mas não custavam. Na rua, espreitou as janelas do terceiro andar. O cortinado mexeu-se, como se o pai olhasse. O filho não acenou. Foi-se embora, sabendo que agora podia voltar não só “por obrigação”, mas por aquela tarefa que finalmente ambos tinham aprendido a aceitar como importante.