NOIVA
Inês observou, como se através de um nevoeiro de sonho, o seu noivo com a cara torcida de raiva a bater na Marfina, a pequena rafeira que, com a patinha enlameada, pisara os ténis brancos dele. A Pimenta tentou defender a amiga, mas acabou por receber uma chicotada do trela de cabedal pesado bem no focinho. E ali, Inês compreendeu, com uma estranha lucidez onírica, porque é que os seus gatos e cães não gostavam do Tomás.
Sentada junto à janela, Inês mergulhava em pensamentos turvos, enquanto o crepúsculo de inverno cobria Lisboa como um cobertor cinzento. Por mais que as luzes acendessem como pirilampos nas janelas dos prédios, tanto lhe fazia claro ou escuro, o seu espírito vagueava à deriva. A verdade era que ela tinha quase tudo: um bom emprego, um apartamento jeitoso em Campo de Ourique, e vivia tão bem como se podia esperar. Apenas, com uma persistência absurda, o coração teimava em não encontrar amparo. O tempo corria, todos à sua volta já tinham casado, tinham filhos, enquanto ela sentia-se sempre sozinha como se andasse descalça num chão de pedras.
Serei eu condenada a ser uma solteirona, perguntava-se, olhando para os seus companheiros felpudos que se aninhavam silenciosos e solidários à sua volta. O que me falta? pensava, vagueando entre imagens flutuantes de festas de casamento e miados ao entardecer.
Depois de perder os pais cedo, Inês foi criada pela avó Aurélia, meiga e determinada. Sonhava ser médica, mas ao terminar o secundário não entrou na Faculdade de Medicina. Acabou por entrar na Escola de Enfermagem e agora trabalhava noites inteiras no INEM, socorrendo sonhos partidos e ossos partidos por igual.
A avó mudou-se para uma pequena casa com quintal nos arredores de Sintra, na esperança de que a neta pudesse, enfim, construir uma vida amorosa no seu próprio espaço. Mas tudo ficara sempre suspenso, como um eléctrico parado em Belém.
Em criança, sonhava com um gato e um cão, mas a sua mãe era alérgica. A descoberta foi feita assim: um dia, Inês, feliz e de olhos brilhantes, chegou a casa com um pequeno gato malhado, resgatado da rua, e nesse instante a mãe sofreu uma crise terrível de asma. O Pingo, como lhe chamaram, teve então de ir morar com a avó.
Após a morte dos pais, apareceu mais um gato, o Xisto, recolhido ao lado de um contentor. Cães, só quando a avó consentiu tinha medo da responsabilidade. Hoje, em vez de um namorado, Inês vivia rodeada por cinco fiéis amigos de quatro patas. Sem eles, sentia, tudo seria insuportável.
A Pimenta, uma rafeira esperta, apareceu encolhida de frio junto a um supermercado. Tentava alambazar-se para dentro, mas era sempre posta fora pelos seguranças. Inês enfiou-a no saco de pano e levou-a para casa. Ganhou o nome pela velocidade com que corria e rapidamente se engraçou com o Xisto.
Depois chegou a Marfina, uma dachshund largada pela família do prédio ao lado quando foram para uma casa renovada. Não quiseram o animal por medo dos estragos. O bichinho ficou lá fora no inverno, tentando escapar ao frio, até que Inês soube da situação através dos vizinhos. Levou a Marfina para cuidar dos ouvidos gelados. Era uma alma calma, caseira parecia até uma daquelas velhas senhoras de lenço na cabeça, cuidadosas e certeiras. E quando fazia frio, Inês atava-lhe um xaile pequenino, que ela aceitava com prazer, trotando pelas ruas da cidade com um ar digno e cómico.
A Dona Nicota, a gata de pelagem cinzenta austera, apareceu de manhã em frente ao prédio, um novelo de gelo e miséria a miar com voz de quem já viveu séculos. Inês resgatou-a, alimentou-a com pão e chouriço, e colou na porta do prédio uma nota: Por favor, não expulsem a gata, vou buscá-la depois do trabalho. Em casa, batizou-a com o próprio nome do meio, e Dona Nicota aceitou-o de bom grado. Logo se revelou a comandante da trupe mandava em todos, impunha as regras e até de noite fazia rondas, tal uma porteira vigilante.
Por fim, apareceu o Quietinho, um gatito pequeno salvo das garras de dois corvos no parque Eduardo VII. Tímido, com olhar espantado, cresceu para ser o mais pacífico dos cinco, sempre concordando, sempre discreto. Viviam todos em harmonia, tentando cada um à sua maneira alegrar a dona.
A avó Aurélia suspirava, alheia ao surrealismo da rotina:
Ó minha querida Inês… Para que queres tantos animais? Dois cães, três gatos parece a Arca de Noé no teu T2… Nem todos gostam de bicharada assim! Os rapazes de hoje têm tantas manias…
Então, avó, se não gostam dos meus animais, não servem para mim.
Havia-lhe acontecido já com o Pedro namoraram uns meses, mas logo percebeu que ele não suportava patinhas nem bigodes em casa. Não sofreu muito com essa perda.
Depois apareceu o Tomás simpático e descontraído, nadador campeão distrital. Sabia estar, ajudava a passear a Pimenta e a Marfina, e pareciam encaminhados para o casamento. Mas, com o tempo, os animais afastavam-se dele. A Pimenta até rosnava, Marfina escondia-se atrás da dona, os gatos ignoravam-no, e Dona Nicota bufava-lhe como se o pressentisse.
Um dia, entre a névoa de um sonho, Inês saiu à varanda e viu Tomás, com a cara retorcida de fúria, a pontapear a Marfina por sujar-lhe os ténis brancos. Pimenta defendeu a amiga e foi atingida pela trela. Inês, sem pensar, correu para o quintal, arrancou a trela das mãos do noivo e deu-lhe com força nas mãos.
Inês! Estás doida? Isso dói!
Dói? Os meus animais não têm sentimentos? Como te atreves a bater-lhes? E se um dia me bateres a mim?
Era só para educar, para aprenderem a não pisar os pés das pessoas!
Vai-te embora. Nunca mais voltes!
Ora, nem tenho vontade de viver num zoo desses retorquiu ele, rindo nervoso.
Aquelas palavras ficaram a ecoar na mente de Inês durante noites esfarrapadas. Sentiu-se enganada, traída, vazia por dentro. Como pudera iludir-se tanto com alguém? Passou um ano assim, conformando-se aos poucos com a solidão, até que um dia o improvável aconteceu: apaixonou-se perdidamente, como de repente se encontra um comboio a vapor no Rossio.
Conheceu o Alexandre Jacinto médico ortopedista numa noite de emergência no hospital de Santa Maria. Quando o viu, sentiu uma espécie de descarga eléctrica impossível de traduzir em palavras. Nunca acreditara em amor à primeira vista isso era para os romances e telenovelas. Mas enganou-se.
Logo Alexandre arranjou o número dela nos registos do hospital e ligou nessa mesma semana. Começaram a sair. Ele era alto, sereno, gentil. Inês, entre o medo e o contentamento, escondeu o pequeno exército peludo. Só casados, pensava, depois logo se via.
Conheceu-lhe a irmã, o cunhado, foram juntos ao Alentejo visitar os pais dele. Alexandre conheceu a avó Aurélia. Inês já conhecia o apartamento dele, mas Alexandre nunca tinha posto os pés no dela as desculpas de parentes doentes já não pegavam. Algo precisava de ser feito contar a verdade ou prolongar o segredo?
Inês decidiu deixar, durante uns tempos, os animais com a avó. A Pimenta e a Marfina já conheciam o espaço, e os gatos, bem, esses adoravam a companhia da Aurélia. Mas a velha não gostou nada da ideia:
Não vás por esse caminho, filha. O Alexandre parece-me ser homem digno e tu já começas com mentiras…
Avó, eu não posso perder este homem; e também não posso viver sem os meus bichos.
Olha, faz como entenderes, mas não acredito que vai correr bem…
Nos dias seguintes, Inês sentia-se como quem vive numa casa com as paredes de vidro: disfarçava a saudade dos seus companheiros. O Alexandre ficou mais à vontade e, finalmente, pediu-a em casamento, oferecendo-lhe um anel com ametista roxa em forma de coração.
Só aviso que não trago muito enxoval ela ria, nervosa.
Nos preparativos para a boda, o tempo voava. Depois dum turno desgastante, pararam finalmente em casa de Inês para falar de convidados. Enquanto discutiam as ementas, Alexandre foi deitar o lixo, mas reparou nas embalagens de comida para cães e gatos.
O que é isto?
Nada, Alexandre… Depois eu explico.
Inês desviou a conversa, e guardou os segredos. Mas, noutro plano, nesse mesmo tempo, a avó Aurélia soltou a Pimenta e a Marfina para uma corrida rápida no jardim, distraída enquanto falava com a carteira que trouxera a pensão. A porta ficou aberta e, num ápice, Dona Nicota, Xisto e Quietinho escapuliram-se para a rua. Apenas o Pingo ficou em casa. Os cinco reuniram-se em silêncio, uma breve assembleia felpuda, e partiram em bando em direcção a Lisboa, guiados pela memória obstinada da Pimenta.
Pela rua, era um cortejo surreal cães e gatos juntos, apressados, Dona Nicota a fechar a fila para garantir que ninguém se perdia. Nos passeios, o xaile de lã na Marfina quase caía para o lado, arrancando sorrisos ternos aos transeuntes.
Alexandre, já em casa de Inês, ouviu ruídos estranhos no corredor uivos, miados, patadas. Abriu a porta e viu entrar, em procissão, uma dachshund de xaile, a par de uma rafeira alegre, seguida de três gatos todos molhados de neve e exultantes.
Mas o que é isto?!
Inês, vermelha como um tomate, escondeu o rosto nas mãos e sentou-se no tapete, engolindo um soluço silencioso.
São teus? Todos?
São, Alexandre… estavam na casa da minha avó…
A Pimenta e a Marfina armaram grande estardalhaço, ladrando ao estranho, os gatos bufavam. Alexandre suspirou:
E dizias que não tinhas enxoval…
Com ar resignado, vestiu o casaco, saiu, entrou no carro e foi-se embora. Inês ligou à avó para a acalmar e não quis explicar o sucedido. Sentou-se abraçada aos animais lágrimas ardentes e densas, a emoção nadando na cabeça como peixes translúcidos. Acabou-se o casamento, bem feito para mim, pensava. Não ousou ligar-lhe para explicar. O rosto inchado, a alma vazia.
Passaram algumas horas. Do lado de fora, uma campainha ecoou como o tilintar de um sino de igreja no nevoeiro da manhã. Era Alexandre, nos braços sacos cheios de ração caríssima e mimos para gatos e cães. Sorria, pousou os sacos e voltou lá fora.
Não feches a porta, já venho.
Pouco depois, entrou segurando uma outra dachshund, agora vestida num fato vermelho.
Esta é a minha Nica. E esta é a Maru, a minha gata. Estavam na casa da minha irmã. Temos lugar na tua equipa?
Passaram anos. Inês Aurélia e Alexandre Jacinto lembram-se daquele início estranho e sonham juntos com um lar sempre cheio de caudas. Talvez, se não fosse por esse sonho povoado de animais, quem sabe não teriam ficado juntos tanto tempo como se a vida, na sua lógica estranha e surreal, se encarregasse de os reunir com cada pata, cada miado, cada latido.







