Quatro noites seguidas, a gata acordou o Tomás exatamente às três horas. Ele trancava a porta, ralhava, procurava na internet gotas calmantes para animais. E bastava apenas levantar-se e seguir atrás dela até à cozinha.
Na primeira noite, o Tomás quase atirou a almofada à gata.
O relógio marcava as três. A hora mais pesada, mais odiada da noite, quando a pessoa ainda não conseguiu dormir o suficiente, mas já foi arrancada do sono. E por dentro fica tudo seco, zangado e espinhoso.
Acordou porque alguém, com uma pata suave mas insistente, lhe tocava a cara. Não com as garras — com a própria pata. Como se não fosse a gata a acordá-lo, mas alguém que repetia com paciência: levanta-te. Por favor, levanta-te.
O Tomás abriu os olhos e viu a Matilde.
Estava ali mesmo, ao pé da almofada — tricolor, com a orelha esquerda rasgada — e olhava para ele como só os animais sabem olhar: diretamente, sem acanhamento, sem explicações desnecessárias. Um segundo depois, a pata voltou a pousar-lhe no rosto.
— Tu estás maluca?.. — resmungou ele, com a voz rouca.
A Matilde miou baixinho.
Nem alto.
Nem queixoso.
Mas como se daquele som curto dependesse mesmo alguma coisa.
O Tomás sentou-se na cama — zangado, pesado, com aquele ódio noturno imediato por tudo o que é vivo e impede dormir. O quarto estava escuro. Só o candeeiro da rua cortava o teto com uma faixa amarela baça. Lá fora era novembro — húmido, nu, inquieto. Os aquecedores ora aqueciam, ora arrefeciam. O chão estava gelado.
Ele foi à cozinha, deitou comida na tigela e resmungou aborrecido:
— Toma, come. E deixa-me ao menos dormir à noite em paz.
A Matilde aproximou-se da tigela, cheirou a comida, mas não comeu.
Em vez disso, esfregou-se na perna dele, deu meia-volta e caminhou para o fundo da cozinha. Parou. Olhou para trás.
O Tomás já não viu isso.
Voltou para a cama, enrolou-se no cobertor e quase imediatamente afundou no sono, decidindo que a gata estava simplesmente a portar-se de forma estranha. Os animais têm destas coisas: ora é a comida, ora é a lua, ora estão com mau humor.
De manhã, a Matilde estava como sempre.
Sentada na cadeira, com as patas recolhidas. Depois passou para o parapeito da janela. Depois foi deitar-se junto ao aquecedor. Quieta, calma, até demasiado calma para quem, à noite, o tinha acordado com tanta insistência.
Na verdade, a Matilde não era das gatas que atormentam os donos.
Em dois anos a viver com o Tomás, nunca tinha derrubado a árvore de Natal, não miava de noite, não furtava comida da mesa, não se pendurava nos cortinados. Comia com cuidado. Usava a caixa de areia sem falhas. Dormia na sua cadeira. Se precisava de alguma coisa, pedia com discrição, como se percebesse que o homem já tinha problemas que cheguem.
Talvez fosse por isso que o Tomás se tinha afeiçoado a ela.
Encontrou-a no outono, quase por acaso. Saiu à noite para deitar o lixo e viu, junto à entrada do prédio, uma gata tricolor com a orelha rasgada. Estava sentada no cimento molhado. Não fugia, não se roçava, não pedia. Apenas se sentava e olhava para além das pessoas, como se há muito tivesse percebido que pedir não adianta.
O Tomás ficou ali com o saco do lixo na mão, a olhar para ela, e de repente sentiu algo desconfortavelmente familiar. Ela tinha o mesmo ar que ele tinha nos últimos meses depois do divórcio: já não se espera nada, mas por qualquer razão ainda não se vai embora.
Levou o saco de volta para casa — e levou a gata consigo.
O nome “Matilde” não apareceu logo. Primeiro era só “a gata”. Depois, “eh”. Depois, “tu aí”. Até que um dia, ao deitar a comida, ele disse sem pensar:
— Matilde, anda.
Ela veio.
E assim ficou.
Depois do divórcio, o silêncio tornou-se quase o bem mais precioso do Tomás.
Não percebeu isso de imediato. Primeiro, o apartamento vazio assustou-o. Depois, começou a curar. Ninguém discutia. Ninguém exigia explicações. Ninguém batia com as portas nem dizia com voz irritada:
— Tu outra vez não me estás a ouvir.
Não era preciso justificar-se, explicar, prometer mudar. Bastava chegar a casa, tirar o casaco, pôr a chaleira ao lume e ficar em silêncio.
A Matilde encaixou-se perfeitamente naquela vida.
E por isso, quando na segunda noite ela voltou a acordá-lo, o Tomás já não ficou confuso. Ficou zangado.
Desta vez, tinha verificado tudo antes. A comida estava na tigela. A água estava lá. A caixa de areia estava limpa. A janela estava quase fechada. A Matilde comeu, lavou-se e instalou-se na cadeira. Nada fazia prever o espetáculo noturno.
Mas ao fim de algum tempo, o Tomás acordou com um arranhar.
Nem percebeu logo o que era. Ficou deitado, a olhar para a escuridão, a ouvir. Depois percebeu: a porta do quarto.
A Matilde arranhava do lado de fora.
As garras raspavam a madeira velha de forma metódica, constante, insistente. Como se não estivesse só a pedir para entrar, mas a tentar comunicar. O som era seco, desagradável, irritante. Ao fim de uns segundos, juntou-se-lhe um miado.
Nem alto.
Nem queixoso.
Estranho.
Como se a gata quisesse dizer alguma coisa, mas não soubesse como.
O Tomás praguejou em voz baixa, levantou-se, abriu a porta, deixou a Matilde sair para o corredor, deitou-se de novo, mas quase logo percebeu que não ia conseguir adormecer. Então, fechou a porta com o trinco.
O trinco era antigo, ainda dos tempos em que os pais dele moravam naquele apartamento. Pequeno, de ferro, com dois parafusos, um pouco solto, mas resistente. O Tomás raramente o usava. Só quando queria isolar-se completamente do mundo.
Deitou-se outra vez.
A luz do candeeiro da rua desenhava uma faixa amarela torta no teto. Em algum lugar dos canos, o ar farfalhava. Na cozinha, o frigorífico tossia com a sua rouquidão envelhecida. Os sons noturnos normais de um prédio antigo.
E de repente — o arranhar outra vez.
Agora do outro lado da porta.
A Matilde raspava a madeira com a mesma teimosia ritmada. Depois miava. Calava-se. Miava de novo. E assim quase até às quatro da manhã.
O Tomás ficou deitado, com a almofada sobre a orelha, e a cada minuto ficava mais furioso. Parecia-lhe que a gata estava simplesmente a gozar com ele. Que toda a sua frágil paz noturna se desfazia por um capricho de bicho que ele não entendia e não era obrigado a entender.
A manhã começou mal.
O despertador tocou às sete, e o Tomás sentiu que não tinha dormido nada. No trabalho, bebeu café atrás de café, bocejou, esfregou as têmporas e, ao almoço, foi procurar na internet uma resposta.
“A gata acorda-me de noite, o que fazer”.
A internet ofereceu conselhos à discrição. Ignorar. Comprar um comedouro automático. Dar gotas calmantes. Brincar antes de dormir. Eliminar o stress. Levar ao veterinário. Um fórum até garantia que as gatas avisavam assim sobre o “mundo subtil”.
O Tomás bufou e encomendou as gotas calmantes.
Na terceira noite, a Matilde voltou às três em ponto.
Como um relógio.
Primeiro — o toque suave da pata no rosto.
Depois, se ele fingia que dormia — um miado baixinho ao pé da cama.
Depois, quando mesmo assim ele não se levantava — o arranhar atrás da porta.
Mas agora havia na voz dela qualquer coisa que perturbava mais do que o arranhar. Dois sons curtos. Pausa. Dois sons outra vez.
Como se estivesse a contar segundos.
Ou a dar um sinal.
O Tomás ficou deitado, imóvel. Na cozinha, o relógio fazia tique-taque. Lá fora, o candeeiro balançava. O linóleo do corredor rangia baixinho sob as patas da gata.
E em algum lugar dentro do apartamento — ou será que era impressão? — ouvia-se ainda outra coisa. Muito fraca. Quase impercetível.
Levantou-se de repente, abriu a porta de rompante e quase gritou:
— Chega!
A Matilde baixou as orelhas.
Mas não recuou.
Olhou para ele de baixo para cima com um olhar longo e calmo. E esse olhar funcionou melhor do que qualquer miado queixoso. Não havia capricho felino. Havia uma paciência estranha, quase humana. Como se ela já tivesse repetido a mesma coisa várias vezes e ainda não estivesse pronta a desistir.
Depois, a Matilde deu meia-volta e foi para a cozinha.
O Tomás ficou parado na porta.
Por alguma razão, foi nesse momento que sentiu ansiedade pela primeira vez.
Mas mesmo assim não foi.
Voltou para a cama. Não dormiu até de manhã.
No dia seguinte, no pátio do prédio, esbarrou com a Dona Idalina do terceiro andar. Ela, como sempre, estava de roupão de flanela por cima de umas calças quentes, com o cigarro na mão e com o ar habitual de quem já quase nada a consegue surpreender.
— Dona Idalina, — chamou ele. — O seu gato alguma vez a acordou de noite?
Ela olhou para ele por cima dos óculos, puxou o fumo e expirou para o lado.
— Acordou. Porquê?
— É que a minha não me deixa dormir há três noites. Ora é a pata na cara, ora arranha a porta, ora mia. Já verifiquei tudo: comida há, água há, caixa limpa.
A Dona Idalina semicerrou os olhos.
— Se uma gata faz a mesma coisa três noites seguidas, é porque há uma razão.
— Que razão?
— E tu verificaste?
— Já disse, verifiquei tudo.
— Não foi a tigela que eu disse para verificar, — interrompeu a Idalina. — Foste atrás dela?
O Tomás calou-se.
A Idalina deitou a cinza fora e sorriu:
— Elas não são burras, Tomás. Nós é que somos. Se ela chama — não é para adivinhar, é para ir.
O dia inteiro, aquela frase andou-lhe na cabeça.
Para a quarta noite, preparou-se.
Pôs o despertador para as três menos um quarto, mas acordou mais cedo. Ficou deitado na escuridão a ouvir o apartamento. O relógio na cozinha. O frigorífico. O crepitar leve do aquecedor.
E mais um som.
Muito fraco.
Daqueles que facilmente se confundem com um cano a ranger, com o vento, com qualquer coisa, se não quisermos mesmo ouvir.
Às três em ponto, a Matilde saltou para a cama.
Aproximou-se da almofada.
Tocou-lhe na cara com a pata.
O Tomás sentou-se logo.
— Está bem, — disse baixinho. — Vamos.
A Matilde saltou da cama para o chão e caminhou confiante para a frente, sem olhar para trás. Como se soubesse que, desta vez, ele finalmente ia seguir atrás dela.
Ela levou o Tomás pelo corredor, para a cozinha, passando pela mesa, pelo banco — até ao aquecedor por baixo da janela.
Naquele canto, estava mais escuro que em toda a parte. A luzinha verde do micro-ondas mal chegava lá, e por isso os canos pareciam mais grossos do que de dia, e a fresta entre a parede e o ferro velho parecia mais funda e mais assustadora. Da janela vinha frio: a janelinha tinha ficado outra vez entreaberta.
O Tomás ralhou consigo mecanicamente. Já há uma semana que fumava à janela e deixava sempre a fresta “só por um momento”, esquecendo-se depois de a fechar. À noite, o ar gelado espalhava-se pelo chão e a cortina fina mexia-se ligeiramente.
A Matilde sentou-se no chão e ficou a olhar diretamente para o aquecedor.
O Tomás agachou-se. Primeiro, não percebeu o que devia ver. Pó sob o parapeito. Fixações enferrujadas. Cano velho. Um pedaço do rodapé solto.
Nada de especial.
Mas depois, de trás do aquecedor, veio um som.
Um guincho fino, quase sem vida. Tão fraco que de dia seria impossível distingui-lo: na rua há carros, na escada batem portas, nos vizinhos há televisão, na cozinha há o ruído da chaleira.
Mas à noite, o prédio inteiro parece afundar-se no silêncio, e até um som minúsculo começa a atravessá-lo.
O Tomás tirou o telemóvel, ligou a lanterna e apontou para a fresta.
Primeiro, só viu pó e pontas de teias de aranha antigas. Depois — uma coisa pequena, preta, colada.
Um gatinho.
Pequenino. Talvez três semanas, não mais. Os olhos já estavam abertos, mas com um olhar baço, como se o bicho não percebesse onde estava. Os flancos tremiam. As patas encolhidas para a barriga. Estava deitado de lado, preso entre o cano, a parede e o aquecedor pesado, tão desajeitadamente que parecia que não tinha caído ali, mas sim escorregado e ficado entalado.
O Tomás apontou a luz para cima, para o parapeito, e só então compreendeu tudo.
Lá fora, mesmo por baixo da janela, passava um estreito telhado de zinco sobre a entrada da loja ao lado. Da rua, uma gata adulta conseguiria subir para ali — pela árvore, pela saliência, por algum beiral.
E depois havia a janelinha entreaberta. Uma fresta pequena, mas suficiente para um gatinho pequeno. Pela certa, a gata-mãe andava a mudar as crias de um sítio para o outro, a salvá-las do frio ou dos cães do pátio, e trouxe uma para ali. Ou o pequeno, saído de algum esconderijo no beiral, subiu a procurar o cheiro do calor. Do aquecedor vinha um calor forte, e para um bicho tão pequeno aquilo podia ser a única referência que fazia sentido.
E depois tudo aconteceu de forma simples e terrível.
Ele passou pela janelinha, escorregou do parapeito para baixo, para trás do aquecedor — para um sítio onde um animal adulto ainda conseguiria virar-se, mas um bicho tão pequeno já não. A fresta entre a parede e as secções era estreita, poeirenta, com um suporte de metal a espetar-se e um rodapé solto. Para lá conseguir entrar — entrou, assustado, por puro instinto, sentindo o cheiro desconhecido do apartamento. Mas para voltar a sair, já não conseguiu.
Por baixo, o rodapé. Dos lados, o cano. Por cima, as costelas pesadas do aquecedor. Cada vez que o gatinho, na certa, tentava sair, só escorregava mais para o fundo.
O Tomás imaginou aquilo com tanta clareza que sentiu um aperto desagradável por dentro: uma pequena bola de calor quase sem vida, escondida onde cheirava a salvação, presa numa armadilha a dois passos das pessoas.
Agora percebia também outra coisa — porque é que o gatinho só guinchava à noite.
De dia, o apartamento estava barulhento. O Tomás saía para o trabalho, o frigorífico zumbia, lá fora passavam carros, os vizinhos de cima mexiam cadeiras, no pátio brincavam crianças. E o pequeno estava demasiado fraco, frio, faminto — não podia gritar constantemente. Ficava imóvel, dormia, caía num torpor. E só à noite, quando a casa sossegava e ficava ainda mais frio, acordava com fome e medo.
Só então começava a fazer ouvir a voz.
Não alto — para um grito alto já não tinha forças.
Fino.
Raramente.
Quase inaudível.
E só a Matilde conseguia ouvi-lo.
Na certa, ouviu-o logo na primeira noite.
O ouvido dos gatos é completamente diferente. Aquilo que para um homem parece um ruído nos canos ou uma brincadeira da imaginação, para ela era um ser vivo. Primeiro, a Matilde levou-lhe comida. Agora, o Tomás viu com os próprios olhos: no canto mais fundo havia pedaços secos de frango. Então, ela andava a levar-lhe ração da própria tigela. Talvez um pedaço de cada vez. Talvez a empurrasse com o nariz. Talvez com a pata.
De alguma forma, conseguia enfiar a comida num sítio onde ela própria não podia entrar totalmente. E só quando percebeu que isso não chegava, quando o gatinho ficou tão fraco que quase deixou de guinchar, é que começou a acordar o Tomás.
O Tomás deitou-se cuidadosamente de barriga no chão frio e esticou o braço para a fresta. Não conseguiu à primeira: o cano atrapalhava, o canto afiado do suporte arranhou-lhe o pulso. Teve de se esticar de lado, quase às cegas.
Os dedos tocaram finalmente num pelo quente e sujo, e o gatinho guinchou quase sem se ouvir.
— Calma, calma… — sussurrou o Tomás, sem saber porquê.
Envolveu o pequeno com a palma da mão. Era quase sem peso, como uma luva amarfanhada. Só quente. Vivo. E a tremer.
Quando o Tomás finalmente o tirou de trás do aquecedor, o gatinho nem tentou fugir. Apenas mexeu uma pata com fraqueza e ficou quieto, com o focinho enterrado no polegar do homem.
A Matilde aproximou-se imediatamente, cheirou o pequeno e miou curto, quase sem som.
Como quem diz:
— Finalmente.
O Tomás sentou-se mesmo no chão, encostou as costas ao armário da cozinha e ficou muito tempo a olhar para a bolinha preta nas mãos. A Matilde saltou para o colo dele, instalou-se ao lado do gatinho, tocou-lhe com o nariz — e pela primeira vez em todas aquelas noites, relaxou. Até fechou os olhos.
E o Tomás ficou ali sentado, percebendo com uma clareza dolorosa uma coisa muito simples: habituara-se tanto a viver no seu silêncio, na sua solidão cuidadosamente armada, que se tinha esquecido de responder quando alguém, ao lado dele, estava mesmo a pedir ajuda.
De manhã, levou o gatinho ao veterinário.
Comprou leite especial, uma pipeta, uma bolsa de água quente, fraldas. Ouviu todas as instruções. Acenou com a cabeça com tanta atenção como nunca tinha feito na frente de um chefe.
Quando chegou a casa, arrumou o gatinho numa caixa com uma toalha macia, ao pé do aquecedor. A Matilde primeiro ficou perto, desconfiada, depois deitou-se mais próximo, como se tivesse passado o turno ao Tomás, mas sem ir muito longe.
À noite, o Tomás andou muito tempo pelo apartamento, sem sossego.
Depois, de repente, pegou no telemóvel e ligou à mãe.
Pela primeira vez em três meses.
Quando ela atendeu, ele hesitou um segundo. Não esperava ter marcado mesmo o número.
— Mãe, eu… — começou, e calou-se.
A Matilde, nesse momento, saltou para a mesa e pousou a pata ao lado do telemóvel.
— O que se passa, Tomás? — perguntou a mãe logo.
— Nada, — disse ele depois de uma pausa. — Só queria saber como estás.
Do outro lado da linha, o silêncio.
Não magoado.
Não pesado.
Apenas surpreendido.
— Estou bem, — disse a mãe, finalmente. — E tu?
O Tomás olhou para a caixa junto ao aquecedor. Para a Matilde. Para a cozinha que, numa noite só, por alguma razão, se tinha tornado completamente diferente.
— Eu também… estou bem, — respondeu.
E pela primeira vez em muito tempo, aquele “estou bem” não era mentira.
A porta do quarto deixou de ser fechada à chave.
Depois, desapertou os parafusos e guardou o trinco numa gaveta.
A partir daí, se fechava a porta, nunca a fechava de todo.
Porque agora sabia, com toda a certeza: quando alguém vem ter contigo no meio da noite e chama com insistência, nem sempre é por causa do incómodo.







