A pequena Maria não conseguia entender por que seus pais não a amavam; irritava o pai, e a mãe parecia cumprir mecanicamente as tarefas de cuidar dela — mais preocupada com o humor do marido.

Lembrome, como se fosse ontem, dos dias em que eu, Madalena, ainda era uma menina que não compreendia por que os meus pais pareciam não me amar. O pai irritavase comigo, e a mãe, como se fosse um autômato, cumpria apenas as obrigações de cuidar da criança o que lhe interessava, na verdade, era o humor do marido.

A avó paterna, Dona Teresa da Silva, costumava explicar que o pai trabalhava muito, que a mãe também labutava para que a menina não precisasse de nada. E ainda tem as tarefas domésticas, dizia ela. Só descobri a verdade quando eu tinha oito anos, ao ouvir por acaso a primeira grande discussão entre os meus pais.

Nina, outra vez o ensopado está salgado! vociferou o pai, António, com a voz de quem não aguentava mais. Nada faz bem nesta casa!

Jorge, o que fiz? Eu experimentei e estava tudo bem tentou defenderse a mãe, Maria.

Mas tu sempre dizes que está bem! Nem ao menos conseguiste dar à luz a um filho! Os homens riem de mim sou uma broxa!

António era motorista de carrocamião de longa distância, proprietário da própria frota e homem de poucas palavras. Contudo, naquele instante, a irritação que sentia contra a esposa e contra mim, a menina, era tão evidente que me senti envergonhada.

Foi então que percebi por que os pais me enviavam à casa da avó sempre que ele regressava de um trajeto não podiam suportar a ideia de cuidar de nãofilho.

Na casa da Dona Teresa eu encontrava refúgio. Estudávamos juntos, cozinhávamos, até costurávamos alguma roupa. Ainda assim, era triste ver o modo como os meus pais se comportavam.

Pouco depois, António e Maria anunciaram, de súbito, que iam mudarse para a grande capital. Queriam algo de novo, esperavam que talvez nascesse um filho naquele novo local. Decidiuse, obviamente, o pai; a mãe concordou como de costume.

O problema era que não queriam levarme para a nova vida.

Viverás com a avó e depois nós virteemos buscar, murmurou a mãe, evitando o meu olhar.

Eu nem quero ir convosco prefiro ficar com a avó declarei, embora o coração apertasse de mágoa.

Mas não havia alternativa. Eu ficava com a avó querida, com os amigos e com os professores que me conheciam. Os pais podiam viver como queriam; eu deixaria de me preocupar com eles.

Quando eu tinha quase dez anos, António e Maria tiveram finalmente o tão aguardado filho: o meu irmão, Tomás. O pai anunciou a novidade por vídeochamada, enquanto a mãe limitavase a telefonemas e o pai transmitia cumprimentos. Durante todos aqueles anos, nunca nos visitaram; a comunicação era escassa.

De vez em quando enviavam à Dona Teresa pequenas quantias em euros, mas eu continuava a ser sustentada por ela.

Um ano depois, a mãe apareceu de súbito, exigindo que eu me mudasse para a sua casa. Veio pessoalmente.

Então, minha querida, cantou ela, agora viveremos todos juntos. Finalmente conhecerás o teu irmão fareis amizade.

Não quero ir a lado nenhum respondi, firme, embora o peito doía.

Não fizeres birra, filha! Já és maior, tens de ajudar a mãe.

Nina, segura os cavalos! interveio Dona Teresa. Se decidires ficar como babá grátis da Madalena, eu não deixarei!

É a minha filha, resolveremos nós mesmos! retrucou a mãe.

A avó, porém, não se deixaria intimidar:

Se insistires, denunciote por abandono de menor! Perderei o direito à parentalidade!

A discussão prosseguiu; eu já não ouvia mais, pois Dona Teresa despachoume ao supermercado. No dia seguinte, a mãe partiu novamente.

Durante os dez anos seguintes, os pais nunca mais apareceram. Concluí o ensino básico, depois o secundário e, com a ajuda de um velho amigo da avó, Ilídio Silva, consegui emprego numa pequena contabilidade.

Encontreime com o condutor Vítor; planejávamos casarnos, mas o funeral de Dona Teresa interrompeu os planos. O pai e a mãe vieram juntos ao enterro. Tomás ficou a cargo de uma conhecida, pois não havia motivo para o rapaz participar naquele luto.

Para mim, nada mudava amava a avó e a sua perda abaloume profundamente.

Talvez por isso eu não tenha entendido imediatamente a conversa do pai à mesa do velório.

Cá o apartamento está abandonado, disse ele, olhando em volta. Ninguém lhe dá valor.

K… respondeu a mãe, com desdém. Não agora

Precisamos resolver tudo de imediato. Temos de ir Tomás está lá.

Ilídio, conhece alguém? Um corretor para vender a casa?

Que pretendes vender? perguntou Ilídio.

Esta casa. Tomás precisa de um lar o dinheiro não basta para um imóvel novo na cidade, mas cobre a entrada, e até aos dezoito anos pagaremos a hipoteca.

Madalena, em silêncio, observava a janela, sem intervir.

K, pretendes lançar a tua própria filha ao vento? indagou Ilídio. Onde vai viver?

Ela já é adulta! respondeu o pai, descartando. Que se case, e o marido lhe dê habitação!

Ah disse o filho de Dona Teresa. Talvez a Natália estivesse certa Mas nada acontecerá, António. Existe um testamento que, legalmente, dá o apartamento apenas à Madalena.

O pai ficou mudo.

Já trataste da avó? disparou ele em direção a mim, que finalmente comecei a prestar atenção. Nada! Vamos tentar contestar o testamento.

E isso a Natália previu, comentou calmamente Ilídio. Mas a Madalena não a entregarei a ti.

O pai procurou conselho legal por um dia e viu que a lei estava a seu favor.

Madalena, tens consciência? tentou ele, tentando me convencer a aceitar o casamento e deixar o irmão com casa, renunciando à herança.

Não, jamais respondi firme.

Então pagaremos mil euros para a entrada, e a hipoteca

Não quero e não falarei contigo!

Se não se calares, chamo a polícia. Expulsovos daqui!

Eu mantinha a decisão de honrar a vontade da avó, que sempre cuidou de mim, e não queria ficar sem teto.

O pai nunca gostou da polícia; preferia evitar o Estado. Assim, ele e a mãe regressaram, desaparecendo por quatro anos.

Nesse intervalo, eu e Vítor casámonos e tivemos uma filha, Natália. O dinheiro mal chegava, mas vivíamos felizes e unidos. Então, um dia, o telefone tocou: era a mãe.

Tudo por tua culpa! gritou, chorando. Se não fosse por ti, o K morreu!

Não estás aqui. Precisas de ajuda com o funeral? respondi, calada.

Sentia pena por António, mas viao apenas como um estranho, não como pai.

Não preciso de nada! Por tua culpa, Tomás ficou órfão! Vive com isso!

Madalena, não fizeste nada! interveio o marido, que assistia à chamada, ao ver a esposa despirada.

E se eu? a mãe começou, mas eu já sabia que nunca mais voltaria.

Não tens razão para brigar comigo, avó protestei. Não tenho dinheiro. Nem se tivesse, não o daria.

Vejo que ainda vivem bem disse ela, observando o nosso lar recémreformado, com móveis e eletrodomésticos novos, comprados a crédito, quase pagos.

Eu não mencionei nada não havia necessidade de justificarme a quem não era família.

Se ao menos perguntasses à neta por cortesia insistiu a mãe.

Os pais dela ainda estão vivos, então ela está bem rebatei. E nós não precisamos de ajuda.

Vocês recebem pensão de viúvos, e tu trabalhas, não? Vivam com o que têm. Deixa o Tomás ir ao colégio.

Que sonho era o K, que o filho tivesse faculdade!

Basta! Não te darei dinheiro. A conversa acabou.

A raiva antiga feriume novamente; os pais nunca sonharam com o meu futuro, nunca pensaram nele.

Tudo bem concluiu a mãe, dirigindose à porta. Se não quiseres ser boa, haverá consequências.

Naquela noite, relatei ao Vítor o ataque da mãe.

E o que ela pode inventar? disse ele, estendendoa mão. Como poderia tirar dinheiro de nós? Não temos.

Não sei respondi, mas sabia que ela trazia algum plano.

Descobri o plano da mãe uma semana depois, quando recebi a intimação para comparecer ao tribunal.

Estás louca? perguntei-lhe calmamente. O que pretendes fazer no tribunal?

Vou obrigarte a ajudar o teu irmão respondeu. Existe uma lei! Ainda tens tempo para mudar de ideia e não te expor ao constrangimento.

Então, não te envergonhas no tribunal? questionei.

A lei está do meu lado. Eu sou mãe, defendo o meu filho!

Então eu não sou tua filha murmurei, pendurando o telefone.

No tribunal, NINA encenou um drama, com lágrimas nos olhos, alegando ter sido forçada a deixarme com a avó, ter tido um filho esperado e perdido o marido, ficando sem recursos.

O juiz simpatizou consigo, enquanto eu, serena, expus a verdade da família.

A decisão baseouse no fato de que, pela pensão de Tomás e pelo salário de NINA, a nossa família vivia abaixo da linha da pobreza. O pedido da mãe foi rejeitado.

Saí da sala de justiça lançando um único olhar de desdém à minha mãe.

Ela partiu sem se despedir; eu sabia que poderia voltar, trazendo novas exigências.

Assim, recordo, com a mesma clareza de outrora, que a vida ensinoume a confiar no amor da avó e a lutar pelos meus próprios direitos, mesmo quando o passado tenta arrastarnos de volta ao sofrimento.

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A pequena Maria não conseguia entender por que seus pais não a amavam; irritava o pai, e a mãe parecia cumprir mecanicamente as tarefas de cuidar dela — mais preocupada com o humor do marido.
Оля, това с теб ли са онези излишни килограми?