Ao chegar a casa antes do previsto, Zoya ouviu uma conversa entre o marido e a irmã—e ficou chocada: trinta anos de casamento, ele sempre saía ‘para pescar’, mas guardava um segredo. Decidida a descobrir a verdade, Zoya viajou para um lar em Setúbal, onde descobriu a existência de uma filha que o marido ocultava—e que agora pode finalmente aceitar como parte da família.

Olha, tenho mesmo que te contar o que aconteceu com a Maria Inês Senta-te, que é daquelas histórias que até parece mentira.

A Maria Inês saiu do centro de saúde mais cedo naquele dia, porque o médico faltou por sinal, já estava a precisar de um tempo para si. Chamou aquilo um presente inesperado: mais tempo livre para preparar o jantar com calma, sem aquele corre-corre habitual.

Entrou em casa sem fazer barulho, para não acordar o Abílio, caso estivesse a descansar depois do trabalho. Mas não, pelos vistos, ele não estava a dormir.

Ouviu duas vozes vindas da cozinha.

Já não aguento isto, Leonor. Esconder-me todos os fins de semana reconheceu o tom cansado do marido.

E achas que resolves o quê? Chegas lá e contas tudo? era a irmã, Leonor. Perguntou-se rapidamente como é que ela ali tinha ido ter.

A Maria Inês ficou parada à porta, só a ouvir.

Se a Mariquinha descobre, acaba-se tudo. Trinta anos de casamento, deitados fora continuava o Abílio.

Tens de decidir Leonor já falava mais duro. Vais continuar a ir ter com ela aos sábados ou não?

Com ela?

Como é que a deixo assim? Ela está completamente sozinha. Não tem ninguém além de mim.

Tens uma mulher em casa, ou não tens?

A Maria Inês sentiu o mundo girar. O coração batia tão forte que parecia que toda a casa tremia.

Então, não era pescarias nenhumas.

Nem viagens com o Figueiredo por lagos e barragens.

O marido ia todos os sábados mas afinal era a outra, essa tal ela.

Se contar agora, ela vai odiar-me. Por causa da mentira. Se não contar esta culpa não me deixa em paz Abílio respirou fundo.

Culpa agora? Onde estava antes? Leonor bufou.

Antes era tudo mais fácil. Agora ela está muito mal.

Se calhar está na hora de seres sincero com a Maria Inês sugeriu Leonor.

Estás louca! Ela mata-me! Ou, pior, mete-me na rua. E eu, com sessenta anos, vou para onde?

A Maria Inês afastou-se da porta durante uns segundos.

Trinta anos a preparar-lhe caixas de croquetes para levar para a pesca. A engomar-lhe camisas, a tratar das botas de borracha. A preocupar-se sempre que ele se atrasava. E afinal era para ir ter com outra.

E a Leonor sabia!

A própria irmã sabia e nunca disse nada!

Meu Deus.

Como é que foi tão cega?

Pronto, já me vou embora. Só pensa bem nisto, Abílio rematou Leonor, antes de sair. Algum dia isto sai cá para fora.

Eu sei, eu sei resignou o Abílio.

Ouvindo passos na direção da entrada, a Maria Inês fugiu para a casa de banho.

Ela precisava de tempo.

Tempo para assimilar a verdade.

Tempo para decidir o que fazer dali em diante.

E para perceber, no fundo, se ainda valia a pena continuar com tudo aquilo.

Olhou-se ao espelho, e nem se reconhecia. Aquela era ela Maria Inês Fernandes, a mulher exemplar?

Mais parecia uma pateta exemplar

Saiu com a cara normalzinha, como se nada tivesse sido. O Abílio folheava o jornal, na sua típica postura de tudo está bem.

Olá, Mariquinha! fez-se logo muito contente, um sorriso falso. Hoje vieste cedo.

O médico faltou

A Leonor cá passou. Mandou cumprimentos.

Que grande mentira. Cumprimentos, nada!

Vais querer jantar? perguntou a Maria Inês, com a voz controlada.

É claro! O que é que vais fazer?

Croquetes. Como sempre.

A semana passou a correr, mas para ela foi um inferno. Observava cada movimento do Abílio. Cada palavra. E só via mentira em tudo: a forma como escondia o telemóvel, o nervoso das sextas à noite, a obsessão com as caixas de apetrechos de pesca.

No sábado, não aguentou mais.

Abílio, porque não vamos juntos à pesca? perguntou ela, inocentemente.

Ele ficou branco.

Porquê? Tu não te divertias nada

Ora, quero experimentar. Pode ser que afinal até goste.

Não, não, não fez logo gestos, aflito. Aquilo é só frio e mosquitos Fica tu em casa, descansa.

E lá foi ele, de cara fechada de culpa.

A Maria Inês ficou sozinha, as ideias a mastigar-lhe o cérebro.

Na segunda-feira tomou coragem para falar com a Leonor.

Leonor, precisamos de conversar.

Sobre o quê? ela já vinha nervosa.

Sobre tudo. Só te queria ver

Marcaram encontro numa pastelaria, assim em terreno neutro. A Leonor estava inquieta, a brincar com o anel.

Então, como estás? começou Maria Inês, com cuidado.

Bem. E vocês?

Nós também O Abílio anda mesmo fascinado pela pesca.

Café quase entornado. Gaguejou:

É? Vai muito?

Todos os sábados. Parece quase uma obsessão.

Os homens, sabes como são murmurou Leonor. Gostam de hobbies.

E tu sabes para onde é que ele vai pescar?

Eu? Como, eu? Eu não sei nada disso

Mas os olhos dela fugiam. Pura mentira.

Só pensei que podia ir com ele, para ver qual é a graça dessa pesca toda.

Maria Inês, para quê? Deixa lá o homem ter o seu tempo para si. Todos precisamos de espaço.

Espaço pessoal! Referia-se à traição, só podia.

Leonor inclinou-se Maria Inês, séria. Tu sabes alguma coisa?

Nada sei, e prefiro não saber. E tu fazes bem em não te meter.

Levantou-se e foi-se embora.

Deixou a Maria Inês ali, com a certeza amarga de que estava a encobrir.

Em casa, decidiu investigar por conta própria. Vasculhou bolsos do Abílio, carteira, o carro.

E encontrou.

No porta-luvas recibos regulares de pagamentos. 250 euros todos os meses.

Lar privado Esperança. Vila Real.

Lar? Não era casa de campo, não era base de pesca. Um lar.

Sentou-se com o recibo na mão e percebeu: o mundo ia desmoronar definitivamente. Um lar, há que pensar, são para quem precisa de cuidados, não é?

Então, o Abílio tem alguém doente. Alguém por quem paga e visita todos os sábados.

Mulher? Amante?

Não dormiu essa noite, a pensar nas hipóteses. Cada uma pior que a outra.

Na manhã seguinte tomou uma decisão.

Ia ela mesma até Vila Real, para ver com os próprios olhos que segredos havia.

Na sexta, pediu folgadisse que ia a uma consulta.

A viagem levou-lhe três horas. Três horas a alimentar os piores cenários.

O lar era pequeno, acolhedor, com uma placa: Para pessoas com necessidades especiais.

Deficientes.

O coração apertou. Estaria o Abílio a apoiar alguma pessoa deficiente e ela sem saber?

Veio ver alguém? perguntou uma auxiliar na receção.

Sim, queria saber quem está cá por conta do Abílio Rodrigues.

É familiar?

Mulher.

Foi folhear o registo.

Filipa Rodrigues, quarto doze. Pode subir.

Rodrigues.

Ela tem o apelido do Abílio!

A Maria Inês ficou parada à porta do quarto 12, sem coragem para entrar. Ali estava a verdade. Justamente aquela verdade que metia medo, mas que ela queria, ao mesmo tempo.

Filipa Rodrigues.

Com o apelido do seu marido.

A mão tremia ao abrir a porta.

Posso?

Um quarto cheio de luz, a cheirar a medicamentos e flores. Junto à janela, numa cadeira de rodas, estava uma mulher jovem quase trinta e cinco anos, morena e magrezinha.

E tão semelhante ao Abílio.

Veio para me ver? perguntou a jovem, num tom meigo mas fraco.

Sim, sou a Maria Inês. É a Filipa?

Sou. Nós conhecemo-nos já?

Eramos conhecidas Como responder?

Sou mulher do Abílio Rodrigues.

O rosto da Filipa mudou em segundos. Ficou branca, olhos enormes.

Ó meu Deus Você sabe de tudo?

Agora sei Maria Inês aproximou-se. Conte-me tudo.

Não posso O pai pediu que ninguém soubesse.

Pai.

A Maria Inês teve de se sentar, completamente abalada.

Ele é seu pai?

Sim chorou Filipa. Desculpe, só não queria que soubesse. Ele disse que você não tinha filhos e que ia sofrer muito se descobrisse.

Espera. Digamos por ordem Quantos anos tem?

Trinta e quatro.

Trinta e quatro! Então nasceu um ano antes do casamento deles quando o Abílio andava com outra.

E a sua mãe?

Morreu há dois anos, cancro disse, limpando as lágrimas. O pai sempre ajudou: mandava dinheiro, visitava-nos. Quando mamã se foi, ele pôs-me cá Tenho paralisia cerebral, não consigo viver sozinha.

A Maria Inês ficou sem palavras.

O marido tinha uma filha. Doente. Que mantinha, ajudava, e de quem ela nunca soube em trinta anos.

Ele é um bom pai continuava Filipa, chorando. E vem cá todos os sábados. Traz-me comida, medicamentos, fala sobre si. Diz que é uma mulher maravilhosa.

Fala sobre mim?

Sim. Ele gosta muito de si. Fala sempre: A minha Mariquinha, a minha Maria Inês. Garante que não há melhor esposa.

A Maria Inês soltou um riso amargo.

A melhor esposa, enganada durante trinta anos.

Não é isso! protestou Filipa. Ele tem medo, muito medo que você o abandone se souber de mim. Eu não sou como as outras Sou uma carga.

Não diga isso. Você não é um fardo.

Para a maioria, sou A mãe bem dizia: Era melhor não ter nascido. Mas o pai nunca disse isso. Garantiu sempre que era responsável por mim.

Bateram à porta. Entrou uma auxiliar.

Filipa, hoje temos visita! Que bom depois fixou o olhar na Maria Inês. Alguma coisa mal?

Nada, dona Teresa. É a tia Maria Inês.

Tia Maria Inês.

Ah! Finalmente se conhecem! sorriu a assistente. O Abílio fala tanto de si! Diz que é das pessoas mais bondosas

Bondade e compreensão E ela ali a imaginar traição e dramas.

A auxiliar saiu, e elas ficaram as duas.

Fale-me da sua mãe pediu a Maria Inês.

Era linda. O pai namorou com ela antes de a conhecer. Quando descobriram o meu problema, a minha mãe achou que não fazia sentido ter uma família assim pediu sequer ao pai para ir casar com uma mulher saudável, consigo.

E ele obedeceu?

Queria ficar, casar com ela Mas a mãe rejeitou. Disse que não queria ninguém por pena. Talvez amasse mais você.

E depois?

Casou consigo. Mas nunca nos deixou. Ajudava sempre. Mais tarde começou a visitar-me. A mãe permitiu, mas com a condição de que você nunca soubesse. Achava que a família se desfazia se soubesse.

A Maria Inês sentou-se a pensar. Tantos anos com inveja das mulheres com filhos. Chorou sempre que uma tentativa de fertilização falhava. E, afinal o marido tinha uma filha. Sempre teve.

Porque nunca me contou? murmurou.

Medo. Temia que você, desejando filhos, não aguentasse descobrir isto. E além de tudo, doente. Só achava que ia odiá-lo

Porquê odiar?

Porque o enganou. Usou dinheiro para mim que podia guardar para família. Tirava tempo ao lar.

Filipa calou-se e depois acrescentou baixinho:

Ele sofre imenso. Sempre diz: Como conto à Mariquinha? Como explico? E eu repito: Pai, talvez ela compreenda

No corredor ouviram-se passos familiares. Lentos e pesados.

Abílio.

Oh não sussurrou Filipa. Ele nem imagina que você está aqui!

Os passos aproximaram-se.

Olá, filha! disse Abílio já no limiar da porta.

A Maria Inês virou-se.

O marido estava ali com flores e compras. Viu a mulher e deixou cair tudo.

Maria Inês? quase não saía a voz. Como

Vim conhecer a filha disse ela, calma.

Abílio empalideceu, encostou-se à porta.

Como descobriste?

Fui distraído a montar a mentira.

Entrou, fechou a porta. Sentou-se pesadamente.

Pronto, agora sabes tudo.

Sei.

Odeias-me?

A Maria Inês olhou para ele, depois para a Filipa.

Ainda não sei estou a tentar perceber.

Não há muito que perceber. Enganei-te durante trinta anos. Inventei pescarias. Gastei dinheiro da casa.

Pai, não digas isso interrompeu Filipa. Tia Maria Inês, ele só tinha medo!

A Maria Inês foi até à janela.

Lá fora, o pátio normal, com árvores, bancos, pessoas. Uma vida trivial.

E ali, toda a vida dela desabava para se reconstruir de outra forma.

Tenho de pensar foi o que conseguiu dizer.

Três dias ficou sem palavra com o Abílio. E ele a andar pela casa como alma penada, querendo dizer qualquer coisa. Ela cozinhava, arrumava, mas era como se ele não existisse para ela.

Só pensava.

Pensava nos trinta anos vividos na ignorância. No facto de ter uma enteada. E no medo do marido da verdade.

Na quarta à noite não aguentou:

Senta-te, Abílio. Vamos falar.

Ele sentou-se à frente, mãos cruzadas, à espera de castigo.

Fui ver a Filipa outra vez. Falámos horas.

E então?

E então concluí que és parvo, Abílio.

Ele estremeceu.

Parvo, por achares que eu abandonava a família pelo facto de existir uma filha doente. Parvo, porque preferiste sofrer sozinho em vez de dividires o problema.

Maria Inês

Cala-te, ainda não terminei de pé, dava voltas à cozinha. Achavas que eu era fria ao ponto de te largar só por causa de uma filha especial? Que eu era tão pequena assim?

Não! Só tinha medo de perder-te!

E quase me perdeste a sério.

O Abílio baixou a cabeça.

Desculpa. Sei que não mereço perdão, mas desculpa.

Levanta-te.

E ele levantou-se.

Amanhã vamos buscar a Filipa. Juntos. E eu quero falar com os médicos para ver se ela pode vir para nossa casa.

Abílio arregalou os olhos.

Como?

Como ouviste. Se é minha filha agora é minha filha deve estar perto da família.

Mas ela precisa de cuidados especiais

Arranja-se uma assistente, transforma-se o quarto. Ultrapassamos. Maria Inês pegou-lhe nas mãos. Sabes qual era o meu maior sonho durante estes trinta anos?

Ter um filho.

Ter uma família verdadeira. Agora tenho. Marido parvo, filha especial mas família.

O Abílio chorava. A Maria Inês nunca o tinha visto assim.

Aceitas mesmo?

Claro. Ontem comprei-lhe uma camisola nova e um shampoo. Levamos amanhã.

Abraçou-a com força.

És demais, Maria Inês.

Não mereces, mas vais aguentar. Só uma condição: nunca mais me mentes.

Prometo.

E outra coisa. Quero que a Filipa me chame mãe. Já que sou mãe, faço jus ao nome.

Um mês depois, a Filipa mudou-se. Ficou num quartinho adaptado, cheio de luz. Maria Inês tratou dos cortinados, papel de parede, tudo a preceito.

Mãe disse Filipa logo na primeira noite tem a certeza? Eu sou um peso

Se dizes isso outra vez, levas nas pernas! avisou Maria Inês. És minha filha. E ponto final.

À noite, com a Filipa já a dormir, ela e o Abílio sentaram-se juntos, a chá e bolachas.

Sabes disse Maria Inês agora é que a vida começou.

Aos sessenta anos?

Sim, senhor. Agora é que somos uma família. Não um casal sozinho, a arrastar os dias. Agora somos pais. Temos uma filha para levantar.

O Abílio sorriu.

Obrigado.

Não agradeças. Daqui para a frente, nunca mais me ocultes nada.

Nunca mais.

Do quartinho, ouvia-se a Filipa atirar risos estava a ver uma série cómica no tablet.

E aquele era mesmo o melhor som do mundo.

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Ao chegar a casa antes do previsto, Zoya ouviu uma conversa entre o marido e a irmã—e ficou chocada: trinta anos de casamento, ele sempre saía ‘para pescar’, mas guardava um segredo. Decidida a descobrir a verdade, Zoya viajou para um lar em Setúbal, onde descobriu a existência de uma filha que o marido ocultava—e que agora pode finalmente aceitar como parte da família.
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