Tu não vais assim, disse Victor, sem sequer se virar. Estava em frente ao espelho do hall, ajustando a gravata azul-escura de seda, comprada no mês passado por um preço que Margarida só soube quando procurava a fatura do frigorífico. Estou a falar a sério.
Victor, é o aniversário da tua empresa. Dez anos. Eu sou tua mulher.
Exatamente. Finalmente olhou para ela; naquele olhar havia algo que lhe cortou a respiração. Não era ternura. Reconhecimento, talvez? Já tinha visto aquele olhar antes, só nunca quis dar-lhe nome. És minha mulher. E por isso peço que fiques em casa.
Porquê?
Ele suspirou, devagar, com aquele tom arrastado que dizia: fazes perguntas estúpidas e eu perco tempo contigo.
Magui. Vão lá estar sócios, gente importante. A imprensa, talvez.
E então?
Tu Calou-se, escolhendo a palavra. És uma senhora de meia-idade. Percebes? Uma mulher comum. Com esse teu vestido azul com botões Vão lá mulheres que têm outra aparência.
Margarida estava à porta da cozinha, com o pano nas mãos ainda húmido. Era velho, já com os padrões desbotados. Olhava para o marido e tentava perceber em que momento aquilo se tornou hábito. Quando é que palavras assim deixaram de precisar de explicação.
Vais com a Catarina?
Ele nem pestanejou. O pior era isso. Nem raiva, nem hesitação. Só um olhar firme.
A Catarina é minha assistente. Está a organizar o evento.
Victor
Magui, não comeces.
Só perguntei.
Não foi só isso. Pegou no casaco do bengaleiro, sacudiu-o com aquela elegância. Estás a insinuar. Como sempre. Estou farto disso.
Margarida pousou o pano no braço da cadeira. Lentamente. Notava que as mãos tremiam, mas fazia força para que ele não reparasse.
Está bem, disse. Está bem, Victor.
Assim é que é. Voltou-se para o espelho, satisfeito consigo próprio. Os miúdos estão em casa?
A Filipa está em casa da amiga. O Miguel está na universidade, deve chegar por volta das oito.
Diz-lhe para não fazer barulho quando voltar. Chego tarde.
A porta fechou-se. Margarida ficou no hall, no meio do aroma do perfume dele, que em tempos lhe agradava, agora parecia estranho. Dispendioso e estranho.
Foi para a cozinha. Pôs a chaleira ao lume. Ficou a observar o vapor a sair, a recordar o dia do casamento, há vinte e três anos, quando Victor a via com outros olhos. Dizia que o riso dela era como um sino. Ela corava com isso.
A água ferveu. Margarida verteu na caneca, pôs o saquinho de chá, ficou a ver os redemoinhos escuros dissolverem-se.
Uma senhora de meia-idade, ele dissera.
Tinha cinquenta e dois anos. Não cem. Nem oitenta. E estava relativamente bem. Não era capa de revista, mas não era o que aquela palavra fazia dela. O cabelo era castanho-escuro, quase sem brancas, bem tratado. Tinha mãos capazes de tudo: bolos, bainhas, acalmar criança às três da manhã, ou destrinçar papéis de contabilidade quando ele começou a empresa Solidez e se baralhava com os números.
Quem é que o ajudou nessa altura? Quem é que ficou noites acordada, lado a lado com as faturas dele?
Senhora de meia-idade. Pois sim.
Não chorou. As lágrimas estavam ali, sentia-as como um nó, mas não caíam. Talvez por não ser a primeira vez. A primeira foi há três anos, quando ele disse: Podias vestir-te melhor. Nessa altura sentiu-se magoada. Depois habituou-se. Depois concordou. Agora estava sozinha na cozinha, ele foi para o aniversário da empresa com a Catarina, que tinha vinte e oito anos e, ao que parece, não tem bolos no forno, nem panos gastos, nem vinte e três anos de vida partilhada.
Primeiro foi escurecendo do lado de fora. Maio à noite, quente, cheiro a jacarandás do jardim. Margarida acabou o chá, lavou a caneca, foi ao armário.
No fundo, por trás dos sobretudos de inverno, estava um vestido. Cor cereja, veludo, comprado há três anos nos saldos do Armazéns Sol. Só experimentou em casa. Victor olhou para ela e torceu o nariz: Vais aonde com isso? É demasiado vistoso para a tua idade. Fica-te vulgar. Margarida embalou o vestido, guardou-o no fundo do armário. Pensou dá-lo. Não deu.
Agora retirou-o. Sacudiu-o. O veludo era macio, quente, vivo. Encostou o vestido ao corpo e olhou-se ao espelho.
Não. Não era uma senhora de meia-idade.
Ouviu a chave na porta. Miguel. Escutou o som dos sapatos, da casaca atirada para a cadeira, o filho a encaminhar-se à cozinha.
Mãe, há alguma coisa para comer?
Há croquetes no frigorífico. Aquece, filho.
Porque é que estás aí com o vestido?
Margarida virou-se. Miguel estava na porta, alto, com o maxilar do pai e os olhos dela, cinzentos, marcados de cansaço. O primeiro ano de universidade custava-lhe, via-se pela postura largada, o andar pesado de quem carrega algo.
Estou a experimentar, respondeu.
É bonito. Foi buscar comida. Vais usá-lo onde?
Margarida hesitou.
Ainda não sei. Talvez em lado nenhum.
Miguel voltou com o prato, sentou-se, olhou-a de frente. Um olhar maduro, sem rodeios.
O pai foi ao jantar de aniversário?
Foi.
Sozinho?
Não respondeu logo. Pousou o vestido nas costas da cadeira.
Miguel
Mãe, eu sei. Disse muito baixo, sem mágoa, só constatação. A Filipa também. Já sabemos há muito.
Aí as lágrimas vieram mesmo. Não num choro ou soluço, mas presas na garganta, Margarida apenas respirou, olhos postos no escuro do quintal.
Como soubeste? perguntou, por fim.
Na primavera vi-os juntos no café do Largo São Domingos. Ele não me viu. Comia sem levantar os olhos. Primeiro achei que era trabalho. Mas não, era óbvio.
Nunca me disseste.
E tu farias o quê?
Boa pergunta. O que teria feito? Fingido não saber. Como nos últimos três anos, convencendo-se de que via demais, de que não era o que parecia. Psicologia de família: mulheres de cinquenta começam a temer a verdade, é outra história, longa, feia.
Não sei, admitiu.
Nem eu. Olhou para ela. Mãe. Ficas linda nesse vestido. A sério.
Margarida olhou para o rapaz, aquele a quem leu histórias, ensinou a dar laços, mandou para a escola com sandes na mala. Dezanove. Já adulto. Já via além do que ela queria mostrar.
Obrigada, murmurou.
Depois do jantar, Margarida telefonou à Filipa. Chegou às dez, irrompeu em casa com mochila rosa e cheiro a perfume alheio.
Mãe, estás estranha Filipa fixou-se nela, com aquele faro rápido das miúdas de quinze anos. O pai disse-te alguma coisa?
Senta-te. Vamos conversar.
Sentaram-se os três à mesa da cozinha, com chá. Margarida contou, não tudo, mas o essencial. O que Victor dissera. O vestido. Sobre a Catarina, e, pelo olhar dos filhos, não estava enganada.
Filipa ouvia, trincando o lábio, como sempre quando tem vontade de chorar.
O pai chamou-te senhora de meia-idade? repetiu, chocada.
Sim.
Que Filipa abanou a cabeça, procurando palavra. Isso é mau demais.
É injusto, admitiu Margarida.
Vais sair, mãe? Algum dia?
Margarida olhou para o vestido ainda pousado na cadeira.
Ainda não sei.
Essa noite dormiu mal. Deitou-se no seu lado da cama larga, a pensar. Naquilo que foi. Vinte e três anos. Uma juventude entregue à casa, aos filhos, a ele. Largou o trabalho quando Miguel nasceu. Era costureira num ateliê reputado em Lisboa, Inês Bastos, a chefe, dizia que Margarida tinha mãos de ouro. Depois Victor: Pra quê trabalhares? Eu sustento-te. Na altura pareceu bem. Era, de facto, e ela pensou: Isto é a tal vida boa.
Vida boa. Virou-se para o lado, fitando o teto escuro.
O que sabe fazer hoje? Costurar. Cozinhar. Gerir a casa. Ser invisível. Esta era a sua especialidade agora.
Não. Não ia pensar assim. Sabe costurar e isso não é pouca coisa. Tinha mãos, cabeça, vinte anos de experiência, ainda que interrompidos, sem carreira, mas nunca deixou a bainha, para si, os filhos, ou para a vizinha Leonor, que dizia que os vestidos de Margarida eram melhores que os da loja.
As ideias giravam em círculo. Adormecia e acordava frequentemente. Às duas e meia, ouviu a porta de entrada. Victor voltou. Foi à casa de banho, ouviu a água. Deitou-se ao lado, sem palavra. Logo dormia.
Margarida ficou desperta um bom tempo.
De manhã, Victor saiu cedo com um Esta semana vou andar ocupado, não esperes para jantar.
A porta. O silêncio.
Margarida deitou café, sentou-se à janela. Lá fora caía chuva miúda, o jacarandá no pátio parecia escurecido, folhas brilhando ao molhar. Bebia café e pensava. E pela primeira vez sentia-se calma, quase fria. Talvez a dor, quando chega ao limite, vire outra coisa. Algo duro, claro.
O jantar era sexta-feira. Era terça.
Três dias.
Pegou no telemóvel e enviou mensagem à Teresa. Teresa Alves foi durante anos a contabilista da empresa, depois foi para outra firma, mantiveram alguma amizade, encontravam-se para café. Teresa era pragmática, direta, mulher de cinquenta.
Teresa, podemos ver-nos hoje?
Resposta rápida: Claro. No café Sossego, às três?
Combinado.
Sentadas no pequeno café dois quarteirões abaixo. Teresa de blusão cinzento, cabelo curto, olhos atentos. Ouviu tudo em silêncio, só levantou sobrancelha quando chegou à palavra senhora de meia-idade.
Ele disse isso, mesmo?
Disse.
E sobre a Catarina já há muito?
Suspeito que sim. O Miguel confirmou ontem.
Teresa rodou a chávena de café nas mãos.
Margarida, não leves a mal hesitou. Eu sabia.
Diz.
Soube já quando estava na Solidez. Vi-os algumas vezes. Fiquei na dúvida se te contava. Não contei. Achei que não era o meu papel. Errei. Desculpa.
Margarida calou-se um momento.
Já não importa, Teresa. Agora não importa.
Que vais fazer?
Margarida ergueu os olhos para a amiga.
Vou ao jantar.
Teresa demorou uns segundos, anuiu.
Com os miúdos?
Com os miúdos.
Sabes que vai ser desagradável?
Sei.
Ele vai zangar-se.
Sei.
Teresa fez silêncio.
Então diz-me: o que precisas?
Margarida esboçou um sorriso pela primeira vez nesses dias.
Preciso de alguém que ajeite este cabelo. Não consigo sozinha.
Na quinta-feira à noite, Filipa sentava-se ao lado da mãe à penteadeira, penteando-lhe os cabelos devagar, com aquele cuidado cúmplice próprio dos filhos nos momentos essenciais. O cabelo de Margarida era espesso, pelos ombros, pintou uns fios no dia anterior, só para uniformizar o tom.
Mãe, tens medo?
Um pouco.
O pai vai ficar furioso.
Provavelmente.
E tu, o que vais dizer?
Nada. Via-se ao espelho. Não vou dizer nada. Só vou entrar.
Filipa prendeu a última madeixa, afastou-se para observar.
Está lindo, disse. Mãe, tu és bonita. Às vezes esqueces-te disso.
Margarida abraçou a filha, firme, apertado. Filipa surpreendeu-se, mas devolveu o abraço.
O vestido estava na cama. De veludo cor de cereja, macio. Vestiu-o com calma. Fechou o fecho atrás, a filha ajudou. Olhou ao espelho.
A mulher que olhava não era desconhecida. Só esquecida. A de antes de ceder.
A maquiagem fez ela. Discreta. O suficiente. Rímel, baton. Um tom terracota, que gostava há anos. Brincos de ónix preto, herança da mãe.
Mãe, chamou Miguel do hall, o táxi está a chegar.
Já vou.
Pegou na carteira, pequena, preta, antiga, mas elegante. Foi para o hall.
Miguel olhou para ela.
Uau.
Uau, repetiu Filipa.
Margarida vestiu o sobretudo. As mãos ainda tremiam, percebeu, e abrandou os gestos, de propósito. Tranquila. Só tranquila.
Vamos, disse.
O hotel Estrela do Norte era respeitável. Não o mais luxuoso da cidade, mas digno. Victor escolhera-o pelo estatuto: salão amplo, tetos altos, catering próprio. Margarida só ali tinha estado oito anos antes, num casamento. Lembrava o chão de mármore no átrio e o grande lustre.
O táxi parou à porta. Margarida saiu primeira. Respirou o ar morno da noite, cheiro a tílias de maio.
Mãe, murmurou Miguel, estamos contigo.
Eu sei. pegou a mão de Filipa. Vamos.
No átrio já estavam alguns convidados apreçados, de crachá no peito. Margarida caminhava calma. Aproximou-se um jovem administrador de uniforme.
Boa noite. Vem para o evento da Solidez?
Sim, disse Margarida. Sou a mulher do Victor Batista. Estes são os nossos filhos.
O administrador hesitou, mas acenou.
Segundo andar, sala Âmbar.
A sala estava cheia. Roupa elegante, perfumes caros, entradas quentes, risos, música em surdina. Margarida parou, sentiu vários olhares. Era estrangeira ali. Sabia-o. Aqueles conheciam Victor, o modo de vida dos últimos anos, algumas talvez sabiam da Catarina. Mas da esposa, ninguém.
Vês o pai? sussurrou Filipa.
Ainda não. Margarida varreu a sala com o olhar. Vamos encontrar.
Victor estava junto à parede dos fundos, junto a uma mesa redonda de aperitivos, a conversar com dois homens de fato escuro; Margarida reconheceu um deles Jorge Silva, sócio antigo da Solidez, homem grande de cabeça branca. Victor respeitava-o. Ou temia. Margarida nunca saber distinguir.
Junto de Victor, estava a Catarina.
Era a primeira vez que a via, embora já a imaginasse antes. Jovem, alta, num vestido azul ajustado, cabelo perfeito. Bonita. Margarida registou-o sem amargura, como quem comenta o tempo. Bonita. Vinte e oito anos. A mão pousada no braço de Victor, com uma leveza insinuante.
Ali está ele, murmurou Filipa, surpreendentemente serena. E a tal senhora de azul.
Margarida avançou.
Atravessou o salão devagar. Alguns voltaram-se. Outros abriram espaço. Ela não olhava ao redor, só em direção à mesa dos fundos, e ao homem junto dela.
Victor viu-a a três metros. O rosto mudou num segundo. A boca semicerrada, depois rija, olhos de gelo.
Magui, disse baixinho. O que estás a fazer aqui?
Vim ao aniversário da tua empresa, respondeu ela, igualmente baixa, igualmente firme. Dez anos. É importante.
Jorge Silva olhou-a, depois olhou para Victor, voltou a olhar para ela.
Margarida Baptista? disse com surpresa calorosa. Há quanto tempo. Está maravilhosa.
Boa noite, Jorge. Sorriu-lhe. O senhor também.
A Catarina recuou um passo. A mão desapareceu discretamente do braço de Victor.
A Filipa, que estava perto, avançou. Quinze anos. Olhos escuros, costas direitas. Olhou a Catarina com aquela sinceridade frontal das crianças, insuportável para os adultos por ser verdade.
Pai, disse, sem elevar a voz, mas audível, porque é que agora estavas a abraçar essa senhora? Não é a mãe.
À volta, algo mudou. Como se a música tivesse baixado vários tons. Dois homens ao pé de Jorge entreolharam-se. Uma mulher de colar de pérolas virou-se discretamente.
Victor empalideceu, visível mesmo com bronzeado.
Filipa, começou ele. Isto é trabalho, eu explico
Pai, já não sou criança, afirmou ela, com o mesmo tom, eu e o Miguel já sabemos há muito.
Miguel estava ao lado da irmã, calado, mãos nos bolsos. Não disse nada. Só olhava o pai.
Jorge Silva tossiu, pousou o copo.
Victor, disse, naquele tom que carregava tudo: censura, silêncio, tudo o que vem depois. Vejo que tem assuntos de família. Falamos depois.
Acenou a Margarida com uma cortesia antiga, passou à roda com os outros. Os dois colegas seguiram-no.
Catarina murmurou:
Vou ver o catering.
E desapareceu.
Ficaram Victor e Margarida, com os filhos. Ele olhava-a com uma expressão que antes ela tomava por cansaço, agora via outra coisa. Não era raiva, nem azedume. Era incerteza. Ele não sabia o que fazer.
Magui, disse baixo e rouco, percebes o que fizeste?
Vim ao aniversário da tua empresa, repetiu. Dez anos. É importante.
Pegou num copo do tabuleiro. Espumante. As bolhas subiam em linha.
Podias ter ficado em casa, disse ele, agora quase num sussurro, como pedi.
Podia, concordou. Mas não fiquei.
Olhou para ele, e naquele instante tudo se acertou na sua cabeça. Nem raiva, nem triunfo. Só clareza. Olhava aquele homem de fato caro, botões de punho gastos, homem para quem cozinhou e lavou e acreditou durante vinte e três anos, e só pensava: quanto tempo desperdiçado.
Vou brindar à tua empresa, disse. E vou sair. Os miúdos estão cansados.
Voltou-se para eles.
Vamos, murmurou.
Saíram em direção à porta. Margarida sentiu olhares, curiosos, piedosos, críticos. Vários. Não importava. Ou melhor, importava, mas não mais do que já doía.
Junto à saída, Miguel pegou-lhe no braço.
Foste incrível, mãe.
Só vim, respondeu.
Vieste. Isso é ser incrível.
Em casa, tirou o vestido com cuidado, pendurou-o. Lavou-se. Deitou-se e dormiu sem aquele torpor meio desperto a que se habituara. Dormiu bem, até às nove.
O que veio depois foi lento mas certo, como derreter de gelo na primavera. Não de um dia para o outro, mas ao longo das semanas. Margarida foi sabendo aos poucos, por Teresa, pelos comentários da Filipa, de mensagens apanhadas no telemóvel enquanto carregava na cozinha.
Jorge Silva recusou assinar o novo projeto de construção. Não abruptamente, mas por intermediários. Ligou depois a dizer que ainda tinha de pensar. Silva era homem de outra escola, para ele família era coisa séria, e o que viu na Âmbar destruiu o respeito por Victor. Não era ter amante. Homens têm amantes. Mas tê-la no evento oficial, em vez da esposa, era insulto à casa, à ordem natural. Silva não aceitava isso.
A seguir, outros afastaram-se. Negócios são como reputação: constroem-se devagar, destroem-se depressa. Problemas começaram a aparecer: a direção pediu explicações por decisões fora da norma. Vieram à tona contratos feitos por atalhos no último ano e meio. Não era só pela Catarina ou pelo vestido, mas em negócios, uma pedra solta puxa outra.
Catarina saiu da Solidez três semanas após o jantar. Sem barulho, demissão por iniciativa própria. Victor andou dias perdido.
Depois voltou para casa e sentou-se à mesa. Margarida pôs-lhe sopa, foi para outra divisão. Ele ficou ali um bom tempo, ouviu-o suspirar.
À noite chamou-a.
Magui, temos de conversar.
Temos, disse. Mas diz-me: queres conversar, ou queres só ser ouvido?
Ele não entendeu de início, depois percebeu. Baixou os olhos.
Desculpa, disse.
Margarida do outro lado, mãos quietas no colo. Já não tremiam. Viu que era tarde. Não por zanga. Mas porque perdoar exige vida, e entre eles isso já morrera. As palavras e os anos desidrataram-no.
Está dito, respondeu. Eu ouço.
Mas não era perdão. Ele percebeu.
O divórcio foi ideia dela, um mês depois. Tranquila, advogada ao lado que Teresa arranjou. Partilharam o apartamento. Os filhos ficaram com ela. Victor não contestou nada, pela primeira vez não discutiu.
Enquanto o processo andava, Margarida abriu um ateliê. Pequenino, duas salas, no quarteirão ao lado. Demorou a decidir. Se fosse padaria seria mais simples, mas as mãos sabiam costurar melhor do que amassar pão. Dona Inês, da velhíssima loja do Chiado, há muito reformada, ao receber a chamada disse logo: Magui, devias ter feito isso há dez anos.
Sabe bem e dói. Dez anos antes, não teria tido aquela coragem. Agora, sim.
Os primeiros meses foram duros. Pouco dinheiro, poucos clientes, trabalho até à noite, dor nas costas, giz debaixo das unhas. Filipa dava lá um salto depois da escola, fazia os trabalhos de casa num canto, comia sandes, às vezes perguntava das cores. A filha revelou um gosto inesperado para desenhos, estudava amostras, fazia comentários surpreendentes para quem tem quinze. Margarida registava, sem pressas.
Miguel, por outro lado, passava também a sua crise. Victor procurava-o, marcava encontros. Miguel ia, voltava calado. Certo dia disse:
Ele quer que o compreenda.
E tu?
Não sei como compreender um homem que tem vergonha da própria mulher. Miguel olhava lá fora. Mas tu nunca foste tu és normal. Sempre foste.
Obrigada, filho.
A sério.
Eu sei.
Ficou em silêncio.
Eu e a Leonor andamos mal, desabafou de repente.
Margarida fitou-o.
Ela diz que, depois de tudo, não sabe como serei como pai. Tem medo que eu repita.
Não é a tua história, Miguel.
Eu sei. Mas ela não.
Fez um silêncio, ponderando.
Dá-lhe tempo. Que veja com os próprios olhos. Palavras não chegam, só o tempo.
Ele acenou, sem grande convicção. A coisa prolongou-se, ela preocupava-se mas não intervinha. Os filhos tinham de aprender por eles.
O ateliê cresceu, lentamente. Ao fim de um ano, começaram a surgir clientes fixos. Depois, os primeiros pedidos de vestidos de noiva trabalhosos mas muito bem pagos. Margarida contratou uma ajudante, uma jovem chamada Vera (nada a ver com a Catarina). Davam-se bem. Sem grandes falas, percebiam-se no gesto sobre o tecido.
Teresa passava lá vezes, bebiam chá entre moldes e linhas, falavam da vida: saúde, filhos, o essencial. Um dia Teresa disse:
Gosto de ti porque não guardas rancor.
Por vezes, irrito-me, admitiu Margarida.
Mas não guardas. O rancor destrói; o amuo passa.
Margarida concordou.
Filipa, aos dezassete, tornou-se certa de que queria ser designer. Não o gritava, só um dia chegou com a pasta de desenhos e fez com que a mãe visse. Margarida folheou cada um. Havia ali vida, erro, mas visão.
Isto é teu.
Não te importas?
Não. É teu, sabes disso.
Filipa sorriu, brevemente, mas com calor.
Mãe, estás diferente.
Diferente?
Antes perguntavas: Que dirá o pai? O que pensarão? Agora não perguntas.
Margarida encarou a filha.
Aprendi tarde.
Nunca é tarde. Filipa fechou a pasta. Estás bem.
Foi o melhor elogio em anos. Melhor que elogios ou elogios fingidos. Apenas estás bem, olhos nos olhos.
Victor quase não via. Às vezes vinha buscar os filhos, entregar coisas esquecidas. Ora mais composto, ora não. Soube por conhecidos que a direção da Solidez mudara, e Victor, agora, era gestor intermédio. Caiu, sim, mas Margarida já não pensava nisso. Tinha a sua vida.
No terceiro verão após o divórcio, as coisas corriam bem. O ateliê mudara para espaço maior, tinha três costureiras. Margarida sentava-se à noite na varanda da casa nova, alugada só para si (um passo difícil mas necessário), tomava chá, via o pôr do sol. Nem todas as noites; o mais comum era estar em trabalho ou a desenhar. Mas, às vezes, só à varanda, notava algo: sentia-se bem. Não felicidade de romance. Bem. Silenciosa. Cansada. Mas bem.
Nesse outono ele apareceu.
Viu-o pela janela do ateliê, enquanto fazia esboços com uma chávena na mão. Victor, parado à porta, ligeiramente indeciso. Estava envelhecido não só pelo tempo, mas aquele envelhecimento de homem ao perder segurança. Ombros mais descaídos. O fato bom, mas já fora de moda.
Foi ela abrir.
Victor, disse. Entra.
Sentaram-se na salinha de reuniões, feita para receber clientes. Mesa, duas cadeiras, um vaso de flores secas. Ela fez chá.
Como estás? perguntou ele.
Bem. Trabalho não falta. Vai andando.
Ouvi dizer. Olhou-a. És de louvar.
Ela não respondeu. Segurava a sua chávena com as duas mãos.
Magui Hesitou. Queria dizer estive a pensar.
A pensar, repetiu ela, sem pergunta.
Fui injusto. Em muita coisa. Agora vejo.
Victor
Espera. Deixa-me dizer. Levantou os olhos. Foste uma excelente esposa. Mantiveste a casa. Criaste os filhos. Nunca vi. Ou vi e achei normal. Que era obrigação. Pausa. Enganei-me.
Margarida observava-o, aquele homem não jovem, ligeiramente gasto à sua frente, onde via tantos Victors: o do casamento, o da mágoa, o do silêncio depois da Catarina. Todos eram um só. Agora percebia.
Estou a ouvir.
Pensei Hesitou. Não, é parvo.
Diz.
Pensei: talvez. Não recomeçar, não. Mas ver-nos. Falar. Estou sozinho, Magui. Mesmo sozinho.
Silêncio.
Margarida pousou a chávena. Olhou pela janela: céu cinzento de outono, folhas caídas, bicicleta no cais. Depois, para ele.
Victor, não guardo mágoa. A sério. Já passou. Lamento os anos. Não por ti, pelos anos. Por serem assim e não outros. Só isso.
Magui
Deixa acabar. Disse suavemente, mas assertiva. Não estás sozinho. Tens filhos. Eles vêm ter contigo. Sabes isso. Não deixaram de ser teus. Pausa. Mas não posso ser aquilo que tu procuras. Nem sei o quê. Um hábito, uma conversa, companhia. Não posso.
Porquê?
Pensou. Não para magoar, mas para dizer o certo.
Porque agora finalmente sou eu. E demorou demasiado a chegar até aqui. Não quero voltar atrás.
Ele ficou muito tempo calado. Olhou o chá não bebido. Anuiu, devagar.
Eu percebo.
Sei que percebes.
Os miúdos
Eles vão estar sempre lá. É contigo agora. Com eles. O Miguel sofreu muito, mas está aberto. Se fores honesto.
Victor levantou-se. Endireitou o casaco, como sempre fazia. Gestos que ela sabia de cor.
O vestido fica-te bem, disse, de repente.
Ela baixou os olhos. Trazia outro. Azul-escuro, gola simples. Feito por ela no inverno anterior.
Obrigada.
Ele saiu. Ela ouviu a porta do ateliê fechar. Ficou no silêncio.
Ficou ali sentada. A sala um pouco fria, flores secas, chá arrefecido, rabiscos na mesa.
Depois levantou-se, lavou a chávena, enxaguou. Voltou à mesa, pegou no lápis, inclinou-se sobre o desenho.
A Vera espreitou à porta.
Dona Margarida, a próxima cliente já chegou.
Sim, disse Margarida. Peça que aguarde só um minuto.
Vera assentiu e fechou a porta.







