Então, porque é que decidiste divorciar-te? perguntou-lhe a sogra, como se tivesse realmente esse direito. Leonor não queria, de maneira nenhuma, viver com os pais do marido. Mas foi Pedro quem a convenceu. Disse-lhe que a mãe não conseguia imaginar a vida sem o filho. Um homem já com trinta e quatro anos! No entanto, Leonor acabou por sentir pena dele.
Temos maneiras muito distintas de encarar a vida. Acontece. Não somos os primeiros, nem seremos os últimos respondeu ela, mesmo querendo ser mais direta.
Qual foi o motivo verdadeiro? A sogra ligava em videochamada ao Pedro, todos os dias, só para se certificar de que a Leonor estava a dar conta de tudo. Isso nos dias em que não conseguia aparecer lá em casa. No dia do casamento, quando os foi cumprimentar, não se conteve:
Estou muito contente por o meu querido filho finalmente casar. Claro que, na verdade, poderia ter escolhido melhor. Mas é o que temos. Não leves a mal, nora.
Talvez Leonor devesse ter ido embora logo nesse momento. A sogra já sonhava há muito que Leonor deixasse Pedro e fez de tudo para que acontecesse. E Pedro, nem uma tentativa de proteger a esposa. E naquele dia em que passaram de carro pela casa da sogra, e a mãe de Pedro não a deixou entrar, Pedro apenas ficou calado. A sogra disse que precisava de falar a sós com o filho. Leonor ficou uma hora à porta.
Então, porquê que ela não foi embora? Nem ela sabe. Mas agora tinha decidido. Não venham cá com histórias. Perspetivas diferentes… isso é só em filmes. Vá lá, diz-me o que não gostas no meu filho. Admito, não és a mulher que eu queria para o Pedro. Agora que isto acabou assim, não te podes ir embora sem explicar. Fala.
Leonor fez um sorriso matreiro. Não precisava da aprovação dela. Foi-se embora sozinha. Só tinha ficado naquela casa por causa do marido. E só havia um motivo para o divórcio: a sogra. Estou de saída, disse Leonor, tranquila. Não te autorizo! respondeu a sogra, exaltada. Sabe que mais? Não me interessa. Para mim, não és ninguém respondeu a Leonor. Dá-me metade do valor do anel disparou a sogra. Como dizes? Quero metade do valor do anel de compromisso, aquele que o Pedro te comprou.
Leonor soltou uma gargalhada. Fala do anel porque é a única coisa que o teu filho conseguiu realmente comprar na vida? Se faz tanta questão, fique com ele. Eu já não o quero.
Assim se separaram. Leonor tentava compreender porque tinha aceitado casar-se com alguém como Pedro. Afinal, a sogra já mostrara quem era antes do casamento. Só Deus sabe porque Leonor aceitou. Olha que também vou casar disse, um dia, a colega da Leonor. A sério? Com quem? Não leves a mal… Não me digas… comentou Leonor, percebendo logo. Com o Pedro. O teu ex-marido. Estás a brincar? Sabias bem como terminámos. Sim, soube. Mas cada caso é um caso. O Pedro é tão atencioso. E a mãe dele ajuda muito. Às vezes até demais, mas não faz mal.
Não faz mal… para ti. Eu só agradeço por já ter terminado com ele. Olha, vê o anel que o Pedro me deu mostrou-lhe.
Leonor já sabia o que ia ver. O mesmo anel que Pedro lhe tinha oferecido. Nem sequer compraram outro. Nem é de admirar…
E até tem gravado Juntos para sempre. Bastava apagar a inscrição, pensou Leonor. E, no fundo, compreendeu que viver para agradar aos outros nunca traz felicidade verdadeira por muito que isso custe.







