Júlia olhou para o ecrã do telemóvel. Catarina tinha enviado um convite no grupo: “Meninas, espero-vos sábado às 18h no café ‘Menta’. Vai ser divertido!”
Júlia tem trinta anos. Dois filhos, a filha Joana e o filho Tiago. Divorciada. Uma cadeira de escritório que conhece as suas costas melhor do que qualquer homem nos últimos dois anos. E aquele convite, que a alegrou.
— Tiago, não corras pelo corredor! Joana, calça as meias, está frio! — gritou Júlia, segurando o telemóvel com o ombro.
Do outro lado da linha, Catarina tagarelava sobre surpresas e karaoke.
— Júlia, vens? Prometo que vai ser fixe, e sem essas tuas frases: «tenho filhos».
Júlia resmungou.
— Os teus filhos. Os teus problemas. O teu divórcio. A tua idade… Vou pensar — respondeu.
No sábado, Paulo, o ex-marido, atrasou-se duas horas; vinha ver os filhos aos fins de semana. Joana chorava porque queria que a mãe lhe fizesse tranças «como uma princesa», e o Tiago escondeu o sapato esquerdo. Quando Júlia finalmente fechou o fecho do único vestido que ainda não parecia um saco, o relógio marcava quase seis da tarde.
— Vou. Nem que seja por uma hora.
No café, tocava música. As raparigas da contabilidade já tinham provado o champanhe, e a Mafalda do departamento de vendas contava sobre o seu novo namorado com um tom de quem defendia uma tese intitulada «A minha felicidade, que todos têm de ver».
Catarina viu Júlia, deu um gritinho e atirou-se para um abraço.
— Vieste! Estás tão bonita! Senta-te, já trazem o bolo.
Júlia sentou-se à mesa, pegou num copo de sumo. Ouviu. Acenou. Sorriu nos momentos certos.
A Helena do departamento ao lado, loira alta com cara de poucos amigos, inclinou-se para ela:
— E o teu onde está?
— Divorciada. Já há um ano — disse Júlia, sem emoção.
— Ai, desculpa. Não sabia. Deve ser difícil para os filhos.
Júlia acabou o sumo. Começou uma música lenta, familiar. Convidaram alguém para dançar. Júlia ficou sentada. Catarina, a anfitriã, sentou-se ao lado dela, já um pouco tocada e por isso invulgarmente séria.
— Júlia, porque estás triste?
— Não estou triste. Estou cansada.
— É a mesma coisa quando se tem trinta anos, dois filhos e um ex que aparece só pelos horários.
Júlia admirou-lhe a precisão.
— Também és divorciada, ou quê?
Catarina riu-se:
— Não. Mas sou observadora. Olha… Pedi ao cantor para tocar uma música. Para ti.
Júlia não percebeu, mas acenou.
O rapaz ao microfone dedilhou os acordes. E de repente ouviu-se algo antigo, que passava na rádio quando Júlia andava na faculdade. A música ao som da qual ela e Paulo se beijaram num banco perto da residência. Letras parvas sobre «nunca digas adeus». Júlia tapou o rosto com as mãos. Não por vergonha. Porque alguém se lembrara de como ela era. Antes dos «teus filhos».
— Não pedi esta música — sussurrou.
Catarina encolheu os ombros:
— Talvez tenha sido ele. Talvez tu lhe tenhas agradado. Olhas-te ao espelho de vez em quando, Júlia?
Não se olhava. Mas agora ergueu os olhos. O rapaz do microfone sorria. Desconhecido. Novo. Que nada sabia da sua vida. Júlia limpou as faces com um guardanapo, pegou numa taça de champanhe e sorriu de volta. Não aquele sorriso de circunstância do escritório, mas um sorriso verdadeiro.
Depois mandou uma mensagem a Paulo: «Vou demorar. Fico com os filhos esta noite. Não é negociável.»
E suspirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, encheu os pulmões.
Trouxeram o bolo às nove em ponto. Júlia comeu duas fatias e não contou calorias. Catarina segredou-lhe ao ouvido:
— Sabes, convidei-te porque foste a única que não criticou o meu relatório na reunião.
— O teu relatório estava normal — encolheu os ombros Júlia.
— Exactamente. Tu és a única que realmente ouve. Não finge.
Júlia voltou a casa perto da meia-noite. O apartamento vazio cheirava a silêncio. A princípio, apeteceu-lhe chorar por as meias do Tiago não estarem espalhadas pelo corredor, ou o gancho da Joana não andar perdido na cozinha.
Mas depois tirou o vestido, fez um chá, ligou aquela música nos auscultadores. E percebeu que um lar não são só os barulhos de pés pequenos. É também este silêncio, onde finalmente nos podemos ouvir a nós próprios.
— Até que não foi mau, a noite — pensou Júlia, e adormeceu a sorrir.
De manhã, chegou uma mensagem de um número desconhecido: «Vai estar na apresentação hoje? Sou o cantor do café — Duarte. Posso oferecer-lhe um café? Assim, sem motivo.»
Júlia olhou para o telemóvel e escreveu: «Vou. Café preto, sem açúcar. E obrigada pela música.»
Nas primeiras duas semanas, foi como num filme. Duarte esperava Júlia depois do trabalho com um ramo. Cantava para ela no café quando havia pouca gente, e olhava-a como se ela fosse a única mulher do mundo. Júlia derretia-se. E desaparecia.
Primeiro uma vez por semana. Depois dia sim, dia não. Depois a mãe deixou de esconder o desagrado.
— Júlia, para quem largas os miúdos? Eu tenho a minha vida. E tu tens trabalho, já agora.
— Mãe, peço-te, o Tiago já dorme, a Joana fez os trabalhos. Vou só duas horas.
— Duas horas, diz ela… A semana toda a duas horas. Conheço eu essas «duas horas». É homem? — Júlia calou-se.
— E donde é ele? Daquele café? — a mãe franziu os lábios. — Um cantor de restaurante… Júlia, tu és inteligente, aos trinta com dois filhos agarras-te a quem te olhe com carinho. Mas são todos farinha do mesmo saco. Hoje canta para ti, amanhã para outra.
— Mãe, basta! — Júlia atirou a mala para o sofá. — Tu não o conheces.
— E tu… há quanto tempo o conheces? Um mês? Dois? Eu, de homens, já vi de tudo — e bateu com a porta.
Duarte era diferente. Lembrava-se do nome da Joana e de que o Tiago tinha medo do escuro. Dizia que não se importava com os filhos, que pensava em como poderiam organizar a vida.
Júlia quase acreditou.
Naquela noite, decidiu fazer uma surpresa. Duarte disse que actuava até às dez e depois estava livre. Júlia deixou os filhos com a mãe — esta revirou os olhos mas não recusou — e foi ao café sem avisar. Entrou na sala. Sorriu ao barman conhecido. Olhou para o palco.
Duarte não estava lá.
Estava encostado a uma coluna a dançar. Não um valsado, apenas a brincar, mas ao ritmo da música com uma mulher bonita. Alta. Magra. Num vestido justo que valia o salário mensal de Júlia. O cabelo perfeitamente arranjado, o riso alto e livre.
Duarte ria também. Depois pegou-lhe na mão e desapareceram por uma porta com a placa «Entrada de Serviço».
Júlia ficou parada no meio da sala. Alguém lhe roçou o ombro, pediu desculpa. A música continuava.
— Todos farinha do mesmo saco — lembrou-se das palavras da mãe.
Virou-se e saiu. Não bateu com a porta. Não chorou. Apenas entrou num táxi e deu a morada de casa.
À porta estava o Paulo. De casaco velho, olheiras, zangado e desgrenhado.
— Júlia! Porque é que não atendes o telefone? A tua mãe ligou-me há meia hora! O teu pai está no hospital. Enfarte. Ela deixou os miúdos em casa e pediu-me para vir ter com eles.
Júlia levou a mão ao peito.
— O quê? Como? Ele…
— Não sei como. Chama um táxi. Eu fico com os miúdos.
Com dedos trémulos, marcou o número da mãe. Esta soluçava ao telefone.
— O pai está nos cuidados intensivos. Vem já.
— Já vou. Mãe, ele vai safar-se?
— Os médicos não dizem nada.
A noite inteira, ela e a mãe estiveram sentadas no corredor do hospital. Pelas oito da manhã, um médico cansado saiu.
— A crise passou. O seu marido é forte. Mais meia hora e não garantiria. Mas agora vai ficar bem. Repouso, dieta, sem stresses.
A mãe desatou a chorar. Júlia abraçou-a, e ficaram assim, duas mulheres que quase perderam o homem principal das suas vidas.
No caminho de volta, no táxi, Júlia olhava pela janela. O sol da manhã trespassava os prédios de painéis. Lembrou-se de Duarte a acariciar-lhe a face, a prometer-lhe mar e viagens. Ridículo. Mar… E o pai estava na UCI enquanto ela andava num café.
— Já chega de loucuras.
Em casa estava o Paulo, também sem dormir, via-se pelo aspeto.
— Paulo — disse ela baixinho. — Obrigada por teres vindo, por teres ficado com os miúdos.
Paulo ficou calado um minuto. Depois falou, desajeitado como sempre quando se tratava de sentimentos.
— Júlia, eu sem ti… Os miúdos precisam de um pai. Não só aos fins de semana. Portanto, vamos viver juntos outra vez. Como dantes. Tu estás cansada. Eles têm saudades. E eu tenho saudades de casa, de tu resmungares quando não tiro os sapatos.
Júlia riu-se com lágrimas nos olhos. Aproximou-se dele e encostou a cabeça ao ombro. Pegou-lhe na mão. A palma áspera, familiar, quente. Não a que pegava no microfone e prometia o mar. Mas a que empurrava o carrinho, mudava os pneus do carro.
— Vamos tentar — disse Júlia. — Mas se voltares a não lavar o teu copo, mato-te com a almofada.
— Combinado.
Os filhos saíram do quarto, o Tiago pendurou-se no Paulo, aos berros: «Pai!» A Joana primeiro desviou o olhar, mas depois aproximou-se e disse baixinho:
— Ficas? Para sempre?
Paulo agachou-se:
— Para sempre, Joana. Se me aceitarem.
E à noite, quando os miúdos adormeceram, Paulo lavava a loiça, Júlia pegou no telemóvel e apagou a conversa com o Duarte. Nem uma única mensagem tinha chegado.
— A mãe tinha razão — pensou Júlia. — Mas não tem razão numa coisa. Não é a idade. Não são os filhos. Nem o divórcio. É a escolha. Eu escolhia promessas bonitas. E devia ter escolhido olhos cansados e um copo por lavar no lava-loiça.
Aproximou-se do Paulo, abraçou-o por trás, enterrou o nariz no ombro dele.
— O que foi? — perguntou ele.
— Nada. Sinto-me bem por estares em casa — e aquilo valia mais do que todas as canções do mundo.







