— Mas acham mesmo que estou sozinha? — respondia ela a rir. — Não, imaginem! Eu tenho uma família en…

Mas acham mesmo que estou só? respondia ela, Não, imaginem, tenho a casa cheia de família!

Souvenires temáticos

Beatriz já vivia há alguns anos sozinha numa pequena casa no limite da aldeia. Ainda assim, quando ouvia comentários sobre a sua solidão, dava-lhe uma vontade imensa de rir:

Acham mesmo que estou só? respondia, Não, meus senhores, a minha família é enorme!

As mulheres da aldeia sorriam e assentiam, trocando olhares por trás das costas de Beatriz, girando o dedo junto à testa como quem diz: tem pancada, família dela imagina, sem homem, sem filhos, sozinha como bicho

Eram justamente esses bichos que Beatriz chamava de família. Não queria saber da opinião dos vizinhos, que diziam que para ter bichos era só para algum fim: galinhas pro aviário, vacas para leite, um cão para proteger ou um gato pra caçar ratos.

Beatriz tinha cinco gatos e quatro cães. E o mais estranho para a aldeia: todos viviam dentro de casa, não no quintal, onde achavam que era o lugar deles.

Conversavam entre si, porque dizer-lhe a ela era perder tempo com maluca não adianta, diziam, ela só se ri na nossa cara:

Ora, está bem, rua já eles viram muito, em casa é que se está em família, dizia Beatriz.

Cinco anos antes, Beatriz perdera o marido e o filho de uma só vez. Vinham os dois da pesca quando, numa estrada entre Évora e Portalegre, um camião desgovernado atravessou a linha.

Depois de um tempo a sobreviver, Beatriz percebeu que não podia continuar naquele apartamento, onde tudo sussurrava os nomes deles; não conseguia passear nas mesmas ruas, entrar nas mesmas mercearias. Ainda lhe pesava aquele olhar piedoso dos vizinhos.

Seis meses depois, vendeu o apartamento e, com a gata Dalila, mudou-se para uma casa antiga à beira da aldeia, por uns milhares de euros. Na primavera punha mãos à horta, e, no inverno, passou a trabalhar na cantina da vila.

Foi dali que foi levando todos os seus animais. Uns pediam pão à porta da estação, outros apareciam à praceta da cantina, ansiando por restos.

Assim se formou, na solidão de uma mulher, uma família imensa de almas irmãs: todos eles também já tinham sido sozinhos ou marcados pela vida. O coração de Beatriz curava feridas; eles retribuíam com amor.

A ternura e o calor da casa chegavam para todos.

Comida não faltava apesar de não ser fácil. Beatriz sabia que não podia trazer para sempre animais novos, prometendo vez após vez a si mesma: Agora é mesmo o último.

Em março, depois de dias soalheiros, voltou de súbito o vendaval, soprando neve dura sobre os campos, atirando os poucos passantes para dentro das casas e uivando gélido pelas frestas da noite.

Beatriz apressava-se para apanhar o autocarro das sete, o último a passar antes da aldeia adormecer. Tinha à frente dois dias de folga, por isso passara pelo supermercado depois do trabalho, levando víveres para a sua família de caudas além de um saco com uns mimos da cantina, que lhe pesavam tanto nos braços como os dias no peito.

Ao lembrar-se da promessa recente, esforçava-se por não olhar para os lados, aquecendo-se com a antecipação do regresso, onde seria saudada pelos seus.

Mas, como se diz, o essencial é invisível aos olhos, e o coração obrigou-a a abrandar e rodar o rosto, a poucos metros do autocarro.

Debaixo de um banco estava um cão. Olhava-a fixamente, mas sem brilho nos olhos, quase de vidro, meio coberto de neve. Devia estar ali há muito.

Ao redor, gente apressada passava, enrolada em cachecóis e casacos. Tanta gente e ninguém via?

O coração de Beatriz apertou-se. Esqueceu o autocarro e qualquer promessa. Correu até ao banco, largou tudo e estendeu a mão ao animal, que piscou lentamente.

Graças a Deus, estás viva! sussurrou Beatriz. Anda lá, querida, levanta-te, vem comigo

O cão não se mexia, mas também não resistiu quando ela o puxou com cuidado para fora daquela sombra branca. Já não tinha vontade de lutar talvez já se despedisse do mundo.

Mais tarde, Beatriz nunca conseguia lembrar-se de como chegou à estação com duas sacas e um cão nos braços.

Entrou, procurou um canto e começou a massajar energeticamente as patas esqueléticas da desgraçada, aquecendo-as nas palmas das mãos.

Anda, querida, balança-te para este lado; ainda temos que ir a casa. Vais ser o nosso quinto cão, para fazer número certo falava baixinho.

Tirou da saca um croquete e estendeu ao cão. De início recusou, mas, com o frio a ceder, mudou de ideias e aceitou o petisco. O olhar tornou-se mais vivo, o nariz inquietou-se a fome venceu.

Uma hora depois, estavam ambas à beira da estrada, polegar ao alto. O autocarro já tinha partido. Com o cinto de Beatriz improvisaram coleira e trela, se bem que a recém-nomeada Fofa nunca se afastava, encostando-se-lhe à perna o tempo todo.

Dez minutos depois, desacreditando da sorte, entravam ambas na boleia de uma carrinha param.

Muito obrigada, senhor! Não se preocupe, sento a Fofa no colo, ela não suja nada, disparava Beatriz.

Ora, não se preocupe, sorriu o condutor, ela que venha ao assento, não se acanhe não é pequena!

Mas Fofa aninhou-se ao colo de Beatriz, tremendo ainda, mas cabendo ali como se fosse feita de sonho.

Fica mais quentinho assim, disse Beatriz, sorriso tímido.

O condutor assentiu sem dizer palavra, lançou um olhar ao cinto atado ao pescoço da cadela e ligou o aquecimento. Seguiram em silêncio. Beatriz acarinhava Fofa, olhando pensativa para os flocos ilógicos que iam batendo no vidro.

O condutor olhava de soslaio aquele perfil bonito, abraçada ao ser resgatado. Percebia que ela a recolhera; via o cansaço no rosto, mas também uma paz feliz.

Deixou-as à porta, ajudou com as sacas. A neve estava tão alta que precisou empurrar com o ombro o portão, que acabou por sair do lugar e tombar desengonçado.

Não ligue, suspirou Beatriz, já pedia conserto há anos.

Do interior da casa chegava um coro de latidos e miados. Apresou-se até à porta, abriu-a e toda a sua família sem igual veio à rua.

Então? Pensaram que me tinham perdido? Pronto, cá estou, para onde é que ia sem vocês! Abram alas, temos reforços, tragam souvenirs!

Fofa espreitou cautelosa, enquanto os outros cães abanavam as caudas e farejavam as sacas ainda nas mãos do homem.

Ai, estamos à seca aqui fora, lembrou-se Beatriz , entre, se não se assusta com tanta companhia. Quer um chá?

O condutor largou as sacas, mas não entrou:

É tarde, vou indo. Há que alimentar esta família, eles bem esperaram por si

No dia seguinte, já o sol ia alto, Beatriz ouviu pancadas no portão. Envolveu-se em casaco e saiu. Era o condutor da véspera.

Estava de joelhos, pregos e dobradiças na mão, a consertar o portão. Ao vê-la, sorriu:

Bom dia! Ontem deitei-lhe isto abaixo, cá vim arranjar chamo-me Manuel. E a senhora?

Beatriz…

Os animais rodearam o visitante, farejando-o curiosos. Ele agachou-se, afagou-os todos, um por um.

Entre, Beatriz, não apanha frio. Acabo já e aceito o chá. Há bolo no carro e trouxe lembranças para essa família de quatro patas.

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