Quero viver, André!

Quero viver, ó Rafael!
Doutor Jorge, doutor Jorge, precisa de alguma coisa?

A enfermeira Margarida agarrou o braço do cirurgião. Não conseguiu ampará-lo: ele encostou-se à parede, baixou a cabeça entre as mãos e ficou calado.

Margarida, sentindo uma pontinha de orgulho pela entrega de toda a equipa de saúde, pensou: aqui está um verdadeiro médico a esgotar-se pelos doentes, a trabalhar até ao limite. E ninguém valoriza. O doente que o doutor Jorge acaba de operar nunca saberá.

Doutor Jorge, está bem? Chamo alguém…

Não é preciso, respondeu ele, afastando-se da parede e dirigindo-se cambaleante à sala dos médicos. Antes de entrar virou-se para Margarida, Está tudo bem, não se preocupe.

Jorge deixou-se cair exausto no sofá de pele, esticou-se. Estaria mesmo bem? Já não era a primeira vez que sentia estes episódios de tonturas. Cansaço excessivo? Quase de certeza.

Em tempos, Jorge tinha fins de semana de verdade. Podia descansar depois de uma semana inteira nos corredores do hospital sair com a esposa, levar os filhos ao Jardim Zoológico, passear pelo parque Eduardo VII.

Mas agora… Com o hospital permanentemente em serviços mínimos, sem horários decentes, pouco descanso lhe sobrava. Além do mais, Jorge estava no segundo casamento. Mulher mais nova, filhos ainda na escola, despesas sem fim. E… queria mudar de carro.

Mas nem isso era o mais importante. O essencial é que Jorge sempre gostou de ser necessário. Sonhava ser o melhor, admirado, com conquistas médicas. E tudo isso conseguiu durante vinte anos de carreira. Os doentes procuravam-no, os colegas respeitavam-no, chamavam-no para congressos, e era bem pago.

Ó Paulo, ligou para o anestesista, a tua Mara está aí de serviço?

Está sim, Jorge.

Ao fim do dia, Jorge já estava dentro do aparelho de ressonância magnética, ouvido a barulheira infernal que nem os fones conseguiam abafar.

De repente começou a sentir medo, vontade de apertar o botão para sair dali. Precisava distrair-se, pensar em coisa boa. Mas o quê?

A memória desceu degrau a degrau pela sua vida. O segundo casamento… ele já cirurgião, chefe de família, ela uma professora primária da filha do primeiro casamento.

O zumbido do aparelho abafou qualquer réstia de lembrança boa daquela fase. Trabalho-casa-trabalho. Do primeiro casamento, então, nem pensar: o divórcio havia sido tão complicado que as recordações eram agora dolorosas.

A faculdade? Sim! Os primeiros quatro anos!

E a memória levou Jorge à juventude. Os tempos dos estágios de verão, os amigos, a cantina, a Maria Inês, que fazia suspirar todos.

Jorge, Carlos e Rafael três amigos que se conheceram no exame de admissão à Faculdade de Medicina, em Coimbra. Nenhum era de lá; viviam juntos numa casa que a mãe de Rafael lhes arranjou.

Rafael rapaz de óculos, vindo da província, calado, inteligente, com qualquer coisa de luminoso naquele olhar azul por trás das lentes. Era bom apenas ouvi-lo falar baixinho.

Rafael tinha uma memória prodigiosa, sabia de cor todos os resumos, respondia a todas as perguntas.

Carlos era o oposto. Rapaz alto e robusto do interior, falador, descomplicado, sempre a correr atrás de amigos, desenrascado.

Jorge também receava não passar nos exames. Admirava o saber de Rafael, a facilidade do Carlos, mas, no fim, só ficou para trás o quarto colega, Manuel.

No primeiro ano, moraram juntos graças à mãe de Rafael, a dona Helena, mulher carinhosa e inquieta.

Deus vos abençoe, meninos! Vivam em paz, disse ela ao irem sozinhos viver para a casa. Deixou um frigorífico cheio de comida para o mês.

Que mãe, Rafael! Onde é que ela trabalha?

Numa loja de imagens religiosas, respondeu Rafael.

Os outros olharam admirados.

No Santuário? És crente?

Sou. E gosto de o ser, disse ele sem hesitar.

Os amigos notavam que Rafael se benzia discretamente. Era bom amigo, resolvia discussões entre Jorge e Carlos com calma e razão.

As pequenas coisas do dia a dia não lhe pesavam. Se eles começavam a embirrar com a limpeza, Rafael calava-se e pegava na esfregona. Os outros acabavam por ajudar, envergonhados.

A ajudar ou por dom divino, Rafael saiu-se melhor que todos na primeira época. Sabia latim como quem nasceu a sabê-lo. Era o nó que os mantinha unidos.

E foi ele o primeiro dos três a apaixonar-se. No núcleo de estudantes conheceu a Jacinta pequenina, cabelo curto, determinada e meiga. No segundo ano já andavam sempre juntos.

Carlos, apesar da sua maneira simples de rapaz do interior, era quem melhor se desenrascava nos estágios. Ao segundo ano já trabalhava nas ambulâncias do INEM e destacava-se nas tarefas médicas mais difíceis.

Jorge era aplicado, regular. Não tinha feito nenhuma proeza, mas gostava mesmo de medicina.

***

A máquina de ressonância libertou-o. Jorge olhou pela janela e respirou fundo. Porque sentira agora uma espécie de claustrofobia?

Entrou a Mara e começou a desmontar o capacete.

Já viste os resultados?

O médico ainda está a escrever o relatório. Volta mais tarde, está bem? desviando o olhar.

Amanhã passo cá. Só quero ir para casa.

Mas antes de sair, Mara trouxe-lhe o relatório e as imagens.

Jorge, sabes interpretar. Mas não deixes isto andar. Vai ter com o doutor Fonseca.

Jorge analisou as imagens, mas não conseguia acreditar era o seu cérebro, o seu tumor, ali. Parecia que via o exame de um doente qualquer, não o seu.

Mesmo de regresso a casa, não permitiu-se acreditar. Isto não podia estar a acontecer-lhe.

***

Doutor Fonseca era o melhor neurocirurgião do hospital.

Bem, Jorge, não vale a pena dourar a pílula. Vês tão bem como eu…

Vejo. É o fim?

Acalma-te. Sabes que nesta profissão tudo se joga entre o bisturi e a mão de Deus.

Não aceito. Não nesta altura… Ia ao congresso do Dia do Médico em Lisboa, convidaram-me! Queria levar a família. Agora… se tu fosses eu, o que farias?

Ia a Lisboa, mas não para passear. Ia à Clínica Santa Maria ter com o doutor Ricardo Mourão. Eles operam ali milagres. Mas… A lista de espera vai até para o ano. Pode ser que o nosso grupo te ajude a entrar.

Jorge continuou a operar, a atender, a escrever diagnósticos. As dores nem o incomodavam, sentia apenas leves tonturas e encontrava logo remédio.

Começou o processo para chegar ao doutor Mourão. Mas era quase impossível ser operado lá.

Chegou o momento de contar à esposa, que logo tratou dos preparativos para Lisboa.

Inês, à capital tenho de ir sozinho.

Como assim? perguntou a olhar umas camisolas E os miúdos?

Não é para congressos nem para espectáculos. Vou ao hospital. Tenho um tumor no cérebro, disse devagar isso, e ao dizê-lo percebeu que já aceitava.

Inês ficou estática, os olhos marejados.

Meu Deus, Jorge… como é possível? Deixa-me ir contigo.

Não é já para operar. Provavelmente vou esperar, na esperança de haver vaga. Pode demorar.

É assim tão grave?

Sim. Vou contar tudo…

Jorge, a chorar como criança, desabafou tudo: as suspeitas antigas, os exames, os receios, a vida passada, as esperanças…

Inês ouvia-o agarrada à camisola, em silêncio, olhando-o com compreensão. E Jorge, pela primeira vez, sentiu-se aliviado ali podia abrir a alma. Com a primeira mulher nunca teve uma partilha assim.

***

As Testemunhas de Jeová recusam transfusões de sangue, citando a Bíblia.

Era já o quarto ano do curso, numa aula.

O clero contesta a doação de órgãos prevista em lei. Opõem-se a todas as formas de reprodução artificial, condenam barrigas de aluguer e manipulação de gâmetas. A Igreja insiste numa fé infundada, incompatível com a medicina moderna.

Não concordo, ouviu-se da plateia.

Quem? o professor olhou fatigado.

Eu, levantou-se Rafael. Igreja e medicina procuram ambas o bem do ser humano.

Quer discutir? sorriu o professor.

Não. Apenas afirmo.

Já que começou, venha aqui…

Rafael respondeu calmo a cada ataque, citando a Bíblia, defendendo a dignidade humana, relembrando que a Igreja não rejeita inseminação se for feita com material do casal. Já o uso de terceiros, sim, não é aceite. As barrigas de aluguer matam laços humanos, esquecem o sofrimento da mãe de aluguer, e promovem irresponsabilidade.

O professor, exaltado, gritava que isso era atirar as pessoas para a infelicidade por doutrina, que ontem mesmo vira pais recusarem doar órgãos do filho morto e uma criança morreu!

Rafael manteve-se calmo, respondia claro e sempre sem raiva. Defendia a sua mãe, a igreja, e a própria fé como caminho interno de cada um.

No fim, a audiência ficou do lado de Rafael. O professor sabia que perdera o debate.

Desde aí, Rafael foi chamado várias vezes ao reitor. Abatido, só desabafava mesmo com Jacinta. Depois, ao quinto ano, chegou uma carta dele: agradeceu aos amigos, explicou que o seu caminho era outro, que ia para o Seminário.

Jorge e Carlos ficaram mudos. O melhor entre eles, quase médico! Foram falar à Jacinta, mas ela não dizia nada. Ao fim de semana, os dois foram até à aldeia de Rafael. A mãe recebeu-os com alegria.

O Rafael entrou para o Seminário. Foi chamado, rapazes!

Voltaram carregados de comida e perguntas sem resposta.

Como conseguiu, meu Deus! exclamava Carlos.

Pois, também eu já só invoco Deus. Demos tanto por ele, que foi Deus que o levou…

***

Que vela, ó Fonseca! Vou visitar um amigo. Estou de férias.

Na sala dos médicos, Jorge refere ao colega que em três dias parte para Lisboa. Ia de comboio, receoso de conduzir pelos episódios de tonturas. E havia esperança de operar.

Que amigo?

Um antigo colega da faculdade. Não o vejo há mais de vinte anos. Entrou no Seminário, agora é padre. Trabalha num convento aqui perto. Vou vê-lo amanhã.

Não arriscava.

Tenho de ir.

O santuário conhecido pela sua abadia e por trilhos de romeiros revelou-se pobre, exceto pelas inúmeras igrejas, uma em cada esquina.

Jorge dirigiu-se ao Mosteiro da Trofa. Curioso, não sentiu tonturas na longa viagem. Pensou: talvez o caminho da alma seja também caminho de cura.

Ali estavam os muros brancos, as torres, as cúpulas douradas reluzentes ao sol. O estacionamento arranjado, canteiros de flores, tudo em paz.

Diziam-lhe para esperar: o padre estava na missa. Não sabia bem quanto tempo. Foi passear.

Do lado de fora, um pequeno cemitério, um acesso ao rio. Um poço rodeado por idosos e devotos. Mulheres idosas subiam o monte repetidas vezes.

Para quê viera ali? Devia preparar-se para Lisboa, não vaguear…

Não vai buscar água benta? perguntou uma senhora à beira do poço.

Eu…? Nem sei para quê.

Veja ali as garrafas. Tem de subir e descer três vezes.

Para quê?

O senhor saberá…

Jorge não respondeu, pegou numa garrafa e cumpriu o ritual. Não foi fácil. Bebeu água, fresca e límpida.

A alma aligeirou. Afinal, não viera em vão. Se aquilo era o território de Rafael, então ele encontrara o seu lugar.

Regressou a tempo de ver a missa a terminar. Entre os padres, um, de voz grave e barba comprida. Não era Rafael… ou era? De repente, olhos azuis e fundos cruzaram-se com os seus.

Aproximou-se por trás.

Ó padre Rafael, viva!

Uma crente corrigiu:

Diga “abençoe-me, padre”!

Mas Rafael já o reconhecera.

Jorge! Que alegria ver-te, amigo.

Abraçaram-se demorada e calorosamente. Depois, conversando, caminharam juntos pela alameda florida.

Que bênção hoje! A Jacinta vai ficar radiante.

A Jacinta? Continuas com ela?

Sim, é a minha companheira. Médica local, pediatra. Não quis largar a profissão e não me opus. Temos cinco filhos. Só o mais novo é pequeno.

Nem sabia! Eu tenho três. Filha do primeiro casamento e dois da Inês. E tu, conseguiste construir a tua vida aqui…

Aqui somos felizes. Convidaram-nos para outros sítios, mas gostamos do campo, do jardim, da vida com tempo. Não saímos.

Estás maior.

Cresci tarde…

E os óculos?

Fui operado. Agora vejo melhor do que nunca.

O catolicismo então não dispensa a medicina!

Risos entre eles.

E lembras-te daquele episódio da biblioteca? Tu a distraíres a bibliotecária…

E vocês a deixarem cair o livro com estrondo…

Fingi que não vos conhecia!

Que vergonha!…

Recordo quando fomos à tua mãe, a dona Helena. Ela está bem?

Está. Já não é nova, mas ficou aqui perto, num convento feminino. Tomou os votos.

Vida santa!

Chegou uma jovem com lenço na cabeça, sussurrou ao padre.

Desculpa, Jorge, tenho de ir atender gente que veio de longe. Mas envio o motorista. Vai até minha casa, a Jacinta espera-te. Falamos mais tarde.

Jorge seguiu num carro atrás do motorista. Ficou espantado: uma casa grande, cuidada, jardim, imagens religiosas. Jacinta recebeu-o com um abraço sem hesitação. Casa luminosa, cheia de flores, com computador e televisão, cozinha moderna, tudo em harmonia.

Havia um filho pequeno. Jacinta era comunicativa, logo pôs a mesa, contou-lhe a história da família, do crescimento dos filhos, da entrega do padre. Jorge esqueceu porque viera. Sentiu-se acolhido.

Depois de comer, adormeceu embalado pelas vozes e o aconchego.

Não queria regressar já. Tinham-lhe concedido férias, ainda havia tempo.

***

Já sabes a história?

Claro. Escreviam muito com o Carlos. Depois telefonavam. Mas por uns tempos perderam o contacto. Tentámos tudo, mas… Deus queira que ele esteja bem.

Condenas o meu caminho?

Deus julga, as pessoas sentem. Diz lá, Jorge, que te pesa?

Tumor cerebral, maligno…

Rafael suspirou.

Mau. Amanhã ficas até ao fim da missa, depois confessas-te e comungas. E logo veremos…

Fala como se eu fosse morrer.

Não. Mas tudo está nas tuas mãos. O padre só mostra o caminho, o resto é contigo.

Conto-te toda a verdade…, começou Jorge.

Conta amanhã, na confissão.

E naquela noite, a história do triângulo amoroso tomou outro tom. Veio em tom de arrependimento e não de justificação, durante a confissão.

Sim… Amigos tornaram-se inimigos por ciúme.

***

A missa acabou. Pouca gente.

Rafael rezou, pediu a Jorge que se ajoelhasse:

Cristo está aqui invisível a escutar a tua confissão. Fala, Jorge.

E Jorge abriu o coração.

Eu invejava o Carlos em tudo. Era popular no hospital, na faculdade, idolatrado por todos. E a tal… a Ana.

A história era assim: no hospital onde Carlos trabalhava, apareceu uma filha de um político lisboeta. A mulher, Ana, logo se encantou por Carlos. Deram-se bem, começaram a namorar, viajaram juntos. A sorte de Carlos era tremenda.

Fiquei cego de raiva, Rafael. Denunciei-o, inventei mentiras para a Ana, disse que ele a traía. Calei-me até ao dia do casamento de um amigo. Carlos ocupadíssimo com as tarefas, a Ana aborrecida. Fomos à varanda… Ele viu-nos a beijar. Sumiu dali. E assim arruinei tudo.

Algum tempo depois, eu e a Ana juntámo-nos. Mal me falava com Carlos. A relação não durou. Em Lisboa sentia-me controlado. O sogro morreu, a sogra ficou com tudo e casou. A Ana cansou-se de mim, começámos a discutir. Acabámos por voltar ao Porto a relação esfriou de vez.

Nem isto foi o maior dos meus pecados, Rafael. Por minha culpa morreu um homem na mesa de operações, um erro meu. Casos de cirurgião… Demais. Traí também. A primeira mulher e até a Inês. Enfermarias e tentações…

Parou, cansado.

Posso ter perdão, padre Rafael?

O perdão é de Deus, Jorge. Importa é o arrependimento.

E aí Jorge, emocionado, caiu de joelhos:

Diz a Deus que quero viver, Rafael. Quero amar a minha Inês, criar os filhos, ser apenas um médico onde me deixarem. Entendes?

O Senhor perdoa-te.

Rafael então olhou-o com aqueles olhos sem fim.

Acho que deves procurar o Carlos, pedir-lhe perdão.

E onde o encontro? Vou para Lisboa daqui a dois dias.

Dizem que está no Porto, numa clínica oncológica. Devias ir ter com ele, não a Lisboa.

Agora dizes que era melhor operar lá com ele…

Sim. Porque não?

Estás fora destas coisas. As clínicas de Lisboa têm outra tecnologia. Não compares…

Pode ser, mas o Carlos é doutor, trabalha em investigação. Ao menos fala com ele.

Pode ser… Tenho tempo antes de Lisboa.

E aquela enfermeira que fizeram despedir por tua causa? Procura-a também.

Isso é mais fácil. Faço isso. Mas… reza por mim, padre Rafael. Preciso que me aceitem em Lisboa. Senão, é no Porto…

Antes de partir, Jorge subiu e desceu junto ao rio mais de quinze vezes, bebendo daquela água sagrada.

Os devotos faziam o sinal da cruz ao vê-lo. Que Deus ajude.

**

Hoje escrevo tudo isto, sentado nesta casa tranquila do norte, porque percebi que, no fim, vale pouco a honra, o dinheiro, as salas de congresso ou carros novos. Vale, sim, como tratamos as pessoas à nossa volta e como escolhemos enfrentar os nossos erros.

Talvez o perdão dos outros não dependa só de nós. O mais difícil é, à portuguesa, ter força para pedir desculpa, seguir em frente e, com humildade, entregar o resto à fé.

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