No meu sonho, quando eu ainda era criança, a pequena Dina Silva foi, de mãos dadas com os pais, ao casamento da prima distante. No início tudo parecia mágico, mas logo ela percebeu o noivo e a noiva, exaustos de gritos incessantes de amargo, sentados à mesa sem sorrir, enquanto os convidados pulavam, cantavam e gritavam como se fossem ondas de festa.
Aquela algazarra cansou a menina de dez anos. Ela sentiu pena do casal e, na sua inocência, murmurou:
Se eu me casar talvez seja melhor nem casar.
O tempo passou, Dina cresceu e, ao encontrar o seu Marcos Pereira, esqueceu-se de todas aquelas dúvidas. Quando estava ao lado dele, o mundo desaparecia, restavam só eles dois.
Que maravilha ter alguém que me entende com meio sorriso, com um olhar pensava ao deitar, enquanto a lua se desfazia em fumaça. Ainda bem que encontrei o Marcos.
Dina sabia que amava Marcos; reconhecia o amor na lealdade dele, no jeito de arrancar-lhe as poeirinhas dos ombros.
Temos uma confiança cega, confidenciava à amiga Lurdes Costa, um entendimento completo. E o que mais adoro é o respeito que tem pela minha opinião, mesmo quando diverge da dele.
Lurdes, com um sorriso melancólico, respondeu:
Você tem sorte, Dina, raras são as relações assim. Eu e o Miguel nunca concordamos, cada um com as suas manias, sem saber se quero casar ou não.
Dina, serena, aconselhou:
Vai se resolvendo, o tempo ajeita tudo.
E então, num cenário onde as ruas de Lisboa se dobravam como fitas de papel, eles foram ao registo civil como se fosse um ato automático, tão natural quanto o cheiro de café matinal.
Dina, acho que chegou a hora de nos casarmos propôs Marcos, ao deixála na porta do seu apartamento, o vento girando folhas de outono. O que acha?
Claro que sim respondeu ela, com a mesma certeza de quem sabe que o sol nasce sempre. Só não sei como queremos a cerimônia. Não quero uma multidão, lembro-me daquele casamento da infância e decidi que não será assim.
Marcos riu, compreendendo o peso da tradição, mas indiferente ao barulho.
Vai acontecer, disse ele, mas não precisas de gritar.
Ele a empurrou levemente para a escadaria, sugerindo que dormissem e resolvessem ao amanhecer.
Naquela noite, Dina não conseguiu fechar os olhos; a ideia de um casamento ruidoso lhe atormentava. Eles eram jovens adultos, ela com 26 anos, ele com 28, já cansados das ideias de quem tem vinte e poucos. No café da esquina, após o trabalho, retomaram a conversa.
Marcos, estou inclinada a fazer um casamento só para nós dois disse Dina, quase sussurrando.
Dois, que romântico! exclamou ele, imaginando um salão enorme, mesas cobertas, luzes de velas, ele de fraque e ela de vestido branco, champanhe a subir em bolhas tranquilas. Vamos brindar só um ao outro.
Não estou a brincar, quero mesmo assim um casamento íntimo. Como explicamos isso aos nossos pais? perguntou ela.
Marcos, com um sorriso cansado, respondeu:
Os meus avós vão protestar, o teu irmão único e a tua mãe, filha única.
Exato recuou Dina, irritada. A nossa vida, não a deles.
Marcos, filosofando, declarou:
São tradições, querida.
Dina, sonhadora, respondeu:
Eu queria nas montanhas, numa capela esquecida, trocarmos alianças ao som do vento.
Ele ficou espantado, mas ouviu.
Se for sério, basta assinar e fugir para uma lua de mel, sugeriu Marcos.
Lua de mel não é casamento, quero o casamento para dois.
Marcos, resignado, brincou:
Então, que seja do jeito que a tradição quiser. Vestido branco ou camiseta, fraque ou nada mas não deixes as tradições te engolirem.
Só não em jeans insistiu Dina, quero o vestido branco, tu de fraque. Imagina: a gente no registo civil, tu me ergues nos braços e levamos num iate!
Marcos riu, como se fosse uma nota de música tocada ao contrário.
Na semana seguinte, em segredo dos pais, apresentaram o requerimento ao registo civil. Dois meses antes da data, ainda indecisos sobre o estilo, esperavam que o tempo lhes esclarecesse.
Numa noite chuvosa, no quarto de Marcos, apareceu a mãe, Ana, com um sorriso que parecia saber de tudo.
Olá, jovens! Ouvi dizer que vão celebrar e que vão abrir champanhe.
Na verdade, é o terceiro aniversário de nos conhecermos respondeu o filho, tentando esconder o rubor.
Ah, pensei que fosse o casamento disse ela, como quem lê nas nuvens. Recebi um recado que submeteram o pedido ao registo.
Marcos, sem perder a pose, perguntou:
Como sabes de tudo? Tenho a cidade inteira nos teus bolsos?
Ana, rindo, respondeu:
E tu achas que vais viver só contigo?
Dina entrou na conversa, tímida:
Pedimos o registo, mas ainda não decidimos a festa.
Ana, firme como pedra, decretou:
Vocês compram o vestido, o anel e o fato do Marcos, e nós cuidamos de tudo.
Marcos tentou argumentar:
Não queremos festa grande, só nós dois.
Ana, obstinada, replicou:
Não vai ser possível. Um casamento é casamento.
Nesse instante, chegou o pai, Rui, com uma gargalhada que encheu o ambiente.
Perdi alguma coisa? A conversa sobre casamento? Finalmente
Dina, com o coração a bater como tambor, disse:
Queremos uma celebração íntima.
Rui, alto, proclamou:
Não é assim que se faz. Vamos ter um restaurante, doiscientos convidados, tudo como manda a tradição.
Marcos, irritado, rebateu:
Por que devo seguir o que vocês querem?
Rui, autoritário, cortou:
Porque e saiu, deixando o silêncio pesar sobre a mesa.
Quando Marcos saiu para despedirse de Dina, comentou:
Agora é a tua vez de contar aos pais. Vejo que vão dizer o mesmo que os teus.
Em casa, a mãe, preocupada, abraçou a filha.
O que se passa, minha filha? perguntou Dina, assustada. O teu coração ou a tua alma?
Não, é o teu espírito. Ana ligou, disseram que não querem casamento íntimo.
Rui, ainda na porta, acrescentou:
As tradições não mudam, não somos os primeiros nem os últimos.
Dina implorou:
Não quero que o meu dia especial seja arruinado.
Rui, impassível, respondeu:
Então será assim, nada se perde.
Marcos, ao contar ao amigo Sérgio, recebeu:
Eu pensei que fosse algo diferente
Sérgio, resignado, concluiu:
É isso, tudo como a gente sempre vê.
Faltava pouco para o dia da união. Os pais, ocupados com detalhes, perguntavam:
Flores brancas ou rosas? Quantos convidados? Cem? Duzentos?
Dina e Marcos olharam um para o outro, olhos arregalados, como se não acreditassem no número de pessoas que se aproximariam.
Pensávamos num evento pequeno disse Marcos.
Não se preocupem, tudo será organizado garantiu Rui. No dia, levaremos vocês ao aeroporto e depois ao litoral. Só vocês dois.
Chegou o grande dia. Dina, vestida de branco, saiu do hall de entrada como se flutuasse. Marcos, impecável de fraque, a esperava, e a atmosfera girava ao redor deles como um redemoinho de luz e som.
Como adoro esta confusão pensou Dina, percebendo os familiares, os amigos, as vozes que ecoavam amargo.
O salão, decorado com flores brancas, sentiase como um campo de primavera. Todos brindavam, cantavam, e o casal sorria, feliz.
Mais tarde, já a bordo de um avião rumo ao Algarve, Dina murmurou:
Foi tudo tão rápido e tão bonito






