Um pequeno amontoado gelado à beira da estrada ficou completamente enregelado e já não conseguia mexer-se…

O pequeno amontoado gelado ao lado da estrada estava tão enregelado que já nem conseguia mexer-se

Conduzia devagar naquela manhã gelada. O gelo transformara a nacional entre Castelo Branco e Fundão num autêntico ringue, e o trajeto, que normalmente fazia em quarenta minutos, já ia em quase duas horas. As pernas estavam dormentes, os pés já mal sentiam os pedais e as costas reclamavam por estar tanto tempo na mesma posição.

Chega, murmurei para mim mesmo, encostando suavemente o carro à berma.

Tudo à volta era só campos cobertos por um manto branco de neve, deserto até onde a vista alcançava. Nem uma casa, nem viva alma, apenas um silêncio branco e espesso. Saí do carro, estiquei os braços para desentorpecer o corpo e fui a rondá-lo. O ar frio cortava os pulmões, mas, depois do calor abafado do habitáculo, até parecia bom sentir a frescura.

Ao terminar a volta, já de regresso ao carro, reparei numa mancha escura ao longe, quase no limite do campo, a uns quinze metros da estrada.

Deve ser um bocado de terra, julguei. Mas algo em mim quis ir ver melhor.

Fui avançando pelo campo, a neve chegava-me quase aos tornozelos. A cada passo, tornava-se óbvio: não era terra nenhuma. Aquela forma parecia quase viva. Senti o coração acelerar ao perceber de quem se tratava.

Um corpo pequenino, encolhido sobre si mesmo, quase coberto pelo gelo e pela neve. Dos bigodes pendiam carambas de gelo. Um gatinho, muito bebé, tremia e miava tão baixo que só mesmo ao chegar perto se ouvia.

Valha-me Nossa Senhora escapei-me, ajoelhando-me ao lado dele.

Estendi a mão aquele corpinho estava gelado como pedra. Como é que aquele ser conseguira chegar ali, tão longe de qualquer povoação? As perguntas atropelaram-se e, de repente, já não pensei em mais nada, só em agir.

Peguei no pequenote e regressei à pressa para o carro, escorregando no gelo sem ligar a nada. Mal entrei, fui ao porta-bagagens buscar uma toalha velha, enrolei o gatinho nela e liguei o aquecimento no máximo, com as saídas de ar viradas para o banco do pendura.

Aguenta, pequenino, aguenta, murmurava eu, retomando caminho, cauteloso para não acelerar nem travar bruscamente naquela pista de gelo.

O carro derrapava aqui e ali, mas só conseguia concentrar-me em chegar rápido à vila, a um sítio quente e seguro para o salvar.

Uns vinte minutos depois, o gatinho deu os primeiros sinais de vida. Primeiro mexeu uma patita, depois abriu devagar os olhos e, pouco depois, começou a ronronar e encostou a cabeça ao meu joelho.

És um resistente, pá, sorri, sentindo finalmente algum calor no peito. Uma campeã.

Em casa, forrei a alcatifa com algumas mantas e, do sótão, fui buscar o velhíssimo aquecedor para criar-lhe um ninho abafado no canto da sala. Enquanto aquecia, pus leite ao lume nunca se deve dar leite frio a um animal gelado. O gatinho bebeu com cautela mas depressa, depois enroscou-se de novo e adormeceu.

Fiquei ali sentado no chão, a observá-lo. Um sentimento estranho encheu-me quase parecia que toda a vida caminhara para aquele momento, sem nunca o saber.

Lia, murmurei, surpreendendo-me pela espontaneidade. Vais chamar-te Lia.

Mal acordei no dia seguinte, fui logo ver como estava a menina. Lia dormia profundamente, o delicado motorzinho do seu ronronar garantia-me que estava confortável, já quente. Mas percebia que precisava de um veterinário. Ninguém podia adivinhar quanto tempo aguentara ao frio e se isso trazia consequências.

Na clínica, recebeu-nos a Dra. Carolina Lopes, jovem veterinária muito atenta. Examinou minuciosamente o gatinho, auscultou, verificou reflexos e as almofadas das patas.

Deve ter uns seis meses, murmurou ponderada. O corpo é resistente, está de boa saúde. Mas

Mas o quê? perguntei, tenso.

O rabo. Veja aqui, a ponta está negra. É do frio, uma necrose. Se não amputarmos a parte afetada, corre o risco de infeção e de coisas piores. Temos de operar já hoje.

Só consegui acenar que sim, com o estômago a fazer um nó. Tanta coisa já sofrera aquele ser minúsculo, e ainda a esperava mais uma provação.

Faça, doutora. Faça tudo o que for preciso, disse decidido.

A operação fez-se com anestesia local. Pedi para ficar ao lado e deixaram-me. Afaguei a cabeça da Lia, sussurrei-lhe palavras baixas de calma.

E ela nem um som, nem um protesto. Ficou ali, quieta, a olhar-me com uns olhos tão grandes e serenos, a ronronar baixinho, como se soubesse que aquilo tudo era pelo seu bem.

Nunca vi nada assim, confessou a Dra. Carolina enquanto fazia o último ponto. Normalmente revoltam-se, gritam, mesmo anestesiados. Esta é fora de série.

Senti emoção agarrar-me à garganta. Que valente, que incrível era a minha Lia.

Já nessa noite, voltámos para casa. Lia vinha embrulhada num cobertor, aninhada nos meus braços, a ronronar mais suave que antes, mas ainda assim ali.

Está em casa, pequenina. Aqui é o teu lugar, agora e para sempre prometi-lhe, assim que entrei na sala.

Passou uma semana. Lia recuperou por completo: devorava a comida, corria pela casa fora (embora ao início, sem o rabito, parecesse um pouco trapalhona), brincava com bolinhas e fitas que eu mesmo comprei na loja de animais. Mas o que mais adorava era estar ao pé de mim. Onde eu ia, ia ela à cozinha, à casa de banho, à varanda. E dormia sempre na minha cama, enroscada junto à almofada.

Meiguinha pegadiça, ria-me eu, coçando-lhe o pescoço.

Lia ronronava tanto que parecia fazer tremer todo o apartamento.

Uma noite, sentado no sofá a ver televisão, e Lia adormecida no meu colo, pus-me a recordar aquele dia: a paragem em pleno campo, a mancha no branco, o acaso que me podia ter feito passar sem reparar nela.

Sabes, Lia, disse-lhe muito baixinho, acho que isto foi destino. Podia ter parado noutro sítio. Podia não ter parado. Mas parei ali, naquele momento.

Ela abriu por um instante um olho, olhou-me, e voltou a fechar, ronronando de satisfação.

Obrigado, Lia. Por existires. Por teres aparecido na minha vida. Ou, se calhar, fui eu que apareci na tua? Já nem sei.

Lá fora voltou a cair neve, igual àquela de então. Mas agora, não tenho medo do inverno. Porque em casa espera-me este pequeno milagre quente, que já foi um montinho gelado à beira da estrada.

Agora, a Lia é tudo: sentido, casa, família. Espreguiçou-se, aninhou-se melhor e ficou ali, juntinha àquele humano que não passou ao lado, que parou e a salvou.

Aprendi que um instante, uma escolha, uma só paragem pode mudar tudo. Não só na vida de quem salvamos. Na nossa, também.

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