Bagagem Perdida

Mala Perdida

A mala pesava estranho.

Foi logo à esteira que percebi. Estava habituado ao peso certo, aqueles doze quilos exatos mas, ao puxar a minha, pareceu-me mais densa, mais pesada, com um equilíbrio diferente. Por fora era igual a tantas outras: cinzenta, quatro rodas, uma arranhadela no canto esquerdo. Agarrei o puxador e segui até à saída.

O aeroporto do Porto cheirava a café e a piso molhado. Lá fora, a chuva de março caía miudinha não era coisa de postal turístico e pensei que o congresso sobre jardins urbanos era, de facto, motivo suficiente para voar de Lisboa ao Porto. Mas não tão motivo que me deixasse particularmente feliz.

Tenho trinta e um anos. Bolseiro no Centro de Estudos Urbanos, arrendo um T0 de vinte e oito metros quadrados. Os livros alinham-se em pilhas contra a parede. A minha mãe, em Coimbra, liga todos os domingos e faz sempre a mesma pergunta: Então, e novidades? Ninguém especial? A resposta não varia: Ó mãe, tenho trabalho. Parecia que isso justificava tudo.

O táxi até ao hotel demorou vinte minutos. O motorista perguntou-me se ia de férias. Disse-lhe que era trabalho. Acenou, como quem já esperava.

O quarto era pequeno, limpo, com vista para uma nesga de mar cinzenta. Havia um vaso de plástico na janela uma gerânio falsa, nunca foi gerânio real. Coloquei a mala na cama, abri os fechos e ergui a tampa.

E parei.

Dentro, estavam roupas de homem.

Uma camisola grossa de lã verde-escura cheirava a ervas, não a perfume. O tamanho pelo menos um palmo mais larga nos ombros do que eu. Umas calças de ganga. Ténis, número quarenta e três, em saco de plástico. Um carregador de telemóvel que nunca tive. Um saquinho de sementes legenda noutra língua, deve ser coisa para botânicos. E um caderno. Encapado em pele, gasto nas bordas, com um elástico de lado.

Não era a minha mala. Sentei-me na beira da cama, a olhar aquelas coisas alheias. Por fora, igualzinho: cinza, quatro rodas, arranhão no ângulo. Mas não era minha. Alguém ficou com as minhas: livros, vestido para a apresentação, o portátil com as apresentações, a fotografia da minha mãe na moldura. E eu com as dele.

Durante cinco minutos fiquei ali, sem saber o que fazer. Depois liguei para o aeroporto. O atendedor automático pediu para aguardar. Onze minutos de espera. Por fim, uma funcionária atendeu, pediu os dados do voo e do recibo da mala, pediu para aguardar: Havemos de ligar. Claro que sim.

Desliguei o telefone e olhei para a mala aberta. O caderno estava mesmo por cima, como pousado de propósito. A pele, macia e quente ao toque.

Sabia perfeitamente que não devia mexer. Pertencia-lhe a sua vida, as suas notas. Seria como escutar conversas atrás da porta ou espreitar para dentro de casas à noite. Não era correto. Levantei-me, caminhei de um lado ao outro, servi-me de água da jarra. Bebi. Voltei os olhos para o caderno.

O meu ombro esquerdo, cansado das horas de transportar o computador, balançou para frente. Os dedos, polidos do uso do touchpad, pousaram na capa. Era quente, suave.

Abri o caderno.

***

A letra era invulgar, inclinada à esquerda, redonda, com caudas longas no y e no r. Não era descuidada pensada. Quem escrevia assim devia falar devagar.

A primeira nota vinha sem data.

Guimarães. Sobe-se ao Monte da Penha a pé logo pela manhã. A cidade lá em baixo, parece jardim selvagem por aparar. As árvores rompem entre prédios, arbustos invadem varandas. Desenhei um plátano junto ao funicular. O tronco parece mapa de país sem nome: manchas claras, ilhas escuras. Fiquei ali três horas até gelar.

Virei a página.

Madrid. Desenhei baobá no Jardim Botânico. Não era baobá real, claro mas uma miniatura. As raízes saem do vaso como se tentassem fugir. Uma árvore demasiado séria para uma escala tão ridícula. Talvez eu seja parecido.

Sorri. Pela primeira vez nesse dia.

Continuei a folhear. Entrada após entrada. Marrakech, Porto, Aveiro, Évora. Em cada uma, só um registo de lugar e plantas. Viajou, desenhou árvores, falou para o papel. Não há menção a hotéis, restaurantes, pontos turísticos. Só verdes: troncos, copas, raízes. E desenhos rápidos, certeiros, cheios de vida. Um ramo com três folhas. Uma raiz, enrolada numa pedra.

Marrakech. No mercado vejo uma laranjeira ladeada de bancas. Os vendedores penduram sacos e etiquetas nos ramos. Mas a árvore ali está. Tem duzentos anos, pelo menos. Ficou para além dos mercados, dos vendedores. Desenhei como pude. As mãos tremiam de calor.

Porto. As glicínias na Ribeira quase batem no chão. Os portugueses desviam-se. Os turistas fotografam. Fiquei ali, a pensar: é uma árvore a quem não importam fronteiras. Cresce onde quer. Gostava de ser assim.

Quando dei por mim, lia há quarenta minutos. Já escurecera. Chovia persistentemente.

Continuei a ler.

Aveiro. Entrei num parque meio abandonado. Os amieiros abriram asfalto com as raízes. Antes vinham pessoas. Agora, só árvores. E eu. Desenhei um amieiro, ficou firme, direito. Nem uma folha mexia. Parece lealdade: estás, e esperas o regresso de alguém.

Vi que o autor falava com as árvores como outros falam com velhos amigos. Sem pudor, sem máscara. Fazia perguntas silenciosas. E eu queria saber porquê.

De repente, uma entrada que me fez pousar o caderno e fitar as paredes:

Évora. Dois anos depois do divórcio. Com a Leonor viajei catorze anos desde a faculdade até ao fim. Ela disse: Gostas mais de árvores do que de pessoas. Talvez. Talvez não soubesse gostar de gente a ponto de o sentirem. Deixei de acreditar que encontre. Não uma árvore uma pessoa. Uma capaz de entender porque desenho raízes.

Fechei o caderno. Pousei-o na mesinha de cabeceira. Fui à janela.

A chuva não parava. O mar parecia uma faixa escura sem reflexos. Alguém fechou uma porta lá em baixo; ouvi uma gargalhada de alguém novo, feliz.

Trinta e um anos. T0 alugado. Livros em pilha. Ninguém especial? Os últimos namoros acabaram há ano e meio, e sem dar por isso deixei de procurar. Um dia cheguei do trabalho, sentei-me à mesa e senti um conforto na solidão. Ou nem conforto hábito. Às vezes o hábito finge a felicidade.

Voltei à mala e comecei a guardar as roupas de volta. Então lembrei-me.

A carta.

Aquela carta que comecei no avião, empurrado pelo aborrecimento do atraso de duas horas. Peguei num papel, numa caneta só para entreter as mãos. Não era diário, nem lembrete. Uma estupidez inadmissível para adultos: Querido desconhecido, gostava de encontrar Interrompi, dobrei a folha, deixei no bolso da mala e nunca pensei mais.

Agora essa folha seguia na minha mala que alguém levara por engano. Um homem, cujo diário repousava agora ao meu lado.

Sentei-me. Tinha as faces em brasa.

***

De manhã voltei a ligar ao aeroporto.

Perdidos e achados, Sílvia. A voz cansada, ao fundo um leve barulho de bolacha a partir-se.

Ontem registei uma ocorrência. Voo de Lisboa para o Porto, etiqueta número

Só um momento. O barulho parou. Sim. A sua ocorrência está a ser processada. Entraremos em contacto.

Quando?

Por ordem. Normalmente três a dez dias úteis.

Dez?

Úteis. Às vezes menos. Fique atento.

Desliguei. Olhei a mala que me era estranha. Precisava de roupa. O congresso arrancava depois de amanhã. O vestido decente, o portátil, sapatos tudo nas mãos de alguém desconhecido algures.

Saí. Num centro comercial a quinze minutos comprei calças, camisa, roupa interior, carregador. Na caixa uma funcionária encostou-se:

Perdeu a mala?

Troquei-a por engano.

Acontece aqui no Porto. São todas cinzentas.

Acenei. Não era, então, só comigo. De algum modo, isso aliviou.

Passei na farmácia para escova de dentes e pasta. Fui à pastelaria da esquina, pedi um galão ao balcão porque todas as mesas estavam ocupadas por casais. No caminho, liguei à minha mãe.

Chegaste bem? Está bom tempo?

Está chuva.

Levaste guarda-chuva?

Mãe, perdi a mala.

Ai, Senhor. Roubaram?

Troquei por engano no aeroporto. Pegaram a minha, fiquei com outra.

Silêncio. Depois:

Alguém anda por aí com as tuas coisas. O que achará dos teus livros?

Mãe

É verdade. Levas sempre uma biblioteca.

Não falei do caderno de árvores. Nem da letra inclinada, nem da entrada da Évora. Só disse: Vai-se resolver, mãe. E desliguei.

Regressei ao quarto e abri de novo a mala.

Não pelo caderno. Procurava indícios um nome, contacto, qualquer coisa. Vasculhei os bolsos internos. No lateral com fecho estava um cartão profissional.

Tiago Costa. Arquitectura Paisagista. Projetos, Consultoria, Manutenção.

E um número de telemóvel.

Abri o WhatsApp e escrevi:

Boa tarde. Penso que trocámos malas no aeroporto do Porto. Tenho a sua cinzenta, com um arranhão. Tem um caderno e cartão dentro. Encontrei o seu contacto.

Demorou nove minutos.

Boa tarde. Só hoje abri a mala que trouxe. Claramente não era minha. Livros, bloco de notas, vestido. Sinto-me embaraçado. Também estou no Porto. Podemos encontrar-nos para trocar?

Li a mensagem. Livros, bloco de notas, vestido. Ele viu o conteúdo.

Sim, onde for melhor para si.

Café Farol, na baixa, amanhã às dez? Levo a sua mala comigo.

Perfeito. Lá estarei.

Desliguei. Depois reli: Livros, bloco de notas, vestido. Abriu minha mala. Viu os meus textos, talvez os rascunhos de artigos, a fotografia da minha mãe. Talvez leu a carta.

Fechei os olhos. Imaginei-o a segurar a folha, sentado no quarto de hotel, varanda ou café desconhecido. Lendo palavras que nunca quis mostrar a ninguém.

Espreitei de novo o caderno e reli a entrada de Évora.

Deixei de acreditar que encontre.

E eu querido desconhecido, gostava de encontrar. E a folha agora está nas mãos de quem desenha árvores à procura de quem entende raízes.

Coincidência. Daquelas ridículas, como malas iguais.

Ou talvez não.

Sentei-me à secretária. Abri o caderno nas últimas páginas. Depois de Évora ainda havia mais.

Coimbra. Já é primavera. A minha varanda já mal deixa sol contei, são cento e catorze plantas. A Leonor diria: És absolutamente doido. Mas ela não está. Só me queixo ao ficus-da-índia. O ficus nunca responde. Bom ouvinte.

Depois, a mais recente:

Vou ao Porto. Jardim Botânico. Quero ver uma tulipeira centenária. Primeiras férias em dois anos, não por trabalho, só porque sim. Estranha a sensação.

Fechei o caderno. Arrumei-o. Corri o fecho da mala.

Ele viera ao Porto por uma árvore. Eu, por um congresso sobre vegetação urbana. Ele desenhava plantas em cidades alheias. Eu escrevia sobre devolver natureza à minha. E nalgum ponto as malas cruazaram-se.

Demorei muito a adormecer. Pensei em como a vida era peculiar. Trabalhas, viajas, fechas portas, arrumas tudo certo. Depois, basta um acaso pequeno, absurdo para abrir outro ser humano de uma forma impossível mesmo em anos de conhecimento.

***

O Café Farol ficava junto à avenida, entre jacarandás floridos e candeeiros. Paredes de vidro, mesas em madeira, cheiro a pão fresco e canela. Uma empregada desenhava chávenas sobre tabuleiros.

Cheguei vinte minutos antes. Não tanto por ansiedade, mais porque não consegui estar no quarto. Sentei junto à janela, mala ao lado, pedi chá. As mãos tremiam. Um encontro normal, troca de mala. Só isso.

Mas não era só isso. Ali estava um caderno que revelava tanto daquele desconhecido quanto muitos dos meus amigos.

Reconheci-o logo.

Entrou à hora certa com uma mala cinzenta igual à minha. Alto, casaco verde-escuro igual à camisola da mala. No nariz e nas maçãs do rosto, um traço bronzeado mais escuro, marca dos óculos de sol, usados frequentemente. Parou ao entrar, olhou em volta, viu a mala, veio direito.

Ana? voz baixa, pausa entre as palavras, como se as pesasse.

Sim. Tiago?

Acenou e sentou à frente. Pôs a minha mala junto à sua. Dois gémeos cinzentos, lado a lado.

Estranho, disse ele. Juro que conferi a etiqueta.

Eu também.

Devem ter trocado as etiquetas. Ou distração dos dois.

Ou uma conspiração das malas.

Sorriso contido, de canto de boca. Fiquei com ideia de que sorria como escrevia discreto, mas real.

Tenho de me desculpar, começou Tiago.

Porquê?

Abri a sua mala. Pensei que era minha. Vi os livros percebi de imediato.

Também abri a sua. Só percebi depois.

Silêncio. Fazia rodar a colher entre os dedos. As mãos grandes, com resíduos de terra sob as unhas curtas não por sujidade, por hábito.

Li o seu bloco disse baixinho. Rascunhos de artigos, notas sobre espaço urbano e jardins. Fiquei curioso. Não devia, mas

E eu li o seu diário, interrompi.

Ergueu o olhar.

Todo?

Todo.

Pausa. Do lado de fora, ondas na embocadura, um rapaz dava pão às gaivotas.

Então sabe de Guimarães, disse Tiago.

E de Madrid. E do baobá-bonsai.

E Aveiro.

E do amieiro leal.

Baixou os olhos.

E de Évora.

Assenti. Não acrescentei mais nada. Entendeu.

Sabe mais de mim do que costumo partilhar, confidenciou.

E o Tiago de mim, também?

Calou-se um instante. Depois, tirou do bolso um papel dobrado. Reconheci-o. Papel pautado, canto dobrado o tal.

Encontrei isto no bolso da mala, disse. Li. Não devia. Mas li.

Fitei a folha. Tive de conter o rubor.

Uma parvoíce, murmurei. Saiu-me à espera no avião.

Querido desconhecido, gostava de conhecer alguém com quem pudesse estar em silêncio. Não por falta de assunto, mas porque sem palavras, tudo faz sentido. Canso-me de explicar quem sou. Farto de escolher frases. Queria que alguém olhasse para os meus livros e percebesse tudo. Queria que alguém

Chega, pedi em voz baixa.

Termina ali, acrescentou. Queria que alguém Não acabou.

Não sabia o que escrever a seguir.

Eu sei, disse Tiago. Porque diria o mesmo. Só mudava livros por árvores.

Olhei para ele. Para a marca castanha nos ossos do rosto. Para as mãos. Para os olhos tranquilos.

Sabe da minha mãe em Coimbra, soltei.

A fotografia na moldura. Muito bonita. Nota-se a parecença.

Sabe do meu trabalho.

As notas sobre jardins de bairro. Sou paisagista. Primeiro interessei-me pelo tema, depois por si.

Sabe que estou sozinho.

Sei que veio para o congresso com um só vestido. Que leva cinco livros por quatro dias. Que põe a fotografia da mãe na mala, nunca só no telemóvel, porque quer ver ao vivo, não num ecrã. Que ainda escreve à mão, embora trabalhe no computador. E que escreveu uma carta a um desconhecido que não existe.

Fiquei calado.

E eu, continuou ele, desenho árvores num caderno, divorciei-me há dois anos e tenho cento e catorze plantas na varanda, porque não sei conversar com pessoas ao ponto de ficarem. Já sabe disso.

Sei.

Então, lemos vidas alheias pelas coisas. E agora encontramos-nos já sabendo um do outro. Como saltar os primeiros encontros e avançar logo no tempo.

Ri. Ele também sorriu, mais aberto agora.

Conheço-a melhor do que contava, disse. E vice-versa. Talvez seja o encontro mais verdadeiro da minha vida.

Porque não escolhemos o que mostrar?

Exatamente. Uma mala é tudo exposto. Não é preparado para impressionar. É só o necessário e aí se percebe quem somos.

Olhei para as duas malas, lado a lado. Cinzentas, iguais, a arranhadela no canto.

Quer dar um passeio? propôs ele. O Jardim Botânico é já ali. Vim para ver uma tulipeira.

Sei, respondi. Está na última página do diário.

Acenou. Terminei o chã e saímos.

Deixamos as malas aqui? perguntei ao apontar as cadeiras.

Que fiquem juntas. Têm imenso por contar uma à outra.

Quando saímos, a chuva já cessara. O chão brilhava. O ar cheirava a terra molhada e promessas de primavera. Sob jacarandás estáticos, lembrei-me da entrada sobre a lealdade do amieiro: firme, à espera.

Conte-me algo que não esteja no diário, pedi.

Tenho fobia a pombos, respondeu sério.

Pombos?

Um entrou pela janela em criança e sentou-se-me na cabeça. Nunca mais passou.

Sem querer, desatei a rir. Ele também.

E você? Uma coisa que não viaja na mala.

Falo com livros. Reclamo aos autores, discuto.

E ganha?

Normalmente eles. Mas resisto.

Caminhávamos junto ao rio. Achei incrível sentir-me tão à vontade como quem está com o autor dum livro que leu.

Escreveu que não acredita que vá encontrar alguém, relembrei. Na entrada de Évora.

Recordo.

Achou a minha mala.

E você encontrou a minha.

Silêncio. Daquele fácil, raro, que escrevi na carta. Onde tudo se entende.

Perto do Jardim Botânico vi a grade, as copas subindo acima das casas.

A tulipeira é aquela apontou Tiago. Cem anos, talvez mais. Sobreviveu guerras, revoluções.

E ainda está de pé.

E ainda floresce. Todos os maios.

Tirou um bloco do bolso, pequeno, de apontamentos. Um lápis. E pôs-se a desenhar.

Observei o traço firme, decidido, do tronco à copa. O rosto semicerrado pelo sol.

Posso perguntar? disse.

Diz.

Quando leu a minha carta, o que pensou?

Não desviou os olhos do desenho.

Pensei querer saber como termina.

Nunca soube o que meter a seguir.

Talvez já saiba.

Não respondi. Mas também não desviei. O sol filtrou-se pelos ramos. Fiquei salpicado de luz como sardas nas bochechas.

Ficámos no jardim três horas. Passeámos de árvore em árvore. Ele contava histórias, como anfitrião antigo ali. Desenhava; eu falava do meu trabalho transformar betão em verde, convencer autarcas, contar de um velhote que plantou vinte e três macieiras no acesso ao prédio e processou a administração.

Vinte e três árvores? espantou-se Tiago.

E deu nome a cada uma. Dizia que eram melhores companheiras que os vizinhos.

Percebo-lhe. O meu ficus chama-se António. Só ele tolerou a mudança pós-divórcio.

António?

Tem cara de António. Sério, torto mas resiliente.

Dei por mim a rir, com uma leveza esquecida em Lisboa. Sem formalismos. Dois adultos a falar de árvores batizadas.

Sentámo-nos num banco à sombra da tulipeira. Entre nós, distância de respeito. Ninguém diminuía.

Amanhã é o seu congresso, lembrou Tiago.

Sim, apresentação às doze.

Tema?

A importância dos espaços verdes no bem-estar psicológico dos moradores. Aborrecido.

Depende para quem. Para mim, não.

Olhei para ele.

Quer assistir?

A uma conferência académica?

A uma conferência chata sobre árvores.

Passei a vida em conferências chatas sobre árvores. É trabalho.

Rimo-nos juntos. Foi como no diário; certeiro, real.

Regressámos devagar. Ouvia-o falar de Coimbra, da varanda-floresta, da vizinha que vai regar-lhe as plantas e fica à conversa, do hiato pós-divórcio, da viagem espontânea ao Minho para recomeçar porque o bilhete estava em promoção.

Começou a desenhar lá?

Sempre desenhei. Mas no Minho comecei a escrever. Antes era só linha. Ali, precisei de palavras.

Compreendi. Às vezes um homem precisa de palavras, não só traço. Precisa de largar para fora.

No Café Farol estavam as malas como as deixámos. Cada um agarrou a certa.

***

Nessa noite, fiquei ao computador com chá frio. Tinha, por fim, a minha mala de volta: livros, bloco de notas, vestido. Abri: tudo no sítio. Computador. Carregador. Foto da mãe. Faltava só aquela folha.

Na cadeira um desenho.

Tiago deu-mo ao despedir-se. Uma folha arrancada com cuidado do bloco. Uma árvore singular, com copa ampla, raízes largas que partem em vários sentidos.

Que árvore é esta? perguntei.

Uma inventada para cidades sem verde, respondeu. Nunca existiu, mas pode plantar, você que trabalha com urbanismo.

Foi-se embora. Não olhou para trás. Mas hesitou antes de dobrar a esquina, como quem quase volta.

Fiquei a olhar o desenho e a pensar: uma pessoa com quem se pode estar em silêncio talvez seja aquela onde o silêncio vale mais do que as palavras. E esse alguém acabara de dobrar a esquina, com a minha carta no bolso.

Peguei no telemóvel:

Obrigado pela árvore. Vou plantá-la.

A resposta veio logo.

Falo a sério. Se desenhar um projecto para um pátio, revê como especialista?

Sim.

Então preciso da sua morada em Lisboa. Só envio plantas em papel.

Sorri. Digitei o endereço, enviei. Acrescentei:

Mas olhe que a caixa do correio é pequena. Plantas grandes, só pessoalmente.

A resposta não tardou:

Fica combinado.

Deixei o telemóvel. Ao lado, alguém ligava a televisão e o som abafado das notícias entrava pelo quarto. Uma noite banal. Um hotel como outro. Mas estava diferente percebi porque: sorria sem razão. Ou com razão, tão improvável que não a saberia explicar à minha mãe: Trocou-se-me a mala, conheci uma pessoa. Soa a cinema mau.

Abri a mala e no bolso lateral tirei uma folha nova e uma caneta. O tal bolso da carta nunca acabada. Agora, ela estava com Tiago. Não a devolveu. Também não a pedi.

Sentei-me, escrevi:

Querido desconhecido, gostava de estar com alguém com quem se possa estar em silêncio. Não por falta de assunto, mas porque tudo se sente sem palavras. Canso-me de explicar quem sou. Canso-me de escolher frases. Queria que alguém olhasse para a minha estante e percebesse tudo. Queria que alguém

Parei. Olhei para o desenho da árvore, pinado à parede.

E completei com uma palavra.

Tiago.

Dobreia folha. Guardei-a na mala, exatamente no mesmo bolso. Um círculo fechado.

Lá fora, o Atlântico barulhava-se. O Porto cheirava a terra molhada, a primavera ainda por chegar. A chuva já tinha ido, e no horizonte abria-se uma faixa de céu róseo.

Desliguei a luz. Amanhã, congresso. Estaria de pé em palco, vestido passado dois dias numa mala alheia, a falar de zonas verdes. E na plateia estaria, talvez, alguém que desenha árvores para cidades que ainda as não têm.

Depois de amanhã, passeio. Prometeu mostrar-me a alameda de ciprestes do outro lado da cidade, onde as copas se entrelaçam e fazem um túnel de verde. Vai gostar, como urbanista e não só.

Depois, Lisboa. Depois, Coimbra. Cidades diferentes, vidas separadas. Mas agora ligadas por um desenho, uma morada digitada, uma carta finalmente acabada.

A mala repousava, cinzenta, arranhada no canto, igual à de sempre.

Mas tudo à volta já era diferente.

A bagagem, afinal, encontrou-se.

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Bagagem Perdida
Olga passou o dia inteiro a preparar-se para celebrar o Ano Novo: limpou a casa, cozinhou e pôs a mesa. Este era o seu primeiro Ano Novo longe dos pais, ao lado do homem que amava. Já vivia com o António há três meses, no apartamento dele. Ele tinha mais 15 anos do que ela, já fora casado, pagava pensão aos filhos e gostava de beber de vez em quando… Mas isso tudo não importava quando se ama alguém. Ninguém percebia o que ela via nele: não era bonito, podia até dizer-se feio, tinha um feitio péssimo, era incrivelmente forreta e estava sempre sem dinheiro — e quando tinha, era só para ele. Mesmo assim, Olguinha apaixonou-se por este “tesouro”. Durante três meses, Olga esperou que António reconhecesse como ela era meiga e boa dona de casa, e que acabasse por pedir-lhe em casamento. Ele sempre dizia: “Temos de viver juntos primeiro, para ver como és a tratar da casa. Não vá seres igual à minha ex…”. O que a ex dele tinha de mal, Olga nunca percebeu — ele nunca explicava. Por isso, ela dava o seu melhor: nunca se chateava quando ele chegava bêbedo, cozinhava, lavava, limpava, fazia as compras com o próprio dinheiro (não fosse António achar que ela era interesseira). Até a mesa de Ano Novo montou com tudo pago por si. E ainda lhe comprou um telemóvel novo para lhe oferecer. Enquanto Olga preparava tudo para a festa, o seu António também se preparava à sua maneira — foi beber com os amigos. Chegou a casa animado e avisou que vinha aí malta para festejar a passagem de ano: amigos dele, que ela nem conhecia. Faltava uma hora para a meia-noite, a mesa estava posta, mas Olga já estava desanimada — mas não disse nada, afinal não queria ser “igual à ex”. Meia hora antes da meia-noite, entra uma cambada de homens e mulheres, todos bêbedos. O António ficou logo bem-disposto, pôs todos à mesa e a festa continuou. Nem apresentou Olga a ninguém, era como se ela não existisse — só se ouviam as piadas entre eles, ninguém ligava a Olga. Quando ela avisou que faltavam dois minutos para meia-noite e sugeriu servir o champanhe, olharam-na como se fosse uma intrusa. — E esta quem é? — perguntou uma das convidadas, já bastante alcoolizada. — É a vizinha da minha cama! — atirou o António, e todos se riram dela. Comeram tudo o que Olga tinha feito, gozaram com ela a noite toda, elogiando António pela “ideia genial” de arranjar uma cozinheira e empregada de graça. E António nunca a defendeu, só se ria com eles. Enchia a barriga à custa do trabalho dela e ainda lhe passava por cima. Olga saiu de fininho, arrumou as suas coisas e voltou para casa dos pais. Nunca teve um Ano Novo tão horrível. A mãe disse o habitual “eu bem te avisei”, o pai suspirou de alívio, e Olga chorou tudo o que tinha para chorar, tirando finalmente os óculos cor-de-rosa dos olhos. Uma semana depois, quando António ficou sem dinheiro, apareceu em casa dela e, como se nada fosse, perguntou: — Então, foste-te embora? Ficaste ofendida ou quê? — e, vendo que ela não cedia, tentou virar o jogo: — Bela atitude! Tu aí de papo para o ar em casa dos teus pais e eu aqui sem nada no frigorífico! Já te estás a portar como a minha ex…! Olga ficou sem palavras perante tanta lata. Tantas vezes ensaiou o que lhe queria dizer, mas ali só conseguiu mandá-lo dar uma volta e trancar-lhe a porta na cara. E assim, a partir daquele Ano Novo, Olga começou realmente uma nova vida.