**Diário 12 de janeiro**
Hoje a casa voltou a ser um palco de confusão. A minha mãe, Maria, chegou de novo com o seu companheiro de quarto e ainda trouxe outro homem. Já estavam a beber, e eu, Lurdes, retireime para um cantinho ao lado da mesinha de cabeceira, sentindo a neve cair lá fora como se fosse água fria a bater na janela.
Não há onde me esconder, lá fora já está a neve. Está tudo a cansarme. No verão, ao fim do 9.º ano, vou terminar a escola e mudarme para a cidade. Quero entrar no Instituto Politécnico de Educação e ser professora. A cidade fica a apenas dez quilómetros, mas vou viver no dormcinema da universidade murmurei para mim mesma.
A mãe e os convidados acomodaramse na cozinha. O som da garrafa a ser aberta, o cheiro de enchidos a espalharse pela casa, fizeramme salivar involuntariamente.
Espera, tu! gritou a voz da minha mãe.
Que é que estás a dizer?
São duas pessoas
Primeiro de uns dois? respondeu o meu tio Miguel, que partilha o quarto com a mãe.
O copo tamborilou quando o prato caiu ao chão; o barulho de porcelanas a se despedir, um chiado de vento que vinha da porta aberta. Sentime ainda mais enclausurada no canto. O ruído cessou de repente.
Ouve, Tiago, ela está a dormir disse o colega de casa.
Eu já dizia que era uma boa rapariga, mas agora tenho um sentimento estranho por ela
Lembrate que ela tem uma filha
Qual filha?
A Inês, já tem idade. Deve estar escondida no quarto.
Tragaa aqui exclamou Tiago, feliz.
Inês, onde estás? entrou o tio Miguel na sala, vendome. Sorriu com uma expressão que não me deu bom ânimo. Venha, sentese connosco!
Eu também estou bem aqui.
Porque te envergonhas? tentou abraçarme.
Levei a vaso que estava na mesinha e, num instante de desespero, atireio contra a cabeça dele. O vidro quebrouse num chorro de estilhaços. Corri para fora da casa, ainda de meias, calções velhos e Tshirt.
Os homens que a seguiam chegaram logo atrás. A rua da aldeia, vazia, parecia um deserto branco. Onde correr à noite, na neve? Ouvia gritar ao fundo. Num grande prédio ao lado, ouvio latido de um cão e depois alguém a amarrotar a voz ao chamar o animal.
Cheguei aos portões e bati. Um homem de quarenta anos abriu a porta.
Ajudeme! rovei, olhando-lhe suplicante nos olhos.
Entre! ele puxoume pela mão e fechou a porta.
Óscar, quem é isso? saiu uma mulher na varanda.
É ela, apontou o senhor ao verme. Uns rapazes a perseguila.
Rápido, entre! a mulher agarroume pelo braço. Tudo pode ser esclarecido dentro.
Inês, sai de boa! gritou o tio Miguel.
Óscar, não te metas! gritou a dona da casa. Vai para dentro!
Da rua ouvisse gritos, do quintal latidos de cão.
Temos de chamar a polícia disse a mulher, tirando o telemóvel.
Inês, não, deixemme lidar com isto. São locais, isto pareceme familiar.
Como pretendes resolver?
Calmamente. Acalmaa rapariga!
O senhor pegou um saco, foi ao frigorífico, pôs lá uma garrafa de vinho e um pedaço de enchido. Apanhou o cão, acarinhouo e saiu novamente. O tio Miguel avançou:
Dáme a Inês!
Levema e já chega!
Abrir o saco trouxe-lhe um sorriso. Acenou ao colega.
Vamos, Tiago! ordenou.
***
Sou a Sofia, disse a mulher, colocando a chaleira no fogão. Senta, conta o que aconteceu.
Chamome Lurdes, comecei, dentes rangendo. Vivo nesta rua, mas desde pequeno
És filha da Kira?
Sim.
A gente já ouviu falar da tua mãe, embora acabemos de chegar aqui.
Baixei a cabeça, as lágrimas caíram.
Não chores! a mulher me abraçou, um gesto tão estranho para mim. Abraceia e chorava ainda mais.
Vamos beber um chá, depois vamos para a casa de banho.
O senhor entrou:
Tudo pronto.
E a bela aqui, o que vamos fazer? Sofia piscou para mim e, de repente, sorriu.
Falaremos amanhã. Agora vamos ao chá e depois ao banho.
Queres comer? ofereceu a Sofia, colocando-me uma chávena de chá. Vejo que tens fome.
Na mesa apareciam sandes, restos de bolo.
Come, come! disse o senhor, observandome olhar a comida.
Não me incomodaram com mais perguntas. Preferiram não chamar a atenção, vendo que eu estava envergonhada.
Depois do jantar, Sofia levoume ao banheiro:
Lavate, põe este roupão!
***
Tudo o que eu queria era não ser expulsada novamente. Como era agradável estar numa banheira quente, enquanto lá fora o frio ainda mordia. Mas era hora de sair, os donos esperavam.
Saí. O homem e a mulher sentavamse no sofá. Sorrime culpada:
Obrigada!
Lurdes, começou a dona da casa. Pelo que entendo, ninguém vai procurar por ti. Não queres voltar para casa?
Baixei ainda mais a cabeça.
Amanhã, de madrugada, temos de partir
Entendo murmurei, ainda mais baixa.
Ficarás sozinha. Não abras portas! O nosso Jack não deixará ninguém entrar. Entendido?
Sim! gritei, sem conseguir conter as emoções.
Quando chegarmos, podes fazer um caldo de feijão, piscou o senhor Óscar. Sabes?
Sei, respondi apressada, ainda temendo ser expulsada. Cozinho bem. Posso limpar a casa.
Se não for muito, limpa lá em baixo, concordou a Sofia.
***
Acordei com os donos. Ainda tremia, temendo ser expulsa. Ouvia o barulho de um carro no pátio. Depois de algum tempo, tudo calou.
Levanteime, laveime. Na cozinha o chaleiro fervia, na mesa pão, enchido, queijo. Sobre a tábua, costelinhas de porco.
Fiz o pequenoalmoço, limpei a mesa, varri o chão. No corredor vi o aspirador, ligueio e comecei a limpar.
Apenas desliguei o aspirador
E o que tudo isto significa? ouvi uma voz atrás de mim.
Virei rapidamente. Um rapaz alto, de dezoito anos, olhos castanhos curiosos.
Estou a limpar murmurei. E você?
Então ele balançou a cabeça, tirou o telemóvel do bolso:
Mãe, estou em casa. E quem é esta?
Filho, deixa-a ficar connosco um tempo.
Bem.
Guardou o telemóvel, avalioume da cabeça aos pés e foi à cozinha.
Precisa de chá? perguntei.
Eu mesmo vejo.
***
O rapaz terminou o pequenoalmoço, entrou ao banheiro, saiu nu, cheirando a loção.
Ei, senhor, passame mais uma garrafa! gritou alguém da rua.
O que é isso? aproximouse o rapaz da janela.
Não abram! gritei, assustada.
Ele olhoume curioso, sorriu e dirigiuse à porta. Corri à janela. Do outro lado, o tio de minha mãe e o seu amigo gritoualgo, e eu senti medo.
De repente, o filho dos donos saiu. Todos correram para ele e caíram na neve. Pareceume que os dois caíram ao mesmo tempo.
O rapaz se inclinou sobre eles, disse algo. Levantaramse, cabisbaixos, e foram em direção à casa da minha mãe.
***
Ele voltou. O olhar pousou na minha figura imóvel. Aproximouse:
Tens medo?
Sem controlarme, fundime nos seus braços e chorei.
Como te chamas? perguntou de repente.
Lurdes.
Eu sou o Rui. Não chores. Eles não voltarão.
Rui subiu ao seu quarto e não saiu até à noite. Eu fiz o caldo de feijão, senteime à mesa e refleti.
Claro que queria ficar ali, com aquela gente boa, mas percebia que havia ultrapassado os limites da decência.
Os donos regressaram. A Sofia balançou a cabeça, admirada com a ordem da casa. O senhor Óscar elogiou o caldo.
Acho que vou para casa disseme, resignada. Obrigada por tudo!
Lurdes, fica connosco mais uns dias!
Obrigada, Sofia! Vou embora repeti.
Caminhei até a porta e parei. Desde ontem, andava pela casa com um roupão e pantufas que não eram minhas.
Vamos! a dona agarroume pelo ombro e levoume ao salão.
Abriu o armário, estudou as roupas. Tirou um jeans, um suéter, uma jaqueta esportiva quente.
Veste! Temos quase a mesma estatura.
Não não quero
Não vais sair nua. Vestete! Não fico sem dinheiro.
Vestime. Olheime ao espelho; nunca tinha tido roupas tão bonitas. No corredor, a dona forçoume a calçar um gorro e botas de inverno.
Lurdes, boa viagem!
Obrigada, Sofia!
***
A vida seguiu o seu curso. Não totalmente antiga, mas mudou. A mãe encontrou trabalho numa quinta. O tio desapareceu com o amigo.
Chegou a primavera. Sentada a estudar, ouvi um bater na porta. Olhei pela janela e não acreditei aos olhos lá estava o Rui, ao lado da cerca, a acenar.
Olá! sorriu.
Olá!
A tua mãe chamoute.
***
Entrei na casa onde passei aquele dia tão feliz.
Olá, Lurdes! recebeume a dona na porta, abraçandome.
Olá, Sofia!
Entra! Vamos tomar um chá!
A dona serviume chá e sentouse à mesa.
Temos um plano. O meu marido e eu vamos voar para a Turquia por um mês. O filho está raramente em casa. Não poderias cuidar da casa? Alimentar o Jack, o gato, regar as flores. Tenho tantas plantas.
Claro, Sofia!
Aqui está o dinheiro. entregoume uma sacola. Vinte mil euros.
Sofia, por quê?
Leva tudo. Não vamos ficar sem nada. Vem, explico tudo.
Memorizei onde ficam os vasos, os barris de flores, a comida do gato e a carne do cão. Então Sofia gritou:
Rui! o filho saiu correndo do quarto. Apresenta a Lurdes ao Jack!
Vamos! ele pôs levemente a mão no meu ombro.
Saíram ao quintal, soltaram o Jack e foram passear.
Rui falava da universidade, do karaté, do negócio da família. Eu, porém, pensava noutra coisa. Percebi que a distância entre mim e ele era tão grande quanto entre a minha mãe e os pais de Rui. São boas pessoas, mas não é um conto de fadas; é a vida real.
«Em dois meses terei exames no instituto, vou passar. Vou estudar, trabalhar, crescer, mas tornarmeeumapessoa. Casarme, mas não com esse rapaz. Ele é ótimo, mas não é o meu!»
Sou grata à Sofia pelos mantos e pelos vinte mil euros. Pelo menos poderei sustentarme nos primeiros dias na cidade.
Um sentimento interior diziame que, neste instante, o meu difícil infância terminara. Começa a vida adulta tão dura quanto, mas agora depende só de mim.
Chegámos ao chalet. Acariciei o Jack no pescoço, sorri ao Rui e voltei para casa. Amanhã começa o meu trabalho aqui. Só o trabalho e pronto.
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