Cinquenta mil euros, Simão. Cinquenta mil. Para além dos trinta de pensão.
Constança atirou o telemóvel para cima da mesa da cozinha, com tanta força que ele deslizou pela toalha e quase caiu ao chão. Simão apanhou-o mesmo na beira, e esse gesto só serviu para irritá-la ainda mais.
O Frederico precisava de uns ténis novos e do equipamento da turma, Simão pousou o telemóvel virado para baixo, como quem esconde uma prova. Ele está a crescer, Constança. As crianças crescem, é assim.
Ténis de cinquenta mil? Ele vai entrar na seleção nacional?
Também havia uma mochila. E um casaco. O outono está a chegar.
Constança desviou-se, não conseguia olhar para o marido. Já conhecia aquelas transferências. Todos os meses. Nunca falhavam. Sempre com os mesmos argumentos: filho, dever, responsabilidade. Palavras bonitas que significavam números concretos a desaparecer da poupança deles para o bolso de outra pessoa.
Eu gosto dele, sabes? Simão aproximou-se, parou a um passo das costas dela. É meu filho. Não consigo simplesmente…
Eu não te peço para deixares o miúdo, peço é que não gastes mais do que a pensão. Trinta mil todos os meses, achas pouco? A Filipa não trabalha?
Trabalha.
Então qual é o problema?
Silêncio. Constança já conhecia aquele silêncio, era a resposta-padrão: não há argumento, só o hábito de aceder, de ajudar, de nunca discutir. Ser o bom ex-marido, bom pai, boa pessoa. À custa deles.
Ela virou-se, apoiando-se à borda da pia.
Eu faço contas, sabes? Na cabeça. Quanto vai embora todos os meses. Queres saber o total ao fim do ano?
Não quero.
Quase seiscentos mil. Sem contar com os cinquenta mil de hoje.
Simão esfregou as têmporas outro gesto repetido, a pedir deixa estar. Mas Constança não conseguia mais calar. Calou demais, fingiu compreensão demais.
Estávamos a planear férias. Lembras-te? Disseram que em novembro, iríamos ao sul, duas semanas junto ao mar. E agora, onde está esse dinheiro?
Constança, percebo, mas a Filipa ligou-me, era urgente…
Filipa. O urgente constante dela.
Simão sentou-se no banco da cozinha, cotovelos nos joelhos. Constança viu então o cansaço no rosto dele. Não o da rotina, mas o de estar sempre entre duas mulheres, como num jogo surreal de cordas. Quis sentir piedade, mas abafou-a.
Ela quer comprar um apartamento, murmurou Simão, sem levantar os olhos. Para o Frederico ter o seu quarto.
Espera aí. Que apartamento?
Maior. Eles vivem num T0, já sabes. É apertado.
Apetado para ela. E quem paga?
Simão finalmente enfrentou o olhar dela, com uma culpa vaga a flutuar nos olhos. Constança gelou.
Não tencionas…
Pediu-me ajuda com a entrada. Ainda estou só a ponderar.
Ponderas? Simão, isso é… é uma fortuna! Como vais arranjar?
Fomos juntando algum. Para comprar carro.
JUN-TAN-DO! Para o nosso carro! Para nós!
Gritou, mão na boca, como para empurrar as palavras para longe. Tarde demais já pairavam entre eles.
Simão levantou-se, foi para a janela, mãos nos bolsos.
O Frederico é da minha família também. Não posso fazer de conta que ele não existe.
Ninguém te pede isso! Mas há pensão legal, oficial. O resto é caridade. Da tua parte e, por acaso, da minha também: são fundos nossos!
Eu sei.
E nada te trava.
O silêncio encheu a casa, cortado apenas por risadas distantes do televisor dos vizinhos. Humor deslocado para aquela conversa.
Constança sentou-se à mesa, arranjando o pano como quem alisa nervos. No peito, tudo ardia, mas forçou-se a falar calmo:
E quanto ela pediu?
Dois milhões de euros para a entrada.
O número ficou no ar e Constança deixou um riso curto, sem alegria.
Dois milhões. É tudo o que temos.
Eu sei.
E tens mesmo coragem de lhe dar?
É pelo meu filho.
Eu sou contra. É dinheiro nosso, não esqueças.
Simão manteve-se calado. Não havia mais para dizer.
Uma semana depois, Constança abriu a app do banco só para ver se o ordenado tinha caído. Foi até à conta poupança aquela que preenchiam há três anos, moedinha a moedinha.
Saldo: quarenta e sete mil quinhentos e dois euros…
Piscou os olhos. Reiniciou a app. Consultou de novo.
Quarenta e sete mil, em vez de dois milhões…
O telemóvel escapou-lhe das mãos e caiu no tapete.
Constança ficou imóvel no centro da sala. Dois milhões. Três anos sem férias, contando cêntimo a cêntimo cada compra. Restavam quarenta e sete mil um esqueleto do futuro planeado.
Pegou no telemóvel, abriu os movimentos do extrato. Transferência para Filipa Martins Silva.
Nem sequer tentou esconder.
Simão estava no sofá com o portátil quando ela entrou a correr. Olhou, quase sorriu mas a expressão congelou ao ver-lhe o rosto.
Dissipaste todas as nossas poupanças na tua ex?!
O grito saiu agudo; não quis saber. Que ouvissem os vizinhos, o prédio inteiro.
Constança, espera, eu posso explicar…
Explicar?! Dois milhões, Simão! Dois! Eram nossos!
Ele fechou o portátil e levantou-se, sem mágoa nos olhos, só teimosia estranha.
É para o Frederico. Precisa de condições, um quarto decente. Sou pai, é o meu dever…
O teu dever é connosco! Comigo! Não com uma mulher que ficou para trás há quatro anos!
Ela é mãe do meu filho.
E eu quem sou?!
Tu és a minha mulher. Amo-te. Mas o Frederico…
Pára de usar o Frederico como desculpa! Constança avançou, Simão recuou. Compraste um apartamento à Filipa. Não ao teu filho a ela! É no nome dela, não é? Ela vai viver lá, fazer o que quiser, vender se quiser, e o que tem isso a ver com o miúdo?
Simão ficou sem palavras. Sabia bem que era verdade.
Tu ainda gostas dela. É isso. Não se trata do Frederico nunca conseguiste sequer pensar em dizer-lhe não.
Não é verdade.
Então porque não me consultaste? Porque decidiste por ambos?
Simão tentou aproximar-se, braços estendidos:
Constança, por favor. Vamos conversar com calma. Sei que estás magoada, mas faço isto pelo meu filho…
Constança recuou.
Não me toques.
As palavras ergueram um muro entre eles. Simão ficou com os braços no ar, finalmente com ar de quem percebeu. Tarde demais.
Eu não consigo Constança passou por ele até ao quarto, pegou na mala. Não consigo viver ao lado de alguém que decide sem mim. Que omite. Que mente…
Eu não menti!
Não disseste. É igual.
Atirou para dentro da mala tudo essencial: roupas, documentos, carregador. Simão ficou a olhar, parado à porta, enquanto ela desmontava a vida em minutos.
Para onde vais?
Para casa da mãe.
Vais demorar?
Fechou a mala, pôs ao ombro, fixou Simão homem adulto, olhar perdido, sem entender o estrago.
Não sei, Simão. Juro que não sei.
Os três dias com a mãe foram estranhos. No primeiro, Constança ficou no sofá a olhar o teto. A mãe trazia chá, nenhuma pergunta, só carinho como antigamente. No segundo, veio a raiva, viva, esclarecedora. No terceiro, uma decisão firme. Ligou ao advogado conhecido.
Quero divorciar-me. Sim, tenho a certeza. Não, não há volta.
Simão ligava todos os dias. Mandava mensagens confusas, cheias de desculpas e explicações. Ela lia, mas não respondia. Não havia nada a dizer. Ele fez a escolha dele agora era a vez dela.
Um mês depois, Constança instalou-se num T0 arrendado do outro lado de Lisboa. Pequeno, dava para ver os barcos no Tejo, mas era só dela. As cortinas, a mobília, tudo escolhido por ela. Quem decide os gastos é ela.
O divórcio foi rápido Simão não contestou. Talvez achasse que ela ia mudar de ideias. Não mudou.
Às vezes, à noite, Constança sentava-se à janela e pensava como a vida era estranha há três anos achava que tinha encontrado o seu homem. Agora estava só no silêncio da sua sala. E não lhe assustava.
Constança abriu o caderno, escreveu: zero. Ponto de partida. Do lado, o plano mês, semestre, ano. Quanto juntar, onde investir, que cursos fazer para avançar.
Pela primeira vez em muito tempo, o futuro dependia apenas dela.







