Samantha recusou o rapaz e depois convidou-o para o seu casamento. Veja como Adam reagiu a esta escolha inesperada

Na penumbra da primeira manhã de aulas, eu e Constança tornámo-nos amigas por acaso, num corredor estreito da escola. O tempo era viscoso, e tudo se movia como vapor lento, até que Francisco deslizou para o nosso círculo perto do final do ano letivo, quase como se flutuasse. Percebi, como se estivesse a olhar para um quadro ligeiramente desfocado, que Francisco nutria sentimentos por Constança desde sempre. Numa noite de Réveillon, enquanto foguetes caíam como pétalas sobre Lisboa, Francisco pediu Constança em casamento, misturando palavras com o barulho das gaitas de foles. Ela rejeitou-o delicadamente, dizendo que o futuro dela estava coberto de livros e cálculos, e que era cedo demais para se perder em relações.

Francisco, porém, não abandonou o seu sonho e permaneceu à sombra de Constança, fiel e silencioso como o ladrar de um cão a meio da noite. No fim do segundo período escolar, voltou a tentar, mas Constança, sem deixar vestígio de mágoa, sugeriu que o melhor seria continuarem amigos. Depois, confidenciou-me entre raios de sol e sombra das árvores do Jardim da Estrela, que preferia rapazes atléticos e com uma vida financeira estável, talvez alguém que jogasse futebol no Benfica e contasse notas de euros como quem conta histórias.

Apesar das preferências de Constança, eu sabia que Francisco era um rapaz bondoso, com a alma leve e os bolsos vazios. Eventualmente, minha amiga casou-se com um homem que preenchia todas as suas expectativas robusto, seguro, com um carro vermelho e um cargo importante na Câmara Municipal de Porto. Fomos convidados para o casamento, eu e Francisco, mas o destino virou tudo do avesso como um lençol eu caí doente e não consegui ir, e Francisco, magoado com o desenrolar surreal da história, recusou também o convite.

No mesmo dia da festa, Francisco apareceu na minha casa em Oeiras, procurando consolo como quem procura o último boné antes do verão. Partilhou comigo o seu desconsolo, lamentando que a mulher que amava tivesse escolhido outro. E após o matrimónio de Constança, sob as luzes azuis do Tejo, eu e Francisco ficámos juntos mais tempo, a amizade a crescer entre nós como uma vinha incontrolável. Quando a minha avó adoeceu e a minha mãe passou noites a cuidar dela, senti Francisco mais próximo; disse que sentia muito a minha falta, como se a ausência deixasse o mundo mais cinzento.

E então, a amizade tornou-se outra coisa uma coisa que não tem nome nos dicionários, apenas um sabor estranho nos sonhos. Um ano mais tarde, casámo-nos e começámos a desenhar a vida juntos, comprando peças de mobília com euros reais e sonhos flutuantes.

A felicidade parecia um balão frágil, até ao dia em que a Constança surgiu à porta, cansada e carregando dois filhos nos braços. Três anos após o seu casamento, tornara-se viúva o seu marido, que era presidente da Câmara, desaparecera no nevoeiro do Douro, deixando-a perdida. Constança, com olhos grandes e verdes como as ondas na Nazaré, pediu para ficar connosco até encontrar uma nova morada, enquanto o mundo girava inversamente, como num sonho onde nada tem lógica e tudo é apenas fragmentos de emoção.

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Samantha recusou o rapaz e depois convidou-o para o seu casamento. Veja como Adam reagiu a esta escolha inesperada
Чух звънеца на вратата. Отворих и там стоеше любовницата на съпруга ми.