Então, já chegaram, senhores? — a voz da mãe quebrou o silêncio do caloroso meio-dia mal o jipe do filho apareceu junto ao portão.

Sábado, meio-dia, sol a pique nas terras do Alentejo. Mal o Peugeot prateado do Gonçalo virou à entrada do monte, ouvi logo a voz da minha mãe daquelas que cortam o silêncio como faca quente na manteiga.

Então, chegaram, senhores doutores? o tom seco dela ecoou pela eira, tão previsível quanto a canícula.

Senti logo que ia ser mais um daqueles fins-de-semana copiados à transparência de tantos outros. Até a terra tinha o mesmo cheiro: poeira, hortelã e terra quente.

O jipe do Gonçalo estacionou mesmo ao lado do portão azul. Em cima do alpendre, já avistava a mãe Dona Maria do Céu, de braços cruzados, avental de flores miudinhas, sólida como um rochedo e olhar penetrante que atravessava o pára-brisas.

A Andreia saiu atrás do Gonçalo, abraçada a uma geleira grande que dizia Talho Novo Mundo.

Ó mãe, para quê esse tom? suspirou Gonçalo, tentando um sorriso. Viemos passar o fim-de-semana, estar todos juntos, respirar ar puro. Até trouxemos carne especial, já temperada!

Fim-de-semana? ela chega mais perto, pedrinhas a estalar sob o chinelo. Já passaram cá mais fins-de-semana este Verão do que o padre passa a vila! Todos os sábados é isto: patuscada, música aos berros, até o cão do Francisco já não tem paciência, e eu a apanhar garrafas do meio dos morangueiros.

Dessa vez, apareceu o Luís, o amigo do Gonçalo, com uma caixa de minis e sumos à mão.

Boa tarde, Dona Maria! Já está tudo pronto para a grelha. Onde é que costuma guardar o carvão?

Alto aí, rapazinho! retrucou ela sem pestanejar. Hoje não há grelhador. Nem sei quem vos convidou para virem.

Vi logo pela cara do Gonçalo que aquilo ia dar discussão conheço aquela tempestade nível um da minha mãe. Normalmente, resmunga meia hora, depois desaparece para a cozinha a fazer o molho secreto.

Mas hoje o ar estava carregado, quase eléctrico. Algo mudara.

Só queríamos estar juntos, mãe. Dizes tantas vezes que tens saudades da companhia tentou Andreia, a ver se desarmava a situação.

Saudades tenho eu era de ver a horta limpa de ervas e o filho a arranjar a canalização. Olha-me para as tuas promessas: que pintavas o muro pela Páscoa, e já vamos para o Natal e o muro mais encardido que o rafeiro do Joaquim!

Outro amigo saltou do carro: o Tiago, com lenha nos braços.

Nós tratamos de tudo, Dona Maria! Primeiro comesinha, depois trabalho, prometo!

Prometem sempre e o depois nunca chega! a voz subia, o Alentejo todo a ouvir. Vêm tratar isto como resort, como se eu fosse criada, camareira, porteira. O que ganho? Pressão alta e mais sacos para reciclar.

Gonçalo começou a descarregar o porta-bagagens de cabeça baixa. O meu próprio desconforto crescia no peito.

Assim sendo, meus senhores disse enfim a mãe , dou-vos uma hora para organizarem as tralhas e irem-se embora. Levem a carne, os amigalhaços e façam piquenique lá no apartamento. A partir de agora, só volta quem me ligar antes a perguntar em que posso ajudar?.

A sério, mãe? Viémos de Lisboa, demorámos quase três horas! reclamou Gonçalo.

Mais a sério não há. Fartei-me de servir de cenário às vossas festas. O monte é casa, não esplanada!

Ficou tudo em silêncio. Os rapazes entreolhavam-se, tão confusos quanto envergonhados. Andreia olhava para Gonçalo, como se o olhar resolvesse fosse o que fosse. Senti a fenda a partir por dentro.

Mãe, fala comigo a sério. O que é que se passa? Gonçalo virou-se para ela, sem defesas.

Pela primeira vez hesitou. Os lábios tremeram, mas recuperou rápido.

Não passam de fantasmas para vocês, filhos. Veem as árvores, a mesa debaixo da ameixeira, a água fresquinha do poço, mas não veem quem cá trabalha. Não veem a dor nas costas nem a solidão entre as ervas daninhas. Trazem amigos, fico a ouvir risos até ao amanhecer, e depois só os recados do presidente da junta de vizinhos.

Andreia baixou os olhos; eu também. Era impossível não lembrar das queixas recentes por causa das moscas ou do colchão antigo do quarto de hóspedes.

Nem foi por mal começou o Luís, mas a mãe cortou logo.

Não é não querer, é não pensar. Mas eu já pensei. Só há duas hipóteses: ou pegam nas ferramentas e deixam isto como deve ser, muro, capoeira, horta, ou vão-se embora.

Olhei para os amigos do Gonçalo. Nenhum estava vestido para lavouras. O Tiago suspirou, largou a lenha, e limpou as mãos às calças.

Tem razão, Dona Maria. Fomos mesmo uns folgados. Onde está a tinta? Dou conta do muro sempre fui desenrascado nestas coisas.

O Luís fez que sim com a cabeça:

E eu trato já da canalização. Ferramentas tenho no carro.

A mãe apertou os olhos. Não ia deixar passar. Se não fizerem bem, nem pensem em jantar.

Começámos a trabalhar em silêncio, o suor a escorrer mais da vergonha que do calor alentejano. Andreia, com uma t-shirt velha do Gonçalo, mergulhava os braços nos morangueiros a sachar. Gonçalo e Tiago lixavam as tábuas velhas do muro, e Luís deitava-se por baixo do lavatório a praguejar com os parafusos ferrugentos.

Ao princípio, tudo parecia um castigo. Mas quando o muro começou a ganhar cor de nogueira, quando as torneiras deixaram de pingar, o ambiente mudou. A mãe espreitava pela janela uma ou outra vez, o rosto duro a suavizar-se.

Pegou na panela maior, pôs-se a descascar batatas e cenouras. Lá dentro, o cheiro a comida de verdade tomava conta da casa.

Ao final da tarde, o monte estava outro. Tudo limpo, ordenado, o muro parecia novo. Esfomeados, reunimo-nos à beira do poço.

Então, artistas do restauro? ouvi a mãe da porta, trazendo um tabuleiro de empadas e pão alentejano. Venham comer. A sopa já está na mesa.

E o churrasco? provocou Gonçalo, agora descontraído.

Primeiro a comida que é feita com paciência, não à pressa nas brasas!

A mesa estava diferente. Em vez da música alta, conversámos sobre a infância, os verões antigos, o pai do Gonçalo e como tudo começou com duas árvores e um sonho familiar. A mãe servia chá e dizia:

A terra é nossa memória. Quando só cá vêm para a festa, esquecem tudo o que foi preciso para erguer cada pedra. Não preciso de brindes de Lisboa. Preciso de saber que isto vos importa.

Gonçalo agarrou a mão dela. Os olhos brilhavam.

Desculpa, mãe. Fomos egoístas.

Já chega sorriu ela, o rosto vinte anos mais novo. O importante é perceberem. E o muro nunca esteve tão bonito. Até melhor que o da dona Lurdes!

Fomos embora já noite alta. No porta-bagagens, sacos de maçãs, tomates e frascos de compota, nenhum resto de embalagem da cidade.

A mãe ficou à soleira, a acenar até nos perdermos na estrada.

Na viagem de regresso, Andreia murmurou:

Senti-me mesmo em paz hoje, apesar das dores nas costas.

Não se trata só de comer e beber respondeu Gonçalo, sereno. Reaprendemos a construir em vez de consumir.

Depois disso, mudou tudo. Aos sábados, Gonçalo chegava com a mesma pergunta: Mãe, é para tratar do telhado ou do pomar?. Os amigos também não voltaram com mãos a abanar. Sabiam bem que voltar àquele monte era voltar à honestidade das raízes.

A casa da mãe foi deixada de ser estação de serviço. Tornou-se de novo altar de família, onde cada canteiro tinha mãos e memórias.

E a minha mãe nunca mais teve um olhar duro à porta. Ensinou-nos, afinal, o que é cuidar verdadeiramente, e da próxima vez que pensarmos em fugir das tarefas do campo, vamos lembrar-nos: o descanso verdadeiro, às vezes, nasce do trabalho em conjunto.

E tu? Já pensaste quanto ajudas os teus pais no campo, ou deixas o tempo a passar à espera de melhores dias?

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