Uma avó portuguesa adotou um cachorro pastor-da-ásia-central. O cãozinho cresceu e tornou-se um verdadeiro guardião: devorava uma bacia de comida em segundos, coçava as costas na vedação ao ponto de a entortar e até tentou arrastar a avó com um puxão só.

Uma velhota chamada Donzela Amália resolveu adotar um cachorro de raça Cão da Serra da Estrela. O bicho foi crescendo, sempre alerta, tomando conta da casa como ninguém. Comia uma travessa de comida num instante, arranhava as costas no muro de pedra com tanta força que o deixava torto, e até tentou, num salto bem ousado, alcançar a dona quando ela lá passava perto. Um cachorro precisa de distração de vez em quando, não é verdade?

Mas um dia, D. Amália faleceu. Não por causa do cão só não chegou aos 90 anos. Os filhos e os netos vieram de Lisboa e do Porto para a casa dela na aldeia. Encontraram o cachorro preso à corrente no quintal. Bastava olhar para aqueles olhos para perceber que os visitantes eram bem-vindos. Ora, não é todos os dias que aparecem muitos humanos de uma vez, espalhando aromas novos e prometendo variedades de comida.

Começaram a pensar no que fazer do animal. Abater seria demasiado cruel. Ter aquele monstro por perto era assustador. Libertá-lo pelo mundo Deus nos livre! O mundo já tem pecados suficientes para aguentar tal provação. O melhor seria encontrar-lhe um novo lar, alguém de mãos generosas. Se fosse preciso até davam algum dinheiro, uns euros extra, para quem aceitasse aquele urso peludo. Tudo era pouco pelos que quisessem levar o cão.

Lá apareceu um senhor, o Sr. Tozé, que sempre sonhara alimentar um cão de grandes dimensões e coçar-lhe as orelhas com um ancinho de jardim. Mania de gente que, enfim, cada um com a sua. Chamaram o veterinário.

Apresentaram ao veterinário o plano: sedar o animal e levá-lo rapidamente para a nova casa. Não esquecer de benzer o novo dono e acender uma vela por ele, seja para proteção ou descanso eterno nunca se sabe o que pode acontecer.

À hora marcada, o veterinário apareceu armado com uma carabina de dardos tranquilizantes. Todos os veterinários são uns valentes! Um só disparo e o cão foi enviado direitinho para os domínios de Morfeu. Tiraram-no da corrente, puseram-no em cima duma lona e arrastaram-no até ao carro.

Meteram o cão no porta-bagagens, que era aberto para o resto do habitáculo. O veterinário sentou-se à frente para garantir a viagem confortável ao profissional. O novo dono ficou ao volante, e atrás, a família toda da D. Amália. Conversavam, nervosos, a caminho do novo destino, quando, de repente, o cão começou a acordar.

Levantou a cabeça e olhou à volta com curiosidade. Gente por todo o lado. Sentados. Também a olhar para ele.

O veterinário, olhos esbugalhados de medo. O novo dono, idem nem um segundo desviou a atenção para a estrada, nem queria saber do volante. “Que cena impressionante”, pensou o cão. “Haverá céu para mim?”, questionavam-se as pessoas.

O cão, sem mais, começou a querer chegar-se para junto da família, saltando do porta-bagagens para o meio do carro. O novo dono tentava abrir a porta para saltar dali para fora a condução era a última das preocupações. Até que o cão lambeu todos. Lambeu a família da velhota inteira afinal, já não eram estranhos. Lambeu o dono novo, uma alma de família já. Lambeu até o veterinário, apesar de ter levado um tiro dele afinal, as pessoas são cheias de imperfeições.

E foi assim que descobriram que se tinham enganado sobre o “monstro”. Seguiram viagem todos ensopados, de cima a baixo. Por cima, encharcados pelas lambidelas generosas. Por baixo, pois no momento em que o cão acordou, sentimentos irromperam forte entre todos.

Ai, a minha querida casa de campo, que memórias tão nossasNaquele instante, ninguém duvidava: algumas despedidas trazem começos discretos, pelo meio da confusão. Entre gargalhadas nervosas e a chuva de afagos, esqueceram-se dos medos que tinham carregado até ali agora não passavam de memórias exaustas, lavadas por línguas de cachorro e calor de gente. Em silêncio, todos souberam que a casa da aldeia perdera uma senhora, mas que, de forma inesperada, ganhara família nova, de todos os tamanhos, feitios e pelagens.

Quando o carro finalmente parou, ainda a tremelicar do alvoroço, abriram portas de esperança e saltaram todos, abraçados, para fora menos o cão, que custava mais a sair, pesadão e satisfeito, seguro que, dali em diante, nunca mais lhe faltariam braços e histórias. Assim nasceu uma certa lenda entre vizinhos: que cada vez que uma lágrima caísse de saudade de D. Amália, não havia tristeza sem consolo bastava esperar pela pata maciça e a lambidela. E foi assim, de caldas molhadas e gargantas soltas, que o monstro tornou-se milagre, e o adeus se transformou, sem ninguém perceber, no começo de um amor novo, grande demais para qualquer corrente.

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Uma avó portuguesa adotou um cachorro pastor-da-ásia-central. O cãozinho cresceu e tornou-se um verdadeiro guardião: devorava uma bacia de comida em segundos, coçava as costas na vedação ao ponto de a entortar e até tentou arrastar a avó com um puxão só.
Os meus amigos poupados convidaram-me para uma festa de aniversário. Voltei para casa com fome