Passados anos, ainda me lembro desta história. Duas semanas antes da viagem, Dinis e Inês Vieira discutiram. Discutiram a sério, tanto que o gato Pantufa, por precaução, se escondeu não sei onde, para não se meter no caminho daquela raiva.
***
Inês pediu flores.
– Dinis, compra-me flores. Assim, sem razão.
– E o pretexto? – perguntou ele, sem tirar os olhos do telemóvel.
– Eu. Eu sou o pretexto.
Dinis pensou: «Bem, é racional.» Foi ao supermercado. Voltou vinte minutos depois com um saco grande. Inês sorriu, espreitou lá para dentro. Tirou uma cabeça de repolho. Fresca, rija, branca.
– Isto são flores? – perguntou baixinho.
– Isto é repolho. As flores custam cinquenta euros e murcham. O repolho custa oito. Durante três dias podemos fazer salada.
– Dinis.
– O quê?
– Tu és parvo.
– Sou o teu parvo.
Ela não lhe falou durante três dias. Ele não percebia com que é que a tinha ofendido. Ela não explicava. Depois, partiu em viagem de trabalho, de Lisboa para o Porto. Disse:
– Trabalho, nada pessoal.
Inês pensou: «Nada pessoal é mesmo a nossa história.»
Ele partiu por duas semanas.
Ela ficou com duas crianças, com o gato, com a roupa por lavar, com a escola, com o infantário, com os ovos estrelados de sempre ao pequeno-almoço.
E com o WhatsApp.
Foi por ali que eles falaram.
Dia um.
Ele: «Cheguei. O quarto é triste. Amanhã tenho reuniões.»
Ela: «Muito bem. O Pantufa comeu a ração e passou uma hora a miar, a pedir mais.»
Ele: «Quem é que está de parabéns, eu ou o gato?»
Ela: «O gato.»
Dia dois.
Ele: «Fotografia do pequeno-almoço. Fotografia do hotel. Fotografia do colega Rui, que ronca no quarto ao lado.»
Ela: «Bonito. A torneira cá em casa está a deitar água. Chamei o canalizador. Não veio.»
Ele: «Liga à administração do prédio.»
Ela: «Liguei. Disseram que o enviam dentro de três dias.»
Ele: «Que parvos.»
Ela: «Parvos são os que foram para o Porto.»
Dia três.
Ele: «Como estão os miúdos?»
Ela: «O filho trouxe uma negativa, a filha não quer jantar. Estou exausta.»
Ele: «Força.»
Ela: «Obrigada, mas não estou a aguentar-me. Estou a cair.»
Dia quatro.
Ele: «Hoje vi no centro comercial um coelho de peluche enorme. Quis comprar para a filha, mas tive medo de o levar no avião.»
Ela: «Nunca tiveste medo de levar coisas no avião. Tiveste medo de gastar dinheiro.»
Ele: «Percebeste-me.»
Ela: «Percebi-te logo no primeiro encontro, quando pediste um chá sem açúcar e disseste que o doce fazia mal.»
Ele: «E tu pediste um bolo de cereja e comeste-o sozinha, sem mo ofereceres.»
Ela: «Porque tu disseste que o doce fazia mal.»
Dia cinco.
Ele: «Hoje adormeci na reunião. A sério. Fechei os olhos e desliguei por um segundo. Quando os abri, estavam todos a olhar para mim.»
Ela: «Vais ser despedido?»
Ele: «Espero. Estou cansado.»
Ela: «Eu também estou cansada.»
Ele: «Então vamos cansar-nos juntos, mas em cidades diferentes?»
Ela: «Vamos cansar-nos juntos, mas em casa. Quando voltas?»
Ele: «Tenho saudades tuas.»
Ela: «Também tenho.»
Ele ficou um minuto em silêncio. Depois escreveu: «Sabes, agora percebi que não tenho saudades de casa. Tenho saudades tuas. Da forma como bebes café de manhã e fazes uma careta porque está quente. Da forma como ralhas com o gato e depois tens pena dele. Da forma como te ris quando o filho conta anedotas.»
Ela não respondeu. Releu a mensagem cinco vezes. Depois chorou. Porque ele nunca tinha escrito palavras assim. Em quinze anos de casamento, nunca. Ele era materialista, pragmático, um homem que só dizia «amo-te» no dia de anos, e mesmo assim depois de ser lembrado. E agora aquilo: o café, o gato, as anedotas. Como se alguém lhe tivesse roubado o telemóvel. Ou como se tivesse tido uma iluminação.
Dia seis.
Ela: «Ontem estavas bêbedo?»
Ele: «Não. Estava perfeitamente sóbrio.»
Ela: «Então porque escreveste aquilo?»
Ele: «Porque tenho saudades. É como o álcool: o cérebro desliga, a língua solta-se.»
Ela: «Comparaste o amor ao álcool?»
Ele: «Comparei o amor à honestidade. Às vezes, para sermos honestos, é preciso estar um pouco bêbedo. Ou muito sozinho.»
Ela: «Sozinho? Estás com os colegas.»
Ele: «Os colegas não são tu. Eles não sabem que tenho medo do escuro e durmo com uma luzinha. Tu sabes. E nunca te riste.»
Ela: «Ri-me. Uma vez. Quando disseste que tinhas medo do escuro porque o Pantufa podia estar lá dentro.»
Ele: «O Pantufa é um bicho. Faz cocó nos chinelos. Isso é assustador.»
Ela: «Tu és parvo.»
Ele: «Sou o teu parvo.»
Dia sete.
Ela acordou com uma mensagem. Ele escrevera às quatro da manhã: «Não durmo. Penso em ti. Imagino-nos no aeroporto. Tu com o vestido azul de que eu gosto. Eu com flores. Abraçamo-nos e eu digo: “Desculpa ser assim.” Tu perguntas: “Assim como?” Eu digo: “Calado.” Tu dizes: “Estou habituada.” Eu digo: “Isso é mau.” Tu dizes: “É a vida.”»
Ela não respondeu. Mas vestiu o vestido azul. Mesmo sendo apenas o sétimo dia de manhã, e o reencontro no aeroporto só dali a uma semana.
Dia oito.
Ele: «Hoje fui ao jardim zoológico. Sozinho. Vi os macacos. São como os nossos colegas: fazem caretas, atiram comida, armam-se em chefes.»
Ela: «Foste sozinho ao zoo aos quarenta anos?»
Ele: «E depois? Tenho direito à infância. Tu deixas.»
Ela: «Deixo. Mas manda fotografias.»
Ele mandou uma foto. O macaco fazia uma careta. Ele também.
Ela riu alto. Os miúdos correram: «Mãe, o que foi?»
Ela: «O vosso pai está a fazer palhaçadas.»
Os miúdos: «Ele faz sempre palhaçadas quando nós não estamos.»
Ela: «Pois é. Que pena não darmos por isso.»
Dia nove.
Ele: «Pensava agora: lembras-te de quando nos conhecemos? Deixaste cair a carteira no metro, eu apanhei-a. Tu disseste: “Você é muito atento.” Eu disse: “E você é muito bonita.” Depois fomos tomar café.»
Ela: «Ainda me lembro que tu pediste chá sem açúcar.»
Ele: «E tu um bolo.»
Ela: «Ainda me lembro do bolo. Era de cereja. Estava tão bom.»
Ele: «Eu lembro-me de como olhaste para mim. Como se eu não fosse um homem no metro, mas uma vida inteira.»
Ela: «Tu foste uma vida inteira. Continuas a ser. Só que às vezes esqueço-me.»
Ele: «Eu também me esqueço. Mas agora não me esqueço.»
Dia dez.
Ele não escreveu uma palavra o dia todo. Ela ligou, não atendeu. Escreveu, não respondeu. Ela começou a imaginar o pior: caído, doente, atropelado. O gato andava atrás dela pela casa a pedir comida. Os miúdos pediam desenhos animados. Ela pensava nele.
Às onze da noite, chegou a mensagem: «Desculpa. Fiquei sem bateria. Esqueci o carregador no hotel. Passei o dia à procura de outro. Encontrei-o com o Rui. Ele emprestou, mas fez-me jurar que nunca mais adormecia em reuniões. Como estás?»
Ela: «Fiquei preocupada. Pensei que tinhas morrido.»
Ele: «Estou vivo. Com saudades. Volto em breve.»
Ela: «Daqui a três dias.»
Ele: «Daqui a três dias. Vens esperar-me?»
Ela: «Com o vestido azul.»
Ele: «Eu com flores.»
Ela: «Combinado.»
Dia onze.
Ele: «Comprei presentes. Para o filho, um conjunto de construção. Para a filha, o coelho. Para ti, um cachecol.»
Ela: «Não sabes escolher cachecóis. Da última vez trouxeste cor-de-rosa, e eu não uso cor-de-rosa.»
Ele: «Não é cor-de-rosa. É rosa-poeira.»
Ela: «Rosa-poeira é cor-de-rosa.»
Ele: «É a cor do pôr do sol sobre o Porto.»
Ela: «És poeta?»
Ele: «Sou contabilista. Mas por ti posso ser poeta.»
Ela: «Não precisas. Gosto de ti contabilista. Tens a letra legível e os números batem certo.»
Dia doze.
Ele: «Amanhã é o voo. Espera-me.»
Ela: «Espero.»
Ele: «Estás nervosa?»
Ela: «Não.»
Ele: «Eu estou. Como da primeira vez.»
Ela: «Na primeira vez engasguei-me com o bolo e tu bateste-me nas costas. Foi horrível.»
Ele: «Para mim foi bom. Toquei-te.»
Dia treze.
Ela estava no aeroporto. De vestido azul. Com os filhos. Não levaram o gato, claro, ele faria um escândalo.
O voo tinha uma hora de atraso. Ela bebeu café. Os miúdos jogavam nos telemóveis. Ela pensou: «Porque é que ele falara de pernas? Porque é que falara do café? Porque é que falara dos macacos? Nunca tinha sido assim. Estará apaixonado outra vez? Ou é só a viagem, a pausa da rotina, das crianças, dos ovos estrelados queimados? Quando voltar, vai calar-se, perguntar pelo repolho e esconder-se no computador?»
Ele saiu da zona de chegadas. Com flores. Um ramo enorme. Ela nunca lhe tinha visto flores assim, exceto no casamento, e até aí foi a sogra a escolher.
Ele aproximou-se, abraçou-a, beijou-a. Disse:
– Desculpa ser assim.
Ela: «Assim como?»
Ele: «Calado.»
Ela: «Estou habituada.»
Ele: «Isso é mau.»
Ela: «É a vida.»
Ele: «Não. É um hábito. Vou mudar.»
Ela: «Não precisas. Gosto de ti como és. Até com repolho.»
Ele: «O repolho foi um erro.»
Ela: «O repolho é o passado. As flores são o presente.»
Foram para casa. No táxi, ele segurava-lhe a mão. Os miúdos adormeceram. O gato recebeu-os à porta, cheirou as flores, espirrou e foi para a cozinha.
Ela pôs as flores num vaso. Ele guardou o portátil na gaveta. Disse:
– Hoje não trabalho. Hoje sou só teu.
Ela: «E amanhã?»
Ele: «Amanhã sou teu com o portátil. Hoje, sem.»
Pediram uma pizza, beberam vinho, viram um filme. Um filme estúpido, sobre o amor. Ela ria, ele abraçava-a. O gato ficou ao lado a pedir fiambre.
– Dinis – disse ela. – Vais mesmo mudar?
– Não sei. Mas vou tentar.
– E se não conseguires?
– Então escreves-me «és um parvo» e eu respondo «tenho saudades das tuas pernas».
Ela riu.
– Tu és parvo.
– Sou o teu parvo.
Terminaram o vinho, acabaram a pizza. Foram deitar os miúdos. O gato adormeceu no sofá. Inês olhou para o marido.
– Sabes, eu também tive saudades. Não de ti, de nós. De quem éramos no início. Alegres, brincalhões, sem hipoteca e sem repolho.
– O repolho é o símbolo da minha parvoíce. Não volto a comprar repolho.
– Compra. Mas junto com flores.
– Combinado.
Abraçaram-se e adormeceram no sofá. Porque a cama já estava ocupada pelo gato.
De manhã, ele foi trabalhar. Com o portátil. Beijou-a e disse «amo-te».
À noite, não se esqueceu das flores. Entrou na florista e pediu:
– Dê-me qualquer coisa barata, mas que a minha mulher sorria.
A florista sugeriu margaridas. Ele levou-as.
Inês pô-las no vaso. O gato cheirou, espirrou e foi-se embora.
E assim todos os dias.
É só uma história. Normal. Simples. Em certos pontos, ridícula, até parva.
E então? O amor muitas vezes soa a parvoíce. Mas isso não quer dizer que não exista.







